segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM OLHAR SOBRE A CIDADE

 
Pico da Ana Moura, Timóteo, MG
         A primavera aconteceu este ano, ao contrário dos dois anos anteriores, quando o inverno se transmudou rapidamente em verão. Temos chuvas desde o final de setembro e a natureza tropical está revigorada, exibindo seus melhores tons de verde e amarelo, matizados com florações brancas, roxas, laranjas e vermelhas. Há muita vegetação dentro da cidade, que tem a sorte de estar localizada entre vales, numa região onde a cobertura vegetal deve ser mantida para contrabalançar a poluição produzida pela indústria siderúrgica.
         Em Timóteo, há praças, corredores verdes, um lindo parque na montanha (Pico da Ana Moura) e uma mata urbana (o Oikós),  que garantem à cidade uma boa qualidade do ar e uma humidade atmosférica que nunca fica comprometida, mesmo durante os meses mais secos do inverno. A diferença é notória quando se compara a situação do município neste aspecto com, por exemplo, Belo Horizonte, localizada a apenas 200 quilômetros de distância, onde a humidade pode chegar a níveis prejudiciais em julho e agosto.
         As estações acontecem diferentemente a cada ano, embora exista um padrão climático regular, determinado pelo dueto sol e chuva. Em geral, quando chove a temperatura é amena e quando não faz muito calor. Quem sobrevive à canícula dos meses de janeiro, fevereiro e março vê as primeiras frentes frias chegarem em meados de abril na forma de ventos – que sopram sempre na direção leste-oeste, consoante a rotação do planeta – e pequenas precipitações. Às vezes algumas ventanias fazem redemoinhos nas ruas e derrubam algumas placas mal soldadas. Passamos então ao purgatório, com noites frescas e dias rachando de sol.

Reserva florestal do Oikós, Timóteo, MG

         Abril chama Maio e o tempo ameniza de vez, atingindo seu auge entre o fim do outono e o início do inverno. As chuvas cessam, as manhãs registram entre 14 e 16 graus e o céu é de uma limpidez cristalina. A partir de Julho a vegetação adquire um tom cinza-marrom e fica em compasso de espera durante os imprevisíveis Agosto e Setembro, dois meses temperamentais. Podem esquentar como fornalhas ou esfriar, se alguma frente fria conseguir fazer o percurso da Antártica até aqui. No final de setembro a natureza se põe em movimento mais uma vez, com as frentes frias trazendo ventos e as primeiras chuvas da temporada.
         A primavera acontece tímida e cinzenta se as chuvas adiam sua chegada para outubro ou até mesmo novembro ou exuberante e sedutora quando tudo obedece à perfeição do pêndulo e a estação muda conforme o calendário. As plantas se renovam, as flores brotam, insetos revoam e invadem a casa, pássaros ensaiam longos cantos de acasalamento e não será surpresa se uma mamãe ou um papai pardal ou bem-te-vi for espreitado na cozinha à cata de comida fácil para a prole. No final de novembro e início de dezembro a fauna penada já deve estar ensaiando os primeiros voos para fora do ninho para poder crescer na bonança dos meses de verão.

Praça do bairro Novo Horizonte

         Início de Dezembro é a melancolia de fim de ano, oculta sob o manto dos apelos comerciais em torno do natal e do réveillon e rapidamente esquecida pelas crianças, que só pensam na longa temporada de férias longe da escola. Nessa época o mood do verão já estará definido: será chuvoso e ameno ou seco e canicular. Entre os votos que se fazem nos balanços de fim de ano e nas confraternizações consta o desejo silencioso de sobreviver mais uma vez até o mês de abril, quando os primeiros refrescos chegarão da Antártica. 

