domingo, 20 de agosto de 2017

MORRER!


BR 381, trecho Timóteo - Belo Horizonte.

            A espécie humana evolui, a cada dia são incorporadas novas conquistas científicas e tecnológicas. Mas não abandona de todo os instintos dos tempos das cavernas ou dos gladiadores. Inteligência e estupidez não são incompatíveis, elas atuam lado a lado, e, quando a segunda predomina, é bomba!, costuma acontecer acidentes e mortes nas estradas. Na Grécia Antiga, morria-se aos 25 anos, pois (quase) todos os homens válidos tinham que defender sua cidade e conquistar outras, através da guerra. Hoje a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos, portanto, a morte demora a chegar. Uma vida assim pode ser longa demais para alguns, é natural que eles queiram encurtá-la.
            Uma das formas mais eficientes para se morrer subitamente é ao volante de um automóvel.  Existem aqueles que acham que devem andar mais rápido do que o trânsito, mesmo indo ao mesmo lugar que os demais.  Outros se consideram os ases, os velozes e furiosos, mesmo quando a velocidade média não ultrapassa os 40 quilômetros. Então, tome buzinaços, fechadas, ultrapassagens pela direita, arrancadas cantando pneus antes do sinal abrir, avanço de sinal vermelho...
            Se estiverem em cima de uma moto, sua ousadia e periculosidade aumenta dez vezes: passam no meio da fila de carros, a menos de vinte centímetros de cada lado, espremem-se na frente do sinal, arrancam em ritmo de competição, fecham os carros. Até parece que está escrito no código de trânsito: “ao parar no sinal, as motos devem ir para a frente e os outros veículos devem aguardar.” Direita ou esquerda, o problema é seu, moto vai para qualquer lado, aparece de surpresa nos cruzamentos, atravessa na toda, desvia-se de obstáculos como pedestres e buracos, passando de raspão, sem reduzir a velocidade, voa sobre os quebra-molas... Virou um must, até as mulheres, geralmente mais prudentes, estão pegando geral.
            Na estrada, os riscos sobem mais dez vezes, mas não a prudência desses nossos concidadãos. E o resultado estampa as manchetes, infla as estatísticas, inferniza a vida de quem viaja. Um tresloucado atravessa a pista e atinge de frente um caminhão que trafegava no sentido contrário. Quem foi o culpado? Salvo em caso de fatalidade (pneu estourado, falha mecânica), ele foi imprudente, estava trafegando em velocidade incompatível com o local ou tentou uma ultrapassagem precipitada e proibida. Em outro trecho de muitas curvas, o cara derrapa e vai parar no barranco de pneus para o ar. Se ele não era noviço ao volante e nem tinha bebido, então estava andando mais rápido do que devia. E, como explicar que alguém vá terminar debaixo da traseira de um caminhão que trafegava pelo acostamento? Foi porque ele bancou o esperto e tentou efetuar uma ultrapassagem pela direita. Prêmio de estúpido do ano para ele, tomara que sobreviva para aprender. Os outros não tiveram a mesma sorte. Ao atravessar uma cidade (pacata por sinal), encontramos o trânsito bloqueado. O que foi? O que foi? A explicação corre de boca em boca: um motoqueiro foi atropelado por um caminhão e morreu. Ora, como caminhão é bicho grande, lento e bronco, o único jeito de uma moto se chocar com um deles é andando tão rápido que não consiga brecar ou brincando de cabra-cega no trânsito.
            Ninguém deveria morrer no trânsito, porque o automóvel é uma bela invenção, um meio de locomoção muito prático, o melhor jeito de viajar entre nós. O problema vem da sua combinação explosiva com a estupidez de que tratamos acima. É quando ele se converte em um predador voraz, um monstro da modernidade.
            Mas para a dama da foice e da caveira, dá igual. O direito de alguém encurtar sua viagem até os 80 anos ou mais, é coisa que se deve discutir, tal qual a eutanásia. Antes de ficar senil e pré-túmulo, que mal há em assinar uma declaração, tal qual um inventário, autorizando os médicos, a família a desligar os tubos quando chegar a hora? O mal está em provocar a morte alheia. Vida e morte são coisas muito particulares, cada um deveria se ocupar da sua. Não podemos deixar os estúpidos resolverem essa questão à sua maneira.
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Abrão Brito Lacerda
20 08 17
           

            

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

COGUMELOS AZUIS


                                             “Zebu morreu, ele se fudeu, cogumelo é meu!”

