segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BACK TO BORGES DA COSTA




         Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, tss... tss... - quem não conhece o poema de Casimiro de Abreu de algum livro de escola? Escuso os que desejam voltar aos verdes anos e sentir de novo o perfume de um mundo há muito tempo perdido; eu me contento em voltar à juventude, mais especificamente à época em que residi na Moradia Estudantil Borges da Costa em Belo Horizonte. Isso porque a Produtora Almôndega, através de projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, acaba de lançar uma campanha de financiamento visando a produzir um filme recuperando a memória do Borges, como era popularmente conhecido, e suas imbricações com a cultura da cidade e as transformações históricas do país no período 1980-1998.
            O Borges, ao qual viria se juntar em 1985 o MOFUCE, foi um espaço franco, construído e reconstruído pelas gerações sucessivas de estudantes e parasitas que por ali passaram e pode perfeitamente ser tomado como um espelho da época. Cada geração tem sua narrativa, a minha é a da segunda leva, a que sucedeu aos heróis da resistência, responsáveis pela ocupação do antigo hospital em outubro de 1980 e sua manutenção em mãos autônomas diante das sucessivas investidas da universidade no sentido de retomar o prédio e reintegrá-lo ao conjunto do Campus da Saúde.
            Um dos requisitos para se tornar borgeano era comprometer-se em defender a casa, o que existia mais na teoria, uma vez que o que de fato pesava na hora de ser aceito pela Assembléia Geral, órgão máximo de deliberação, ao qual os nomes dos novos candidatos eram subjetivos, discutidos e depois votados, era o apoio de uma determinada "ala". Com o tempo e a ocupação de novos setores abandonados do antigo Hospital do Câncer (o Hospital Borges da Costa), a população cresceu e se diversificou e resultou em algumas dezenas de rapazes e moças convivendo num melting pot tanto mais explosivo quanto facilmente cooptável pela libertinagem que grassava naqueles “loucos anos 80”. 
          Com efeito, no fim dos anos setenta e início dos anos oitenta  explodiu no Brasil uma bomba de efeito retardado, desencadeando a catarse que caracterizou nossa saída das sombras da ditadura, uma fúria pela vida aqui e agora, precariamente equilibrada entre a luta engajada e  o apelo hedonista. Enfim, os ventos que haviam movido a história em países democráticos sopravam nos tristes trópicos. 
            O Borges retrata um Brasil que, já urbanizado, se tornava metropolitano, com grandes fluxos de jovens pobres ou remediados do interior ou das regiões suburbanas migrando para o centro das grandes cidades, ou seja, para o centro da ação. Esses jovens embarcaram nas promessas da rave-revolução que tomou conta do país com o processo de redemocratização e a nova e abundante oferta de prazeres. Eram herdeiros em primeira ordem dos movimentos sociais armados de matiz estudantil-operário-marxista e dos hippies pacifistas e desbundados. O campo de experimentação era, no seu núcleo mais básico, seus próprios corpos e mentes. Ser careta significava buscar refugio nos fragmentos da velha ordem, não ser implicava em embarcar na trip e ter coragem de romper os próprios limites. 
            Foi uma época de efervescência criativa, sobretudo na música, com o surgimento do novo rock brasileiro, misturando punk e new wave, pau e pândega. Escolhida a trilha sonora, a festa não tinha hora para acabar, quando à rebeldia do ROCK AND ROLL se juntava a inflamável:

TCHAN! TCHAN! TCHAN!... COCAINE...

            As DROGAS merecem um capítulo à parte, a ser narrado com evasivas. Havia abundância delas e a baixo custo, quando não a custo nenhum: maconha, haxixe, cocaína, LSD, temperadas com fartas doses etílicas de tudo que servisse para tontear: vodca, cachaça, uísque, conhaque, cerveja. De preferência adquiridos modestamente através de uma hábil troca de etiqueta de preço no conhecido supermercado Jumbo (atual Extra) localizado ao fundo da moradia – de onde originou esse verbo exclusivamente(?) borgeano: “jumbar”.

SACANALIA JUVENILIA

       Ah, o SEXO! O oloroso, escorregadio e suntuoso tesão do pós-Women’s Liberation Front e pré-aids. Pode parecer sacanalia à primeira vista, mas era apenas juvenilia descoberta, brincadeira, inocente, de crianças crescidas.
         Às trincheiras do amor todos sobreviveram, mas não ao efeito orloff, pois, assim como depois da tempestade vem a enchente, a trip borgeana teve o seu:

DARK SIDE

         Que merece o lugar de epílogo.
         Na viagem para dentro de si mesmo, alguns esqueceram a passagem de retorno, propositadamente ou não, outros chegaram até mesmo a se lançarem debaixo do trem, pondo fins trágicos a existências por vezes carregadas de solidão e angústia. São para eles as últimas palavras: a queda, a corda, o ônibus...
         Lençóis brancos cobrem os corpos dos que ficaram no caminho. E os versos do poeta borgeano Raimundo Nonato como lápide:

            “Para que servem os HERÓIS
            Senão pra o povo carregá-los
            Em cordas e lençóis?
            
            “Para que servem os GIRASSÓIS
            Senão para brotarem
            Na cova funda dos heróis?”

©
Abrão Brito Lacerda
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