segunda-feira, 21 de março de 2016

DO FRACASSO

(Imagem: www.professormurara.com)


         O que você diria se um amigo fizesse esta proposta irrecusável: 
        - Aquele nosso projeto de publicar juntos é realmente supimpa. No entanto, como bom conhecedor do mercado editorial, vou avisando logo que pode dar certo ou dar errado – geralmente dá errado...
            Toparia na hora? 
          Acho que a ideia merece reflexão, afinal, fracassar pode ser a chave para uma vida longa e feliz neste mundo obcecado pelo sucesso e vítima do infarto. 
            Desde os tempos de Gandhi, muitas tentativas foram feitas no sentido de despir a vitória de suas vestes douradas e fazê-la calçar os chinelos da humildade. O século XXI atropelou a todas e ultimamente até as igrejas vendem o sucesso em nome de Deus - que tudo ouve e nada responde – e o mais sagrado dos mercados virou bolsa de atravessadores.
            O olímpico Baron de Coubertain não deixou eternizado o lema “o importante é competir”? Então, por que se apressar?  É melhor ser o terceiro do que o primeiro, você sobe no pódio do mesmo jeito e ainda se permite ir para a cama mais tarde e faltar aos treinos.
            No Japão, agora querem "descomprimir" a escola, oferecendo mais aulas de artes, música e esportes para que os jovens pensem menos no sucesso. Porque o sucesso levou os japinhas a brocharem e a demografia do país declinou perigosamente. Uma geração de robôs, portando-se como humanos, trajando kimono e fazendo aquela reverência solene poderá em breve infestar as ruas do país.
Só no ano passado, a população do Japão
recuou em 244 mil habitantes!
(Imagem: www.blog.giulianaflores.com.br)

A Alemanha segue pelo mesmo caminho, assim como a Itália, mas não a França, onde ainda se aprecia o vinho, la bonne bouffe (a boa mesa) e o fuque-fuque.  
            Pesquisas não confirmadas mostram que o fracasso não está ao alcance das multidões de trabalhadores ricos e pobres - condenados a lutar pelo sucesso como bois à canga. Ele possui algo de aristocrático e anticapitalista o fracasso, e cabe indagar sobre as razões: para que ralar a vida toda, aplicar na bolsa, roubar outro tanto se estiver na política e deixar tudo para uma viúva de trinta que viverá até os noventa, quando morrerá nos braços do décimo marido (de vinte)?
            Como esta é apenas a introdução a um tema tão instigante, não pretendemos esgotar o assunto. A seguir, dois teasers em primeiríssima mão, ilustrando as surpresas que aguardam aqueles que pretendem dar com os burros n’água:
            Nero foi imperador, mas queria mesmo era ser músico. Um dia,  encheu a cara e tacou fogo em Roma. Enquanto a cidade ardia, cantou orgulhoso por ter lançado o primeiro “heat” da história. Não sabia ele que, dois mil anos depois, os historiadores declarariam que os verdadeiros responsáveis pelo incêndio de Roma foram os sanitaristas, uma vez que o fogo era o único agente capaz de dizimar as pragas dos quarteirões infectos numa época em que não havia inseticida.
            E o Caetano (Veloso), no tempo em que era jovem e usava cabeleira tipo bicho, ficou puto com os críticos caretas e decidiu lançar um disco que era uma verdadeira coletânea de porcarias musicais. O álbum Araçá Azul era tão enervante que um desafeto o devolveu diretamente... na cabeça de Caetano! Ele só se safou porque as camadas de cabelo amorteceram o impacto do golpe. Depois disso, resolveu só fazer músicas de sucesso.
            Pensando bem, vou aceitar a proposta do meu amigo.
©
Abrão Brito Lacerda
19 03 16