segunda-feira, 27 de junho de 2016

OUVI NA RUA



            Tá difícil ler os jornais. É tanta notícia cabeluda que dá vontade de gritar como na música de Sérgio Britto: “Pare o mundo que eu quero descer!” Nem o Facebook escapa ileso, agora até o Mark Zuckerberg, seu criador, passou a acessar a rede com a câmera tapada com fita crepe - para não ser vigiado!
             Tem hora que é preciso fugir das mídias que tentam nos governar e ir ver a gente em redor, gente comum – oh yeah! Como diria um amigo – como os que cruzam comigo quando atravesso a faixa de pedestres em direção à padaria.
            Passo pelo ponto de táxi. Alguém grita para o taxista, escorado no carro:
            - Sebastião, não fica olhando para cima, vai cair “reboque” no seu olho!
            Sebastião, o taxista, é um grande barbeiro. Peguei seu táxi algumas vezes, mas tive que parar quando ele faltou entrar debaixo de um ônibus em uma esquina! E não é diferente dos outros taxistas da cidade, todos aposentados e alguns já sem bons reflexos para a direção.
            Na falta de passageiros, Sebastião fica olhando os operários em cima do andaime. E não é que caiu reboco de verdade? Alguns pedestres que estavam passando e imitaram o gesto de Sebastião saíram esfregando os olhos. Ele só teve o trabalho de limpar as lentes dos óculos.
            Na frente da Drogaria Pacheco, um senhor de chapéu me para para pedir informação:
            - É aqui o Pacheco?
            - A Drogaria Pacheco? – É sim, senhor.
            Ele me estende um papel, parecido com uma receita, mas que é, na verdade, um recado: “Dr. Pacheco, galeria Art Center.”
             Tenho que lhe explicar:
            - O senhor está procurando o Dr. Pacheco, dentista. Siga em frente, depois vire à direita, prédio da esquina.
            Oh yeah! No interior tem dessas coisas.
(Imagem: ouvinasruas.tumblr.com)

            Na frente da casa lotérica tem um caminhão da “Transeguro” fazendo coleta de valores. Dois agentes estão postados, fuzil na mão e olhar de 007, um na frente e o outro atrás do carro forte. De repente, o motorista dá marcha a ré e um deles é atingido na bunda! Eu achava que essa era uma profissão arriscada apenas nos filmes de Hollywood e nas crônicas do caderno B.
            Quando estou de volta, quem encontro na faixa de pedestres? Dra. Narita, a aluna que cancelou a aula e me permitiu a escapada para o lanche:
            - “Bofessor”, “Dô” com uma rinite daquelas. Não consigo nem “balar” direito.
            - É verdade, você tá com a cara constipada.
            - “Tibe” que cancelar meu “blandão” no hospital.
            - Tem que se cuidar, os pacientes precisam de você.
            - A gente “gansa” de “domar” antialérgico.
            - Já foi ao médico, doutora? – digo, só pra descontrair.
            - Que isso! “Dô” fugindo de médico!
            Tem explicação?
©
Abrão Brito Lacerda
26 06 16



segunda-feira, 13 de junho de 2016

O BUDISMO E A RELIGIÃO DO SÉCULO XXI


(Imagem: bonnesimages.com)


