segunda-feira, 18 de setembro de 2017

DE LISIANES & EUNICES


(Imagem: Mundo do Marketing)

            O tempo é um dos deuses mais lindos, segundo a expressão cunhada por Caetano Veloso na canção “Oração ao tempo”. Sendo assim, ele tem a prerrogativa de construir e destruir na mesma medida, dependendo da perspectiva de cada um. Quem valoriza o próprio patrimônio, tem vida ativa e feliz, quem se entrega às circunstâncias, pode sofrer acidente fatal na curva do futuro. Enquanto adepto das formas perfeitas e das boas colocações pronominais e físicas, deixo aqui o meu protesto contra o desleixo de algumas mulheres que conheço.
            A começar pela Lisiane. Quem te viu, quem te vê. Até outro dia, era um verdadeiro regalo para los ojos, combinação perfeita de tornozelos, pernas, quadris, torso e nariz apontando orgulhosamente para o céu; triunfava sem esforço sobre o trabalho modesto de vendedora; dava-lhe caráter e distinção; sonhava e fazia sonhar entre computadores, teclados e mouses...
            Mas eis que desleixou pra valer, e isso no auge dos vinte e poucos anos, a ponto de ter ficado redonda como uma berinjela. Se não se cuidar, ganhará em breve a forma de uma batata.  Por isso, vai aí meu conselho ao vento: não deverias ter dado ouvido aos que dizem que o que conta é a beleza interior e que tudo o mais vá pro inferno; não deverias ter declarado guerra ao espelho e à balança; valorize a porção de beleza universal que há em ti, pois os deuses do Olimpo e os humanos te agradecerão, assim seja.
            Outra que se arruinou por nada foi a Pocahonta (nome fictício). Ela nasceu bonita, como se diz, uma beleza pura do interior. Fez estudos de desenho, Artes Plásticas, dedicou-se ao balé, à zumba e à dança do ventre,  para quê? Acabou se casando precocemente, e o marido, que já não primava pela boa forma quando solteiro, foi engordando sem parar depois do casamento; e a Pocahonta seguiu no mesmo ritmo. Nem uma cirurgia bariátrica (para ele) e os regimes da lua e da tampinha de arroz (para ela)  adiantaram, pois os dois são realmente do tipo glutões.
            Quinze anos depois, a Pocahonta está tão inflada quanto o marido e começam até mesmo a por em perigo os sistemas de transporte! Assentar lado a lado no ônibus, por exemplo, significa ficar um de cada lado do corredor, já que ocupam duas cadeiras cada! 
            Nem mesmo quando o marido ficou entalado em uma cadeira de avião sobre o Atlântico - porque precisou ir ao lavatory, depois de comer cinco sanduíches de atum com maionese antes do pouso - ela declinou do juramento de manter-se fiel na saúde e na doença, na magreza e na obesidade. Depois da forma da batata, o que vem é a do maracujá. Te cuida, Pocahonta...


"Quanto mais velho você fica, mais difícil é perder peso, porque seu
corpo e sua gordura se tornam grandes amigos."

            E agora vejam o caso da Eunice. Esta era torta nos lugares certos, de frente, de lado, de costas, vírgula, parábola, ponto de exclamação. Isso nos bons tempos da universidade, que já vão longe, assim como a discothèque e os cabelos pigmaleão.
            Tantos anos se passaram e a Eunice, que era para estar um bagaço, faz troça da associação dos obesos anônimos, está se lixando para o carteado de sábado à tarde no clube dos aposentados. Nem as dores na coluna a fazem perder o prumo.  
            Ser vovó não combina com ser esbelta, verdade? Os netinhos querem lasanha à bolonhesa e bolo de chocolate com cobertura de caramelo todo fim de semana, não é mesmo? Vovós devem usar vestidos de bolinhas, sandálias vintage e óculos pince nez, blá, blá, blá...
            Não diga nada disso à Eunice. Ela não quer ser chamada de “senhora”, porque isso a faz sentir-se vinte anos mais velha, foge da fila dos idosos, recusa-se a usar os caixas especiais - “Não pago mais barato, então para que servem?” Só não descartou o rico dinheirinho da aposentadoria, a pensão de viúva e a meia passagem em voos domésticos. Afinal, foi por causa disso ela conheceu o atual namorado, um tanguista argentino, lá em Foz do Iguaçu.
            Quem te viu, quem te vê. A Eunice agora está aprendendo a bailar o tango, estuda espanhol e tem planos para voos mais altos. Com cabeça de vinte e o corpo de uma mandioquinha enxuta, que bons deuses a levem.
©
Abrão Brito Lacerda
16  09 17
           


domingo, 20 de agosto de 2017

MORRER!


BR 381, trecho Timóteo - Belo Horizonte.

