sexta-feira, 16 de junho de 2017

MINHA MÃE COMO NUNCA A VI ANTES

         

            Inspirado em um artigo do New York Times (“Our mothers as we never saw them”, Edan Lepuckl*), resolvi fazer um retrato diferente da minha mãe, buscando recuperar um pouco do seu tempo de juventude, que já vai bem longe, perdeu-se na fumaça do início do século vinte, com suas inovações, revoluções e guerras.
            O texto de Edan Lepuckl é parte de um trabalho desenvolvido pela autora, no qual ela solicita a algumas mulheres que falem de suas mães antes de se tornarem mães, tendo como ponto de partida uma foto ilustrativa. O objetivo é oferecer uma mirada para além do mito da mãe, fazendo aparecer a pessoa em si, com sua personalidade sonhadora, alegre, tímida, ousada, atraente, sexy... Ao mesmo tempo em que se busca tecer interações com o espírito da época, sua história e sociedade.
            Ao ler, lembrei-me desta foto de minha mãe (mostrada acima), provavelmente o único registro que ficou de sua vida de solteira. É uma foto muito bonita, como podem ver, ainda que esmaecida pelo tempo. No verso, está cuidadosamente registrada, primeiramente a lápis e depois sobreposta a tinta, em letra caprichada, a data de “11 de Agosto de 1940 com 18 Annos de idade”.
            É a foto de um jovem tranquila, que nem sequer sonha com a longa existência que terá pela frente e a levará a atravessar o século XX até chegar a este início de século XXI, mais precisamente até maio de 2013, quando faleceu aos 92 anos de idade, deixando 11 filhos, 30 netos e vários bisnetos.
            Ao observá-la, podemos notar: a postura firme; o corpo pequeno, mas robusto e bem proporcionado; o equilíbrio perfeito sobre os sapatos de salto médio, típicos de então; os cabelos, não muito compridos, o que denota praticidade, atados atrás; o olhar tranquilo, confiante e ligeiramente melancólico; a comissura dos lábios que esboça um sorriso misterioso; o recato das mangas do vestido e do cumprimento do mesmo; um único toque de coquetterie no broche, o qual se destaca junto à trama do bordado da gola e constituía possivelmente o único item reluzente do seu look, uma vez que ela não usa brincos, colar ou anéis.
            Ela tinha acabado de completar 18 anos. Sua vida até então não tinha sido nada fácil e podia em muitos aspectos ser comparada à de uma gata borralheira. Ao nascer, em 6 de agosto de 1918, em um sítio de Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do salto, município de Itarantim, Bahia, estava destinada à doçura de uma vida embalada pelas atenções de uma mãe carinhosa e uma pai bondoso.  No entanto, sete anos mais tarde, ficou órfã de mãe e o avô Elias se casou pela segunda vez, buscando sem dúvida uma companheira que o ajudasse a criar os filhos. Ledo engano, pois esta se revelou uma megera de espírito de porco, autoritária e ciumenta. Como no conto dos irmãos Grimm, a madrasta tinha duas filhas, feias e preguiçosas. Elas ficaram tomadas de ciúmes de “Nenen” (apelido de minha mãe) e passaram a tramar contra ela. Em consequência, a enteada foi tratada com desprezo e obrigada a assumir o serviço da casa.


