segunda-feira, 26 de outubro de 2015

VÔ & NETINHO

(Imagem: drang.com.br)

            Não se trata de uma nova dupla caipira, mas sim dos próprios, os inomináveis, harmonicamente divergentes e radicalmente concordes, deslocados deste mundo como peixes na areia do deserto.
No café da manhã, e mesmo antes:
            - Filho, café!
            - Já vou!
            - Por que ligou esse tablet? Vem logo!
            Cinco minutos depois:
            - Filho, já falei dez vezes! Vem tomar café!
            - Dois minutinhos...
            - Agora!
            E o vô:
            - Seu Leimar, o café está pronto!
            - Hã?!...
            - Café da manhã!
            - Tô no banheiro lavando as mãos.
            - Isso aí é o vaso!
            - Hã?!...
            Cinco minutos depois:
            - Seu Leimar, vem tomar café!
            - Tô esperando.
            - Na garagem?
            - Hã?!...
            Por um feliz acaso, avô, neto e pais se encontram à mesa:
            - “Põi” (= pai), sabia que zerei o Don’t Starve?
            - Zerou?
            - Zerei. Tinha mais de cinco mil pontos e depois detonei o Darkwing, o maior apelão de Iceland! - “Iceland” é “terra do gelo”, não é “põi”?
            - Isso mesmo!
            O avô admira as broinhas com reverência.
            - Estão deliciosas! Experimente uma!
            O avô é obediente, mas tem uma pergunta recorrente:
            - Toninho ainda não levantou?
            - Toninho está em Belo Horizonte, pai. Aqui é Timóteo.
            - Hã?!...       
            Avôs e netos são igualmente espaçosos, uns por que são velhos, outros porque são jovens demais. Depois que o filho nasce e cresce, novas regras são impostas à casa e o pai é convocado a dar exemplo de sacrifício:
            - O menino está com medo de fantasmas e vai dormir na sua cama!
            - Mas ele tá grande o suficiente pra dormir sozinho!
            - Claro! Você vai dormir na cama dele!
            As crianças, como se sabe, são difíceis na hora de comer, para desespero das mães, que imaginam o tempo todo que sua prole está passando fome – antes de começar a criticá-la por estar ficando gorda com a comida que ela lhe empurra sem parar.
            - Não quero bife de fígado e salada, mãe, quero miojo.
            Ataque de nervos:
            - Vai comer tudinho ou ficará um mês sem televisão!!!
            - Pode tablet?
            - Sem tablet, sem video game, sem nada!
            - Quero miojo com atum!
            - Ahhhh!!!...
            O pai compreende a necessidade de mais um sacrifício:
            - Deixa, eu como o bife dele...
            Assim, quando o avô chega, não há surpresa. Logo vem a mulher com o recado:
            - O pai vai dormir na sua cama. Ele precisa de um colchão macio e firme.
            - Todos os nossos colchões são assim.
            - Não me venha com seu egoísmo! O pai só vai ficar uma semana!
            Os velhinhos passam muito tempo diante da televisão, dizem as estatísticas. Comem e dormem, literalmente. Os cuidadores acham que os velhinhos não dão conta de mais nada e os deixam engordando no sofá. Deveriam permiti-los arriscar-se mais, ainda que quebrassem algumas costelas.
Às três da tarde, seu Leimar está roncando de boca aberta diante da tv, sintonizada em um filme qualquer.  É despertado por uma voz que atua como seu relógio biológico:
- Chazinho, pai?
Seu Leimar aceita, sempre de bom grado. No meio do chá, para, com uma pergunta recorrente:
- Mas Toninho está demorando, hein?
- Toninho está em Belo Horizonte, pai. Aqui é Timóteo!
- Hã?!...
Os dedos do menino se movem com rapidez impressionante sobre o console do game e suas perguntas brotam de modo igualmente surpreendente:
- “Põi”, a extinção dos dinossauros foi na Era Mesozóica?
- Não sei, vou ter que “gugar”...
- Meu livro de ciências diz que foi na Era Mesozóica.
- Então foi na “Era Mesozóica”.
- O Espinossauro foi o mais poderoso dos dinossauros, sabia?
- Não foi o Tiranossauro rex?
- Que nada! O Espinossauro era muito maior, tinha dentes muito afiados e podia nadar como um pato.
E virando-se para o avô:
- Vô, sabia que as primeiras flores surgiram no período Cretáceo?
- Toninho tá no quarto? Bem que eu vi que ele tava demorando...
- Toninho está em Belo Horizonte, seu Leimar. O senhor vai vê-lo na semana que vem.
- Hã?!...
Vô & Netinho adoram os comandos que eles passam o dia inteiro a subverter. É uma necessidade endêmica, parecem estar programados para reagir a um agente externo – a voz da mãe ou da filha, por exemplo:
- Filho, já pra cama!
- Dois minutinhos...
- Agora!
O avô admira o copo de cerveja vazio – Ah, não, ele já ferrou no sono de novo...
- Hora de dormir, pai! A cama está pronta!
Cinco minutos depois:
- O que está procurando, seu Leimar?
- Quem tirou minha cama daqui?
- Isso aí é o banheiro, seu Leimar, o quarto fica ao lado!
- Hã?!...