A CIDADE VISTA DA CASA

Bairros Timirim e Funcionários

Bairros Funcionários e Bromélias


Encontre um burro na foto


Bairro Garapa e Centro de Acesita

A CASA VISTA DA CIDADE

Rua Miguel Maura, Bairro Garapa

Garapa e Centro de Acesita vistos do Alto Serenata

Garapa, Bromélias e Centro de Acesita vistos do Alto Serenata

©
Abrão Brito Lacerda
03 12 16


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

WALK IN, WALK OUT

The "jungle" I walk past in my daily commute.

            As I engage in my 5-minute walk back home, countless thoughts flourish amid fears of a shrinking end-of-month budget.  The light rain that falls this evening brings the gentle music one needs to feel happy or sorrow. Umbrella up, leaps down the watered street, my body reflects on the asphalt mirror like a character from a noir movie: Humphrey Bogart  or so, it only lacks the red-lip lady looking sneakily from a side porch.  Life’s a movie then, you play your part, sad or thrilling, giving up on a happy ending.
            Hiking’s cheap, flying’s much better. So many places to see, you can’t help remembering that song, “So far away from me”. The year was 1979, maybe a little earlier, people rallied on the streets for democracy, there were still militaries everywhere, overseeing us, lecturing us on whatever they wished or thought they should. We strolled pass them and glanced at the armored cars, because thoughts are free as far as they don’t get out of the enclosure of your mind; they can turn into anything from nonsense to glory. She wore bleached jeans, a white t-shirt with a light-hearted line written on it (“You’d better not follow me”), her breath could be felt in a distance – I mean, some meters behind.
-         You should go faster or we won’t make it to the bus station on time.
-         It’s your fault if we didn’t get a taxi.
-         Ok. Let’s call one.
-         Too late, look at that car pulling over.
-         You think that…
-         He will accept to take us up.
-         What do you mean, “he”? Hey, wait!
A lift isn’t something to turn down when you have a suitcase to carry and is trying to get to the city airport by 7 P.M, last call. How could I catch the guy stopped on purpose?
-         Where going?
She pretended not to know him.
-         To the bus station and then to the airport.
-         Coincidence! I’m going to Montalbino.
-         That’s…
-         Next to the airport, right?
-         Right across. Get in…

Funcionários neighborhood and downtown Acesita - Timóteo, MG, Brazil.
         
             Fifty meters up, I’m strolling along the wood that grows thick on both banks of the stream that flows at the bottom of the valley. It’s springtime, the first rains dropped three weeks ago, reviving the thirsty land and nature is now so lush. Drivers speed up, they don’t even notice this small piece of forest thriving in the heart of town. I hear buzzes, shees and light hammering crickets, sounds like the night party has just started and there is no time to lose. Abundance of insects and a favorite nestling time for birds, too. I wake up every morning and look out, mesmerized by the green blanket below, cause I live just three hundred meters ahead. The boy has already spotted the multitude of birds that take shelter in the trees with his hammer-and sickle-embellished binoculars:
-         We should watch and classify them by species, he says.
-         It’s easy now with the internet.
-         But we need a “real” camera with 20X zoom and Carl Zeiss lens.
-         Carl Zeiss? What’s that?
-                     They make the best lens, dad. We’ve got to buy a range-finding focus apparatus, as birds won’t come to our window to pose from up-close.
-         Must be right, but who will pay for that?
The boy’s right, we can’t hold back our dreams just by saying “it’s impossible”. Suppose someone has gotten fed up with his old Canon and would simply give it up to a curious eleven-year-old still in bud. Why not?
            We could put a notice somewhere stating that “a passionate bird watching infant seeks desperately the means to fulfill his dreams: a pro-rangerfinding camera with 20X zoom and Carls Zeiss lens”.
For now, we’ve got to close the glazed windows, as my wife complains that “the apartment has been filled with bugs, moths, walkingsticks and even ugly spiders, due to this sick jungle we live close to”.
The boy can wait. It’s never too late.

Night silence with city lights.