            A espécie humana evolui, a cada dia são incorporadas novas conquistas científicas e tecnológicas. Mas não abandona de todo os instintos dos tempos das cavernas ou dos gladiadores. Inteligência e estupidez não são incompatíveis, elas atuam lado a lado, e, quando a segunda predomina, é bomba!, costuma acontecer acidentes e mortes nas estradas. Na Grécia Antiga, morria-se aos 25 anos, pois (quase) todos os homens válidos tinham que defender sua cidade e conquistar outras, através da guerra. Hoje a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos, portanto, a morte demora a chegar. Uma vida assim pode ser longa demais para alguns, é natural que eles queiram encurtá-la.
            Uma das formas mais eficientes para se morrer subitamente é ao volante de um automóvel.  Existem aqueles que acham que devem andar mais rápido do que o trânsito, mesmo indo ao mesmo lugar que os demais.  Outros se consideram os ases, os velozes e furiosos, mesmo quando a velocidade média não ultrapassa os 40 quilômetros. Então, tome buzinaços, fechadas, ultrapassagens pela direita, arrancadas cantando pneus antes do sinal abrir, avanço de sinal vermelho...
            Se estiverem em cima de uma moto, sua ousadia e periculosidade aumenta dez vezes: passam no meio da fila de carros, a menos de vinte centímetros de cada lado, espremem-se na frente do sinal, arrancam em ritmo de competição, fecham os carros. Até parece que está escrito no código de trânsito: “ao parar no sinal, as motos devem ir para a frente e os outros veículos devem aguardar.” Direita ou esquerda, o problema é seu, moto vai para qualquer lado, aparece de surpresa nos cruzamentos, atravessa na toda, desvia-se de obstáculos como pedestres e buracos, passando de raspão, sem reduzir a velocidade, voa sobre os quebra-molas... Virou um must, até as mulheres, geralmente mais prudentes, estão pegando geral.
            Na estrada, os riscos sobem mais dez vezes, mas não a prudência desses nossos concidadãos. E o resultado estampa as manchetes, infla as estatísticas, inferniza a vida de quem viaja. Um tresloucado atravessa a pista e atinge de frente um caminhão que trafegava no sentido contrário. Quem foi o culpado? Salvo em caso de fatalidade (pneu estourado, falha mecânica), ele foi imprudente, estava trafegando em velocidade incompatível com o local ou tentou uma ultrapassagem precipitada e proibida. Em outro trecho de muitas curvas, o cara derrapa e vai parar no barranco de pneus para o ar. Se ele não era noviço ao volante e nem tinha bebido, então estava andando mais rápido do que devia. E, como explicar que alguém vá terminar debaixo da traseira de um caminhão que trafegava pelo acostamento? Foi porque ele bancou o esperto e tentou efetuar uma ultrapassagem pela direita. Prêmio de estúpido do ano para ele, tomara que sobreviva para aprender. Os outros não tiveram a mesma sorte. Ao atravessar uma cidade (pacata por sinal), encontramos o trânsito bloqueado. O que foi? O que foi? A explicação corre de boca em boca: um motoqueiro foi atropelado por um caminhão e morreu. Ora, como caminhão é bicho grande, lento e bronco, o único jeito de uma moto se chocar com um deles é andando tão rápido que não consiga brecar ou brincando de cabra-cega no trânsito.
            Ninguém deveria morrer no trânsito, porque o automóvel é uma bela invenção, um meio de locomoção muito prático, o melhor jeito de viajar entre nós. O problema vem da sua combinação explosiva com a estupidez de que tratamos acima. É quando ele se converte em um predador voraz, um monstro da modernidade.
            Mas para a dama da foice e da caveira, dá igual. O direito de alguém encurtar sua viagem até os 80 anos ou mais, é coisa que se deve discutir, tal qual a eutanásia. Antes de ficar senil e pré-túmulo, que mal há em assinar uma declaração, tal qual um inventário, autorizando os médicos, a família a desligar os tubos quando chegar a hora? O mal está em provocar a morte alheia. Vida e morte são coisas muito particulares, cada um deveria se ocupar da sua. Não podemos deixar os estúpidos resolverem essa questão à sua maneira.
©
Abrão Brito Lacerda
20 08 17
           

            

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

COGUMELOS AZUIS


                                             “Zebu morreu, ele se fudeu, cogumelo é meu!”

            De tempos em tempos, é preciso pingar colírio alucinógeno, usar lentes caleidoscópicas ou tomar cachaça mesmo. Fugir pras montanhas, quem sabe recuperar um pouco do tribalismo primitivo inerente à espécie por algumas horas. Onde tem festa, é pra lá que eu vou. Tem bandinhas tocando na frente da igreja desde o meio da tarde. A noite cai, cada vez mais fria, e chega a carreata, trazendo a imagem da santa, sem andor, em cima de uma caminhonete. Salvas de fogos!
             A fogueira é acessa no meio do largo para aquecer o coração dos crentes e dos pagãos, citadinos & locais, tragam o cachimbo da paz! Barraquinhas com comidas e bebidas, um palco, estrategicamente montado ao lado da igreja, compondo a aliança indissolúvel entre o sacro e o profano.  O uniforme branco do congado brilha à luz do fogo,  tambores secos ressoam pelo largo, pelas casas rasas, bate na serra, espalha-se. O cortejo entra na igreja atrás da porta-estandarte, os tambores se calam, o padre inicia a missa.
            O leilão é o tradicional pregão de padroeiro: frango assado (sempre o primeiro item a ser leiloado – esse saiu por 50 reais!), panos bordados, conjunto de cestos artesanais, um leitão à pururuca, uma xilogravura (arrematada por incríveis 400 reais! – desse jeito a santa vai ficar rica!), um bezerro pra fechar os arremates. Dentro de alguns instantes, o palco se iluminará e bandas bastardas, muito barulhentas, cortarão o santo sossego, tocando para citadinos & locais, que acendem o cachimbo da paz. Não se falará mais da santa, que, no entanto, repousa tranquilamente em seu nicho, a poucos metros do futuro pandemônio.
            8 da noite, crianças dão cambalhotas no gramado, enquanto seus pais vagam de gole em gole, cachorros muito espertos reivindicam sua parte do humano banquete, com manhas que mais parecem de gente: esse balança o rabo e mostra a língua salivar; aquele faz o tipo humilde, abaixa as orelhas e se deita em frente aos comensais; aquele acolá prefere os latidos e rosnados fake – até que um pedaço de gordura indigesta seja lançado em sua direção e eles o disputem, brigando como cães.


            Dança das espadas, dança dos bastões, sapateado, guizos, batuques e fanfarras, discursos, obrigado senhor prefeito, o frio recrudesce, luzes no palco, vinhos, cachaças, catuaba selvagem, cachimbo da paz, a santa dorme em seu nicho, crianças brincam ao redor da fogueira enquanto seus pais matam a fome, é hora do show!  Não mais ao rés-do-chão, sobre a relva que iguala os humanos, mas sim sobre o palco eletrificado, suspenso ao mesmo nível que os nichos dos santos, o som estronda no meio da noite oca. Uma fina chuva começa a cair, mais cachaça, catuaba selvagem, vinho, churrasquinhos e canjiquinha, crianças, cães, bêbados, cachimbo da paz, cogumelos azuis.
            Los Chapados carregam o nome do lugar, ou seja, da santa que repousa resignada em seu nicho, um sacrilégio, não fosse essa união secular entre o sagrado e o profano que tem sido por séculos a razão da existência de muitas tradições. Esses provaram dos “louco, louco, louco melo / Louco, louco, cogumelo / Cogumelos azuis”, uma espécie rara que nasce da bosta de zebu radioativo ao longo de nossas BRs.  Fica então explicado o barato da viagem de tantos malucos belezas pelo Brasil a fora, como Ventania, já ouviu falar? É um trovador riponga de São Tomé das Letras, de biografia curta e letras fosforescentes. Abaixo o colírio alucinógeno e as lentes caleidoscópicas,  Sant’Ana há de abençoar do alto do seu nicho a cor mais quente do inverno!           
            1 hora da manhã, crianças saltam a fogueira enquanto seus pais andam de quatro debaixo de alguma mesa, a chuva parou, o frio aumenta, a fogueira arde, dança João com um poste, Maria com Zezé e todas as mulheres que não conseguiram encontrar um namorado; no palco, Alvim & A Bonitinha desafinam ao som do breganejo, da sofrência, do axé e do rala-rala, é um desfile interminável de amantes traídos, de dores de cotovelo, de boates azuis, de desejos frustrados, de noites em claro e outros desgostos (Alvim é um picareta, mas essa bonitinha até que rebola bem), valei-nos todos os santos de todos os nichos, precisamos de mais conhaque, licor, cachaça, catuaba selvagem, zebus radioativos, Los Chapados, Ventania, cachimbo da paz, chá de cogumelo azuis!