©
Abrão Brito Lacerda
23 10 15



segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Y LAS CHICAS SE VAN


(Imagem: www.gothling-academy.blogspot.com.br)

            A Pantaleón le gustan las mujeres de sonrisa furtiva e ideas matemáticas, como no hay muchas cerca de aquí. Le dijo su amigo Condorcito:
            - Las chicas, hay que saber mirarlas.
            - Tú hablas como si fuera profesional.
            - Soy amante de las formas, plasticidad y delirio.  
            - A mí me basta la imaginación.
            - Es modesto, por cierto.
            - Y un poco casto también.
          Pero Condorcito no juega la toalla:
            - Mira, Pantaleón, hay una fiesta en el Country Club el próximo viernes. Alicia, Rubia y  Fausta van a estar sin duda.
           - ¿Alicia, Rubia y  Fausta?
           - Sí, hombre, "las tres"...
            - No sé... no las conozco - y las mujeres...  
            - A las chichas les gusta la buena charla.
            - Las casadas y las solteras?
          - No te pierdas en la imaginación, Panta. Rubia es viuda, Fausta está soltera trás dos casamientos fracasados y Alicia busca un nuevo compañero. Hasta viernes, puede prepararte.
          Y había mucho que hacer, a empezar por los sueldos de la tienda Allmayac donde trabajaba Pantaleón - sesión de empaquetamiento.  Navidad se aproximaba y él tenía que llevar paquetes escalera arriba y tres pisos abajo. Sobre las seis iba de copas al café Tamotes y allí encontraba, siempre, su amigo Condorcito:
            - Mira "las tres" – le muestra las fotos en Instagram.  Alicia tiene siempre esa sonrisa larga; Fausta es austera pero está animadísima; y Rubia, así toda de negro, es más sexy, ¿no?
            Pantaleón hechó un vistazo en Rubia: de hecho, una rubia de treinta y pocos años, con piernas rollizas y "derrière" de Venus de Milo. Todavía no pareció enamorado:
            - Mira, Condorcito, no voy a la fiesta por las chicas; pero sí porque quiero hacer nuevos amigos que sepan jugar al ajedrez.
            - Te digo, Panta, no te escaparás de una de "las tres"...
            Dos veces más Condorcito le repitió aquella historia de "una viuda de treinta años todavía muy activa, una coleccionadora de maridos y una pin-up desesperada, dispuesta a todo".
            Pantaleón alquiló un traje apropriado, combinado con zapatos de charol negros. Quería dar buena impresión; le gustaría muchísimo encontrar alguien que supiera jugar al ajedrez. ¿A las mujeres les gusta el juego de la reina y del caballo? De salida, no olvidó los auriculares fake, que no eran para parecer moderno pero sí para no escuchar lo que sería para él la “más horrible música” del mundo.
          Las presentaciones, más que lo esperado; la charla, el inútil y el fútil en iguales proporciones. No había nadie que conocera un poco de la estrategia de Karpov o Bob Fisher. La música no era el horror absoluto, se bailaba al sonido del rock and roll; “las tres”, bueno, no se puede decir que sorprenderon el mago Pantaleón, puesto que él curió hasta el lounge y quedó a mirar el lago de los cisnes rojos. Su amigo Condorcito, borracho, andaba metido entre los pechos de Alicia.
            Una mano ligera se le posó en la espalda:
            - ¡Que suelito estás!
            Pantaleón trembló, como si fuera fustigado por un latigazo.
            - ¿Es tú el sobrio Pantaleón?
            - Si, soy yo, y tú es...
            - Fausta, amiga de Condorcito.
            - Siéntate, está más fresquito aquí.
         Fausta no se hizo rogar, se sentó de modo que sus tetas pudieran mirar Condorcito de cara y viceversa.
            Pasito para acá, pasito para allá y Pantaleón se vió con una mano dentro del décolleté de la dama. Calafrio y huida del noble Panta. Fauta le persiguió hasta los tramos de la escalera y de allí hasta la terraza, donde se dio el atraco. Pantaleó se puso desesperado ante la idea de que alguien podría verlos - y se escapó en la dirección del salón.


(Imagem: www.capablecapacity1212r.blogspot)

            Entremientes acontecía el concierto de los Crikets, banda psychobilly cuyos miembros tocaban disfrazados de zombies. La crooner llevava una ropa de muñeca extraterrestre, bailaba como loca y daba cachetes en las nalgas de una modelo de cinta liga y calzoncillos. Silbidos, humo, rock and roll... Pantaleón se puso en el clima, un trago, dos tragos, tres o cuatro más... ¿En qué pechos estaba metido Condorcito, el falso ingenuo? Nada más qué hacer sino bailar y olvidar el ajedrez... 
            Manita en la espalda, Pantaleón se volvió:
            - ¡Panta! Cómo te sientes?
            - Más o menos... ¿Dónde fuiste?
            - No hace falta. Mira, esta es Rubia!
            Ah, sí, la rubia, personalmente mucho más atrayente. Panta se arrependió de haberse desvencijado de Fausta, la morena. Rubia y su piel de cetin rosa hicieron hervir su imaginación. 
           - Me alegra que te estés divirtiendo. ¡Hasta pronto!
        ¿Hasta pronto? Condorcito, ¿cómo puedes irse ahora con esa mujer, manita  bajo la línea de la cintura? ¿Y yó, tu amigo Pantaleón?
        La música tocó más alto. Más silbilos, más tragos, ruído de gente que se lanzaba en la alberca de la cobertura. Las estrellas en el cielo y el ajedrista Pantaleón por testigo...

©
Abrão Brito Lacerda
09 10 15