          O cientista social francês Paul Jorion lançou recentemente um livro (Le dernier qui s’en va éteint la lumière, “O último a sair apaga a luz”, Fayard, 2016) em que fala do iminente desaparecimento da espécie humana, diante da monetarização da vida e da  consequente conversão de seus diferentes aspectos em simples unidades contábeis. Como as máquinas já estão se tornando mais performáticas do que as pessoas em vários campos, diz ele, isso representa uma real ameaça. Em contrapartida, ele propõe a solução científica de uma religião “ateia”, de algum modo semelhante ao positivismo de Saint-Simon no século XIX (do qual herdamos a divisa “ordem e progresso” de nossa bandeira).
            Esse recurso à religião diante de uma situação limite é sintomático, já que a necessidade de uma contrapartida espiritual aos desafios do terceiro milênio é defendida por muitos pensadores e humanistas. E todos chegam à mesma conclusão: o homem pós-moderno necessita tanto da religião quanto o homem antigo, mas ainda sofre da mesma confusão e ignorância quando se aproxima desse conhecimento.
            Visto do Ocidente, a equação não tem uma solução satisfatória, restando o “ateísmo” defendido pelo cientista acima, coisa já experimentada e abandonada no passado. Como o ateísmo só existe pela afirmação daquilo que nega, ou seja, Deus,  o ponto de vista do cientista se lastreia na existência de um ser transcendental, de um pai criador do qual tudo emana, o que é intrínseco ao modo de pensar ocidental.
             Ao olharmos para o Oriente, encontramos outra perspectiva.
            O Budismo, por exemplo, filosofia surgida na Índia a partir dos ensinamentos do príncipe Sidarta Gautama ou Sakyamuni, o Buda, oferece uma visão profunda,  universal e ao mesmo tempo prática do problema humano, sem recorrer  a entidades supra-naturais ou a argumentos contrários à razão e à lógica. Foi para ajudar as pessoas a superar seus sofrimentos fundamentais, libertá-las das ilusões e lhes proporcionar uma felicidade duradoura que o Buda empreendeu sua obra, após se iluminar para a verdade inerente à existência. 
            Após quarenta anos de pregação em que procurou adaptar seus ensinamentos à capacidade de seus ouvintes,  ele ensinou o Sutra de Lótus da Lei Maravilhosa, ou Lei Mística, Myoho Renge Kyo em japonês, que contém a essência da verdade para a qual se iluminou. O título desse sutra encerra uma metáfora da lei causal que sustenta a existência de todos os fenômenos do universo e simboliza, ao mesmo tempo, a energia vital que os move e dá coesão. O que isso tem de relevante para o nosso tempo?
            Em primeiro lugar, a revelação da vida eterna do Buda e da condição de Buda inerente a nossa existência. Ele explica que seu verdadeiro despertar para a sabedoria não aconteceu tal qual consta em sua história de vida, ao sentar-se em medicação profunda sob uma árvore, mas que ele vem do infinito passado e se perde no início dos tempos.  Ou seja, sua sabedoria vem da vida cósmica e evoluiu com ela.   o Buda, ser, apenas  compreendeu uma sabedoria que faz parte do universo e é atemporal, eterna. 
            Não haveria consequências maiores para as pessoas comuns se o Buda não revelasse que essa mesma sabedoria é inerente a todos os seres, e que seu trabalho consiste em “abrir”, “despertar”, “induzir a entrar” nesse mundo vasto e desconhecido. Onde o Buda poderia ser considerado sobre-humano, encontra-se sua biografia e seu exemplo de vida, onde ele se iguala a nossa condição mortal, surge a transcendência na forma de um pensamento que nos liga à energia eterna do universo..
            Evidentemente, a Lei Mística não representa um conjunto de preceitos e regras, típicas de uma lei. Ela é a expressão figurada da verdade para a qual o Buda se iluminou e quer tornar acessível a todos.  Como é impossível expressá-la com palavras, o Mundialmente Reverenciado valeu-se de uma metáfora, que representamos como o Myo Ho Renge Kyo.
            Essa visão é melhor compreendida quando se considera que, para o Budismo, o ser e seu ambiente não se separam, do mesmo modo que dentro e fora, sujeito e objeto constituem dois aspectos de uma mesma coisa. Nós somos, então, o universo em miniatura, estamos imbuídos de uma energia infinita, para a qual, no entanto, temos que nos despertar. Pois uma caverna permanecerá obscura por milhões de anos até que o sol nela penetre
           Ao enfrentar a realidade da vida material sem desconectá-la da vida espiritual, o Budismo estimula a busca e a reflexão.
            O Buda foi um grande contador de histórias, parábolas e símiles e deveria possuir uma voz profunda e de longo alcance, como consta em alguns testemunhos. Mas isso é objeto para outra crônica.
©
Abrão Brito Lacerda
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