quarta-feira, 2 de agosto de 2017

COGUMELOS AZUIS


                                             “Zebu morreu, ele se fudeu, cogumelo é meu!”

            De tempos em tempos, é preciso pingar colírio alucinógeno, usar lentes caleidoscópicas ou tomar cachaça mesmo. Fugir pras montanhas, quem sabe recuperar um pouco do tribalismo primitivo inerente à espécie por algumas horas. Onde tem festa, é pra lá que eu vou. Tem bandinhas tocando na frente da igreja desde o meio da tarde. A noite cai, cada vez mais fria, e chega a carreata, trazendo a imagem da santa, sem andor, em cima de uma caminhonete. Salvas de fogos!
             A fogueira é acessa no meio do largo para aquecer o coração dos crentes e dos pagãos, citadinos & locais, tragam o cachimbo da paz! Barraquinhas com comidas e bebidas, um palco, estrategicamente montado ao lado da igreja, compondo a aliança indissolúvel entre o sacro e o profano.  O uniforme branco do congado brilha à luz do fogo,  tambores secos ressoam pelo largo, pelas casas rasas, bate na serra, espalha-se. O cortejo entra na igreja atrás da porta-estandarte, os tambores se calam, o padre inicia a missa.
            O leilão é o tradicional pregão de padroeiro: frango assado (sempre o primeiro item a ser leiloado – esse saiu por 50 reais!), panos bordados, conjunto de cestos artesanais, um leitão à pururuca, uma xilogravura (arrematada por incríveis 400 reais! – desse jeito a santa vai ficar rica!), um bezerro pra fechar os arremates. Dentro de alguns instantes, o palco se iluminará e bandas bastardas, muito barulhentas, cortarão o santo sossego, tocando para citadinos & locais, que acendem o cachimbo da paz. Não se falará mais da santa, que, no entanto, repousa tranquilamente em seu nicho, a poucos metros do futuro pandemônio.
            8 da noite, crianças dão cambalhotas no gramado, enquanto seus pais vagam de gole em gole, cachorros muito espertos reivindicam sua parte do humano banquete, com manhas que mais parecem de gente: esse balança o rabo e mostra a língua salivar; aquele faz o tipo humilde, abaixa as orelhas e se deita em frente aos comensais; aquele acolá prefere os latidos e rosnados fake – até que um pedaço de gordura indigesta seja lançado em sua direção e eles o disputem, brigando como cães.


            Dança das espadas, dança dos bastões, sapateado, guizos, batuques e fanfarras, discursos, obrigado senhor prefeito, o frio recrudesce, luzes no palco, vinhos, cachaças, catuaba selvagem, cachimbo da paz, a santa dorme em seu nicho, crianças brincam ao redor da fogueira enquanto seus pais matam a fome, é hora do show!  Não mais ao rés-do-chão, sobre a relva que iguala os humanos, mas sim sobre o palco eletrificado, suspenso ao mesmo nível que os nichos dos santos, o som estronda no meio da noite oca. Uma fina chuva começa a cair, mais cachaça, catuaba selvagem, vinho, churrasquinhos e canjiquinha, crianças, cães, bêbados, cachimbo da paz, cogumelos azuis.
            Los Chapados carregam o nome do lugar, ou seja, da santa que repousa resignada em seu nicho, um sacrilégio, não fosse essa união secular entre o sagrado e o profano que tem sido por séculos a razão da existência de muitas tradições. Esses provaram dos “louco, louco, louco melo / Louco, louco, cogumelo / Cogumelos azuis”, uma espécie rara que nasce da bosta de zebu radioativo ao longo de nossas BRs.  Fica então explicado o barato da viagem de tantos malucos belezas pelo Brasil a fora, como Ventania, já ouviu falar? É um trovador riponga de São Tomé das Letras, de biografia curta e letras fosforescentes. Abaixo o colírio alucinógeno e as lentes caleidoscópicas,  Sant’Ana há de abençoar do alto do seu nicho a cor mais quente do inverno!           
            1 hora da manhã, crianças saltam a fogueira enquanto seus pais andam de quatro debaixo de alguma mesa, a chuva parou, o frio aumenta, a fogueira arde, dança João com um poste, Maria com Zezé e todas as mulheres que não conseguiram encontrar um namorado; no palco, Alvim & A Bonitinha desafinam ao som do breganejo, da sofrência, do axé e do rala-rala, é um desfile interminável de amantes traídos, de dores de cotovelo, de boates azuis, de desejos frustrados, de noites em claro e outros desgostos (Alvim é um picareta, mas essa bonitinha até que rebola bem), valei-nos todos os santos de todos os nichos, precisamos de mais conhaque, licor, cachaça, catuaba selvagem, zebus radioativos, Los Chapados, Ventania, cachimbo da paz, chá de cogumelo azuis!

©
Abrão Brito Lacerda
01 08 17


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Gostaria de deixar um comentário?