            No sítio do vô Elias, produzia-se rapadura e açúcar mascavo, além de outros gêneros de primeira necessidade. Pelo que minha mãe nos contava, essas atividades faziam parte da tradição da família, o que é coerente com a história do Brasil, uma vez que muitos Brito se instalaram no Nordeste durante o Ciclo do Açúcar (século XVII) e depois se espalharam pelo resto do país. Consta dos registros que alguns Brito ascenderam socialmente em Portugal e passaram a ostentar títulos nobiliárquicos, mas não creio que tenha sido dessa linhagem que originou nossa família.
            De qualquer modo, o sobrenome é carregado de significado. Brito vem do latim “brittus”, que designa “pedra” ou “britta” e simboliza durabilidade, força e resistência. Tomando essas características de empréstimo, poderíamos dizer que a jovem da foto acima olha confiante para o futuro porque possui intrinsecamente tais atributos, os quais a permitirão enfrentar as provações de uma larga existência, e serão igualmente transmitidas a sua descendência.
            Em contraponto à árdua lida do campo, o dia a dia no Sítio dos Trabalhos era pontuado pelas festas do calendário católico, além dos bailes de sanfona típicos do interior do nordeste. Foi crescendo nesse ambiente que “Nenen” descobriu o seu maior prazer na vida: dançar. Não será esse o segredo oculto por trás do seu sorriso jovial e misterioso à la Mona Lisa? Com um pouco mais de imaginação, podemos também perceber um movimento que se inicia na perna esquerda e se estende pelo quadril até a cintura  - não seria ele um sutil convite à dança?
            Além dos bailes, tinha o rádio, o grande veículo de comunicação da época. Circunscrita a um mundo fechado em si mesmo, uma espécie de pequeno feudo, seus sonhos de menina-moça eram embalados pelas modinhas que chegavam através das ondas flutuantes do rádio. Muitas dessas marchinhas nunca saíram de sua memória, como: “Oh jardineira por que estás tão triste, / mas o que foi que lhe aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / deu dois suspiros, / e depois morreu.” Ela interpretava esta canção com um “r” vibrante (Oh, jaRRdineira...!) e uma voz suave de mezzosoprano. 
            Um ano depois de tirada esta foto, ela conheceu meu pai. Ele era filho de um fazendeiro do município vizinho de Maiquinique e pernoitou no sítio do vô Elias durante um transporte de gado. Mas esta é outra história, é a que dá início ao mito da mãe, e não pode ser contada aqui.
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            (*https://www.nytimes.com/2017/05/10/opinion/our-mothers-as-we-never-saw-them.html)
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Abrão Brito Lacerda
15 06 17


segunda-feira, 29 de maio de 2017

PRÁTICA BUDISTA EM TIMÓTEO, MG


Fundação do Bloco Sol no Coração, em 03 11 13, em Timóteo, MG.

         Nos últimos anos, tem crescido de forma contínua o interesse pelo Budismo, seja de parte de pessoas que buscam obter mais informações sobre esta que é a quarta religião mais popular do mundo, seja de parte de quem já se identifica com sua filosofia humanista e deseja iniciar a prática. No segundo caso, o mais natural é procurar um centro ou comunidade próxima – e ter a boa sorte de encontrar uma.
         No Vale do Aço em Minas Gerais, podemos contar com a mais antiga comunidade de praticantes do estado, desenvolvida a partir de 1962, através de imigrantes japonesas que vieram trabalhar na Siderúrgica Usiminas. Em 1972 foi criada oficialmente a comunidade pioneira do Bom Retiro, na cidade de Ipatinga. O desenvolvimento desde então tem sido vigoroso, e o Budismo de Nichiren Daishonin, tal qual praticado pela Soka Gakkai, tem conquistado cada vez mais adeptos na região.
         Em Ipatinga está situado o Kaikan, centro regional, e dezenas de Blocos - grupos de praticantes que se reúnem regularmente em casa - encontram-se espalhados pelos municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Caratinga, Dionísio e Governador Valadares.
         Devido à proximidade geográfica e/ou afinidade, muitos membros de Timóteo frequentam blocos de Ipatinga; outros integram o Bloco Sol no Coração, criado no final de 2013 para aglutinar os praticantes locais.
         Graças a seu empenho pelo Kossen Rufu (promoção dos valores da paz, cultura e educação), os centros da BSGI (abreviatura para Brazil Soka Gakkai International), como o Bloco Sol no Coração, promovem uma grande abertura em relação à comunidade, tornando o Budismo acessível e sem mistérios.
         Ao promoverem esse diálogo, atendem ao desejo manifesto do Buda de que o seu ensinamento, uma vez compreendido e aceito, seja naturalmente transmitido a outros, sem distinção de qualquer natureza.

Reunião do Bloco Sol no Coração em Timóteo, MG.

         A iniciação à prática budista não exige pré-requisitos e deve ser vista, quando a oportunidade se apresenta, como um fator de imensa boa sorte, uma vez que ela abre as portas à mais profunda e perfeita ferramenta para penetrar os mistérios da mente e do espírito humanos e permite dissipar a escuridão da ignorância.
         Pratica-se o Budismo, antes de mais nada, para se ter energia para superar os desafios da vida e ser feliz. Isso é possível através da devoção à Lei Mística ou Myoho Renge Kyo (pronuncia-se “Miorro rengue kiô”), que é o verdadeiro fundamento de todos os fenômenos, a realidade imutável que permeia o mundo em constante transformação.
         Devoção aqui significa uma opção consciente em situar os ensinamentos do Buda como o eixo de sua vida e pautar sua conduta e sua ação por esses ensinamentos. É importante lembrar que a Lei Mística não é uma abstração teórica e nem supõe a existência de uma entidade sobrenatural que governa a vida dos seres de fora para dentro. Ela permeia todos os fenômenos e todas as formas de vida e se revela quando se desperta o Estado de Buda inerente – ou seja, ela é parte integrante de nossa natureza, basta ativá-la. Se vivermos alheios a ela, obteremos pouco benefício, mas se a tornarmos o centro de nossa existência, os benefícios serão ilimitados. Ela é a fonte da sabedoria e da energia vital que nos permite levar uma existência virtuosa, feliz e próspera, em nosso benefício e de todas as outras pessoas.
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Abrão Brito Lacerda
28 05 17