©
Abrão Brito Lacerda
30 11 16


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BACK TO BORGES DA COSTA




         Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, tss... tss... - quem não conhece o poema de Casimiro de Abreu de algum livro de escola? Escuso os que desejam voltar aos verdes anos e sentir de novo o perfume de um mundo há muito tempo perdido; eu me contento em voltar à juventude, mais especificamente à época em que residi na Moradia Estudantil Borges da Costa em Belo Horizonte. Isso porque a Produtora Almôndega, através de projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, acaba de lançar uma campanha de financiamento visando a produzir um filme recuperando a memória do Borges, como era popularmente conhecido, e suas imbricações com a cultura da cidade e as transformações históricas do país no período 1980-1998.
            O Borges, ao qual viria se juntar em 1985 o MOFUCE, foi um espaço franco, construído e reconstruído pelas gerações sucessivas de estudantes e parasitas que por ali passaram e pode perfeitamente ser tomado como um espelho da época. Cada geração tem sua narrativa, a minha é a da segunda leva, a que sucedeu aos heróis da resistência, responsáveis pela ocupação do antigo hospital em outubro de 1980 e sua manutenção em mãos autônomas diante das sucessivas investidas da universidade no sentido de retomar o prédio e reintegrá-lo ao conjunto do Campus da Saúde.
            Um dos requisitos para se tornar borgeano era comprometer-se em defender a casa, o que existia mais na teoria, uma vez que o que de fato pesava na hora de ser aceito pela Assembléia Geral, órgão máximo de deliberação, ao qual os nomes dos novos candidatos eram subjetivos, discutidos e depois votados, era o apoio de uma determinada "ala". Com o tempo e a ocupação de novos setores abandonados do antigo Hospital do Câncer (o Hospital Borges da Costa), a população cresceu e se diversificou e resultou em algumas dezenas de rapazes e moças convivendo num melting pot tanto mais explosivo quanto facilmente cooptável pela libertinagem que grassava naqueles “loucos anos 80”. 
          Com efeito, no fim dos anos setenta e início dos anos oitenta  explodiu no Brasil uma bomba de efeito retardado, desencadeando a catarse que caracterizou nossa saída das sombras da ditadura, uma fúria pela vida aqui e agora, precariamente equilibrada entre a luta engajada e  o apelo hedonista. Enfim, os ventos que haviam movido a história em países democráticos sopravam nos tristes trópicos. 
            O Borges retrata um Brasil que, já urbanizado, se tornava metropolitano, com grandes fluxos de jovens pobres ou remediados do interior ou das regiões suburbanas migrando para o centro das grandes cidades, ou seja, para o centro da ação. Esses jovens embarcaram nas promessas da rave-revolução que tomou conta do país com o processo de redemocratização e a nova e abundante oferta de prazeres. Eram herdeiros em primeira ordem dos movimentos sociais armados de matiz estudantil-operário-marxista e dos hippies pacifistas e desbundados. O campo de experimentação era, no seu núcleo mais básico, seus próprios corpos e mentes. Ser careta significava buscar refugio nos fragmentos da velha ordem, não ser implicava em embarcar na trip e ter coragem de romper os próprios limites. 
            Foi uma época de efervescência criativa, sobretudo na música, com o surgimento do novo rock brasileiro, misturando punk e new wave, pau e pândega. Escolhida a trilha sonora, a festa não tinha hora para acabar, quando à rebeldia do ROCK AND ROLL se juntava a inflamável:

TCHAN! TCHAN! TCHAN!... COCAINE...

            As DROGAS merecem um capítulo à parte, a ser narrado com evasivas. Havia abundância delas e a baixo custo, quando não a custo nenhum: maconha, haxixe, cocaína, LSD, temperadas com fartas doses etílicas de tudo que servisse para tontear: vodca, cachaça, uísque, conhaque, cerveja. De preferência adquiridos modestamente através de uma hábil troca de etiqueta de preço no conhecido supermercado Jumbo (atual Extra) localizado ao fundo da moradia – de onde originou esse verbo exclusivamente(?) borgeano: “jumbar”.