©
Abrão Brito Lacerda
01 08 17


sábado, 15 de julho de 2017

LULA, BOLSONARO, TEMER E IRON MAIDEN


(Charge de Iotti, jornal Zero Hora)

            Decidi dar vazão a minhas convicções democráticas ao vivo e em cores e frequentar todas as pessoas, independentemente do partido político ou religioso. Acho que é perfeitamente possível tolerar os amigos, os parentes, os vizinhos, os conhecidos virtuais e os amigos dos amigos e viver em paz com a própria consciência. Não há nada de mais em ouvir sertanejo escrachado em um aniversário de manhã, passar a tarde assistindo a velhos clips de Toquinho e Vinícius, tomando whisky com guaraná em casa de amigos e ainda aceitar o convite do vizinho para um churrasco na sexta à noite, com  o cardápio: picanha e hits gospel. Sem deixar de se entrever com representantes da velha guarda no fim de semana, seja ela a heavy metal ou a jazzística.
            O ideal é adotar um tom bem natural. Se o assunto for política, não se recusar a assistir aos velhos discursos do Lula, daqueles dos tempos do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo. Acompanhado de Joan Baez, Bob Dylan e os famosos clips de Toquinho & Vinícius, é um menu perfeitamente tragável. Da última vez, sugeri Diana Pequeno e ficaram de analisar. Acho que é porque não têm mais vinis da baianinha  e lá só tocam vinis. Quero ouvir de novo num pick-up à moda antiga “Blowing in the Wind” e “Voarás”, em dueto com Paulinho Pedra Azul.
            As conversas paralelas inevitáveis nunca devem ser tomadas a peito: houve um golpe em 2016, foi com o golpe de 1964, viva 1979 e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, abaixo 2017 e o presidente Frankstein usurpador.  Repito: “Viva 1979!” Toda vez que volto a essa época, ganho meus vinte anos de volta, ainda que seja por apenas algumas horas.  
            O churrasco do vizinho foi uma maravilha. Cada frase terminava em “com ajuda do senhor” ou “foco na fé”. Você mudou de emprego, curou da sinusite ou chegou são e salvo de uma viagem, então foi “com a ajuda do senhor”. A segunda fórmula recorrente – “foco na fé” – me surpreendeu muito no início, mas agora vejo que não passa da expansão inevitável da globalização. As igrejas não são geridas como um negócio qualquer? Então a prática da fé também tem que adotar a frase mágica que é “manter o foco”, tal qual um trabalhador de escritório, um CEO ou um palestrante. Hoje são milhões de pessoas focadas na fé pelo país, merecem ser ouvidas.
            Além disso, a música gospel perdeu sua monotonia típica, pelo menos no campo da melodia. Certo, todas as letras glorificam ao senhor e a maioria das canções incorporam o jingle “amém, Jesus” ou “glória a Deus”, mas faz parte, como disse o meu vizinho churrasqueiro. Já os ritmos, mudaram e se adaptaram aos novos tempos. Tem gospel Psychobilly (gospel de terror, é isso aí!), sertanejo e até punk. Com roupas rasgadas e botinas, mais inscrições bíblicas nas jaquetas de couro ao lado de suásticas e caveiras. Só não gosto do gospel funk, axé e samba canção, porque me cansei. Todos estes ritmos rolaram democraticamente no churrasco “chez le voisin” (na casa do vizinho) e foram acompanhados de apaixonadas defesa de um personagem que vocês hão de vaiar: o Bolsonaro.
            Não eu. Não estou aqui para vaiar vizinho que oferece churrasco de picanha e queijo coalho comprado diretamente da fazenda. Perguntaram o que eu achava do Bolsonaro. Eu me fiz de bobo. Devo ter exagerado, pois ao ver a minha cara, o vizinho começou a discursar sobre a importância de “combater a corrupção, mandar (mais) bandidos para as prisões, combater – com pena de morte se preciso for – o tráfico e o uso de drogas, defender a família e os costumes, mas não os direitos das mulheres, em nome da bíblia, glória a Deus!”. Aproveitei a deixa da bíblia. Tem aquele livro, o Eclesiástico, com suas elegias à sabedoria, que eu gosto muito. Dessa vez foi meu vizinho quem fez cara de bobo. Fingi que tinha recebido uma ligação urgente, agradeci pela gentileza do convite, prometi retribuir um dia e me mandei.
            Ao chegar em casa, vi que o livro do Eclesiástico não faz parte da bíblia dos evangélicos. Foi a primeira vez que abri uma bíblia em trinta anos, o que significa que não voltarei mais a fazê-lo até morrer.
            A turma da maturidade está cansada de experimentalismos e gostaria muuuito de voltar às velhas fórmulas que funcionam para a República Federativa do Brasil. Nós somos uma república presidencialista, certo? Nossa democracia é a do consenso, ou seja, elegem-se legisladores de vinte partidos diferentes e depois faz-se o rateio da pizza: o partido do presidente leva a metade ou mais e distribui o resto em porções desiguais pelos aliados, consoante seu poder de votos ou apoio. Assim, um ministério é negociado tal qual o chuchu em uma feira – o que querem? É o capitalismo!
            A esquerda fracassou, concordo, tá na hora da direita tomar conta do pedaço de novo, não concordo. Nada de aventureiros, Temer está de bom tamanho para nossa mediocridade. Janot, PF, STF, TSE, PGN e PIS-PASEP não têm nada que meter o bedelho na política, deixa o troca a troca continuar, cada um sabe  o cu que tem.
            É demais para um estômago sensível, mas não vou quebrar minha determinação de levar na boa com todos, em nome da democracia. Peço pra rolar aquele disco antigo do Iron Maiden: “Run to the hills / run for your liiife” (“Corra pras colinas / corra pra se saaalvar”). Ainda bem que esse foi o fim de semana do heavy-metal. Já estou me preparando pra encarar o núcleo duro do jazz na próxima.   
©
Abrão Brito Lacerda

14 07 17

segunda-feira, 10 de julho de 2017

TU ES PLUS BELLE QUE LE CIEL ET LA MER: Un poème de Blaise Cendrars


Feuille de titre de Feuilles de Route avec dessin de Tarsila do Amaral.

