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MINHA MÃE COMO NUNCA A VI ANTES

         

            
          Inspirado em um artigo do New York Times (“Our mothers as we never saw them”, Edan Lepuckl*), resolvi fazer um retrato diferente da minha mãe, buscando recuperar um pouco do seu tempo de juventude, que já vai bem longe, perdeu-se na fumaça do início do século vinte, com suas inovações, revoluções e guerras.
            O texto de Edan Lepuckl é parte de um trabalho desenvolvido pela autora, no qual ela solicita a algumas mulheres que falem de suas mães antes de se tornarem mães, tendo como ponto de partida uma foto ilustrativa. O objetivo é oferecer uma mirada para além do mito da mãe, fazendo aparecer a pessoa em si, com sua personalidade sonhadora, alegre, tímida, ousada, atraente, sexy... Ao mesmo tempo em que se busca tecer interações com o espírito da época, sua história e sociedade.
            Ao ler, lembrei-me desta foto de minha mãe (mostrada acima), provavelmente o único registro que ficou de sua vida de solteira. É uma foto muito bonita, como podem ver, ainda que esmaecida pelo tempo. No verso, está cuidadosamente registrada, primeiramente a lápis e depois sobreposta a tinta, em letra caprichada, a data de “11 de Agosto de 1940 com 18 Annos de idade”.
            É a foto de um jovem tranquila, que nem sequer sonha com a longa existência que terá pela frente e a levará a atravessar o século XX até chegar a este início de século XXI, mais precisamente até maio de 2013, quando faleceu aos 92 anos de idade, deixando 11 filhos, 30 netos e vários bisnetos.
            Ao observá-la, podemos notar: a postura firme; o corpo pequeno, mas robusto e bem proporcionado; o equilíbrio perfeito sobre os sapatos de salto médio, típicos de então; os cabelos não muito compridos, atados atrás, o que denota praticidade; o olhar tranquilo, confiante e ligeiramente melancólico; a comissura dos lábios que esboça um sorriso misterioso; o recato das mangas do vestido e o cumprimento do mesmo; um único toque de coquetterie no broche, o qual se destaca junto à trama do bordado da gola e constituía possivelmente o único item reluzente do seu look, uma vez que ela não usa brincos, colar ou anéis.
            Ela tinha acabado de completar 18 anos. Sua vida até então não tinha sido nada fácil e podia em muitos aspectos ser comparada à de uma gata borralheira. Ao nascer, em 6 de agosto de 1918, em um sítio de Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do salto, município de Itarantim, Bahia, estava destinada à doçura de uma vida embalada pelas atenções de uma mãe carinhosa e um pai bondoso.  No entanto, sete anos mais tarde, ficou órfã de mãe e o avô Elias se casou pela segunda vez, buscando sem dúvida uma companheira que o ajudasse a criar os filhos. Ledo engano, pois esta se revelou uma megera de espírito de porco, autoritária e ciumenta. Como no conto dos irmãos Grimm, a madrasta tinha duas filhas, feias e preguiçosas. Elas ficaram tomadas de ciúmes de “Nenen” (apelido de minha mãe) e passaram a tramar contra ela. Em consequência, a enteada foi tratada com desprezo e obrigada a assumir o serviço da casa.

            No sítio do vô Elias, produzia-se rapadura e açúcar mascavo, além de outros gêneros de primeira necessidade. Pelo que minha mãe nos contava, essas atividades faziam parte da tradição da família, o que é coerente com a história do Brasil, uma vez que muitos Brito se instalaram no Nordeste durante o Ciclo do Açúcar (século XVI) e depois se espalharam pelo resto do país. Consta dos registros que alguns Brito ascenderam socialmente em Portugal e passaram a ostentar títulos nobiliárquicos, mas não creio que tenha sido dessa linhagem que originou nossa família.
            De qualquer modo, o sobrenome é carregado de significado. Brito vem do latim “brittus”, que designa “pedra” ou “britta” e simboliza durabilidade, força e resistência. Tomando essas características de empréstimo, poderíamos dizer que a jovem da foto acima olha confiante para o futuro porque possui intrinsecamente tais atributos, os quais a permitirão enfrentar as provações de uma larga existência, e serão igualmente transmitidas a sua descendência.
            Em contraponto à árdua lida do campo, o dia a dia no Sítio dos Trabalhos era pontuado pelas festas do calendário católico, além dos bailes de sanfona típicos do interior do nordeste. Foi crescendo nesse ambiente que “Nenen” descobriu o seu maior prazer na vida: dançar. Não será esse o segredo oculto por trás do seu sorriso jovial e misterioso à la Mona Lisa? Com um pouco mais de imaginação, podemos também perceber um movimento que se inicia na perna esquerda e se estende pelo quadril até a cintura  - não seria ele um sutil convite à dança?
            Além dos bailes, tinha o rádio, o grande veículo de comunicação da época. Circunscrita a um mundo fechado em si mesmo, uma espécie de pequeno feudo, seus sonhos de menina-moça eram embalados pelas modinhas que chegavam através das ondas flutuantes do rádio. Muitas dessas marchinhas nunca saíram de sua memória, como: “Oh jardineira por que estás tão triste, / mas o que foi que lhe aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / deu dois suspiros, / e depois morreu.” Ela interpretava esta canção de Orlando Silva com um “r” vibrante (Oh, jaRRdineira...!) e uma voz suave de mezzosoprano. 
            Um ano depois de tirada esta foto, ela conheceu meu pai. Ele era filho de um fazendeiro do município vizinho de Mainique e pernoitou no sítio do vô Elias durante um transporte de gado. Mas esta é outra história, é a que dá início ao mito da mãe, e não pode ser contada aqui.
            (*https://www.nytimes.com/2017/05/10/opinion/our-mothers-as-we-never-saw-them.html)
©
Abrão Brito Lacerda
15 06 17

Comentários

  1. Que linda história tio!! Eu não a conhecia.Emocionante!!Saudades da minha cozinha.

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    1. Salut, Betany. Obrigado por seu comentário. Fico feliz que tenha gostado. Volte sempre.

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