SACANALIA JUVENILIA

       Ah, o SEXO! O oloroso, escorregadio e suntuoso tesão do pós-Women’s Liberation Front e pré-aids. Pode parecer sacanalia à primeira vista, mas era apenas juvenilia descoberta, brincadeira, inocente, de crianças crescidas.
         Às trincheiras do amor todos sobreviveram, mas não ao efeito orloff, pois, assim como depois da tempestade vem a enchente, a trip borgeana teve o seu:

DARK SIDE

         Que merece o lugar de epílogo.
         Na viagem para dentro de si mesmo, alguns esqueceram a passagem de retorno, propositadamente ou não, outros chegaram até mesmo a se lançarem debaixo do trem, pondo fins trágicos a existências por vezes carregadas de solidão e angústia. São para eles as últimas palavras: a queda, a corda, o ônibus...
         Lençóis brancos cobrem os corpos dos que ficaram no caminho. E os versos do poeta borgeano Raimundo Nonato como lápide:

            “Para que servem os HERÓIS
            Senão pra o povo carregá-los
            Em cordas e lençóis?
            
            “Para que servem os GIRASSÓIS
            Senão para brotarem
            Na cova funda dos heróis?”

©
Abrão Brito Lacerda
12 11 16


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

DOIS AMIGOS

       
(Imagem: www.peterexpress.or)
       Cândido Pierrot atravessou o deserto em lombo de camelo no intuito de reencontrar o grande amigo de infância, que tinha resolvido trocar o sertão pela Arábia. A marcha dura do dromedário, o sol implacável, a desconfiança dos beduínos, nada o desencorajou. Após dias de viagem, chegou a um oásis onde brotava água fresca e as tâmaras frutificavam em abundância. Mas os guardas da tribo, ao vê-lo sem túnica e turbante, tomaram-no por um espião, prenderam-no e levaram-no ao chefe.
         - Que fazes aqui, galego? Espionando nossas fêmeas? – indagou o xeique, batendo com o cajado de osso de camelo no chão.
            Pierrot ergueu os olhos discretamente. O xeique estava sentado em um trono de madeira coberto com pelo de camelo. “Tofu”, pensou. “Se não encontrar um álibi convincente, serei servido no repasto da noite. Ou talvez me amarrem no rabo de um camelo bêbado e o soltem pelo deserto. Se tiver escolha, vou preferir ser servido no jantar – com bastante pimenta. De qualquer modo, vou manter os olhos baixos, para que ele não me tome por um insolente.”
            - O que buscas nas terras de Alá, forasteiro de pele pálida? – repetiu a pergunta o xeique, batendo mais forte com o cajado.
            Pierrot continuou mudo – como responder, se nada entendia do idioma badawi?
            - Cortem a língua desse infiel! – ordenou o xeique.
            Pierrot sentiu o sangue gelar em suas veias. Seu único recurso foi gritar:
            - Se avexem, barbudos, me soltem!
            O xeique ficou paralisado. Mirou o estrangeiro por algum tempo, fez um gesto para que os guardas o soltassem, ergueu-se e caminhou até ele, falando discretamente:
            - Ó xente! Você fala português?
            Pierrot sussurrou, quase um suspiro:
            - S-sim, acabei de chegar na caravana da “hora do calango tostado” (por volta das 15h00). S-sou de Sobral, no Ceará.
            - Arriégua! E como veio parar aqui?
            - Estou procurando um amigo que se mudou para cá há muitos anos.
            - Ele também é de Sobral?
            - Com certeza. É por isso que estou aqui. Tenho uma carta para ele.
            - Carta? Aqui no deserto só usamos Whatsapp e wi-fi.
            - Foi a namorada dele quem escreveu antes de ele se mudar para cá, mas não teve tempo de entregar.
            O xeique ergueu o cajado e deu nova ordem:
            - Tragam água para este homem! Deem-lhe banho, sopa de leite de camela com lentilhas e roupas limpas! Levem-no depois para uma tenda onde descansar!