            C’était en 1983, je crois. J’étais chez un ami traducteur, avec qui je passais des heures à brûler des joins, essuyer des scotchs et rouler les mots à propos de tout et de rien. Une échappée belle dans sa bibliothèque et j’en suis sorti avec un petit livre, la taille d’un paquet de cigarette; j’ai commencé à lire au hasard – une page, deux pages... et, tout de suite, cette merveille :

Tu es plus belle que le ciel et la mer
Quand tu aimes il faut partir
Quitte ta femme quitte ton enfant
Quitte ton ami quitte ton amie
Quitte ton amante quitte ton amant
Quand tu aimes il faut partir

Le monde est plein de nègres et de négresses
Des femmes des hommes des hommes des femmes
Regarde les beaux magasins
Ce fiacre cet homme cette femme ce fiacre
Et toutes les belles marchandises

II y a l'air il y a le vent
Les montagnes l'eau le ciel la terre
Les enfants les animaux
Les plantes et le charbon de terre

Apprends à vendre à acheter à revendre
Donne prends donne prends

Quand tu aimes il faut savoir
Chanter courir manger boire
Siffler
Et apprendre à travailler

Quand tu aimes il faut partir
Ne larmoie pas en souriant
Ne te niche pas entre deux seins
Respire marche pars va-t'en

Je prends mon bain et je regarde
Je vois la bouche que je connais
La main la jambe l'œil
Je prends mon bain et je regarde

Le monde entier est toujours là
La vie pleine de choses surprenantes
Je sors de la pharmacie
Je descends juste de la bascule
Je pèse mes 80 kilos
Je t'aime

Blaise Cendrars, Feuilles de route, 1924.


            J´ai eu le coup de foudre. Sur la couverture, on lisait: “Feuilles de Route, Tome I. Le formose”; et dans la page de titre: publié à Paris en 1924 par Au Sans Pareil.  C’était donc une édition originale. J’ai demandé à mon amie comment il l’avait trouvée et il m’a répondu qu’il  avait accepté d’en faire la tradution à condition d’utiliser la première edition, “pour le charme et pour les illustrations de Tarsila do Amaral”. Et il est allé la chercher dans une bibliothèque privée à São Paulo! Quel  caprice! Je lui ai demandé de me la prêter à son tour et il a dit non; mais, à coup de joins et de scotchs, j’ai pu l’avoir pour en faire faire une photocopie au coin de la rue.
            Il faut dire que le livre de Blaise Cendrars s’accompagnait de son frère jumeau, le Pau Brasil d'Oswald de Andrade, publié aussi à Paris en 1924 par Au Sans Pareil et qui compte également avec les dessins de Tassila do Amaral, artiste “moderniste” brésilienne et femme du poète. Les français ne connaissent probablement pas Pau Brasil (Bois Brésil), mais c’est un livre phare dans la poésie brésilienne. L’auteur y emploi de l’humour dans des vers libres et possède une sacré verve ironique, voir satirique et burlesque. Il a énormement contribué au “démontage” de la vieille poésie brésilienne, avec ses modèles parnasiens figés et, par ce fait, de toute la société positiviste et patriarcale qui lui servait de support.

Église de Sabará, Minas Gerais. Dessin de Tarsila do Amaral pour Feuilles de Route.

            Quelques années plus tard, j’ai eu la chance de redécouvrir ce poème dans la voix émouvante de Bernard Lavilliers, dans son álbum “If...” Le coup de foudre est revenu. C’était encore l’époque antediluvienne des bandes cassettes, j’en avait eu une comme cadeau de la part d’une amie d'Avignon (Qu’es-tu devenue, Betty Blue?). Le tout se completait par un autre álbum tout vapeur, le “Mon Mec à Moi” de Patricia Kaas. Grâce à ce coup du hasard, la vision que j’avais eu jusqu’àlors de la chanson française à tout de suite changé. J’ai été obligé d’admettre quelle s’était modernisée sans perdre son charme lyrique et sa penchée vers la littérature.
            Revenant sur le poème de Blaise Cendrars, ce que j’aime le plus, c’est cet appel à la liberté, ce désir de partir, non en avion comme aujourd’hui, mais dans des odyssées de plusieurs semaines sur mer. Ça devrait laisser pas mal de temps pour lire, faire de la gymnastique, sécher quelques bouteilles et draguer une ou deux fillettes. Une vraie aventure!
            Et puis, par terre, en train, les autocars étant encore rares à l’époque. C’est comme ça que Blaise Cendrars a joint le groupe “moderniste” de São Paulo en 1922 dans la fameuse Voyage de “Découverte du Brésil”, à travers les villes barroques d’ Ouro Preto, Mariana et Sabará dans le Minas Gerais. L’éfémeride est enregistrée dans la dédicace de Pau Brasil, faite par Oswald de Andrade à son ami suisse: “À Blaise Cendrars, à l’occasion de la découverte du Brésil”.
            Les imbrications historiques et littéraires entre les deux ouvres sont nombreuses, je voudrais souligner le goût partagé du “vers libre”, alors en plein essor, représentant par excellence de cette poésie qui côtoie la prose et se voit comme la chronique de la modernité. Vitesse et liberté, lyrisme et carnet de route, la “tentation de la prose” dont nous parlait Georges-Emmanuel Clancier s’avère un chemin sûr et généreux.
            Aimer, c’est partir, aller à la rencontre du monde, saisir sur place cet “organisme dépositaire de la vie”, selon la formule presque secrète de Mallarmé. Même à une époque où les drônes font le travail de nos rêves de survoler les forêts, les villes, les montagnes, voire les pôles, comme ça, à la porte de la main, comme s’il suffisait de tendre le bras pour tout toucher, l’appel au dépaysement n’a rien perdu de sa force. Le désir de la poésie et un désir d’amour et de reencontre par excellence. Alors, partons!
©
Abrão Brito Lacerda
08 07 17
              



sexta-feira, 16 de junho de 2017

MINHA MÃE COMO NUNCA A VI ANTES

         

