segunda-feira, 29 de maio de 2017

PRÁTICA BUDISTA EM TIMÓTEO, MG


Fundação do Bloco Sol no Coração, em 03 11 13, em Timóteo, MG.

         Nos últimos anos, tem crescido de forma contínua o interesse pelo Budismo, seja de parte de pessoas que buscam obter mais informações sobre esta que é a quarta religião mais popular do mundo, seja de parte de quem já se identifica com sua filosofia humanista e deseja iniciar a prática. No segundo caso, o mais natural é procurar um centro ou comunidade próxima – e ter a boa sorte de encontrar uma.
         No Vale do Aço em Minas Gerais, podemos contar com a mais antiga comunidade de praticantes do estado, desenvolvida a partir de 1962, através de imigrantes japonesas que vieram trabalhar na Siderúrgica Usiminas. Em 1972 foi criada oficialmente a comunidade pioneira do Bom Retiro, na cidade de Ipatinga. O desenvolvimento desde então tem sido vigoroso, e o Budismo de Nichiren Daishonin, tal qual praticado pela Soka Gakkai, tem conquistado cada vez mais adeptos na região.
         Em Ipatinga está situado o Kaikan, centro regional, e dezenas de Blocos - grupos de praticantes que se reúnem regularmente em casa - encontram-se espalhados pelos municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Caratinga, Dionísio e Governador Valadares.
         Devido à proximidade geográfica e/ou afinidade, muitos membros de Timóteo frequentam blocos de Ipatinga; outros integram o Bloco Sol no Coração, criado no final de 2013 para aglutinar os praticantes locais.
         Graças a seu empenho pelo Kossen Rufu (promoção dos valores da paz, cultura e educação), os centros da BSGI (abreviatura para Brazil Soka Gakkai International), como o Bloco Sol no Coração, promovem uma grande abertura em relação à comunidade, tornando o Budismo acessível e sem mistérios.
         Ao promoverem esse diálogo, atendem ao desejo manifesto do Buda de que o seu ensinamento, uma vez compreendido e aceito, seja naturalmente transmitido a outros, sem distinção de qualquer natureza.

Reunião do Bloco Sol no Coração em Timóteo, MG.

         A iniciação à prática budista não exige pré-requisitos e deve ser vista, quando a oportunidade se apresenta, como um fator de imensa boa sorte, uma vez que ela abre as portas à mais profunda e perfeita ferramenta para penetrar os mistérios da mente e do espírito humanos e permite dissipar a escuridão da ignorância.
         Pratica-se o Budismo, antes de mais nada, para se ter energia para superar os desafios da vida e ser feliz. Isso é possível através da devoção à Lei Mística ou Myoho Renge Kyo (pronuncia-se “Miorro rengue kiô”), que é o verdadeiro fundamento de todos os fenômenos, a realidade imutável que permeia o mundo em constante transformação.
         Devoção aqui significa uma opção consciente em situar os ensinamentos do Buda como o eixo de sua vida e pautar sua conduta e sua ação por esses ensinamentos. É importante lembrar que a Lei Mística não é uma abstração teórica e nem supõe a existência de uma entidade sobrenatural que governa a vida dos seres de fora para dentro. Ela permeia todos os fenômenos e todas as formas de vida e se revela quando se desperta o Estado de Buda inerente – ou seja, ela é parte integrante de nossa natureza, basta ativá-la. Se vivermos alheios a ela, obteremos pouco benefício, mas se a tornarmos o centro de nossa existência, os benefícios serão ilimitados. Ela é a fonte da sabedoria e da energia vital que nos permite levar uma existência virtuosa, feliz e próspera, em nosso benefício e de todas as outras pessoas.
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Abrão Brito Lacerda
28 05 17