            Ao cair da noite, estando Pierrot bem instalado numa tenda de couro de camelo, o xeique apareceu, acompanhado de uma mulher e duas crianças. Pierrot inclinou-se em respeito.
            - Você está bem melhor – disse o xeique, demonstrando bom humor. – Quando chegou, estava fedendo feito um bode do Cariri.
            - Obrigado por me salvar, isto é, por não me deixarem cortar a língua. Você fala português com sotaque nordestino...
            - É que também sou de Sobral no Ceará. Cheguei aqui há vinte anos e comecei a negociar com camelos, me dei muito bem, me casei com uma berbere e agora sou o chefe do Oásis de Jamil Arratab (Camelo Molhado, em árabe). Meu nome é Gervásio Comodoro.
            - Então você é...
            - O amigo que você veio procurar!
            Ainda não sabiam como se portar um com o outro, se formalmente ou à moda antiga.
            - Onde está a carta?
            - Aqui!
           O xeique abriu a carta, ainda perfeitamente selada, leu-a em silêncio: “Gervásio, agora que você está prestes a partir, tenho que lhe confessar que amo o seu melhor amigo, Cândido Pierrot. Peço perdão por tê-lo traído.”
            - E a Marcela?
            - Ela agora é minha esposa.
        Nesse momento, a mulher e as crianças, que tinham ficado do lado de fora, entraram na tenda.
            Os dois amigos se levantaram e trocaram um longo abraço.
©
Abrão Brito Lacerda

26 10 16

terça-feira, 4 de outubro de 2016

ABAIXO A DEPRESSÃO!



         O Circo Brasil continua em turnê, com palhaços e engolidores de propina, mas a plateia não sai do tédio, o Ibope acaba de informar que, no quesito aceitação, o presidente Mordomo de Frankstein empata com sua antecessora, a Mulher Sapiens.  Nem a comédia pastelão Seis por Meia Dúzia - na qual os aliados de ontem trocam insultos e tortas na cara - empolga as multidões. Foi decretada a depressão oficial!
         Sem a criação da bolsa classe média, os avanços sociais estarão comprometidos e metade dos brasileiros não conseguirão mais pagar a aposentadoria da outra metade. Para os detentores de outras bolsas, poderia ser criada a bolsa trabalho. É a bolsa ou a vida!
         Em meio às críticas ao baixo astral federal, o palácio do Jaburu convocou o grande chefe Atabaque em caráter de urgência. Para quem não lê o Amazonas News, informo que o cacique Atabaque é o mago das fórmulas milagrosas e de baixo custo e, ainda por cima, 100% nacionais, não precisa pagar royalties.
         A conversa se deu através de um intérprete da língua Mamirauá:
         - Chefe Atabaque, disse o presidente-mordomo, temos um déficit maior que o orçamento do senado, mas não é culpa minha, eu não sei de nada, o Lula é quem sabe.
         Grande chefe acendeu o cachimbo da sabedoria:
         - Consultei o espri de Macunaimá. É preciso decretá o Braxit, a separação de Brasília da República Federativa do Brasi.
         - E como vamos fazer para abrigar os refugiados do executivo, legislativo e judiciário?
         Grande chefe soltou uma baforada:
         - O Brasi pode aderi ao Reino Uni na grande aventura “Perdidos no Atlântico”.
         - Isso vai gerar uma guerra civil, chefe Atabaque, o sangue dos mártires vai cobrir as páginas do Facebook.
         - Chegou a hora de fritá sarapaté! A cobra vai fumá!...
         Um assessor cochichou ao ouvido do presidente-primo-do-drácula, ele tossiu e olhou firme para baixo, procurando demonstrar confiança:
         - Metade da elite fugiu pra Miami após a vitória do Lula, a outra metade embarcou para comemorar a queda da Dilma. Quando toda essa gente tiver obtido o Green Card, vai pedir visto de entrada para seus parentes e derentes, além, é claro, de seus jardineiros, entregadores de pizza e suas passadeiras, babás e empregadas domésticas; em pouco tempo, teremos um estado de São Paulo de riqueza e prosperidade florescendo em terras americanas...
         Grande chefe apagou o cachimbo no cinzeiro presidencial.
         - Cacique Atabaque, ninguém leva! Nós sê da tribo Mamirauá. Nós tem wi-fi, tapioca e whiski contrabandeado. Nós  não tem casamento civi nem religioso, nós não tem divórci. Vamo declará independência do Brasi, fritá sarapaté, botá a cobra pra fumá!
         Tupy or not tupy? Não temos medo do sósia do Zé do Caixão, cacique Ataque é nosso rei!
        
