segunda-feira, 16 de novembro de 2015

FRANGO À MATUTINA

        

          
         Nossa balada começou em Belo Horizonte, em um sábado de manhã,  munidos de pouca bagagem e muito expectativa, dois casais num Volkswagen gol mal alinhado que empinava para o lado como um burro. Nosso destino final seria Matutina na região do Alto Paranaíba, mas antes tínhamos uma recepção de casamento em outra cidade. A alegria imperava, ainda que houvesse um certo suspense com relação à ceia, para a qual apenas o Jay tinha sido convidado. Como um mágico, ele transformou o convite para um em um convite para quatro, e fazia altas promessas:  
- Elvis é um verdadeiro gentleman – ele elogiava o anfitrião -, vai nos brincar com um banquete!
- Um churrasco já basta, respondi, se tiver uísque e cerveja.
- E festa também! comentaram as mulheres.
- Mas é claro que vai ter – e só coisa boa, assegurou Jay.
Dispensamos o almoço e optamos por um lanche rápido de beira de estrada. Mas aproveitamos a parada para comprar algumas maçãs.
Chegamos à cidade da recepção ao final da tarde, pois as estradas do interior tem lógica própria que a gente demora a entender: você procura uma cidade e dá em uma granja de galinhas ou um arrozal.
Primeira providência: procurar UM hotel. Logo descobrimos que se tratava DO hotel, o único da cidade. Um reforço ao lanche seria bem-vindo, pois ainda teríamos algumas horas até a recepção. Mas não tinha onde, nenhuma lanchonete ou restaurante disponível!
Então, nos preparamos: ducha, prendas femininas, um blazer para parecer mais distinto e aguardamos a hora de sair.
Chegamos ao local, sentamo-nos e aguardamos. Oito e meia, nada. Teríamos errado de horário? Provavelmente não, porque havia outras pessoas. Nove horas, demonstrações de impaciência de nossos estômagos, que começaram a roncar. Lá pelas dez, o buffet...
Ao invés de um suculento churrasco regado a cerveja, foram servidos salgados frios em pratinhos de plástico, acompanhados de refrigerante.  O Jay comentou ao meu ouvido (baixinho para que as mulheres não ouvissem):
- Poderíamos usar como pelotas para nossos estilingues...
- Ou bolas de gude...
- Xiiiii!
As mulheres bancaram as mandonas, como sempre. Mas seu charme não resistiu à primeira mordida. Se orgulhosas ou ofendidas, não sei, mas a verdade é que elas se puseram de pé e nos deram nova ordem:
- Vamos procurar um restaurante!!!
- Mas não tem restaurante, bem. Não temos onde comer.
- Então, preferimos voltar para o hotel!!!
Foi o que fizemos. Por sorte, as maçãs compradas na estrada ainda estavam intactas e renovamos nosso estoque de bom humor, parodiando a nós mesmos:
- Isso é que churrasco!
- Da próxima vez, traremos a carne!
 Decidimos partir para Matutina na manhã seguinte, tão cedo quando possível.  
- Mas antes preciso consertar o carro, avisei. Essa coisa de faróis falhando deve ser o alternador.
ERA o alternador; e a bateria estava descarregada. O carro virava, sacudia-se como num ataque epilético - e morria! Fomos a pé, Jay e eu, em busca DO mecânico que, por milagre, não tinha ido pescar naquele domingo, conforme disse sua mulher. Mas o homem era sem pressa, como tanta gente no interior. Uma martelada, um dedo de prosa. Ficamos sabendo que a região da Serra do Salitre foi colonizada pelos bandeirantes, que foi citada na obra do explorador Auguste Saint-Hilaire e que existe uma briga séria quanto ao gentílico: alguns se chamam serralitrenses, outros preferem serra-salitrenses.
- E o senhor, o que é, ainda que eu mal pergunte?
- Serra-salitrense!
Plenos da cultura local, partimos contudo com máxima pressa quando o sol já ia a pino. Eu não sabia se devia confiar na nova promessa do falso Jay:
- Eu tenho parentes em Matutina. É tudo gente boa!

Matutina, MG, em foto antiga.
 Ainda assim, aceitei pegar uma estrada de chão na direção de Contendas, uma localidade pacífica no “subúrbio” de Matutina. E foi lá que encontramos “Maria da Dona Sebastiana”, como ela se apresentou, a gentileza em pessoa, uma senhora que enfrentava a vida com valentia após a morte trágica do marido, chifrado por uma vaca de leite.  Agora ela tocava a fazenda com a ajuda das filhas.
O Jay exagerou dessa vez, para nossa falsa surpresa:
- Precisamos comer. Não almoçamos desde anteontem. 
Sem delongas, Maria caçou seu mais belo capão, enquanto uma das filhas colhia os quiabos no quintal. Atiçaram as brasas do fogão e nós nos sentamos em redor, vendo-as preparar o guisado: sal pilado com alho, “pimenta?”, “sim!”, cheiro verde, colorau; o frango separado em pedaços, envolvido com o tempero, tão fresco que já seríamos capazes de comê-lo; o quiabo lavado, seco cuidadosamente, cortado em rodelinhas e refogado em óleo. Em outra panela prepararam o arroz, tão branco quanto o sorriso da dona Maria.
Colhemos mamão maduro no quintal para a sobremesa. Dona Maria ofereceu-nos inclusive pinga da adega do ex-marido, que quase declinamos.
Recuperamos a habitual gaiatice. Um único instante de vida pode nos fazer viver os três mil mundos do passado, presente e futuro.
©
Abrão Brito Lacerda
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