         

quinta-feira, 25 de maio de 2017

RUÍNAS



         Na canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso diz que, no Brasil, "tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Considero esta definição perfeita e a incorporei a minha própria visão de nosso país. Agora, vejo que outros compartilham a mesma ideia, que o Brasil é uma máquina trituradora de coisas e conceitos, que parece estar em constante movimento, embora não saia do lugar. 
            Há um afã em recuperar o atraso, então faz-se tábua rasa de tudo, a natureza (exuberante só em alguns lugares), os monumentos, os costumes, a culinária, a língua, tudo sofre uma crescente invasão alienígena e se desfaz. Uma palavra do inglês deve ter mais valor do que seu equivalente em português, pois já não nos damos mais ao trabalho de traduzir. Adoramos colocar nossa identidade em cheque, é um debate nacional sem fim, imitamos descaradamente o que outros criam, somos os reis da gentileza e da paródia. Temos complexos aos montes, somos macunaimas, antropófagos e capitalista selvagens, tudo ao mesmo tempo. Até a escala malévola do cada vez pior ganhou foros permanentes por aqui e a expressão “fundo do poço’ virou uma ruína semântica.
            O lixo, assim como o luxo, nos pertence; o luxo que é lixo só,  a luxúria do lixo e o lixo futuro andando de mão em mão, no aguardo do gesto viciado: o presente cuidadosamente embrulhado é o papelão que alimentará o monturo. Como se não bastasse, queimamos etapas, por exemplo, o canteiro de obras que constrói o prédio ultramoderno lança seus rejeitos no terreno baldio ao lado, unindo destarte, sem nenhum lapso temporal, o futuro e o passado.  
            Essas observações encontram ressonância no livro Dictionnaire Amoureux du Brésil (“Dicionário Amoroso do Brasil”), do jornalista francês Gilles Lapouge*. Trata-se de uma obra  que aborda a sociedade e a história brasileiras sob a forma de verbetes, como um verdadeiro dicionário, e nos oferece uma análise interessante, honesta e com perfeito conhecimento de causa. Gilles Lapouge demonstra amar de verdade o Brasil, país que conhece muito melhor do que qualquer um de nós, pois já esteve de norte a sul, leste a oeste, viajando a trabalho ou lazer. 
          O que não o impede, antes o autoriza, a lançar em filigrana sua ironia de observador externo sobre nossas mazelas e nossos absurdos. Através de seu texto eloquente e poético, fica ainda mais evidente o contraste que cultivamos em relação ao mundo “civilizado”. Se o Brasil é bonito enquanto exótico (ou uma gigantesca ruína, como ele diz), nossa bagunça e nosso improviso são demais para o seu pensamento cartesiano. E aqui cabe um “mas”: décadas de convívio com a gente tupiniquim, mais anos de pesquisa para a confecção do livro, não o ajudaram muito a compreender nossa malícia perversa.
            O “dictionnaire” tem vários verbetes excelentes; para o momento, atenho-me àquele denominado “Ruínes”, no qual ele declara: “O Brasil é uma vasta ruína. Esta é a razão de ele ser tão bonito, tão emocionante. Ele tem em seus estoques as ruínas mais variadas, e pode te oferecer várias outras amostras, conforme seu gosto, como se você estivesse escolhendo um produto no catálogo de uma loja: ruína nobre ou trivial, terrível ou comovente, antiga ou fresca, ruínas magníficas e suntuosas.” (p. 573)
           O autor leva tão a sério nosso gosto pela decadência que chega a afirmar que existe um propósito invisível nessa mania nacional, sobretudo naquilo em que nós nos esmeramos, a saber, o que ele denomina de “fabricação de ruínas ordinárias”: a utilização de materiais de baixa qualidade e rapidamente degradáveis que provoca a deterioração precoce de nossas torres de vidro, concreto e aço. Enquanto em Lascaux ou mesmo em Atenas, observa, foram necessários milhares de anos para transformar em ruínas construções feitas com materiais muito mais frágeis, por aqui a decadência se faz sentir numa questão de décadas.
            Ele se abisma com o fato de que alguns bairros centrais da cidade de São Paulo, onde foi morar em 1957, tenham passado da condição de prestigiosos a abandonados no curto período de 50 anos. Com humor negro, constata que os imóveis envelheceram na mesma escala que ele, e se alegra em perceber que sobreviveu a muitas outras coisas por aqui!
            Em contrapartida, faz questão de frisar e refrisar, no Velho Continente, não apenas monumentos isolados, mas cidades inteiras são renovadas de modo a perdurarem através dos séculos como símbolos da história, identidade e cultura de seus povos, razão pela qual apresentam hoje um aspecto mais novo do que quando foram construídas! Lá o antigo é novo, aqui o novo já é ruína.
            E logo chegamos á conclusão que tudo não passou de somenos e voltaremos ao costumeiro barulho das máquinas – de construção e demolição.