©
Abrão Brito Lacerda
04 10 16



terça-feira, 13 de setembro de 2016

O ROTO, O ESFARRAPADO E O MALTRAPILHO

(Charge eleitoral da antiga revista O Malho)

            Com o início de mais uma campanha eleitoral, deu-se a habitual revoada de candidatos, abutres, andorinhas e pardais confundidos na mesma nuvem. Nos espaços públicos e privados, podem-se ouvir os pregões daqueles que se apresentam como a solução para os nossos problemas, os homens (e também uma minoria de mulheres) honestos (não há um único ladrão entre eles), competentes (todos venceram na vida com seus próprios esforços, sem apadrinhamentos ou falcatruas), trabalhadores (nenhum aproveitador que se esconde atrás de um mandato para legislar em interesse próprio), tementes a Deus (é possível ver mais de um deles ajoelhados em algum banco de igreja, mirando o cesto de coleta com o mais pio dos olhares), enfim, nenhum ricaço com sede de poder (todos têm ganhos modestos, conforme se comprova em suas limpas declarações de renda), nenhum mentiroso, contrabandista ou assassino.
             Mesmo os tipos mais medonhos são convertidos, graças às feitiçarias  dos marqueteiros (seriam os marqueteiros os verdadeiros psicólogos da era da informática?) em poços de bondade, gente em quem se pode depositar total confiança, tal qual um velho amigo da família. E, já que estamos no assunto e perguntar não ofende, não seria possível ver no perfil desses hipócritas e gananciosos características mais generalizadas, compartilhadas pelos próprios eleitores, que são, afinal, os que votam e lhes dão os cobiçados empregos?
            Como admitir que a gente se deixe levar por qualquer música e vá, a cada dois anos, apertar um botão-voto em nome de um tipo que vai depois desprezá-lo ou defender o contrário do que prometia, por simples influência da propaganda eleitoral? Trata-se de amnésia recorrente, incapacidade crônica ou conivência disfarçada?
            Com as honrosas exceções de sempre, os políticos de todas as matizes apostam na incapacidade do povo de conectar os fatos e entender claramente que a causa e a solução dos seus problemas – pelo menos dos que dependem diretamente da ação política - estão em suas mãos.
            Ninguém discute que o atual sistema é viciado e precisa ser  reformulado para atender à sociedade e não aos detentores do poder.  Que seus beneficiários, os do poder, não vão reformá-lo por iniciativa própria. Que a democratização do país gerou esse efeito colateral que é a necessidade de fazer funcionar uma máquina voraz, para cujo controle lutam hoje mais de trinta partidos, com programas retirados da Wikipédia. 
            O ponto fraco dessa máquina de malversação do dinheiro do contribuinte é que ela depende da chancela do cidadão-eleitor para continuar funcionando. Mas, quais são as razões que movem os eleitores? O que os fazem eleger sistematicamente candidatos de perfis duvidosos, quando não reconhecidamente desonestos? 
      O voto é o espelho de quem vota? Os representantes são o espelho dos representados? Como seria se os eleitores usassem esse poder de forma independente – à altura da indignação que escutamos em toda parte – e o resultado fosse este: “Ninguém foi eleito. Não temos representantes. O que vamos fazer agora?”
            Há males que só se podem cortar pela raiz.
©
Abrão Brito Lacerda
13 09 16





domingo, 4 de setembro de 2016

O ALFARRÁBIO

(Imagem: macelginn.com.br)

