sexta-feira, 26 de setembro de 2014

NO PAÍS DAS MARIONETES


Que falta de respeito, que afronta com a razão
Qualquer um é senhor, qualquer um é ladrão

(Tango de Enrique Santos Discepolo (1934))

            Como todo brasileiro, sou obrigado a compartilhar o momento presente com uma deprimente campanha eleitoral, onde reina o cinismo, o sofisma e a falta de pudor. Antes tínhamos complexos de vira-latas, na famosa frase de Nelson Rodrigues. Depois, viramos um Cambalacho, na versão de Raul Seixas para o tango de Enrique Discepolo. Hoje, somos o antro da hipocrisia, uma terra onde roubar, mentir, matar, corromper, ser corrompido, ou seja lá que delito for não constitui uma falta passível de ser sancionada pela lei. Pela lei, que lei? Desculpe, foi um ato falho.

Palhaços, fantasiados de brasileiros, fazem uma Palhaceata no Rio de Janeiro.
 (Foto: revista Anjos do Picadeiro, Julho 2014).
            Quando uma autoridade se manifesta, lá vem mentira. Quando a justiça toma a palavra, uma piada. Quando os jornais escrevem, vaselina. Quando a televisão anuncia, sensacionalismo. Quando o cidadão fala, ponha-lhe um nariz de palhaço, porque este é o disfarce favorito do brasileiro.
            Há dois meses um diplomata israelense chamou o Brasil de anão diplomático. Não houve reação à altura dos chanceleres brasileiros – teriam vestido a carapuça?  Na copa do mundo, uma derrota vexatória expôs a incapacidade dos atletas de enfrentarem dignamente uma situação difícil - foram orientados por gente ultrapassada, sem dignidade.
            Breviário de nossas relações sociais: se for convidado, não responda; se confirmar, não vá; se for, chegue na hora que quiser. Assuma tudo com a maior cara de pau, faça descaso do resto. Assim agindo, estará preparado para viver no Brasil.

Os músicos Domingos Tibúrcio e Marcos Vaz apresentam-se no Bar Beirute em Timóteo, MG.
 Há boa música para se ouvir, ainda.
            E pra te arrasar, a ascensão das novas classes invadiu os espaços públicos e privados. A música popular, antiga prima-dona da cultura brasileira, está hoje relegada a um papel de coadjuvante. Você entra numa padaria e tá tocando aquela música que rima abraço com amasso, e a balconista fica cantarolando no seu ouvido. Não precisamos de terroristas da Al-Qaeda!
A república (que é federativa do Brasil) foi assalta por gente proveniente do operariado e das classes emergentes, que se misturou com as tradicionais elites e “quadrilhizaram” o estado. É troca, troca, toma lá, dá cá, uma indecência com dinheiro público. Parece a Roma de Nero, guardadas as indevidas proporções.
            Não acuso quem busque outros destinos, mas, fiquem sabendo, a coisa tá feia. O visto americano é difícil de obter, no Uruguai não há o que fazer, o Japão fica muito longe e a lua é por enquanto inabitável.
José Rosário Castro, artista plástico e poeta de Dionísio, MG.
Estilo de vida discreto e autêntico.
            No país das marionetes, como o sol que se levanta a cada dia, fazer a arte pela arte é a única filosofia possível.  
Vá ao teatro: há ótimos comediantes representando com garra. Viaje pelo interior: artesãos tecem, moldam, cozem o barro. Prestigie as exposições: artistas de mão cheia materializam os sentimentos positivos que fazem a vida valer a pena. Ouça os bons músicos que vivem do próprio trabalho e sacrificam-se pelo amor ao que fazem.           
Leia os poetas e os cronistas anônimos, visite seus blogs, deixe comentários, recomende-os a um editor!
            Na arca de Noé nos salvaremos todos ao final.
©
Abrão Brito Lacerda

26 09 14

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

DIANTE DA VITRINE


(Foto: conexaoparis.com.br)


