quarta-feira, 26 de agosto de 2015

50 ANOS DE BUDISMO NO VALE DO AÇO, MG




Apresentação do Coral da Divisão Sênior, com regência da professora Íris.

            Ipatinga e região viveu neste 22 de agosto de 2015 um dia histórico com a Convenção Cultural em comemoração aos  50 anos da implantação do Budismo de Nitiren Daishonin no Vale do Aço. O evento é tanto mais significativo porque se confunde com a própria história da cidade, pois foi através da siderúrgica Usiminas, criada em outubro de 1962, que os primeiros japoneses se instalaram no que à época era uma vila pertencente ao município vizinho de Coronel Fabriciano, vindos sobretudo dos estados de São Paulo e Paraná. Com os imigrantes vieram os hábitos e a cultura, com destaque para a culinária e artes como a ikebana, o origami e a caligrafia, além da filosofia grandiosa do Budismo. 
            Muitos tinham se convertido ainda no Japão, outros se converteram após chegarem ao Brasil, graças ao impulso propagador do pós-guerra promovido pela Soka Gakkai, no movimento chamado Kossen-rufu.


           
Apresentação da Divisão Feminina de Jovens.










Crianças seguram cartazes alusivos à história da BSGI no Vale do Aço.











Dança das fitas, descontração e alegria











KOSSEN-RUFU E DESENVOLVIMENTO DE VALORES HUMANOS

          Kossen-rufu significa ampla propagação e é uma das bases do Budismo de Nitiren Daishonin. Ele obedece ao princípio fundamental budista de que o ser não se separa do seu ambiente, ambos constituem a mesma entidade, o que em termos sociais significa que o indivíduo não pode ser pensado separadamente de sua comunidade. Sendo assim, para realizar a revolução humana ou auto-aprimoramento, que é o objetivo primordial da prática budista, é preciso atuar junto às pessoas, realizando na prática – e não de forma meramente doutrinal ou teórica - a compaixão e a solidariedade.  
            Ao mesmo tempo em que realizam essa nobre missão, os dedicados membros da Soka Gakkai buscam revelar e desenvolver valores humanos através de diferentes práticas dentro do meio social. De 1965 até hoje, o Budismo tem se expandido cada vez mais entre famílias sem ascendência nipônica, constituindo uma das forças motrizes em favor da paz, cultura e educação em nossa região.


Crianças ensaiam para o evento.

           





Crianças ensaiando pouco antes da apresentação.









Banda feminina com crianças.











A VERDADEIRA FELICIDADE

          O compromisso com a criação de valores está na própria origem da Soka Gakkai, sociedade civil japonesa cujo marco inicial foi o lançamento do livro Soka Kyoikugaku Taikei (Sistema Pedagógico de Criação de Valor) de autoria do professor Tsunessaburo Makiguti, em outubro de 1930. Na introdução dessa importante obra pedagógica do século XX o professor Makiguti afirma:

         “A verdadeira felicidade só é alcançada compartilhando-se as tentativas e sucessos dos outros membros da comunidade. É fundamental, portanto, que qualquer conceito genuíno de felicidade contenha a promessa de comprometimento total com a vida da sociedade.”
           
EXEMPLO DE UMA FAMÍLIA PIONEIRA

          Abaixo, fotos da família Inoue, que imigrou inicialmente para a Amazônia e posteriormente mudou-se para Ipatinga.


Senhora Kikuko Inoue tocando harpa japonesa, ainda em seu país de origem.











Imigrantes japoneses na Amazônia.



Senhora Kikuko Inoue (em pé à direita) e filha Yoshiko Inoue
(em pé à esquerda) no Kaikan, em Ipatinga, MG.











RECONHECIMENTO

           Como reconhecimento à atuação da comunidade budista na região, foi entregue, através de iniciativa da câmara municipal de Ipatinga, um diploma de menção honrosa à BSGI – Brasil Soka Gakkai Internacional -, representada entre nós pela Região Metropolitana do Vale do Aço, por sua incansável promoção dos ideais budistas da paz, do diálogo e do entendimento entre os povos.


O vereador Wesley Lei do Trânsito, esquerda, entrega diploma de Menção Honrosa à BSGI - Vale do Aço, aqui
representada pelo senhor Yasuhiro Urabe, à direita.