         A cultura anda às traças em nosso país. Meu amigo Jack me contou a história de um amigo dele, professor de faculdade, que se viu desempregado e precisou sacrificar a preciosa biblioteca reunida ao longo de trinta anos. Tirando Bakunin, Paulo Leminski e clássicos da língua portuguesa, contou Jack, todos foram pra fila do bric-à-brac.
         “Eu disse a ele que livros usados não têm valor. Ele me levou até a biblioteca e me mostrou uma seleção de obras diversas, ensaios, coletâneas completas, belos livros da José Olympio ilustrados por Poty, livros raros como os de Mendes Fradique e versões originais de Pau Brasil de Oswald de Andrade e Feuilles de Route de Blaise Cendras, lançadas em Paris em 1928. - Vou fazer uma boa grana junto às livrarias da Savassi, afirmou, batendo em meu ombro”.
         “Na semana seguinte, quando o reencontrei, ele não estava tão confiante. Não havia livrarias na Savassi dispostas a comprar seus livros, apenas alguns sebos do Edifício Maleta, no centro da cidade - mesmo assim, ninguém tinha ligado pra dar uma olhada na mercadoria”.
         “De tanto insistir, acabou encontrando o Washington livreiro – lembra-se dele? -, que topou ver os livros, mas não pagou o que ele esperava. E ainda fez onda com alguns títulos, como O Capital e Interpretação dos Sonhos, alegando que ninguém mais lê, nem mesmo os militantes do Partido Comunista. Teve também a audácia de afirmar que os originais de Oswald de Andrade e Blaise Cendras ficariam muito bem em um museu, mas que não tinha nenhum museu na cidade interessado neles”.
         “O Washington prometeu começar a pagar em quinze dias, que acabaram virando um mês. Mercado de livros não é como supermercado, disse ele a meu amigo, não tem gente entrando e saindo a toda hora”.
         “Ontem, meu amigo voltou ao Maleta pra fazer a cobrança. Seus ex-livros estavam expostos, juntamente com  long plays, mapas e gravuras antigas, em estantes, mesas e até cadeiras que vinham até o corredor”.
         “Aquilo é um parque de diversão para traças! - exclamou meu amigo, decepcionado. - Se soubesse, tinha colecionado selos.”
©
Abrão Brito Lacerda
04 09 16


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ORIGEM


 
(Imagem: itarantimagora.blogspot.com)
            Todo mundo nasceu em algum lugar. Eu, por exemplo, nasci em Itarantim, um município do baixo Jequitinhonha, na divisa da Bahia com Minas Gerais. Depois, fui registrado em Salto da Divisa, juntamente com outros dois irmãos, pois meu pai registrava os filhos de três em três. Meus irmãos mais velhos guardam boas lembranças da Fazenda Gameleira, mas eu não tenho qualquer reminiscência de lá. 
            Não fosse pela certidão de nascimento, eu nem saberia de onde vim. Assim como o povo do Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do Salto, município de Itarantim, estado da Bahia não se dá conta que eu existo.
            À cata de minhas origens, fiz uma busca na web: aparece uma cidadezinha ao pé de uma serra de granito, um lugar bucólico, perfeito para uma viagem imaginária.
            Como tantos outros lugares do Brasil, o nome Itarantim vem do tupi-guarani, pois “ita” significa pedra. Atualmente a serra que emoldura a cidade é chamada de Serra de Três Pontas e oferece uma magnífica vista do topo. Num trajeto imaginário, passamos por mata-burros e fazendas de gado, atravessamos um córrego de águas escuras, depois caminhamos através das pedras. A vegetação é formada por capim, bromélias e capoeiras.
            A parte final da escalada é bastante íngreme e acidentada, mas vale o esforço!
            Daqui de cima tenho uma vista magnífica da região. O rio Jequitinhonha está ao sul, depois de muitas colinas. É para lá que corre o Ribeirão do Salto, do qual é afluente o pequeno Córrego dos Trabalhos, que não está no mapa. O Ribeirão do Salto serve de fronteira entre os estados de Bahia e Minas, captando afluentes de ambos os lados, até depositar suas águas no leito do Rio Jequitinhonha, que se encarrega de levá-las até o Oceano Atlântico, onde córrego, ribeirão e rio viram mar.
            Assim é a vida.
©
27 08 16
Abrão Brito Lacerda