            Inspirado em um artigo do New York Times (“Our mothers as we never saw them”, Edan Lepuckl*), resolvi fazer um retrato diferente da minha mãe, buscando recuperar um pouco do seu tempo de juventude, que já vai bem longe, perdeu-se na fumaça do início do século vinte, com suas inovações, revoluções e guerras.
            O texto de Edan Lepuckl é parte de um trabalho desenvolvido pela autora, no qual ela solicita a algumas mulheres que falem de suas mães antes de se tornarem mães, tendo como ponto de partida uma foto ilustrativa. O objetivo é oferecer uma mirada para além do mito da mãe, fazendo aparecer a pessoa em si, com sua personalidade sonhadora, alegre, tímida, ousada, atraente, sexy... Ao mesmo tempo em que se busca tecer interações com o espírito da época, sua história e sociedade.
            Ao ler, lembrei-me desta foto de minha mãe (mostrada acima), provavelmente o único registro que ficou de sua vida de solteira. É uma foto muito bonita, como podem ver, ainda que esmaecida pelo tempo. No verso, está cuidadosamente registrada, primeiramente a lápis e depois sobreposta a tinta, em letra caprichada, a data de “11 de Agosto de 1940 com 18 Annos de idade”.
            É a foto de um jovem tranquila, que nem sequer sonha com a longa existência que terá pela frente e a levará a atravessar o século XX até chegar a este início de século XXI, mais precisamente até maio de 2013, quando faleceu aos 92 anos de idade, deixando 11 filhos, 30 netos e vários bisnetos.
            Ao observá-la, podemos notar: a postura firme; o corpo pequeno, mas robusto e bem proporcionado; o equilíbrio perfeito sobre os sapatos de salto médio, típicos de então; os cabelos, não muito compridos, o que denota praticidade, atados atrás; o olhar tranquilo, confiante e ligeiramente melancólico; a comissura dos lábios que esboça um sorriso misterioso; o recato das mangas do vestido e do cumprimento do mesmo; um único toque de coquetterie no broche, o qual se destaca junto à trama do bordado da gola e constituía possivelmente o único item reluzente do seu look, uma vez que ela não usa brincos, colar ou anéis.
            Ela tinha acabado de completar 18 anos. Sua vida até então não tinha sido nada fácil e podia em muitos aspectos ser comparada à de uma gata borralheira. Ao nascer, em 6 de agosto de 1918, em um sítio de Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do salto, município de Itarantim, Bahia, estava destinada à doçura de uma vida embalada pelas atenções de uma mãe carinhosa e uma pai bondoso.  No entanto, sete anos mais tarde, ficou órfã de mãe e o avô Elias se casou pela segunda vez, buscando sem dúvida uma companheira que o ajudasse a criar os filhos. Ledo engano, pois esta se revelou uma megera de espírito de porco, autoritária e ciumenta. Como no conto dos irmãos Grimm, a madrasta tinha duas filhas, feias e preguiçosas. Elas ficaram tomadas de ciúmes de “Nenen” (apelido de minha mãe) e passaram a tramar contra ela. Em consequência, a enteada foi tratada com desprezo e obrigada a assumir o serviço da casa.


            No sítio do vô Elias, produzia-se rapadura e açúcar mascavo, além de outros gêneros de primeira necessidade. Pelo que minha mãe nos contava, essas atividades faziam parte da tradição da família, o que é coerente com a história do Brasil, uma vez que muitos Brito se instalaram no Nordeste durante o Ciclo do Açúcar (século XVII) e depois se espalharam pelo resto do país. Consta dos registros que alguns Brito ascenderam socialmente em Portugal e passaram a ostentar títulos nobiliárquicos, mas não creio que tenha sido dessa linhagem que originou nossa família.
            De qualquer modo, o sobrenome é carregado de significado. Brito vem do latim “brittus”, que designa “pedra” ou “britta” e simboliza durabilidade, força e resistência. Tomando essas características de empréstimo, poderíamos dizer que a jovem da foto acima olha confiante para o futuro porque possui intrinsecamente tais atributos, os quais a permitirão enfrentar as provações de uma larga existência, e serão igualmente transmitidas a sua descendência.
            Em contraponto à árdua lida do campo, o dia a dia no Sítio dos Trabalhos era pontuado pelas festas do calendário católico, além dos bailes de sanfona típicos do interior do nordeste. Foi crescendo nesse ambiente que “Nenen” descobriu o seu maior prazer na vida: dançar. Não será esse o segredo oculto por trás do seu sorriso jovial e misterioso à la Mona Lisa? Com um pouco mais de imaginação, podemos também perceber um movimento que se inicia na perna esquerda e se estende pelo quadril até a cintura  - não seria ele um sutil convite à dança?
            Além dos bailes, tinha o rádio, o grande veículo de comunicação da época. Circunscrita a um mundo fechado em si mesmo, uma espécie de pequeno feudo, seus sonhos de menina-moça eram embalados pelas modinhas que chegavam através das ondas flutuantes do rádio. Muitas dessas marchinhas nunca saíram de sua memória, como: “Oh jardineira por que estás tão triste, / mas o que foi que lhe aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / deu dois suspiros, / e depois morreu.” Ela interpretava esta canção com um “r” vibrante (Oh, jaRRdineira...!) e uma voz suave de mezzosoprano. 
            Um ano depois de tirada esta foto, ela conheceu meu pai. Ele era filho de um fazendeiro do município vizinho de Maiquinique e pernoitou no sítio do vô Elias durante um transporte de gado. Mas esta é outra história, é a que dá início ao mito da mãe, e não pode ser contada aqui.
___________
            (*https://www.nytimes.com/2017/05/10/opinion/our-mothers-as-we-never-saw-them.html)
©
Abrão Brito Lacerda
15 06 17


segunda-feira, 29 de maio de 2017

PRÁTICA BUDISTA EM TIMÓTEO, MG


Fundação do Bloco Sol no Coração, em 03 11 13, em Timóteo, MG.