         

quinta-feira, 25 de maio de 2017

RUÍNAS



         Na canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso diz que, no Brasil, "tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Considero esta definição perfeita e a incorporei a minha própria visão de nosso país. Agora, vejo que outros compartilham a mesma ideia, que o Brasil é uma máquina trituradora de coisas e conceitos, que parece estar em constante movimento, embora não saia do lugar. 
            Há um afã em recuperar o atraso, então faz-se tábua rasa de tudo, a natureza (exuberante só em alguns lugares), os monumentos, os costumes, a culinária, a língua, tudo sofre uma crescente invasão alienígena e se desfaz. Uma palavra do inglês deve ter mais valor do que seu equivalente em português, pois já não nos damos mais ao trabalho de traduzir. Adoramos colocar nossa identidade em cheque, é um debate nacional sem fim, imitamos descaradamente o que outros criam, somos os reis da gentileza e da paródia. Temos complexos aos montes, somos macunaimas, antropófagos e capitalista selvagens, tudo ao mesmo tempo. Até a escala malévola do cada vez pior ganhou foros permanentes por aqui e a expressão “fundo do poço’ virou uma ruína semântica.
            O lixo, assim como o luxo, nos pertence; o luxo que é lixo só,  a luxúria do lixo e o lixo futuro andando de mão em mão, no aguardo do gesto viciado: o presente cuidadosamente embrulhado é o papelão que alimentará o monturo. Como se não bastasse, queimamos etapas, por exemplo, o canteiro de obras que constrói o prédio ultramoderno lança seus rejeitos no terreno baldio ao lado, unindo destarte, sem nenhum lapso temporal, o futuro e o passado.  
            Essas observações encontram ressonância no livro Dictionnaire Amoureux du Brésil (“Dicionário Amoroso do Brasil”), do jornalista francês Gilles Lapouge*. Trata-se de uma obra  que aborda a sociedade e a história brasileiras sob a forma de verbetes, como um verdadeiro dicionário, e nos oferece uma análise interessante, honesta e com perfeito conhecimento de causa. Gilles Lapouge demonstra amar de verdade o Brasil, país que conhece muito melhor do que qualquer um de nós, pois já esteve de norte a sul, leste a oeste, viajando a trabalho ou lazer. 
          O que não o impede, antes o autoriza, a lançar em filigrana sua ironia de observador externo sobre nossas mazelas e nossos absurdos. Através de seu texto eloquente e poético, fica ainda mais evidente o contraste que cultivamos em relação ao mundo “civilizado”. Se o Brasil é bonito enquanto exótico (ou uma gigantesca ruína, como ele diz), nossa bagunça e nosso improviso são demais para o seu pensamento cartesiano. E aqui cabe um “mas”: décadas de convívio com a gente tupiniquim, mais anos de pesquisa para a confecção do livro, não o ajudaram muito a compreender nossa malícia perversa.
            O “dictionnaire” tem vários verbetes excelentes; para o momento, atenho-me àquele denominado “Ruínes”, no qual ele declara: “O Brasil é uma vasta ruína. Esta é a razão de ele ser tão bonito, tão emocionante. Ele tem em seus estoques as ruínas mais variadas, e pode te oferecer várias outras amostras, conforme seu gosto, como se você estivesse escolhendo um produto no catálogo de uma loja: ruína nobre ou trivial, terrível ou comovente, antiga ou fresca, ruínas magníficas e suntuosas.” (p. 573)
           O autor leva tão a sério nosso gosto pela decadência que chega a afirmar que existe um propósito invisível nessa mania nacional, sobretudo naquilo em que nós nos esmeramos, a saber, o que ele denomina de “fabricação de ruínas ordinárias”: a utilização de materiais de baixa qualidade e rapidamente degradáveis que provoca a deterioração precoce de nossas torres de vidro, concreto e aço. Enquanto em Lascaux ou mesmo em Atenas, observa, foram necessários milhares de anos para transformar em ruínas construções feitas com materiais muito mais frágeis, por aqui a decadência se faz sentir numa questão de décadas.
            Ele se abisma com o fato de que alguns bairros centrais da cidade de São Paulo, onde foi morar em 1957, tenham passado da condição de prestigiosos a abandonados no curto período de 50 anos. Com humor negro, constata que os imóveis envelheceram na mesma escala que ele, e se alegra em perceber que sobreviveu a muitas outras coisas por aqui!
            Em contrapartida, faz questão de frisar e refrisar, no Velho Continente, não apenas monumentos isolados, mas cidades inteiras são renovadas de modo a perdurarem através dos séculos como símbolos da história, identidade e cultura de seus povos, razão pela qual apresentam hoje um aspecto mais novo do que quando foram construídas! Lá o antigo é novo, aqui o novo já é ruína.
            E logo chegamos á conclusão que tudo não passou de somenos e voltaremos ao costumeiro barulho das máquinas – de construção e demolição.