            

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

LATE NIGHT CLUB


 
(Foto: 98bowery.com)
            Texto de Fausta para Alícia:
            “Late Night Club, ½ noite, checar ZIP, vxt lgda”.
            Reply de Alícia:
            “Ok. ZIP in, KK Pablo - lgda?”
            Pablo, o cientista, brincando de sapo em ninho de cobras.
            Fausta mexe no bolso da cazadora:
            “Lgda, vou v, + sem ZIP out – necas!”
            ZIP é zero impact poison, veneno letal, gíria.
            ZIPs em todos os campos magnéticos, resistem ao ataque das maquininhas autogeridas com gosto de anis, punk drones, prontas para serem comidas antes que explodam!
             Late Night Club, ½ noite, Fausta tira do bolso o Ca(CIO)2, hipoclorito de cálcio, que não se toma – não se toma, entende? –, a menos que se deseje uma morte lenta e horrível, como a do King Kong, mas esta foi proposital.
            Hot pants, meias 7/8, cazadora, vestida para matar, Fausta; na pista de dança, funk, rap e o King Kong!
            “Tutti-tutti-tutti!”, o Smart. Alícia de novo:
            “ZIP out, ok, vxt lgda. Chg já.”
            “ZIP in, ok tbm. Vxt lgda”
            “15W, King Kong!”
            “King o quê?”
Vestido com estampa batik, botas ametista, óculos idem, essência de CH2 – CH – CH2, eugenol, clou de girofle, trança anos 70, Alícia alicia.
            Mesas de fórmica(!) compradas na IKEA, tamboretes de plástico, quatro, cinco, seis em redor de cada mesa, todos ocupados, assim como o espaço entre as mesas, a jukebox, o balcão de vidro décor,  com drinks, smarts, bocadillos em cima, cinzeiros não, é proibido há séculos, aqui não se fuma – não se fuma, entende? -, vá procurar um Garrastazu longe dos olhares curiosos – “Aquela escadinha que dá para o sótão, está vendo?”, mas beber pode, por favor!
            - E o gorila, quem é?
            - Kkkkk! O macaco?
            Spots, neons neolíticos, filadesarmônica atrás do King Kong, texto:
            “Gorila = Pablo, fui!”
            “ZIP in no bolso, ok.”
            E essa banda cafona nas telas de led?

We do the King Kong song, gotta sing along
Can't you hear the beating of the monkey tom-tom!”

            No Garrastazu do sótão, fumaça de gelo picado, Fausta,  Pablo = 45E, Alícia, misto-quente, sanduíche de gente.
           
            “Listen to the rhythm of the King Kong song!”
             
            45E = 15W, usando, apenas, o centro do mundo, Pablo decifra o enigma:
            “½ noite = Fausta/Alícia, ZIP in = a fórmula Ca(CIO)2 do hipoclorito de cálcio para matar bactérias, fungos e afins que o macaco ingeriu; ZIP out = CH2 – CH – CH2 = eugenol, clou de girofle do perfume Le Nombre d’or – Vanille de Mona di Orio de Fausta e Alícia; 45E leste, 15W oeste, os opostos se encontram; King Kong song = ABBA.”
©
Abrão Brito Lacerda
19 08 16