sexta-feira, 10 de julho de 2015

MORTE AOS VIVOS E VIVA OS MORTOS!

 
Plasmatics com Andy O. Williams, a comandante geral do caos ou pandemônio organizado.
(Foto: youtube.com)

            Quando o cabelo e o entusiasmo começam a ceder à lei da gravidade, é comum se lembrar dos “bons tempos” que se passaram, à luz dos quais os tempos atuais parecem bregas e sem criatividade.  Até na política já andam falando de bons tempos – saudades de Collor ou de FHC? - na arte e na música, nem se fala, depois que o mau gosto criou raízes, a pandemia do atraso bate a nossa porta como um tsunami.
            Os amigos são um bom termômetro desse estado de coisas:
            - Programinhas de tevê com dançarinas bombadas e cantores de meia-tigela... A caretice anda demais, não respeitam mais o bom gosto alheio!               
            Meu amigo é o Astrildo, sobrevivente de épocas selvagens e hoje consultor de assuntos mundanos:
            - O que leva moças tão bem tratadas a treparem no varal desses boçais de três notas, Astrildo?
            - Elas querem dar.
            - Cara, você pode ser preso e deportado por misoginia!
            - Tem razão, vou vestir calças vermelhas e pintar os cabelos de cherokee, como nos velhos tempos.
            Perdoemos o Astrildo. Ele cresceu com um pé no movimento hippie, leu livros da geração beat e fumou quilos de haxixe; ouviu os Ramones cantarem “Sheena is a punk rocker” quando Jesus Cristo ainda usava calças curtas; surfou na rave sem fim dos anos 80 e perdeu a graça como o tudo mais na década tapada dos 90.
            - Só os oximoros podem aproximar as discrepâncias dessa época politicamente correta e socialmente desinfecta!
(Foto: pinterest.com)

             Sobreviver aos tempos é uma doce ironia. O problema é ver o passado como salvação do presente, sem se dar conta de que o passado não salvou sequer a si mesmo.
            Depois que morreu Cazuza, viva Cazuza!, gritam aqueles que ele desprezava no passado, conforme muito bem plasmado na canção “Ideologia”: “Meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”. Estão no poder e brindando sobre a cova de Cazuza, Raul Seixas, Jimi Hendrix, Tommy, Dee Dee, Joey e Johnny Ramone, Andy O. Williams... Oops!
            Quando o punk surgiu no final dos anos 70, o objetivo era mandar às cucuias o rock de então, transformado em um mega-negócio. Depois vieram bandas como Dead Kennedys, cínica e corrosiva, Sex Pistols, almofadinhas travestidos de revoltados e, sobretudo, Plasmatics, da saudosa Andy O. Williams, verdadeira comandante geral do caos ou pandemônio organizado. Andy suicidou-se em 1998, quando sua música já tinha ganhado o gosto do isopor, os demais estão vivos, vivaldos e vivaldinos – e o que ganhamos com isso?
            Os Dead Kennedys se separam para melhor dividir o botim. Joe Biafra, ex-crooner e letrista, sacode a pança em palcos ao redor do mundo, imitando seus trejeitos da juventude. Os demais membros contrataram logo outro vocalista, que por sua vez imita o próprio Biafra. E os Sex Pistols? Quem os vê hoje com suas vestimentas ridículas, repetindo as mesmas canções do único álbum inédito que lançaram nos idos de 1977, tem a impressão de estar assistindo a palhaços em um circo de segunda classe.

Sex Pistols, hoje. Palhaços de segunda classe.
(Foto: digitalspy.co.uk)
            Na onda do “revival” de qualquer coisa, quando a criatividade tá magra e a grana fácil, nada melhor do que reciclar os antigos rebeldes e transformá-los em carneirinhos. Então:         
         - Diz aí Astrildo, você que come arroz integral e arrota pimenta, onde posso encontrar um par de calças vermelhas?
            - Morte aos vivos e viva os mortos!
            É o único jeito de ser moderno, diferente e eterno.
©
Abrão Brito Lacerda
10 07 15