             (* Gilles Lapouge, Dictionnarie Amoureux du Brésil, Plon, 2011)
©
Abrão Brito Lacerda

24 05 17


terça-feira, 2 de maio de 2017

CLUBE DOS AMIGOS DO JOHN


(Imagem da Web)

            O John é um cara popular. Pense em alguém com quatro mil, duzentos e trinta e um amigos no Facebook, que recebe visitas de segunda a domingo, topa farrinhas fora de hora, releva faltas e falsidades - esse é o John. Em contrapartida, os amigos se preocupam com sua vida sexual (ele está visitando a Catarina semanalmente?), com sua vida financeira (só não lhe emprestam dinheiro), com sua saúde (o John espirra e os amigos têm um resfriado).  Acontece que, ultimamente, tem pairado no ar a notícia de que o John pretende se mudar. De novo, mas desta vez para bem longe.
            Convocou-se uma festa para debater a grave situação e tomar as medidas cabíveis. Logo agora que ele pretendia fixar-se no interior, ganhar o pão honestamente e economizar para a idade...
            “O assunto também me diz respeito”, disse John, “apesar de vocês pensarem o contrário. Na verdade, tenho duas alternativas: a primeira é me mudar para o centro e abrir minha própria sala, a segunda é dar aulas em uma faculdade no interior de Goiás.”
            Os amigos propuseram:
            “Podemos procurar uma quitinete no edifício Maleta...  ou, quem sabe, em local mais nobre, como o bairro de Lourdes... um apezinho tipo single, com ônibus em frente?”
            “Ainda prefiro o interior de Goiás”, disse John com firmeza. “Posso assinar contrato na semana que vem.”

            Os amigos decidiram passar aquela história a limpo. Compreendiam a decisão, embora desconfiassem do motivo. Qual foi a surpresa quando descobriram que o álibi tinha nome, profissão e apelido: tratava-se de Louise, poetisa do interior de Goiás, também conhecida como Psycho Killer. O affaire entre os dois durava mais de ano, através de postagens tipo poèmes d’amour fou e contos eróticos em text.
            Marcaram mais uma festa para desmascarar o que lhes parecia falta de lealdade do amigo. Só que, dessa vez, o John tinha mudado de ideia, mais uma vez...
             “Um ap. no Maleta ou, quem sabe, no bairro de Lurdes, tem seu preço”, disse John. “E, sem a faculdade, não tenho como me bancar. Acho que seria justo ratear o valor do aluguel entre meus amigos queridos, em parcelas módicas, para não pesar no bolso de cada um. Prometo restituir com juros e correções assim que puder.”
            Diante da surpresa, acrescentou:
            “Do contrário, terei que me mudar para o interior de Goiás.”
            Os amigos continuaram em silêncio, se perguntando “aonde o John quer chegar?
            “Pensei em tudo”, prosseguiu John. “Vamos sortear por ordem alfabética a contribuição de cada um de vocês. Basta dar um passo à frente, pegar uma ficha nesta caixa” – John aponta para a caixa, estrategicamente colocada sobre uma mesa – e segurá-la para a foto...”
            Só uma mão se levantou. Foi o Vicente, que alegou não ter entendido bem.
            Será o fim do Clube dos Amigos do John?
©
Abrão Brito Lacerda
26/04/17
           


quinta-feira, 20 de abril de 2017

PEQUENO GLOSSÁRIO DE PALAVRAS DEFUNTAS OU ESQUECIDAS

 
(Imagem da Web)
                         
