sábado, 28 de maio de 2016

MISTÉRIOS DA CULTURA

(Imagem: observatoriodaidentidade.org.br)

            Depois da celeuma em torno da extinção e posterior recriação do Ministério da Cultura, parece que a questão da cultura, ou a falta dela, voltou à tona no Brasil. Seja pela capacidade de mobilização demonstrada pelos artistas, seja pela conotação política do ato, caberia perguntar de que cultura se está falando, num país onde poucos têm acesso a ela.
            É ponto pacífico que a cultura fornece coesão e identidade a um povo.  Ela é espontânea, mas não aleatória e, assim, todos os países criam meios para promovê-la. Com exceção dos Estados Unidos, onde o sistema é descentralizado para evitar uma “cultura oficial”, os demais países divulgam uma cultura nacional.
            O sistema americano funciona muito bem, pois as comunidades de bairro (art districts) e as organizações privadas se encarregam de tudo: orquestras, bibliotecas, museus – há noventa e três milhões de americanos que contribuem de forma voluntária, sobretudo para a arte.
            Na Europa, o papel do estado é central. Na França, por exemplo, o patrocínio oficial vem desde a monarquia (antes de 1789), com o mecenato real. Hoje, a política cultural inspira-se na égalite republicana e busca tornar a cultura e a arte acessíveis a todos. Algumas iniciativas acabam virando marcas de exportação, como a Festa da Música e a Noite no Museu.
Outro país europeu, a Alemanha, oferece financiamento generoso, bolsas e prêmios para a cultura - além de uma educação totalmente gratuita e de excelente qualidade, que custa aos alemães 40% do que ganham na forma de impostos. Os brasileiros, que pagam o mesmo, merecem algo semelhante.
            Na Ásia, o Japão dá exemplo de gestão responsável e de organização enxuta. O ministério é misto: Educação, Cultura, Ciência, Esporte e Tecnologia. Mas a Agência de Assuntos Culturais administra 1% do orçamento geral do país! A cultura é tão importante que o imperador entrega pessoalmente os prêmios de maior destaque.
            Chegando mais perto de nós, temos a Argentina, que também tem sua bela história pra contar. O site do Ministerio de Cultura de la Nación (cultura.gob.ar, criado por Cristina Kirchner em 2014) tem ampla oferta de museus, cinema, dança, arte popular, teatro, literatura, etc., de qualidade e a preços acessíveis ou gratuitos. Os argentinos são leitores vorazes e cidadãos orgulhosos das tradições de seu país.
             Aí, quando desembarcamos de volta ao Brasil, temos que nos preparar par o choque. Os protestos recentes – tão breves quanto superficiais – elevaram o MinC (Ministério da Cultura) à categoria de uma Petrobrás das artes, um patrimônio nacional, talvez algum legado do imperador. Sem desmerecer a vitória conseguida com o recuo do novo governo, recolocamos a pergunta: de que cultura estamos falando, se a maioria dos brasileiros a desconhece?
            Se visitamos o site do MinC (cultura.gov.br), salta a nossos olhos o caráter burocrático e pobre do conteúdo veiculado. Deparamo-nos com pérolas como “A broa, o bródio e o breu: legado de generosidade e honradez” (reflexões sobre o ex-ministro Aloísio Pimenta) e links administrativos do tipo “Política nacional das artes”; “Projetos de urbanismo e cultura na Lei Rouanet”.

            Ah, sim, a Lei Rouanet, um dos pivôs da polêmica recente. Ela foi criada em 1991, na época de Collor, quando o ministério era secretaria. Tornou possível a política dos incentivos fiscais, através da qual pessoas jurídicas ou físicas aplicam parte do seu IR no apoio a alguma atividade artística e, em contrapartida, se promovem.
            Um princípio ótimo, que permite alavancar muitos artistas. Contudo, alguns projetos aprovados nos últimos anos lançam dúvidas sobre as motivações dos técnicos que os avaliam e sobre a política cultural em vigor, se é que existe alguma. Vejam: 9.400.000,00 para o Cirque du Soleil (companhia canadense que se apresenta a preços altíssimos) em 2005; R$ 17. 878.000,00 para “Shreck: musical e turnê” em 2011 e 2012; e R$4.143.000,00 para a “Turnê Luan Santana” em 2014. Isso não está cheirando a esperteza brasileira?
            Não é por acaso que alguns acusam o ministério de ter sido aparelhado - e assim desviado de suas funções -, como as demais instituições do estado nos últimos anos.  Conceder patrocínio a projetos como os citados acima é um acinte aos brasileiros e levanta sérias suspeitas de mau uso do fomento. Onde está o princípio republicano de democratizar a  arte e a cultura, de torná-las acessíveis a todos? Gestão da cultura significa fazer funcionar uma máquina burocrática ou defender o patrimônio e a identidade de um povo?
            O Ministério continua – mas, e a cultura? Esta é a grande diferença em relação aos demais países citados, mais do que o padrão de renda ou a educação formal.
©
Abrão Brito Lacerda
28 05 16



quarta-feira, 18 de maio de 2016

VAI FUNDO!