            De tempos em tempos, é preciso pingar colírio alucinógeno, usar lentes caleidoscópicas ou tomar cachaça mesmo. Fugir pras montanhas, quem sabe recuperar um pouco do tribalismo primitivo inerente à espécie por algumas horas. Onde tem festa, é pra lá que eu vou. Tem bandinhas tocando na frente da igreja desde o meio da tarde. A noite cai, cada vez mais fria, e chega a carreata, trazendo a imagem da santa, sem andor, em cima de uma caminhonete. Salvas de fogos!
             A fogueira é acessa no meio do largo para aquecer o coração dos crentes e dos pagãos, citadinos & locais, tragam o cachimbo da paz! Barraquinhas com comidas e bebidas, um palco, estrategicamente montado ao lado da igreja, compondo a aliança indissolúvel entre o sacro e o profano.  O uniforme branco do congado brilha à luz do fogo,  tambores secos ressoam pelo largo, pelas casas rasas, bate na serra, espalha-se. O cortejo entra na igreja atrás da porta-estandarte, os tambores se calam, o padre inicia a missa.
            O leilão é o tradicional pregão de padroeiro: frango assado (sempre o primeiro item a ser leiloado – esse saiu por 50 reais!), panos bordados, conjunto de cestos artesanais, um leitão à pururuca, uma xilogravura (arrematada por incríveis 400 reais! – desse jeito a santa vai ficar rica!), um bezerro pra fechar os arremates. Dentro de alguns instantes, o palco se iluminará e bandas bastardas, muito barulhentas, cortarão o santo sossego, tocando para citadinos & locais, que acendem o cachimbo da paz. Não se falará mais da santa, que, no entanto, repousa tranquilamente em seu nicho, a poucos metros do futuro pandemônio.
            8 da noite, crianças dão cambalhotas no gramado, enquanto seus pais vagam de gole em gole, cachorros muito espertos reivindicam sua parte do humano banquete, com manhas que mais parecem de gente: esse balança o rabo e mostra a língua salivar; aquele faz o tipo humilde, abaixa as orelhas e se deita em frente aos comensais; aquele acolá prefere os latidos e rosnados fake – até que um pedaço de gordura indigesta seja lançado em sua direção e eles o disputem, brigando como cães.


            Dança das espadas, dança dos bastões, sapateado, guizos, batuques e fanfarras, discursos, obrigado senhor prefeito, o frio recrudesce, luzes no palco, vinhos, cachaças, catuaba selvagem, cachimbo da paz, a santa dorme em seu nicho, crianças brincam ao redor da fogueira enquanto seus pais matam a fome, é hora do show!  Não mais ao rés-do-chão, sobre a relva que iguala os humanos, mas sim sobre o palco eletrificado, suspenso ao mesmo nível que os nichos dos santos, o som estronda no meio da noite oca. Uma fina chuva começa a cair, mais cachaça, catuaba selvagem, vinho, churrasquinhos e canjiquinha, crianças, cães, bêbados, cachimbo da paz, cogumelos azuis.
            Los Chapados carregam o nome do lugar, ou seja, da santa que repousa resignada em seu nicho, um sacrilégio, não fosse essa união secular entre o sagrado e o profano que tem sido por séculos a razão da existência de muitas tradições. Esses provaram dos “louco, louco, louco melo / Louco, louco, cogumelo / Cogumelos azuis”, uma espécie rara que nasce da bosta de zebu radioativo ao longo de nossas BRs.  Fica então explicado o barato da viagem de tantos malucos belezas pelo Brasil a fora, como Ventania, já ouviu falar? É um trovador riponga de São Tomé das Letras, de biografia curta e letras fosforescentes. Abaixo o colírio alucinógeno e as lentes caleidoscópicas,  Sant’Ana há de abençoar do alto do seu nicho a cor mais quente do inverno!           
            1 hora da manhã, crianças saltam a fogueira enquanto seus pais andam de quatro debaixo de alguma mesa, a chuva parou, o frio aumenta, a fogueira arde, dança João com um poste, Maria com Zezé e todas as mulheres que não conseguiram encontrar um namorado; no palco, Alvim & A Bonitinha desafinam ao som do breganejo, da sofrência, do axé e do rala-rala, é um desfile interminável de amantes traídos, de dores de cotovelo, de boates azuis, de desejos frustrados, de noites em claro e outros desgostos (Alvim é um picareta, mas essa bonitinha até que rebola bem), valei-nos todos os santos de todos os nichos, precisamos de mais conhaque, licor, cachaça, catuaba selvagem, zebus radioativos, Los Chapados, Ventania, cachimbo da paz, chá de cogumelo azuis!

©
Abrão Brito Lacerda
01 08 17