            As palavras têm cor, peso e sabor. Têm também suas histórias, mas em um universo de milhares de palavrinhas ou palavrões, das preposições aos substantivos, passando pelos advérbios e os verbos pretéritos, não nos damos conta da vida que pulsa por trás de cada uma. Elas surgem e desaparecem, alimentam os livros e as ilusões e dão estofo aos dicionários. Ainda que tivéssemos uma memória organizada como uma planilha excel, un hard disk ou um app, um glossário de impressões afetivas, não bastaria;  é preciso ainda inventar e reinventar, como o substantivo “idioteza” que invento agora para designar a mistura de idiotice com esperteza. 
            Que as palavras vivam como testemunhos de uma época, respirem o ar da atualidade e não se transformem em ruínas ou alimento para traças em alguma biblioteca. Assim, antes de lançar a última pá de cal e liberar espaço no driver, apresento este pequeno glossário de palavras ou acepções que antes se limitavam ao espaço da memória.  

GALINHOTA: ou carrinho de mão. Na fazenda onde me criei, tinha uma galinhota de metal com uma marca estampada na caçamba que muito intrigava a nós, meninos. Lia-se: “Formiga Minas”. Qual era a relação entre formiga e galinhota? Para nós, deveria ser galinha, o carrinho se parecia com uma, tinha dois pés e tinha o nome.  Só depois fomos entender que Formiga era uma cidade de Minas.

ALMOFARIZ: fiz questão de procurar no pai dos burros, ou seja, no Google.  “É um utensílio que serve para moer pequenas quantidades de produtos, por vezes misturando vários ingredientes, também chamado pilão ou modedor.” Ou seja, o nosso socador de alho. Miha mãe perguntava: onde está o almofariz? A palavra não teria sido guardada não fosse pelo som. E pensar que foi trocada por uma perífrase!

MÁQUINA DE ESCREVER: objeto pré-cambriano que permitia a seu usuário – um datilógrafo – produzir textos, tabelas, etc – através de um teclado. Deu origem ao verbo datilografar. Hoje pode ser encontrada em museus e em algum brechó do edifício maleta em Belo Horizonte.

DATILOGRAFAR: do grego "dáktylos", "dedo" + "graphein", "escrever", é o ato de escrever à máquina. Era, porque as maquinas foram substituídas pelos computadores e o verbo passou a ser “digitar”. Curiosamente, digitar vem de “digitus”, que é dedo em latim. Enquanto outras línguas, como o inglês (type), francês (frapper) e espanhol (teclear) mantiveram o mesmo verbo, nós nos “modernizamos. É o nosso desapego às tradições somado ao afã de transformar tudo em ruínas o mais rapidamente possível.

TEXTO: uma palavra rara desta seleção. Um texto era uma tampa de panela, geralmente fina, como as de alumínio ou esmalte, comuns antigamente. 

PIREX: um pires. O nome vem da marca de utensílios de vidro ultra-resistentes, que incluía pratos, xícaras, bandejas, formas e tigelas.   Pires tinha que ser pirex e pronto.

PUBA: é a massa da mandioca fermentada, utilizada na confecção de bolos, biscoitos e beijus. É feita com mandioca descascada e posta em um cocho de madeira com água para “pubar”. Enquanto a goma pode ser seca e guardada durante muito tempo, a puba deve ser usada ainda fresca, no que resultada o melhor bolo de “aipim” que existe.

TANGER: por para correr um animal, expulsá-lo. Tanger as galinhas quando estão dentro de casa, tanger os porcos do quintal. Significa também fustigar o animal ou golpeá-lo: tanger os jegues para que andem mais rápido.

RODA, RELHO, BOLINETE: três partes que compõem o conjunto da roda de ralar mandioca para fazer farinha. A roda possui uma ranhura por onde passa o relho, feito de couro, que transmite o movimento ao bolinete, uma casinha onde a mandioca é ralada. É operada por dois homens, cada um fazendo girar uma manivela.

PSÁ-PSÁ: um dia os meninos passam a se interessar por aquilo e começam a aprender um monte de nomes associados, verbos, adjetivos e interjeições. Psá-psá era uma forma codificada de falar de sexo sem se deixar notar. Geralmente, fazia-se acompanhar de um risinho irônico.

LANCE: “dar um lance” é uma expressão que nasceu com a minissaia. Quando a garota se inclinava um pouco demais, sentava-se sem a devida precaução, subia uma escada ou simplesmente levantava os braços, podia "dar um lance". Nessas ocasiões, a galera exclamava: "Brahma na jogada!"