         Nos últimos anos, tem crescido de forma contínua o interesse pelo Budismo, seja de parte de pessoas que buscam obter mais informações sobre esta que é a quarta religião mais popular do mundo, seja de parte de quem já se identifica com sua filosofia humanista e deseja iniciar a prática. No segundo caso, o mais natural é procurar um centro ou comunidade próxima – e ter a boa sorte de encontrar uma.
         No Vale do Aço em Minas Gerais, podemos contar com a mais antiga comunidade de praticantes do estado, desenvolvida a partir de 1962, através de imigrantes japonesas que vieram trabalhar na Siderúrgica Usiminas. Em 1972 foi criada oficialmente a comunidade pioneira do Bom Retiro, na cidade de Ipatinga. O desenvolvimento desde então tem sido vigoroso, e o Budismo de Nichiren Daishonin, tal qual praticado pela Soka Gakkai, tem conquistado cada vez mais adeptos na região.
         Em Ipatinga está situado o Kaikan, centro regional, e dezenas de Blocos - grupos de praticantes que se reúnem regularmente em casa - encontram-se espalhados pelos municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Caratinga, Dionísio e Governador Valadares.
         Devido à proximidade geográfica e/ou afinidade, muitos membros de Timóteo frequentam blocos de Ipatinga; outros integram o Bloco Sol no Coração, criado no final de 2013 para aglutinar os praticantes locais.
         Graças a seu empenho pelo Kossen Rufu (promoção dos valores da paz, cultura e educação), os centros da BSGI (abreviatura para Brazil Soka Gakkai International), como o Bloco Sol no Coração, promovem uma grande abertura em relação à comunidade, tornando o Budismo acessível e sem mistérios.
         Ao promoverem esse diálogo, atendem ao desejo manifesto do Buda de que o seu ensinamento, uma vez compreendido e aceito, seja naturalmente transmitido a outros, sem distinção de qualquer natureza.

Reunião do Bloco Sol no Coração em Timóteo, MG.

         A iniciação à prática budista não exige pré-requisitos e deve ser vista, quando a oportunidade se apresenta, como um fator de imensa boa sorte, uma vez que ela abre as portas à mais profunda e perfeita ferramenta para penetrar os mistérios da mente e do espírito humanos e permite dissipar a escuridão da ignorância.
         Pratica-se o Budismo, antes de mais nada, para se ter energia para superar os desafios da vida e ser feliz. Isso é possível através da devoção à Lei Mística ou Myoho Renge Kyo (pronuncia-se “Miorro rengue kiô”), que é o verdadeiro fundamento de todos os fenômenos, a realidade imutável que permeia o mundo em constante transformação.
         Devoção aqui significa uma opção consciente em situar os ensinamentos do Buda como o eixo de sua vida e pautar sua conduta e sua ação por esses ensinamentos. É importante lembrar que a Lei Mística não é uma abstração teórica e nem supõe a existência de uma entidade sobrenatural que governa a vida dos seres de fora para dentro. Ela permeia todos os fenômenos e todas as formas de vida e se revela quando se desperta o Estado de Buda inerente – ou seja, ela é parte integrante de nossa natureza, basta ativá-la. Se vivermos alheios a ela, obteremos pouco benefício, mas se a tornarmos o centro de nossa existência, os benefícios serão ilimitados. Ela é a fonte da sabedoria e da energia vital que nos permite levar uma existência virtuosa, feliz e próspera, em nosso benefício e de todas as outras pessoas.
©
Abrão Brito Lacerda
28 05 17

         

quinta-feira, 25 de maio de 2017

RUÍNAS



         Na canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso diz que, no Brasil, "tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Considero esta definição perfeita e a incorporei a minha própria visão de nosso país. Agora, vejo que outros compartilham a mesma ideia, que o Brasil é uma máquina trituradora de coisas e conceitos, que parece estar em constante movimento, embora não saia do lugar. 
            Há um afã em recuperar o atraso, então faz-se tábua rasa de tudo, a natureza (exuberante só em alguns lugares), os monumentos, os costumes, a culinária, a língua, tudo sofre uma crescente invasão alienígena e se desfaz. Uma palavra do inglês deve ter mais valor do que seu equivalente em português, pois já não nos damos mais ao trabalho de traduzir. Adoramos colocar nossa identidade em cheque, é um debate nacional sem fim, imitamos descaradamente o que outros criam, somos os reis da gentileza e da paródia. Temos complexos aos montes, somos macunaimas, antropófagos e capitalista selvagens, tudo ao mesmo tempo. Até a escala malévola do cada vez pior ganhou foros permanentes por aqui e a expressão “fundo do poço’ virou uma ruína semântica.
            O lixo, assim como o luxo, nos pertence; o luxo que é lixo só,  a luxúria do lixo e o lixo futuro andando de mão em mão, no aguardo do gesto viciado: o presente cuidadosamente embrulhado é o papelão que alimentará o monturo. Como se não bastasse, queimamos etapas, por exemplo, o canteiro de obras que constrói o prédio ultramoderno lança seus rejeitos no terreno baldio ao lado, unindo destarte, sem nenhum lapso temporal, o futuro e o passado.  
            Essas observações encontram ressonância no livro Dictionnaire Amoureux du Brésil (“Dicionário Amoroso do Brasil”), do jornalista francês Gilles Lapouge*. Trata-se de uma obra  que aborda a sociedade e a história brasileiras sob a forma de verbetes, como um verdadeiro dicionário, e nos oferece uma análise interessante, honesta e com perfeito conhecimento de causa. Gilles Lapouge demonstra amar de verdade o Brasil, país que conhece muito melhor do que qualquer um de nós, pois já esteve de norte a sul, leste a oeste, viajando a trabalho ou lazer. 
          O que não o impede, antes o autoriza, a lançar em filigrana sua ironia de observador externo sobre nossas mazelas e nossos absurdos. Através de seu texto eloquente e poético, fica ainda mais evidente o contraste que cultivamos em relação ao mundo “civilizado”. Se o Brasil é bonito enquanto exótico (ou uma gigantesca ruína, como ele diz), nossa bagunça e nosso improviso são demais para o seu pensamento cartesiano. E aqui cabe um “mas”: décadas de convívio com a gente tupiniquim, mais anos de pesquisa para a confecção do livro, não o ajudaram muito a compreender nossa malícia perversa.
            O “dictionnaire” tem vários verbetes excelentes; para o momento, atenho-me àquele denominado “Ruínes”, no qual ele declara: “O Brasil é uma vasta ruína. Esta é a razão de ele ser tão bonito, tão emocionante. Ele tem em seus estoques as ruínas mais variadas, e pode te oferecer várias outras amostras, conforme seu gosto, como se você estivesse escolhendo um produto no catálogo de uma loja: ruína nobre ou trivial, terrível ou comovente, antiga ou fresca, ruínas magníficas e suntuosas.” (p. 573)
           O autor leva tão a sério nosso gosto pela decadência que chega a afirmar que existe um propósito invisível nessa mania nacional, sobretudo naquilo em que nós nos esmeramos, a saber, o que ele denomina de “fabricação de ruínas ordinárias”: a utilização de materiais de baixa qualidade e rapidamente degradáveis que provoca a deterioração precoce de nossas torres de vidro, concreto e aço. Enquanto em Lascaux ou mesmo em Atenas, observa, foram necessários milhares de anos para transformar em ruínas construções feitas com materiais muito mais frágeis, por aqui a decadência se faz sentir numa questão de décadas.
            Ele se abisma com o fato de que alguns bairros centrais da cidade de São Paulo, onde foi morar em 1957, tenham passado da condição de prestigiosos a abandonados no curto período de 50 anos. Com humor negro, constata que os imóveis envelheceram na mesma escala que ele, e se alegra em perceber que sobreviveu a muitas outras coisas por aqui!
            Em contrapartida, faz questão de frisar e refrisar, no Velho Continente, não apenas monumentos isolados, mas cidades inteiras são renovadas de modo a perdurarem através dos séculos como símbolos da história, identidade e cultura de seus povos, razão pela qual apresentam hoje um aspecto mais novo do que quando foram construídas! Lá o antigo é novo, aqui o novo já é ruína.
            E logo chegamos á conclusão que tudo não passou de somenos e voltaremos ao costumeiro barulho das máquinas – de construção e demolição.