             (* Gilles Lapouge, Dictionnarie Amoureux du Brésil, Plon, 2011)
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Abrão Brito Lacerda

24 05 17


terça-feira, 2 de maio de 2017

CLUBE DOS AMIGOS DO JOHN


(Imagem da Web)

            O John é um cara popular. Pense em alguém com quatro mil, duzentos e trinta e um amigos no Facebook, que recebe visitas de segunda a domingo, topa farrinhas fora de hora, releva faltas e falsidades - esse é o John. Em contrapartida, os amigos se preocupam com sua vida sexual (ele está visitando a Catarina semanalmente?), com sua vida financeira (só não lhe emprestam dinheiro), com sua saúde (o John espirra e os amigos têm um resfriado).  Acontece que, ultimamente, tem pairado no ar a notícia de que o John pretende se mudar. De novo, mas desta vez para bem longe.
            Convocou-se uma festa para debater a grave situação e tomar as medidas cabíveis. Logo agora que ele pretendia fixar-se no interior, ganhar o pão honestamente e economizar para a idade...
            “O assunto também me diz respeito”, disse John, “apesar de vocês pensarem o contrário. Na verdade, tenho duas alternativas: a primeira é me mudar para o centro e abrir minha própria sala, a segunda é dar aulas em uma faculdade no interior de Goiás.”
            Os amigos propuseram:
            “Podemos procurar uma quitinete no edifício Maleta...  ou, quem sabe, em local mais nobre, como o bairro de Lourdes... um apezinho tipo single, com ônibus em frente?”
            “Ainda prefiro o interior de Goiás”, disse John com firmeza. “Posso assinar contrato na semana que vem.”

            Os amigos decidiram passar aquela história a limpo. Compreendiam a decisão, embora desconfiassem do motivo. Qual foi a surpresa quando descobriram que o álibi tinha nome, profissão e apelido: tratava-se de Louise, poetisa do interior de Goiás, também conhecida como Psycho Killer. O affaire entre os dois durava mais de ano, através de postagens tipo poèmes d’amour fou e contos eróticos em text.
            Marcaram mais uma festa para desmascarar o que lhes parecia falta de lealdade do amigo. Só que, dessa vez, o John tinha mudado de ideia, mais uma vez...
             “Um ap. no Maleta ou, quem sabe, no bairro de Lurdes, tem seu preço”, disse John. “E, sem a faculdade, não tenho como me bancar. Acho que seria justo ratear o valor do aluguel entre meus amigos queridos, em parcelas módicas, para não pesar no bolso de cada um. Prometo restituir com juros e correções assim que puder.”
            Diante da surpresa, acrescentou:
            “Do contrário, terei que me mudar para o interior de Goiás.”
            Os amigos continuaram em silêncio, se perguntando “aonde o John quer chegar?
            “Pensei em tudo”, prosseguiu John. “Vamos sortear por ordem alfabética a contribuição de cada um de vocês. Basta dar um passo à frente, pegar uma ficha nesta caixa” – John aponta para a caixa, estrategicamente colocada sobre uma mesa – e segurá-la para a foto...”
            Só uma mão se levantou. Foi o Vicente, que alegou não ter entendido bem.
            Será o fim do Clube dos Amigos do John?
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Abrão Brito Lacerda
26/04/17