BRAHMA NA JOGADA!: teve como origem um conhecido narrador de futebol dos anos 70. Para apresentar um convidado, comentar um lance ou anunciar os comerciais, ele repetia o bordão: “Brahma na jogada!”. Caída no gosto popular, a frase passou a designar qualquer coisa interessante que estivesse acontecendo, por exemplo, um "lance".

CAÇUÁ: esta existe nos dicionários. Trata-se de um cesto grande, comprido e com alças resistentes, geralmente feito de cipó, que é amarrado de cada lado de uma cangalha e serve para transportar gêneros. Com cara de caçuá é como você fica depois de dar uma grande mancada.

BUTE: a coisa mais amarga que existe, uma raiz que trata todos os males em uma só dose, pois quem experimenta não tem vontade de repetir.

AZEITE DOCE: o mesmo que azeite de oliva. Antigamente, era também usado como remédio caseiro, na composição de unguentos e garrafadas.

SEBO DE CARNEIRO: usado para untar os laços de couro e dar-lhes maior maciez e resistência. Os melhores paus de sebo também levavam sebo de carneiro. Ele é mais grudento que o Justin Bieber e não se solta nem com reza braba.

RURAL: Um carro utilitário antigo, fabricado pela Willys. Nas estradas de terra, com buracos e atoleiros à foison, só passavam mesmo jeep e rural. Ou carro de boi, que era o socorro da época. Quando a rural ou o jipe atolavam, chamavam o carro de boi para puxar.

JUMBAR: um verbo que nasceu de um insuspeito substantivo concreto e arquitetônico. Nos fundos da Moradia Borges da Costa em Belo Horizonte, havia o supermercado Jumbo, o maior da cidade, fonte dos desejos de todos os estudantes. Na falta de dinheiro, o jeito era "jumbar" alguns produtos, trocando as etiquetas. Alguns jumbavam até mesmo sem etiquetas. Acho que foi por isso que inventaram o código de barras.

DUNGAR, DUNGUISMO: Depois das decepções de 1982 e 1986, o futebol brasileiro retrocedeu para o estágio das retrancas tipo europeias e um jogador se tornou símbolo daquela estratégia pobre e de resultados medíocres. O dunguismo caracterizou o Brasil da transição para o governo civil, com seus correlatos, o peleguismo e a caretice.

FOCAR: declaro desde já a defuntez do verbo focar, que copiamos descaradamente do inglês e que hoje serve para designar quase tudo em português. Focar o texto, focar a atenção, focar no foco, ser focado e fazer coisas focadas, como esmagar sorvete na testa. Não demora a sair de foco, ser trocado por outro neologismo.
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Abrão Brito Lacerda
19 04 17







sábado, 1 de abril de 2017

CRETINOS!