             (* Gilles Lapouge, Dictionnarie Amoureux du Brésil, Plon, 2011)
©
Abrão Brito Lacerda

24 05 17


terça-feira, 2 de maio de 2017

CLUBE DOS AMIGOS DO JOHN


(Imagem da Web)

            O John é um cara popular. Pense em alguém com quatro mil, duzentos e trinta e um amigos no Facebook, que recebe visitas de segunda a domingo, topa farrinhas fora de hora, releva faltas e falsidades - esse é o John. Em contrapartida, os amigos se preocupam com sua vida sexual (ele está visitando a Catarina semanalmente?), com sua vida financeira (só não lhe emprestam dinheiro), com sua saúde (o John espirra e os amigos têm um resfriado).  Acontece que, ultimamente, tem pairado no ar a notícia de que o John pretende se mudar. De novo, mas desta vez para bem longe.
            Convocou-se uma festa para debater a grave situação e tomar as medidas cabíveis. Logo agora que ele pretendia fixar-se no interior, ganhar o pão honestamente e economizar para a idade...
            “O assunto também me diz respeito”, disse John, “apesar de vocês pensarem o contrário. Na verdade, tenho duas alternativas: a primeira é me mudar para o centro e abrir minha própria sala, a segunda é dar aulas em uma faculdade no interior de Goiás.”
            Os amigos propuseram:
            “Podemos procurar uma quitinete no edifício Maleta...  ou, quem sabe, em local mais nobre, como o bairro de Lourdes... um apezinho tipo single, com ônibus em frente?”
            “Ainda prefiro o interior de Goiás”, disse John com firmeza. “Posso assinar contrato na semana que vem.”

            Os amigos decidiram passar aquela história a limpo. Compreendiam a decisão, embora desconfiassem do motivo. Qual foi a surpresa quando descobriram que o álibi tinha nome, profissão e apelido: tratava-se de Louise, poetisa do interior de Goiás, também conhecida como Psycho Killer. O affaire entre os dois durava mais de ano, através de postagens tipo poèmes d’amour fou e contos eróticos em text.
            Marcaram mais uma festa para desmascarar o que lhes parecia falta de lealdade do amigo. Só que, dessa vez, o John tinha mudado de ideia, mais uma vez...
             “Um ap. no Maleta ou, quem sabe, no bairro de Lurdes, tem seu preço”, disse John. “E, sem a faculdade, não tenho como me bancar. Acho que seria justo ratear o valor do aluguel entre meus amigos queridos, em parcelas módicas, para não pesar no bolso de cada um. Prometo restituir com juros e correções assim que puder.”
            Diante da surpresa, acrescentou:
            “Do contrário, terei que me mudar para o interior de Goiás.”
            Os amigos continuaram em silêncio, se perguntando “aonde o John quer chegar?
            “Pensei em tudo”, prosseguiu John. “Vamos sortear por ordem alfabética a contribuição de cada um de vocês. Basta dar um passo à frente, pegar uma ficha nesta caixa” – John aponta para a caixa, estrategicamente colocada sobre uma mesa – e segurá-la para a foto...”
            Só uma mão se levantou. Foi o Vicente, que alegou não ter entendido bem.
            Será o fim do Clube dos Amigos do John?
©
Abrão Brito Lacerda
26/04/17
           


quinta-feira, 20 de abril de 2017

PEQUENO GLOSSÁRIO DE PALAVRAS DEFUNTAS OU ESQUECIDAS

 
(Imagem da Web)
                         
            As palavras têm cor, peso e sabor. Têm também suas histórias, mas em um universo de milhares de palavrinhas ou palavrões, das preposições aos substantivos, passando pelos advérbios e os verbos pretéritos, não nos damos conta da vida que pulsa por trás de cada uma. Elas surgem e desaparecem, alimentam os livros e as ilusões e dão estofo aos dicionários. Ainda que tivéssemos uma memória organizada como uma planilha excel, un hard disk ou um app, um glossário de impressões afetivas, não bastaria;  é preciso ainda inventar e reinventar, como o substantivo “idioteza” que invento agora para designar a mistura de idiotice com esperteza. 
            Que as palavras vivam como testemunhos de uma época, respirem o ar da atualidade e não se transformem em ruínas ou alimento para traças em alguma biblioteca. Assim, antes de lançar a última pá de cal e liberar espaço no driver, apresento este pequeno glossário de palavras ou acepções que antes se limitavam ao espaço da memória.  

