segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

CAMPEONATO MUNDIAL DA DENGUE

         
(Imagem: www.programacombate.com)


            Ao fazer uma vistoria na caldeiraria abandonada em frente, descobri vasos sanitários abertos e larvas de Aedes Aegypti nadando como peixinhos, além de um imenso tanque subterrâneo, transformado em balneário para mosquitos depois das últimas chuvas. Enquanto os insetos adultos disputam um espacinho à tona, dá para ver as larvinhas surfando de cabeça para baixo, como se estivessem na praia de Guarapari. Não será surpresa se essa pouca vergonha toda tiver sido financiada pelo BNDES!
            O jeito foi telefonar para a Vigilância Sanitária:
            - Alô!, é da Vigilância Sanitária?
            - Não, é da Secretaria de Saúde. Em que posso ajudá-lo?
            - É aí que fica a Vigilância Sanitária?
            - Não...
            - E onde é?
            - Não existe mais Vigilância Sanitária, agora é “Saúde da Comunidade”.
            - E onde fica?
            - Aqui mesmo. O que deseja?
            - Tem um foco de Aedes Aegypti na minha rua, Rua 92, bairro Novo Horizonte, fica numa antiga caldeiraria.
            - Um momento, por favor!
            Deu para ouvir a risadinha da atendente mocando de mim, como se eu fosse o único morador da cidade que não sabe que agora existem focos do mosquitinho listrado por toda parte!
Após se recuperar da crise de riso, ela me disse:
            - Vou passar sua ligação para a “Saúde da Comunidade”.
            Repeti a conversa:
            - ... foco enorme de Aedes Aegypti em minha rua, fica numa caldeiraria abandonada.
            - Rua 92, Novo Horizonte? – interrompeu-me a voz. - REALMENTE, aqui no boletim da nossa administração “Trabalhando por Timóteo” consta que há um foco em sua rua, já FORAM tomadas providências. O senhor não precisa se preocupar.
            - Minha senhora, mosquitos não sabem ler. Onde está o fumacê que passava todo dia à tarde?
            - Um momento, por favor!
            Mais uma que se riu da minha inocência, como se eu fosse o único a não saber que a fumigação das ruas para combater o mosquito foi abandonada há mais de uma década.
            Depois de algum tempo, ela tossiu e respondeu:
            - Não foi possível renovar o convênio com o prestador do serviço.
            - Então, cadê os agentes que passavam de porta em porta?
            - Por contenção de despesas, tivemos que despedir o pessoal.
            - Então, que PROVIDÊNCIAS foram tomadas, minha senhora?
            - Um momento, vou passar sua ligação para a secretária do Secretário da Saúde...
            Desliguei o telefone.
A crônica das epidemias transmitidas pelo Aedes Aegypti tem dias férteis por aqui. Dengue e zika tornaram-se males recorrentes na comunidade, fala-se deles como se fossem membros da família. Até meninas já estão sendo batizadas com o nome de Zica e antigas expressões da vida quotidiana mudaram para se adaptar aos novos tempos, como na fala desta mãe:
            - Deixe de DENGUE e vá fazer a tarefa!
            E, apesar de sua aparência democrática, que não poupa pobres e remediados, brancos e amarelos, essas enfermidades reproduzem os costumes dos diversos extratos sociais. Minha vizinha metida, por exemplo, teve a cachimônia de dizer:
            - Peguei zika em Orlando!
            - Mas lá (ainda) não tem mosquito da zika!
            - Foi por via sexual!
            Fiquei indignado, como alguém pode ir dar, isto é, contrair o vírus da zika tão longe, sendo que o Brasil é campeão mundial da dengue, da zika e, em breve, também do CHIKUNGUNYA?
            A grã-fina não se fez de rogada:
            - Esquenta não! Os EUA estão desenvolvendo a vacina; logo, logo eles serão os campeões da zika, da dengue e de tudo o mais; vão nos vender remédios a peso de ouro, criarão até mesmo o troféu Aedes Aegypti, que ficará bem mais in sendo pronunciado com sotaque cowboy.
            Como resistiremos aos ianques? Eles nos retiram as poucas coisinhas que nos dão orgulho. São capazes os famigerados de nos curar dessas mazelas - e depois vão querer um pedaço da AMAZÔNIA!
©
Abrão Brito Lacerda
27 02 16


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

PIQUENIQUE


(Imagem: www.emblibrary.com)

            Piquenique é menos comum hoje em dia do que na época em que a palavra se escrevia com hífen. Por outro lado, o interesse decrescente entre nós a respeito corresponde ao confinamento em que vive a maioria dos brasileiros.  Mas alguns povos ainda guardam esse hábito fundador da humanidade: desde os primórdios os homens sentaram no chão para comer, conversar e celebrar.
            Os japoneses, por exemplo, lotam os parques no Hanami ou Festival da Floração da Cerejeira, quando celebram a chegada da primavera e das atividades ao ar livre. Colocam sobre o chão uma esteira, um tatame ou uma toalha, mais um cesto de víveres, e várias gerações se assentam no mesmo nível. Tradição oblige, aqui e ali, gueixas se deixam entrever sob a luz tênue das sombrinhas, tão discretas e cool que fazem pensar que é de seus suspiros que nascem os botões de cerejeira.
Londres também cultiva o plein air, embora com humor diferente: em dias de sol, especialmente no verão, muitos parques parecem praias nudistas ao primeiro olhar, como o Green Park, lugar favorito de picnic entre jovens. Para facilitar as providências com o tradicional Staples & alcohol, ou comes e bebes, é possível, inclusive, fazer uso de um delivery que se propõe a entregar qualquer pedido para um dos grandes parques da cidade dentro de 60 minutos. É o Parknic. E as jovens loiras, ruivas e afins estendem-se ao sol bem à vontade – suas bochechas, de alvíssimas passam a rosadas, depois a rubras, o que nos leva a imaginar que elas se incendeiam definitivamente quando a noite chega.  
Os parques de Buenos Aires rivalizam com os de Londres, com a vantagem de saírem muito mais em conta. Como os argentinos encaram os parques como extensões de suas casas, encontramos em toda parte gente passeando com o cachorrinho, rodinhas de bate-papo entre amigos, universitários revisando a matéria da faculdade... e picnics, regados a empanadas y chimarón. Com sorte, um espetáculo de tango para nos fazer esquecer os pelotudos (chatos) e admirar os atributos das danzarinas, jovens atléticas e elásticas que executam, sempre com olhar fixo e lânguido, giros sobre os quadris de granito, aberturas incríveis, saltos com o vestido de fenda esvoaçando...


(Foto: Abrão Lacerda)
E pensar que já houve época em que não era preciso ir tão longe por causa de um simples piquenique. Bastava preparar o pão, o picles e a salsicha ou frango frio, ervilhas em lata como must. Uma vez saímos em excursão pela beira do rio, não para pescar, mas sim para tomar banho como principal diversão. Passamos a manhã inteira dando saltos-mortais dentro d’água e voltamos para a barraca mortos de fome - mas as formigas tinham chegado antes. Levaram nosso almoço!, mas a barraca ficou e, dentro dela, uma cobra de dois metros de comprimento.
Mais recentemente, combinamos um encontro entre amigos em um clube não muito longe de São José do Paraíso. Por falha na organização, cada um acabou levando seu smartphone e ficamos todos ligados via satélite na sombra das árvores. Aí a chuva começou a cair e tivemos que voltar para casa com o pão, o salaminho e os picles. Melhor criarem logo um serviço de Parknic por aqui – ou instalar wi-fi nos parques?
©
Abrão Brito Lacerda

09 02 16