            There’s no stopping the cretins from hopping, não há mesmo, nem que o vinil fure de tanto tocar aquele rock dos Ramones. Esses debilóides vão pular a noite inteira, a OPEP e o petróleo, a guerra do Vietnam e a ditadura, a caça às bruxas, os proletários e os intelectuais se radicalizando, os jornais falando de pós Napalm e AI-5, explosões e fugas - e você só ficará sabendo dias ou semanas depois. Então, fais gaffe, os cretinos estão espreitando por toda parte pra te dedurar!
            O que pode um pobre rapaz fazer? Aprender a viver com pouquíssimo, um par de jeans, t-shirt, tênis, mais uma jaqueta de couro pra quem mora no frio de Nova Iorque. O mundo é gris e melancólico, meio hippie, meio anti qualquer coisa, buzu, metrô e longas, longuíssimas jornadas a pé, se cruzar com milicos no caminho, não os encare pra não levar cana. Take a walk in the wild side. Se em Nova Iorque, vá ao Country, Bluegrass and Blues club, lá as coisas estão rolando, sementes de punk e new wave, dois rótulos que renderão fortunas e mortes trágicas nos anos seguintes.
            E foi assim que uma geração inteira atingiu o ponto “G” entre os anos 70 e 80, a década mágica(?), mistura de 7 e 8, noves fora nada, com um pé nos 50 e outro nos 60.
            Os punks eram os novos mods, mas não eram engomadinhos como seus primos dândis, eram dirty boys & girls. Eram “duros” também e viviam de boca livre, aquela rebeldia não passava de faire semblant, faz de contas. O deboche trash nasceu com um anti-desfile de moda e os rejeitados outisiders não passavam de manequins mal pagos. Mas as garotas de botas de caserna, meias quadriculadas e hot pants cravejadas de metais + piercings & tatuagens pareciam saídas de um  sonho erótico. E a música insinuante e rapidíssima fornecia a trilha sonora perfeita para os cretinos sem causa. Não dava mesmo pra parar de pular...
             Se você é um dinossauro e sente falta daqueles tempos, saiba que estão mortos e enterrados.Hoje em dia só há lugar para os cretinos cretinos, os que dão com os burros n’água por atavismo ou entropia cultural:  propensão ao erro e à corrupção, manifestação de algum gen recessivo que se despertou, cresceu e se multiplicou, jogando todos na vala comum da estupidez. Seja cara ou caricatura, burrice ou contra-burrice, fala ou desmentido, a pós-verdade inaugurou a era do populismo cretino, que não conhece direita ou esquerda e promove falsas revoluções por minuto.
            Agora o petróleo é nosso, a Amazônia também, assim como o Pantanal, os mangues, os lixões, as favelas, os mortos por bala perdida, os não-obstante vivos, os vivaldinos e os rios contaminados por minério. Hoje à noite, como todas as noites, vai passar ao vivo na tv a vergonha nacional, corra antes que o renhido embate entre a direita e a esquerda te lance algumas tortas de idiotice na cara. Em outros lugares, Beirute e Mossul, passam-se coisas bem piores, basta abrir caminho em meio à multidão de cretinos com sua armadura de aço, plástico e silício.
            Nada mais se perde, tudo se transforma. Rufam os tambores,  farfalham as trombetas, movem-se os dedos: do nada surgem profetas da alma alheia, livro à mão (para disfarçar uma possível estupidez), lábios debochados de cuja comissura escapam os dez pecados capitais de nossa época: não furtarás à vista do dono, não fornicarás com nenhuma mulher contra a vontade dela, não abandonarás pai e mãe sem antes avisar o SUS, não levantarás de mal humor na segunda-feira, não te dobrarás diante do delegado ou juiz, guardarás jejum de ácido e anfetaminas, não comerás carne, presunto ou salsicha da Sadia, Perdigão e Seara, respeitarás a pausa etílica ou equivalente cinco vezes por semana, darás ao pobre em dólar e euro, não confiarás em nenhuma história sem antes ler os “fatos alternativos”.
            Definitivamente, ser cretino não tem mais graça nenhuma.
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Abrão Brito Lacerda

25 03 17

quarta-feira, 1 de março de 2017

EU TOMO ALEGRIA!


(Foto: Estado de Minas)
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
      (Manuel Bandeira, Não sei dançar)

            Há muito tempo BH não via uma festa assim, há uma geração pelo menos. Tomar as ruas, praças e avenidas, reconvertê-las em espaços de encontro e convivialidade representa uma verdadeira revolução em uma cidade que foi obrigada a conviver com os congestionamentos e a insegurança – e a reclamar deles, como se se tratasse de uma praga irreversível. E eis que, de repente, mas não por acaso, os bhzontinos se descobrem semelhantes e cooperativos ao invés de individualistas e competitivos, e descem às ruas para o carnaval, transformando a cidade em um grande salão de festa para todas as idades.
            A popularização do carnaval de rua de Belo Horizonte é uma realidade. Boa organização e infraestrutura, com presença ostensiva dos agentes de segurança nos locais de celebração, itinerários demarcados e isolados para concentrações e desfiles de blocos e, sobretudo, a dispersão da festa pelas diferentes regiões da cidade, criaram um ambiente favorável que tem atraído multidões aos desfiles de carnaval nos últimos anos, com destaque para este marcante ano de 2017, que tem tudo para ser um divisor de águas na história da cidade.
            Blocos recém-criados e sem grandes pretensões recebem de repente a adesão de toda uma vizinhança ávida por alegria e o cordão cresce sem parar, passando de dezenas à casa dos milhares. Ver-se na rua cercado de gente familiar tem gerado surpresa nos próprios belo horizontinos. Compartilhar alegria ao invés de medo, descobrir semelhanças ao invés de diferenças traz um inesperado ar de renovação da vida coletiva e tem contribuído para a melhoria da autoestima e do sentimento cívico na capital. A cidade se redescobre hospitaleira, superando a imagem austera de um imenso dormitório para quatro milhões de almas.
            Além das razões citadas acima, boa infraestrutura e organização, há outros motivos que estimularam tantos a saírem às ruas. Em primeiro lugar, a crise, que impossibilitou muita gente habituada a curtir o carnaval na Bahia, no Espírito Santo ou no Rio de Janeiro de viajar. Em segundo, podemos citar as manifestações políticas do ano de 2016, que levaram a classe média a sair de casa e a se reapropriar dos espaços públicos que ela antes tanto temia e abominava. Não cabe entrar no mérito dessas manifestações, mas é importante frisar que elas tiveram força quando lograram catalisar a energia espontânea dos cidadãos e se extinguiram quando se tornaram formais e formatizadas, ou seja, caretas e conservadoras.
            Fazer festa pode ser a solução quando não há nenhuma outra à vista, como parece ser o caso do Brasil no momento atual. Além disso, celebrar não exige motivos objetivos, o que conta mesmo é a disposição de romper a rotina e a mesmice. Os jovens não precisam de motivos para se encontrarem e comemorar, fazem isso porque é próprio do espírito da juventude. Desejo semelhante se encontrava reprimido pelos belo-horizontinos, tradicionalmente considerados tímidos e avessos a demonstrações coletivas que não sejam partidas de futebol. Mas anos de injeções de baianidade via axé music e trios elétricos ajudaram a quebrar o gelo.
            O melhor de tudo é que BH se viu no espelho e gostou da imagem: o jeito de ser, tolerante e cosmopolita, com centenas, milhares das mais bonitas mulheres do Brasil - união perfeita das quatro raças -, livres, leves, soltas...
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Abrão Brito Lacerda