GALINHOTA: ou carrinho de mão. Na fazenda onde me criei, tinha uma galinhota de metal com uma marca estampada na caçamba que muito intrigava a nós, meninos. Lia-se: “Formiga Minas”. Qual era a relação entre formiga e galinhota? Para nós, deveria ser galinha, o carrinho se parecia com uma, tinha dois pés e tinha o nome.  Só depois fomos entender que Formiga era uma cidade de Minas.

ALMOFARIZ: fiz questão de procurar no pai dos burros, ou seja, no Google.  “É um utensílio que serve para moer pequenas quantidades de produtos, por vezes misturando vários ingredientes, também chamado pilão ou modedor.” Ou seja, o nosso socador de alho. Miha mãe perguntava: onde está o almofariz? A palavra não teria sido guardada não fosse pelo som. E pensar que foi trocada por uma perífrase!

MÁQUINA DE ESCREVER: objeto pré-cambriano que permitia a seu usuário – um datilógrafo – produzir textos, tabelas, etc – através de um teclado. Deu origem ao verbo datilografar. Hoje pode ser encontrada em museus e em algum brechó do edifício maleta em Belo Horizonte.

DATILOGRAFAR: do grego "dáktylos", "dedo" + "graphein", "escrever", é o ato de escrever à máquina. Era, porque as maquinas foram substituídas pelos computadores e o verbo passou a ser “digitar”. Curiosamente, digitar vem de “digitus”, que é dedo em latim. Enquanto outras línguas, como o inglês (type), francês (frapper) e espanhol (teclear) mantiveram o mesmo verbo, nós nos “modernizamos. É o nosso desapego às tradições somado ao afã de transformar tudo em ruínas o mais rapidamente possível.

TEXTO: uma palavra rara desta seleção. Um texto era uma tampa de panela, geralmente fina, como as de alumínio ou esmalte, comuns antigamente. 

PIREX: um pires. O nome vem da marca de utensílios de vidro ultra-resistentes, que incluía pratos, xícaras, bandejas, formas e tigelas.   Pires tinha que ser pirex e pronto.

PUBA: é a massa da mandioca fermentada, utilizada na confecção de bolos, biscoitos e beijus. É feita com mandioca descascada e posta em um cocho de madeira com água para “pubar”. Enquanto a goma pode ser seca e guardada durante muito tempo, a puba deve ser usada ainda fresca, no que resultada o melhor bolo de “aipim” que existe.

TANGER: por para correr um animal, expulsá-lo. Tanger as galinhas quando estão dentro de casa, tanger os porcos do quintal. Significa também fustigar o animal ou golpeá-lo: tanger os jegues para que andem mais rápido.

RODA, RELHO, BOLINETE: três partes que compõem o conjunto da roda de ralar mandioca para fazer farinha. A roda possui uma ranhura por onde passa o relho, feito de couro, que transmite o movimento ao bolinete, uma casinha onde a mandioca é ralada. É operada por dois homens, cada um fazendo girar uma manivela.

PSÁ-PSÁ: um dia os meninos passam a se interessar por aquilo e começam a aprender um monte de nomes associados, verbos, adjetivos e interjeições. Psá-psá era uma forma codificada de falar de sexo sem se deixar notar. Geralmente, fazia-se acompanhar de um risinho irônico.

LANCE: “dar um lance” é uma expressão que nasceu com a minissaia. Quando a garota se inclinava um pouco demais, sentava-se sem a devida precaução, subia uma escada ou simplesmente levantava os braços, podia "dar um lance". Nessas ocasiões, a galera exclamava: "Brahma na jogada!"

BRAHMA NA JOGADA!: teve como origem um conhecido narrador de futebol dos anos 70. Para apresentar um convidado, comentar um lance ou anunciar os comerciais, ele repetia o bordão: “Brahma na jogada!”. Caída no gosto popular, a frase passou a designar qualquer coisa interessante que estivesse acontecendo, por exemplo, um "lance".

CAÇUÁ: esta existe nos dicionários. Trata-se de um cesto grande, comprido e com alças resistentes, geralmente feito de cipó, que é amarrado de cada lado de uma cangalha e serve para transportar gêneros. Com cara de caçuá é como você fica depois de dar uma grande mancada.

BUTE: a coisa mais amarga que existe, uma raiz que trata todos os males em uma só dose, pois quem experimenta não tem vontade de repetir.

AZEITE DOCE: o mesmo que azeite de oliva. Antigamente, era também usado como remédio caseiro, na composição de unguentos e garrafadas.

SEBO DE CARNEIRO: usado para untar os laços de couro e dar-lhes maior maciez e resistência. Os melhores paus de sebo também levavam sebo de carneiro. Ele é mais grudento que o Justin Bieber e não se solta nem com reza braba.

RURAL: Um carro utilitário antigo, fabricado pela Willys. Nas estradas de terra, com buracos e atoleiros à foison, só passavam mesmo jeep e rural. Ou carro de boi, que era o socorro da época. Quando a rural ou o jipe atolavam, chamavam o carro de boi para puxar.

JUMBAR: um verbo que nasceu de um insuspeito substantivo concreto e arquitetônico. Nos fundos da Moradia Borges da Costa em Belo Horizonte, havia o supermercado Jumbo, o maior da cidade, fonte dos desejos de todos os estudantes. Na falta de dinheiro, o jeito era "jumbar" alguns produtos, trocando as etiquetas. Alguns jumbavam até mesmo sem etiquetas. Acho que foi por isso que inventaram o código de barras.

DUNGAR, DUNGUISMO: Depois das decepções de 1982 e 1986, o futebol brasileiro retrocedeu para o estágio das retrancas tipo europeias e um jogador se tornou símbolo daquela estratégia pobre e de resultados medíocres. O dunguismo caracterizou o Brasil da transição para o governo civil, com seus correlatos, o peleguismo e a caretice.

FOCAR: declaro desde já a defuntez do verbo focar, que copiamos descaradamente do inglês e que hoje serve para designar quase tudo em português. Focar o texto, focar a atenção, focar no foco, ser focado e fazer coisas focadas, como esmagar sorvete na testa. Não demora a sair de foco, ser trocado por outro neologismo.
©
Abrão Brito Lacerda
19 04 17