segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DOIS AMIGOS

       
(Imagem: www.peterexpress.or)
       Cândido Pierrot atravessou o deserto em lombo de camelo no intuito de reencontrar o grande amigo de infância, que tinha resolvido trocar o sertão pela Arábia. A marcha dura do dromedário, o sol implacável, a desconfiança dos beduínos, nada o desencorajou. Após dias de viagem, chegou a um oásis onde brotava água fresca e as tâmaras frutificavam em abundância. Mas os guardas da tribo, ao vê-lo sem túnica e turbante, tomaram-no por um espião, prenderam-no e levaram-no ao chefe.
         - Que fazes aqui, galego? Espionando nossas fêmeas? – indagou o xeique, batendo com o cajado de osso de camelo no chão.
            Pierrot ergueu os olhos discretamente. O xeique estava sentado em um trono de madeira coberto com pelo de camelo. “Tofu”, pensou. “Se não encontrar um álibi convincente, serei servido no repasto da noite. Ou talvez me amarrem no rabo de um camelo bêbado e o soltem pelo deserto. Se tiver escolha, vou preferir ser servido no jantar – com bastante pimenta. De qualquer modo, vou manter os olhos baixos, para que ele não me tome por um insolente.”
            - O que buscas nas terras de Alá, forasteiro de pele pálida? – repetiu a pergunta o xeique, batendo mais forte com o cajado.
            Pierrot continuou mudo – como responder, se nada entendia do idioma badawi?
            - Cortem a língua desse infiel! – ordenou o xeique.
            Pierrot sentiu o sangue gelar em suas veias. Seu único recurso foi gritar:
            - Se avexem, barbudos, me soltem!
            O xeique ficou paralisado. Mirou o estrangeiro por algum tempo, fez um gesto para que os guardas o soltassem, ergueu-se e caminhou até ele, falando discretamente:
            - Ó xente! Você fala português?
            Pierrot sussurrou, quase um suspiro:
            - S-sim, acabei de chegar na caravana da “hora do calango tostado” (por volta das 15h00). S-sou de Sobral, no Ceará.
            - Arriégua! E como veio parar aqui?
            - Estou procurando um amigo que se mudou para cá há muitos anos.
            - Ele também é de Sobral?
            - Com certeza. É por isso que estou aqui. Tenho uma carta para ele.
            - Carta? Aqui no deserto só usamos Whatsapp e wi-fi.
            - Foi a namorada dele quem escreveu antes de ele se mudar para cá, mas não teve tempo de entregar.
            O xeique ergueu o cajado e deu nova ordem:
            - Tragam água para este homem! Deem-lhe banho, sopa de leite de camela com lentilhas e roupas limpas! Levem-no depois para uma tenda onde descansar!

            Ao cair da noite, estando Pierrot bem instalado numa tenda de couro de camelo, o xeique apareceu, acompanhado de uma mulher e duas crianças. Pierrot inclinou-se em respeito.
            - Você está bem melhor – disse o xeique, demonstrando bom humor. – Quando chegou, estava fedendo feito um bode do Cariri.
            - Obrigado por me salvar, isto é, por não me deixarem cortar a língua. Você fala português com sotaque nordestino...
            - É que também sou de Sobral no Ceará. Cheguei aqui há vinte anos e comecei a negociar com camelos, me dei muito bem, me casei com uma berbere e agora sou o chefe do Oásis de Jamil Arratab (Camelo Molhado, em árabe). Meu nome é Gervásio Comodoro.
            - Então você é...
            - O amigo que você veio procurar!
            Ainda não sabiam como se portar um com o outro, se formalmente ou à moda antiga.
            - Onde está a carta?
            - Aqui!
           O xeique abriu a carta, ainda perfeitamente selada, leu-a em silêncio: “Gervásio, agora que você está prestes a partir, tenho que lhe confessar que amo o seu melhor amigo, Cândido Pierrot. Peço perdão por tê-lo traído.”
            - E a Marcela?
            - Ela agora é minha esposa.
        Nesse momento, a mulher e as crianças, que tinham ficado do lado de fora, entraram na tenda.
            Os dois amigos se levantaram e trocaram um longo abraço.
©
Abrão Brito Lacerda

26 10 16

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ABAIXO A DEPRESSÃO!



         O Circo Brasil continua em turnê, com palhaços e engolidores de propina, mas a plateia não sai do tédio, o Ibope acaba de informar que, no quesito aceitação, o presidente Mordomo de Frankstein empata com sua antecessora, a Mulher Sapiens.  Nem a comédia pastelão Seis por Meia Dúzia - na qual os aliados de ontem trocam insultos e tortas na cara - empolga as multidões. Foi decretada a depressão oficial!
         Sem a criação da bolsa classe média, os avanços sociais estarão comprometidos e metade dos brasileiros não conseguirão mais pagar a aposentadoria da outra metade. Para os detentores de outras bolsas, poderia ser criada a bolsa trabalho. É a bolsa ou a vida!
         Em meio às críticas ao baixo astral federal, o palácio do Jaburu convocou o grande chefe Atabaque em caráter de urgência. Para quem não lê o Amazonas News, informo que o cacique Atabaque é o mago das fórmulas milagrosas e de baixo custo e, ainda por cima, 100% nacionais, não precisa pagar royalties.
         A conversa se deu através de um intérprete da língua Mamirauá:
         - Chefe Atabaque, disse o presidente-mordomo, temos um déficit maior que o orçamento do senado, mas não é culpa minha, eu não sei de nada, o Lula é quem sabe.
         Grande chefe acendeu o cachimbo da sabedoria:
         - Consultei o espri de Macunaimá. É preciso decretá o Braxit, a separação de Brasília da República Federativa do Brasi.
         - E como vamos fazer para abrigar os refugiados do executivo, legislativo e judiciário?
         Grande chefe soltou uma baforada:
         - O Brasi pode aderi ao Reino Uni na grande aventura “Perdidos no Atlântico”.
         - Isso vai gerar uma guerra civil, chefe Atabaque, o sangue dos mártires vai cobrir as páginas do Facebook.
         - Chegou a hora de fritá sarapaté! A cobra vai fumá!...
         Um assessor cochichou ao ouvido do presidente-primo-do-drácula, ele tossiu e olhou firme para baixo, procurando demonstrar confiança:
         - Metade da elite fugiu pra Miami após a vitória do Lula, a outra metade embarcou para comemorar a queda da Dilma. Quando toda essa gente tiver obtido o Green Card, vai pedir visto de entrada para seus parentes e derentes, além, é claro, de seus jardineiros, entregadores de pizza e suas passadeiras, babás e empregadas domésticas; em pouco tempo, teremos um estado de São Paulo de riqueza e prosperidade florescendo em terras americanas...
         Grande chefe apagou o cachimbo no cinzeiro presidencial.
         - Cacique Atabaque, ninguém leva! Nós sê da tribo Mamirauá. Nós tem wi-fi, tapioca e whiski contrabandeado. Nós  não tem casamento civi nem religioso, nós não tem divórci. Vamo declará independência do Brasi, fritá sarapaté, botá a cobra pra fumá!
         Tupy or not tupy? Não temos medo do sósia do Zé do Caixão, cacique Ataque é nosso rei!
        
©
Abrão Brito Lacerda
04 10 16