           
(Imagem: lounge.obviousmag.com)
               Tínhamos que nos perfilar no pátio da escola e cantar “eu te amo, meu Brasil, eu te amo; ninguém segura a juventude do Brasil”, depois do hino nacional. O lugarejo não tinha calçamento, mas ser professor ainda era alguma coisa, a gente dizia “sou aluno da Dona Antônia”, com uma ponta de orgulho.
            Para as crianças, aquelas frases exaltadas evocavam alguma coisa a que eles pertenceriam, um lugar chamado Brasil; muito diferente, uma espécie de sonho.
            Jogar bola na hora do recreio era bom demais. Difícil era ter a bola, as de plástico se desgastavam rapidamente sobre o piso de argila batida. E todos eram pobres, quase ninguém podia ter uma. Então, valia bola de meia e algumas unhas do dedão arrancadas. Alguns usavam congas, outros chinelos de dedo, mas na hora de futebol valia a igualmente, todos de pés no chão.
            Dona Antônia usava régua para mostrar os apontamentos no quadro e também para dar bolos, meia dúzia para faltas leves e uma dúzia para as mais graves. Casos excepcionais eram julgados, conforme a necessidade.
            - Puxou o cabelo da colega!
            - Estende a mão!
Pá! Pá! Pá!
            Os colegas contavam “um... dois... três...”
            - Escondeu a régua da fessora!
            Duas dúzias de bolo, mais castigo.
             O desfile de 7 de Setembro era a principal atração do calendário escolar.  só superada pelo circo, que passava de vez em quando. A vida se dividia entre escola, banhos de rio e brincadeiras de “salve-ronda” à noite.
E passava muito rápido também, embalada pela boa música e aquele sentimento místico-hippie que pulsava com pleno vigor nos meados dos anos 70, uma coisa que cresceu em tamanho e conteúdo até virar um movimento chamado poesia marginal:

a palavra na ponta da língua
o sonho de penélope
numa piscada safada
mato a pulga atrás da orelha *

escreveu Ledusha, uma poetisa, salvo engano, de São Paulo.
E esta maravilha de Antônio Risério, poeta da Bahia:

Risos estalam sisos
Rios mudam a plumagem
Quando renasce das cinzas
O kamikaze da linguagem*

Era fome demais, sob o manto da Ditatura era preciso literalmente devorar os espaços de expressão, como no poema de Jenesis Genúncio, poeta do Rio de Janeiro:

em um ato me envolvo
em dois atos me apavoro
em quatro eu toco fogo
em oito ti devoro*
            E esta transgressão erótico-poética de Cristina Ohana, outro poeta marginal carioca:

Basta de cristandade
de santidade
de moralidade
obscuridade

Desejo a obscenidade
a oleosidade
a realidade

Desde essa idade
curto Marquês de Sade
me arde antes que seja tarde*

            Tropicalismo, Clube da Esquina, cinema underground. Nuvem Cigana nos palcos e, nos letreiros luminosos, cintilando o slogan de toda uma geração: Vai Fundo!
Não foi difícil chegar no pique ao final daquela década besta, a censura, a caretice e os militares no poder estavam com os dias contados. O máximo da vanguarda passou a ser escrever jornaizinhos de mimeógrafo, conclamando os milicos a voltarem a seus quartéis o quanto antes. A abertura “lenta e gradual” foi escancarada pela irreverência juvenil, preparando a libertinagem que estava por vir.
(* Todos os poemas foram retirados do livro Poesia Jovem Anos 70, Editora Abril, 1982)

©
Abrão Brito Lacerda
17 05 16


segunda-feira, 9 de maio de 2016

FICA DILMA! FORA DILMA!

(Imagem: photoarts.com.br)

            Foi só a classe média se interessar pelos destinos do país que a direita burguesa, retrógrada e autoritária e a esquerda operária, autoritária e retrógrada, caíram em cima, com promessas de casamento e ameaças de deixá-la pra titia.
            Agora, em frente ao castelo da dama cobiçada desfilam os mais estranhos cavaleiros, com flâmulas e discursos apaixonados, muito parecidos com os que se ouviam no Brasil no início do século XXI.
            As alas vermelhas defendem casas-de-três-cômodos e ticket universidade para os pobres. As do colarinho branco, prometem distribuição farta de dinheiro público na forma de bolsa corrupção, cargos com privilégios e contas na Suíça.        
            A mídia burguesa golpista, controlada pelo grande capital, desfila como ala marrom,  e a mídia operária antigolpista, controlada pelo estado, não sai do entorno das muralhas, de olho no espólio da moça, achando que ela é uma desmiolada e não sabe decidir por conta própria.
            Até a classe dos intelectuais, que não deveria se rebaixar ao papel de Don Juan, perfila com faixas e paetês, prometendo manter seu ódio sob controle, se essa pequeno-burguesa insignificante apoiar o aumento de verbas para a formação... de novos intelectuais.
            Sem falar das facções mais à esquerda e à direita, ávidas por sangue. Como há poucos doadores, o jeito é encher a cara no bar ao lado do fosso dos crocodilos, aproveitando que a farra tá no fim e a noiva promete soltar os bichos, pois não aguenta mais tanto assédio.  É lá que, entre políticos, peruas, pedaladas e paparazzi, rola o coquetel das falcatruas.
            A oposição está inflamada:
            - Saindo Dilma, o país ficará nas mãos de homens como Temer, Cunha e Renan!
            - Então, fica Dilma! - clama a multidão de dentro das muralhas.
            Os defensores da situação aproveitam a deixa e acusam os lobos de devorarem uma inocente:
            - A valente presidenta Dilma deve ficar para terminar sua obra!
            -Então, fora Dilma! – faz-se ouvir o brado.
            Os últimos hambúrgueres de suborno são servidos, foi-se o tempo do champanhe com caviar; cotoveladas são trocadas à beira das máquinas de distribuição de dinheiro sujo, mais discursos inflamados:
            - O futuro presidente Temer é homem confiável e bom marido!
            - Uuuhh! Fica Dilma!
            No apagar das luzes, antes que os crocodilos famintos sejam soltos, ainda se ouvem vozes de apoio e exaltação:
            - O presidente Lula voltará em 2018!
            - Uuuhh! Fora Dilma!  
              Crocodilos que comem Dilma, comem Temer.
             E a culpa é da classe média, que não casa nem sai da moita.
©
Abrão Brito Lacerda
09 05 16