28 02 17

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MINHA CASA, MEU ENTULHO


            A sujeira está em toda parte. Em Brasília, onde a lama ultrapassou o nível das torres gêmeas do congresso, toma-se banho de fedência e dança-se ao ritmo da podridão. O gosto nacional pelo lixo é tamanho que, ao se construir um prédio, é criado simultaneamente o entulho que acolhe os restos da construção: concreto, papel, plástico, metal, além dos rejeitos líquidos e sólidos dos humanos.
            Somos um exemplo civilizatório a ser combatido de um povo que limpa a casa para sujar a rua - e não sente nenhum constrangimento por isso. E, longe de se tratar de um comportamento de determinada classe, é uma verdadeira epidemia, como a dengue, a febre amarela e o Big Brother.
            Com o objetivo de dar minha modesta contribuição às avessas a essa falta de vergonha geral, apresento a seguir o estado das coisas em minhas imediações. A Rua Miguel Maura onde moro é uma passagem importante entre vários bairros e o centro da cidade de Timóteo, portanto o lixo dessa rua pode ser tomado como axioma da decisão comunitária de não deixar arrefecer nossos centros criadores de ratos, baratas, mosquitos e catadores.


           






































               A prefeitura não recolhe o lixo, essa é a explicação de 100% dos abordados. É verdade. Embora a cidade esteja loteada pelos entulhos, há muitos anos ninguém se importa em recolhê-los. Mas quem espalha a sujeira são os próprios cidadãos, outra verdade.
            O guarda-chuva quebrou? Jogue ali mesmo. Móveis imprestáveis em casa? Despeje no passeio público. Um senhor de barbas brancas passa empurrando um carrinho com a tranquilidade de um monge. É triste para um velhinho, não é mesmo? Ele deveria pedir a um dos netinhos para fazer isso para ele, qual seja, depositar sujeira no espaço alheio.
            As oficinas mecânicas que existem ao redor têm nos terrenos baldios um bota-fora perfeito para restos de lataria e peças velhas. Existe até mesmo um desmanche no lugar, ilegalmente, pelo que suponho, embora de pleno conhecimento do “poder” público. Alguns sacos de lixo são amarrados a árvores e oferecem aos passantes o espetáculo do seu fedor em flor, até que os lixeiros (que só recolhem lixo devidamente ensacado) venham fazer seu porco trabalho. O operário que poda as árvores da casa vem ali depositar folhas e ramos – importante frisar que o dono fica vigiando por trás do muro, afinal ele pode pagar alguém para fazer o trabalho sujo para ele. Aproveitando que tá uma imundície mesmo, crianças espalham palitinhos de picolé e papéis de bala pelo chão...  


          










  



















        Todos estão imbuídos da convicção de que não foram os primeiros e que, portanto, não têm culpa nenhuma. Se investigarmos a fundo, chegaremos a Pedro Álvares Cabral e vamos concluir que a culpa foi dos portugueses.
            Lancei a ideia de uma campanha de limpeza junto aos vizinhos. Estão dispostos a colaborar, mas ninguém tem pressa para começar o trabalho. Acham que vão fazer o papel da prefeitura sem ganhar nada por isso. “E, a partir do dia seguinte, o lixo estará de volta”, dizem eles para justificar a inércia.  
            O único consolo é que em Brasília tá pior – tá muito pior!



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Abrão Brito Lacerda

09 02 17