©
Abrão Brito Lacerda
26 08 15
             




quinta-feira, 20 de agosto de 2015

HOW TO MAKE BRAZIL WORSE


 



                Many folks have complained that this country isn’t going fast enough, that it has been too lazy, inconstant and doubtful in its march towards backwardness. This way, they say, we will never get what we are promised to. One century ago, poet Oswald de Andrade claimed that antropophagia was the way to take us to or far from civilization, but we have evolved since: now autophagia is our real style. That’s why it’s amusing to worry about this old national foolishness. In fact, I believe we can achive our most-longed-for goal in a rather shorter time than politicians, economists and the media have claimed.
            Let’s see: now the crises is all around, so nothing more important than boosting economic developement. We can lie down  in peace cause it may be even more chaotic and unplanned than before. It is just a matter of dropping bashfulness, we all know what we want: millions more of cars, polluting factories, growing everywhere like mushrooms. There are people going hungry in this country and those who eat must get obese in a wink. By increasing the number of everything in our already unliving towns and cities, some of which are on the brink of a standstill, we’ll make our life impossible and get a world record: the first nation to demystify this decadent model of civilization.
            Historical sites, cultural places, nice gardens and parks must be flatenned to make room for malls and parking lots, so that we won’t recognize any trace of our past in our present. This means getting the right ballance  between progress and retrogression! Since Cabral and the carvels we’ve swung between construction and destruction, so let’s not be greedy.
            Our lack of prejudice at this point was sealed by our wise president (may she rest in peace). In a rare moment of enlightenment she spelled: “Nature obstructs progress”. Well, the Cerado is gone forever, so is the once magnificent coastal forest, mountains and mountains of the central state of Minas Gerais have been shipped to Japan, China and anywhere one needs to make steel. Big holes are left behind, they get full of water in the rainy season and make perfect mirrors to admire our growing uglyness. But the Amazon still resists, so there is a great past ahead of us.
            The poor also belong in mankind, so let’s raise them to the middle class and offer them plenty of credit to buy a car, a house,  and a ticket to Disney World. The government will rip them off or will the burglars, thieves, hackers and bankers. The middle class, on the other hand, will be lifted to the elite, where the big ideas, such us the big corruption schemes, are born and nursed. By our dwarfy politicians, those devoted people – devoted to the cause of self-enrichment!
             Flash mob for national kindness: Those who overtake other drivers on the right, leave one hand; those who cut off, move both ears; those who horn unnecessarily, gesture, etc, go to hell!



            More meanness, the crowds are hungry for butts, sex, horrible crimes, briksness! “Bossa Nova”, Tropicalism, “Clube da Esquina”, all those genres that once made the glory of our music are now overflown by tacky things such as that bad imitation of American country music, filthy lyrics, sex-appealing carnaval songs and romantic sambas.
            Soccer is our national game and we’re very proud of our Seleção’s achievements, right? Ok, so let’s set a rematch with the Teutonic football machine, the terrorising Mannschaft that inflicted a bitter 7X1 on us some day in July 2014 during the World Cup and on a Brazilian field! This time, I personnally promise, our players won’t duck out, so the final score could be something like German 14, Brazil ½.
            The Portuguese language is a mess, especially after the last infamous spelling reform? A language clean up would be more appropriate, so words such as “ethics”, “values” and “respect” should be reassessed because there is no evidence they make sense to us anymore.
            Hope the men (and that woman, the president, of course) in Brasilia won’t listen to me. Anyway, it is time to bid “au revoir” to the old inferiority complex! Our past has never been so close to our future - it’s take it or leave it!
©
Abrão Brito Lacerda
18 08 15
           
             


             



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

A IDADE DO HOMEM


(Imagem: www.ruralencontro.uol.com.br)