Diante da vitrine, paro, sento, medito. Há um banco sobre o passeio, a vitrine da padaria, mil bolinhos, pavês, pãezinhos confeitados, mille-feuilles, tortas, éclairs, struddles, muffles, croissants, pudings, rocamboles. As línguas se misturam em meu desejo, minha consciência faz-se de juiz: “Seu lanche é às 17:30.”
Por que nascemos com uma consciência, não bastariam o estômago e a vesícula? Nem sei para que serve a vesícula, sempre fui mal em aritmética e desconheço os cálculos biliar e renal; mas sei das mil e uma utilidades do estômago, nosso segundo cérebro, afirmam os especialistas. Então, viva a consciência, nossa porção de conjeturas que nos permite distinguir-nos das espécies quadrúpedes, bípedes, trípedes e monípedes!
- Quero quatro struddles. À merda minha consciência!
- O quê? O senhor quer “confluência”?
- Desculpe, é minha consciência, sabe, a senhora provavelmente também tem uma. Está me dizendo que meu lanche é às 17:30.
- Neste caso, o senhor compra agora e come às 17:30.

(Foto: blog.canpan.info)

Brilhante! Jamais imaginaria que uma simples atendente conhecesse tanto da psicologia humana.
- Quatro struddles e dois muffles, por favor.
Volto para o banco, minha sacolinha parda de guloseimas à mão. Olho, reflito, há gente apressada demais no mundo, talvez gente demais no mundo. E, no entanto, os ipês estão enfeitados de roxo, amarelo, branco, há também flamboyants e hibiscos. Vermelho, rosa, laranja, carmim, violeta, botõezinhos trincando de tesão. A moça que passa só quer ser admirada, não tem tempo para olhar de lado, bem feito, há buracos no passeio, copos plásticos, envelopes de bala-doce, palitinhos de picolé. Por onde anda nossa limpeza pública? Só vejo sujeira pública, dizem, quem joga lixo no chão está com a mente entulhada. Acredito piamente, há tranqueira demais nas cabeças, vamos limpá-las, carros tão lustrosos e bonitos e a gente suja por dentro, ouçam o passarinho.
Quando um pássaro canta, outros aparecem. No galho do ipê, três passarinhos desafiam o furor da tarde, alegres e arteiros. Cagam no banco, bostinhas brancas com pontinhos pretos. Como é lindo o cocô dos passarinhos, como é nojenta a caca dos cachorros, a senhora arrasta o cãozinho pela coleira, ele protesta, ela ralha indignada ao ver a estripulia deixada pelos pardais no capô do seu “truck”. Nunca estacione debaixo de uma árvore, sua educação pode cair junto.
- O senhor viu quem fez isso?
Demoro a responder, ultimamente insistem em me dar este tratamento, não tenho cabelos brancos, só alguns fios grisalhos, considero apenas a possibilidade de aceitar ser chamado de “tio”.
- Os passarinhos.
- Passarinhos não dirigem carros.
- Isso é porque a senhora não assiste aos mesmos desenhos animados que meu filho...

(Foto: flickr.com)

Ela arranca enfezada, os passarinhos revoam com o barulho do motor, o cão late para mim, meu segundo cérebro avisa que já são 17:30.
A gerente da padaria baixa o toldo para proteger a vitrine do sol da tarde. Na lona está escrito: “Gaseosa, um gole de alegria”.
- Não quero gaseosa, quero a liberdade dos passarinhos.

