sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A REVOLUÇÃO RELIGIOSA DE NITIREN DAISHONIN


            Nitiren Daishonin, nascido Zennichimaro, foi um monge budista japonês que viveu no século XIII (1222-1282). Oriundo de uma família de pescadores, entrou para o templo localizado nas proximidades de sua vila natal aos doze anos de idade. Essa era a única possibilidade de acesso à educação para as crianças pobres da época, uma vez que não havia escolas regulares.  No templo Seityo-ji praticava-se o budista do Sutra de Lótus na linha do mestre Tiantai, sobre o qual leremos abaixo, além de outras escolas que não seguiam de forma rigorosa este sutra.
            Quatro anos após ingressar no templo, onde estudava literatura budista, além de matérias seculares, Zennichimaro  tornou-se monge e mudou seu nome para Rencho, que significa Crescimento do Lótus.
Visando aprofundar seus conhecimentos, estudou nos mais importantes centros budistas japoneses da época, nas cidades de Kamakura, Kioto e Nara, quando leu todos os sutras disponíveis e compreendeu as doutrinas das várias escolas.
Nitiren teve, desde o início, grandes inquietações: se o Budismo existe para salvar as pessoas do sofrimento e trazer paz e estabilidade à sociedade, por que as escolas então existentes eram incapazes de realizar isto?; para qual verdade essencial havia despertado Sakyamuni, o primeiro Buda histórico?; como ele, Nitiren, poderia contribuir para libertar as pessoas do sofrimento?
 Ao retornar ao Templo Seityo-ji, em 1253, Nitiren havia despertado para algumas verdades essenciais, a saber que o Sutra de Lótus era o mais importante dentre os 80 mil ensinamentos que o Buda Sakyamuni havia exposto e que o título desse sutra, o Myoho Renge Kyo (Sutra da Lei Maravilhosa da Flor de Lótus), encerra seu coração ou essência, conforme havia sido amplamente explicado por Tientai em suas obras Palavras e Frases do Sutra de Lótus e O Profundo Significado do Sutra de Lótus.
 Em 28 de abril de 1253, após ter mudado seu nome para Nitiren, que significa lótus (ren) do sol (niti), expôs o Nam myoho renge kyo pela primeira vez, dando início a sua revolução religiosa.
Os anos que se seguiram foram de intensa atividade para Nitiren. Ele passou a divulgar o Nam myoho renge kyo através de viagens pelo Japão e a ensinar uma nova prática religiosa: simples e autêntica, ao alcance de qualquer pessoa. As perseguições não tardaram a aparecer: sacerdotes invejosos e governantes tirânicos conspiraram mais de uma vez contra sua vida e contra a vida de seus seguidores. Foi quando se revelou seu coração de leão, conforme deixou cunhado na frase lapidar: “A espada afiada da fé não deve ser manuseada por um covarde.” Nem os maiores infortúnios, como quando esteve na iminência de ser decapitado ou foi exilado em uma ilha inóspita, o fizeram perder a serenidade e a determinação. Datam dessa época alguns dos mais importantes tratados e cartas que compõem sua obra, que figura entre as mais eminentes já produzidas em qualquer tradição religiosa.
Ao expirar, em 13 de outubro de 1282, Nitiren tinha deixado uma obra destinada a revolucionar a prática religiosa nos tempos futuros, aliando de forma insuperável clareza, coerência, profundidade e abrangência.
Mas em que consiste de fato a mensagem de Nitiren?
Todas as escolas budistas originam-se dos ensinamentos do primeiro buda histórico, Sidarta Gautama ou Sakyamuni (563 – 483 a.C.).  Em cerca de 45 anos de pregação, o Buda proferiu milhares de ensinamentos que foram posteriormente compilados por seus discípulos na forma dos sutras. Contudo, há dois períodos distintos nessa trajetória de pregação: os trinta e cinco anos iniciais, quando o Buda ensinou de acordo com a capacidade das pessoas, visando elevar gradualmente as mentes para alcançarem estágios mais elevados,  e os últimos dez anos, em que o Buda transmitiu a Lei em sua integralidade, descartando os meios provisórios até então utilizados e preparando a permanência de sua obra no futuro.
Nitiren enfrentou a morte por diversas vezes.
Ao serem introduzidos na China, alguns séculos mais tarde, os sutras começaram a ser traduzidos e estudados. Destaca-se então a tradução de Kumarajiva (406 d. C.), que verteu o título original em sânscrito, Saddharma Pundarika Sutra, para Myoho Rengue Kyo, onde Myoho significa “Lei Mística”, Renge é “flor de lótus”, simbolizando a Lei fundamental de causa e efeito, e Kyo é “ensino”, além de designar transformação e continuidade da vida através do passado, presente e futuro. 
Pouco tempo depois, o Grande Mestre Tiantai (538 –597) elucidou vários pontos doutrinários da obra do Buda que tinham permanecido incompreendidos até então. Foi ele quem  abriu a compreensão para o verdadeiro alcance da Lei revelada no Myoho Renge Kyo e revelou o profundo significado do título deste sutra, estabelecendo a doutrina do Itinen Sanzen ou "três mil mundos em um único momento de vida", que me absterei de descrever em detalhes aqui. 
Resumidamente, o que esta doutrina indica é que cada instante de nossa vida manifesta o potencial inteiro da vida do universo e encerra a eternidade em seus três tempos, passado, presente e futuro. Isso implica que, ao manifestarmos o estado de Buda inerentes a nossas vidas, poderemos obter o benefício supremo da iluminação imediata, pois causa e efeito não são ações consecutivas mas sim simultâneas. 
Dois séculos mais tarde, o grande mestre Miao-lo (711-782), igualmente discípulo de Tiantai, deixou anotado em seus comentários sobre Anotações sobre o Profundo Significado do Sutra de Lótus de Tiantai que, na impossibilidade de se recitar todo o Sutra de Lótus, poder-se-ia repetir apenas uma parte deste; e, ainda que fosse impossível recitar uma parte, bastaria recitar o título, o Myoho Renge Kyo, para se obter igual efeito, conforme consta no próprio sutra:Se uma pessoa repetir ainda que uma única frase deste sutra, atingirá a iluminação” e “obterá benefícios incalculáveis”.
No entanto, assim como tinha acontecido com Tiantai, Miao-le não estabeleceu nenhuma prática nesse sentido, Esse mérito coube a Daishonin. Em suas palavras: Nanyue, Tiantai e Dengyo, apesar de compreenderem perfeitamente a verdade no coração, deixaram para o líder e mestre dos Últimos Dias a tarefa de propagar amplamente essa Lei [a lei do Myoho Renge Kyo].
 Ao ensinar este simples instrumento, ao alcance de qualquer pessoa, sem exigir formação prévia, aprendizagem especial, intermediação ou cerimonial, Daishonin propiciou o meio para a salvação de todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei (a época atual). Foi uma profunda compaixão que o levou a empreender uma obra plena de sabedoria e poesia que resgata o princípio fundamental do budismo, que é uma filosofia de superação humana, de coragem e esperança para enfrentar qualquer tipo de dificuldade, sem perder o equilíbrio e a serenidade:

Ensinar as pessoas significa lubrificar as rodas para que as mesmas possam girar; ou fazer flutuar um navio para que o mesmo possa ser movimentado facilmente”.


O Myoho Renge Kyo é o ritmo do grandioso universo.


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Abrão Brito Lacerda
18 12 14


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O DESEJO É UMA LEGGING PRETA


     
              Foi-se o tempo em que o desejo desfilava por aí em jeans justíssimos! Ele agora bate pernas é de legging, uma peça simples, básica e disputada. Como pode ser?
            A roupa foi inventada para proteger, lá no tempo das cavernas, quando não passava de peles grosseiras e embiras para mantê-las no lugar. Mas a civilização foi inventada e a arte de ocultar e revelar em igual proporção não tardou a aparecer. Se, para o homem, o caráter prático predomina, para a mulher há muito mais coisa em jogo. A vestimenta tornou-se um meio de sujeitá-la, de impedir seus movimentos livres, de enquadrá-la de um modo ou de outro. Neste quesito, a parte de baixo tem uma história reveladora: a calça comprida para o homem existe desde a Idade Média, mas só no fim do século XIX ela foi admitida, de forma restrita, para as mulheres, com o nome de "culotte". E só se popularizou depois da Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 50, mais precisamente. A calça é, portanto, um símbolo de evolução e de conquista social para as mulheres.
          A arqueologia demonstra que a legging começou com outro nome, fazendo parte do grupo dos collants ou “colantes”, que podia ser muita coisa: blusa, top, body ou calça. Depois, collant passou a designar apenas uma vestimenta feminina de cima, semelhante a um maiô de banho.
    Os defensores dos tecidos macios e inimigos da calça inventada por um cowboy americano aplaudiram com entusiasmo o desembarque do uniforme inoficial das mulheres (jovens e nem tanto) de hoje: a legging... preta. Enfim, o imperialismo de Levi Strauss encontrou um adversário à altura, e com múltiplas vantagens.
Um collant não é uma legging. Só um homem não entende isso.

            As leggings parecem ser o máximo em conforto e podem ser vestidas em alguns segundos, ao contrário dos jeans hiper-justos. Menos um motivo para se atrasar na hora de sair. São práticas e muy sexys: protegem, realçam e valorizam as curvas. São ainda muito igualitárias e democráticas: nenhuma mulher trocaria sua pretinha básica por uma branca qualquer. Não distinguem classes sociais: podem ser compradas chez le camelot ou chez Dior. Enfim, tornaram o conceito de moda obsoleto: aquelas modelos de ar cansado desfilando sobre a passarela, vai e vem sem parar, poses, flashes e calos, e, na cabeça, um só desejo: libertar as pernas da tirania do andar de gato, através do toque elástico e suave de uma ... legging preta!
©
Abrão Brito Lacerda
03 11 14
revisado em 16 06 16