            - Que idade você tem, Pedro?
            - Não sei, só olhando no Registro.
            - Onde está seu Registro?
            - Perdi quando estava na fazenda do Seu Olavo.
            - Isso faz tempo, não?
            - Seis meses.
            - Que seis meses que nada: faz seis meses que você se mudou para cá!
            Pedro Dandá deve estar caducando, mas não é o que parece. Foi aberto um inquérito para descobrir sua verdadeira idade, que oscila entre os 80 e os 84 anos. Desde que foi perdido o Registro e o registro do Registro, há toda sorte de especulação. A última data certa a seu respeito é que se aposentou aos 65 anos, como todos os brasileiros natos e naturalizados que carregam essa lerdeza tropical nas costas. E lá se vão vinte anos ou quase que Seu Pedro, melhor seria chamá-lo assim, vive da modesta bolsa do governo. Ele é a prova de que aperto não faz mal a ninguém; morre muito mais gente frustrada por não ficar rica do que gente humilde que aceita sua parca existência e desafia as leis da economia para sobreviver a cada dia.
            Há uma lei, a grande Lei, aliás, a mais importante de todas as que regem a existência, que diz que a condição da vida é levantar-se como o sol, cuidar dos afazeres do dia e repousar-se para recomeçar no dia seguinte. Quando não consegue fazer mais isso, pimba!, o sol mergulhou na grande noite, você não mais verá a linha do horizonte nem sentirá o vento e o orvalho. O breu da morte, o mistério, encarrega-se de encobrir tudo e sua história passa agora a ser contada pelos que estão vivos.
            De nada vale congelar o corpo na tentativa de ressuscitá-lo dentro de duzentos ou mil anos. Que espírito vai querer habitar uma carcaça velha e rota ao invés de um feto novinho em folha com bilhões de células multiplicando-se à velocidade da luz? Só a CTI poderá prolongar por algum tempo seu suspiro falho, para grande alegria dos médicos e enorme tristeza dos herdeiros que têm que pagar a conta.
Ver o Pedrinho Dandá, com sua estatura diminuta e seu corpo de faquir, pisar no estribo e saltar sobre a sela da montaria com a galhardia de um rapaz de vinte anos, é coisa que enche os olhos. Ele dá conta de toda a lida da roça, tange e aparta o gado, tira leite, acordando às cinco da manhã, e dispensa transporte para ir à cidade, localizada a quinze quilômetros da fazenda. Sobre o cavalo, é a mais perfeita definição do Centauro que alimentava a imaginação delirante dos gregos pagãos.
A única coisa que lhe cansa é a rotina:
- Por que não quis ficar mais com o Dr. Valentim, Pedro? Ele te trata tão bem.
- Tava com saudade da beira do Rio Água Fria. O clima daqui não tem igual.
- O Dr. Valentim está fazendo de tudo para você voltar.
- Vou voltar. Mas antes vou passar uns tempos com Seu Tião; a Dona Leopoldina diz que não quer morrer sem me ver. E vou ficando por aqui até quando vocês quiserem.
- Pode fica quanto tempo quiser, Pedro. Como das outras vezes, você sabe.

Fazenda Coqueiros è beira do rio Água Fria, o universo de Pedro Dandá.

Se de aperto não morre o pobre, a mesada oficial quase custou a vida a Seu Pedro. De tanto ouvir falar que deveria descansar da labuta no campo, Pedro Dandá empregou os rendimentos da aposentadoria para assentar casa na cidade. Foi a perdição do homem. Na falta do que fazer, passou a perambular pelos bares da feira e a encher o coco de pinga, o que lhe valeu a primeira consulta médica de sua vida. Tinha o fígado comprometido, segundo o atestado médico, e já estaria na lista negra da senhora da caveira e foice. Foi quando trocou a casa por um par de montarias de primeira, arreios reluzentes e botas de couro de zebu. Voltou a viver nas fazendas, sem exigir salário fixo, apenas na condição de que ali possa pastar tão livre quanto ele sua montaria. E assim passou dos oitenta anos, sem dar ar de esmorecimento.
- Quantos anos você tem, Pedro?
A idade só faz o homem para os que estão acostumados a contabilizar. Quando chegar sua hora, Pedrinho não tremerá como uma vara verde: está destinado a tombar sobre a terra que o acolheu, de cima da montaria que há de lhe servir de pedestal, após emitir da garganta o último aboio.
©
Abrão Brito Lacerda
16 02 15



            

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

TIRADENTES E ALEIJADINHO

Com projeto de Aleijadinho, a Igreja de São Francisco é uma obra-prima do barroco mineiro.