©
Abrão Brito Lacerda
12 09 14


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

DENTES PRA QUE LHES QUERO!





www.picturesof.net

            Tem uma expressão francesa de que gosto muito: “Croquer la vie à belles dents.” Significa viver intensamente, desfrutar da vida como se tivesse fome, mordê-la literalmente, coisa que só fazemos à mesa do almoço. 
            Os dentes são nossa vitrine para o mundo, têm mil e uma funções, inclusive estética. Mas custa caro mantê-los brancos e reluzentes, harmônicos como o teclado de um piano. A maioria de nós tem pequenas ou grandes imperfeições, coroas, próteses, implantes, obturações, pontes, roachs, dentaduras e dentes sisos. Antigamente, quando começavam a doer, eram logo extraídos e ficávamos com uma horrível sensação de incompletude, tão vasta quanto a vergonha de abrir um sorriso banguela. Mas, ainda hoje, com recursos suficientes para transformar qualquer draculina em uma modelo de propaganda, os problemas abundam. Que diria algumas de minhas amigas!
A Margarete quebrou o dente comendo pão. Fizeram um revestimento bonitinho e ela foi pra festa de casamento da irmã, com garantias de que “não se soltaria.” E não é que se soltou?
            A Zanilda estava outro dia mais triste do que os eleitores do Aécio:
            - Que foi, mulher!
            - Umm-umm!...
- Desembucha!
- A “xaqueta”...
- Você está com frio neste calor?
- Nããã... Meu dent’...


A jaqueta tinha se soltado e ela viu-se em plena rua tapando a boca com a mão, como se tivesse acabado de assistir a um discurso da presidente Dilma.
Com um dente novo a dois mil reais, ela protelou o tratamento o quanto pode e teve de conviver com seu incisivo soltando-se em fila de banco, chá com as amigas e... banhos de mar...
Pobre Zanilda, e vejam que tem casos piores.
Tem o truque do corega, aquele produto para fixar dentaduras (cola tão bem a resina na gengiva que você tem a impressão de estar comendo os próprios dentes) e base de unhas, segredo revelado ao pé de ouvido. A Zanilda tentou os dois, e foi assim que resistiu até poder pagar a conta do dentista.
Caso pior foi o da Svetlana, moça fina, um chuchuzinho. Dessas que suscitariam uma invasão estrangeira. Ela é intérprete e vive de boca em boca, devolvendo em russo o que ouve em português e vice-versa. Da boca da Svetlana jamais poderia cair um dente – mas caiu.
Não de repente, pois não era mais dente de leite. Originou de uma cárie mal obturada, dos tempos em que ela morava em um vilarejo russo. E aí veio a visita do cônsul.
Um cônsul russo é coisa rara de se ver, portanto a visita foi hi-per-im-por-tan-te. Lá estava Svet no meio de uma pergunta, quando – Putin! –o dente soltou-se.
- ?
- !
- Г-жа проходит хорошо?
“A senhorita está se sentindo bem?” Os assessores entreolharam-se,  Svet “passou “ mal, foi levada ao banheiro, ficou sozinha e colou o maldito dente – com esmalte, e aqui entrego definitivamente a Svetlana, pois foi ela quem revelou o truque.
Hoje ela tem um definitivo perfeito, em harmonia com o resto do corpo.
O dente definitivo é um divisor de águas na vida de muita gente. Leiam a história de Ivonete, a última e mais dramática:

www.eveningtimes.co.uk
Era o aniversário do filho da Ivonete e ela estava super-atarefada. Para piorar, o tratamento de dente atrasou e ela ficou usando um dente temporário mais tempo do que desejaria. Resolveu relaxar e até aprendeu como fixar a prótese quando esta descolava - por exemplo, durante a escovação. Depois ficou ainda mais prática: passou a retirar o dente ao fazer a higiene.
Os convidados iam começar a chegar, ela tinha que se apressar. Aí, raios!, o dente caiu dentro da pia.
Zup! Sumiu.
Ivonete entrou em pânico, e agora, o que ela ia fazer?
O que eu faria, o que você faria?
Ivonte pegou o celular e ligou pro marido.
- Meu dente caiu dentro da pia!
- Fique calma, eu posso pegar pra você.
- Então, vem logo!
O marido trouxe as ferramentas, desmontou a mangueira, abriu o sifão e lá estava o molar, misturado com fios de cabelo e otras cositas más...

Depois de lavado, fervido e higienizado, voltou pro seu lugar... devidamente colado com goma de mascar!

©
Abrão Brito Lacerda
06 09 14