            Aproveitando o recesso de julho, demos uma esticada até Tiradentes, que não visitávamos há cerca de vinte anos. Esperávamos uma cidade mudada, depois que virou locação para novela, cenário de festival gastronômico, de cinema e ganhou projeção internacional. Não nos surpreenderia um ambiente mais culto e refinado, que é o que se pode esperar de lugares assim.
            Antigamente a cidadezinha não diferia muito de outros lugares do interior de Minas Gerais, era mais conhecida dos livros de história do que das fotos dos turistas, mas mantinha um patrimônio arquitetônico harmônico e relativamente bem preservado. A pracinha, situada na entrada e no ponto mais baixo, de onde partem as ruas principais, era ocupada por hippies de diferentes plumagens, incluindo os argentinos, sempre dispostos a enrolar o freguês com seu portunhol malandro:
            - Se lleva tres pulseras, se paga duas!!
            Uma doce melancolia brotava das ruas de pedra, evocando a vida singela do Brasil de tempos passados. A vida corria devagar.
            As igrejas, o casario em rosário, as ruas calçadas em estilo pé-de-moleque estão hoje melhor preservados do que no passado, sobretudo porque grande parte das casas históricas, assim como outras menos antigas, além de muitas modernas, foram transformadas em pontos comerciais, lojas, restaurantes, ateliers, muito parecido, aliás – levando-se em conta as óbvias diferenças -, com o que ocorreu com as cidades do litoral da Bahia, Porto Seguro, por exemplo.
Projeto original de Aleijadinho.

            É a marcha inevitável do progresso, que rima com turismo e com comércio. E seu contraponto é a transformação do monumento histórico em uma selfie, capturada a passos de campanha por uma multidão que o pisoteia sem piedade em um círculo contínuo: sobem até a Igreja de Santo Antônio, ponto mais destacado da cidade, fazem suas selfies, percorrem as ruas adjacentes e retornam à parte baixa, às compras!
            Percorrer as ruas comerciais é uma tentação permanente: nos carros de família, normalmente já abarrotados, sempre se consegue espaço para mais um objeto de decoração, uma bijuteria, uma manta para mostrar aos amigos, dizendo:
            - Comprei em Tiradentes.
            Ainda que, para aqueles que se dão ao trabalho de ler etiquetas, esteja escrito em bom e claro português: “Fabricado na China.”
            O rústico é chique e vice-versa, sobretudo para aqueles oriundos do Rio ou de São Paulo, que buscam, et pour cause, um pouco de autenticidade no interior de Minas Gerais! As estradas que ligam a cidade ao interior foram transformadas em movimentadas vias comerciais, com uma infinidade de lojas de móveis, decoração, arte, artesanato, depois mais uma infinidade de lojas de móveis, decoração, arte e artesanato. Parece mesmo um negócio da China. A localidade de Bichinho, há cerca de dez quilômetros de Tiradentes, virou um disputado shopping center de... móveis, decoração, arte e artesanato!, com três quilômetros de extensão e continua crescendo.
            E o que era para ser nossa entrada, virou nosso prato principal: em São João Del Rei tem a igreja de São Francisco, e não é pouca coisa.  Está localizada em um dos pontos mais bem preservados da cidade, o (lindo) largo que leva o nome do santo. Na parte alta do largo vemos um atro de pedra e uma elegante balaustrada, em seguida a fachada curva e grandiosa, encimada por duas torres gêmeas que lembram muito as “tours de guet” dos castelos medievais. Ao nos aproximarmos da entrada, identificamos o estilo do mestre Aleijadinho no relevo do frontispício, executado com grande maestria, cartão de visitas para o que vem depois. A talha refinada está presente em todos os detalhes: altares, púlpitos, nichos, teto, janelas, estatuária, testemunho vivo da grandeza dos mestres e artesãos do passado. Como a nave é curva, característica do rococó, o conjunto possui um movimento suave e, paradoxalmente, sensual, sobretudo quando observado de fora, percorrendo os jardins laterais.
            Se hoje os turistas a ignoram em favor do Bichinho, tant mieux. Isso nos permite percorrer sem pressa seu interior e seus arredores, incluindo o interessante cemitério localizado ao fundo, e nos misturarmos aos locais em suas celebrações, como se estivéssemos numa cápsula do tempo.

Vista a partir do cemitério, ao fundo da igreja.

           
©
Abrão Brito Lacerda
31 07 15