terça-feira, 19 de agosto de 2014

O DRAMA DAS IDADES


             
             Lorde Sakyamuni, o Buda, identificou os sofrimentos fundamentais do ser humano, nascimento, envelhecimento, doença e morte, e passou quarenta anos ensinando como libertar-se destes a partir da transformação interior. Ele próprio viveu uma vida longa e extremamente produtiva, superando um a um os obstáculos que se lhe apresentaram, imbuído de profunda compaixão e benevolência para com todos os seres. Sua sabedoria permitiu-lhe fundir-se a toda a vida do universo e extrair a energia vital que emana do tempo sem início, perpassa o presente e prolonga-se pelo futuro sem fim e assim ensinou-nos como alcançar a imortalidade aqui e agora, sem efeitos mágicos, sem milagres – e sem intermediários.
            Pessoalmente, ignorei a existência de sua mensagem até muito recentemente, achava que era coisa de gente que raspava a cabeça, passava o dia meditando e acendia incensos em templos localizados no meio das montanhas. Sempre se pode imaginar como teria sido nossa vida caso tivéssemos conhecido outras opções em tempo hábil, mas o Buda ensina que o tempo hábil é este, aqui e agora, onde você está. Porque o passado, assim como o futuro, reúne-se no tempo presente se você despertar para a grandeza que reside em seu interior, tal qual uma jóia costurada em um manto, que pode passar a vida inteira sem ser percebida.
            Tendo sofrido a perda de minha querida mãe há pouco mais de um ano, e já não tendo mais pai vivo desde algumas décadas, senti-me semente sem vento para transportá-la, água sem solo para fertilizar, pássaro sem céu. O sofrimento inevitável do envelhecimento, doença e morte que a atingiu pareceu-me injusto, em que pese o fato de ela já estar em idade avançada e ser a última pessoa viva de sua numerosa família.
            Depois das lágrimas, eu disse “assim seja”, mas ficou um travo indissoluto na consciência, uma espécie de rancor, como se eu devesse ter sido o filho que não fui, a pessoa que não sou, ter-lhe feito o bem que não fiz.  Ato contínuo, descobri-me preso em minha própria teia mental, uma armadilha feita de pensamentos confusos, em sua maioria de procedência alheia: pensamentos de dor, sacrifício, arrependimento. Atraíam-me para o fundo, para a escuridão. Então a perda de um ente querido obriga-nos a verter lágrimas sem fim e a representar um drama de infelicidade? Então a consciência cristã que nos rodeia, com seus pecados, com o Cristo pregado na cruz, com sua promessa de ressurreição post-mortem deixa-nos à míngua diante de um evento tão comum quanto a morte?

Siddhartha  Gautama, ou Sakyamuni - o Buda.
A fonte de toda a sabedoria.
            E, sem procurar, encontrei a resposta.
            Lorde Sakyamuni deixou evidenciado no Sutra de Lótus, seu mais elevado ensinamento, que todos nós possuímos de forma inerente o estado de Buda e podemos, portanto, atingir a iluminação aqui e agora, sem mudar de forma ou deixar de ser quem somos. O tempo de uma existência terrena insere-se em um tempo maior da vida, que é eterna. O espírito, por assim dizer, vai e volta. Colhemos os resultados de nossa vida presente tanto nesta existência quanto nas próximas. E, se somos eternos, nos encontramos outras vezes, não faz sentido eternidade como coisa isolada. Há um princípio da vida ao qual retornamos, devemos nos alegrar com isso, jamais martirizar-nos.
            Alcançar um estado de vida elevado, condição de buda que todos nós possuímos de forma inerente, significa reunir os três tempos da existência, passado, presente e futuro. A que mais poderíamos aspirar? Esta é uma mensagem clara, que satisfaz a inteligência e o coração. Uma fonte de luz que dissipa a escuridão mais espessa, um manancial de coragem que varre o medo, um remédio contra qualquer veneno, a verdadeira sabedoria.
Ao corpo morto, o devido repouso, até que os vermes o reintegrem ao ciclo natural. Sendo pó, ao pó retornará. Mas, e a matéria indelével, o espírito que não morre e sim renasce numa sucessão de vidas terrenas? Resta ignorá-lo – e aceitar a aparência como realidade – ou conectar-se a ele, sem precisar contudo recorrer a videntes, vigários ou médiuns, gente que incomoda o repouso de quem já se cansou das falácias deste mundo.
            O drama das idades deve ser representado por todos nós, inexoravelmente. Contudo, devemos viver os sofrimentos inevitáveis do nascimento, envelhecimento, doença e morte com altivez e dignidade, extraindo do presente as inúmeras possibilidades que ele oferece.

Em Ouro Preto, MG: Rose, Eu e Dona Celsa, minha mãe.

            Tenho profunda gratidão ao lorde Sakyamuni e a toda a linhagem de sábios e pessoas comuns que transmitiram seus ensinamentos através dos séculos. Desfeito o manto velho, os andrajos que me davam uma careta de realidade, posso lustrar trajes reluzentes que estarão sempre na moda onde eu estiver. São feitos de uma matéria indelével, sutil e extremamente resistente, capaz de durar por toda a eternidade.

©
Abrão Brito Lacerda


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

REMEMBER - CHRISTINA ROSSETTI


Ilustração de Dante Gabriel Rossetti, irmão da poetisa, para o livro Gobling Market and Other Poems.

            Christina Rossetti foi uma poetisa inglesa do século XIX (1830-1894), proveniente de uma família de grandes talentos (pai poeta, irmão pintor e poeta). Começou a escrever muito cedo e se tornou uma das vozes femininas mais conhecidas da poesia vitoriana, juntamente como sua compatriota Elizabeth Barret Browning. Sua obra é caracterizada pelos temas do amor e da morte, assim como pelo misticismo religioso. O poema a seguir é um dos mais conhecidos de sua rica lírica.
Ao lado do original, uma tradução livre, para que o leitor penetre o “sentido” do poema. Logo depois, uma breve análise e uma versão pelo nosso maior poeta, Manuel Bandeira.        
           
                     REMEMBER
BY CHRISTINA ROSSETTI   
    
Remember me when I am gone away,
Gone far away into the silent land;
When you can no more hold me by the hand,
Nor I half turn to go yet turning stay.
Remember me when no more day by day
You tell me of our future that you plann'd:
 Only remember me; you understand
It will be late to counsel then or pray.
Yet if you should forget me for a while
And afterwards remember, do not grieve:
For if the darkness and corruption leave
A vestige of the thoughts that once I had,
Better by far you should forget and smile
Than that you should remember and be sad.


                     LEMBRE-SE
CHRISTINA ROSSETTI

Lembre-se de mim quando eu me for,
Para bem longe, para dentro da terra silenciosa;
Quando não mais puder segurar-me pela mão,
E eu queira ir e ficar ao mesmo tempo.
Lembre-se, quando não mais, no dia a dia,
Puder falar-me do futuro planejado:
Apenas lembre-se de mim; você entende
Depois será tarde para aconselhar ou orar.
Mas, se tiver que me esquecer por um momento
E lembrar-se depois, não se aflija:
Pois se a escuridão e a decadência deixarem
Vestígio dos pensamentos que tive uma vez,
Melhor será esquecer e sorrir
Do que lembrar-se e ficar triste.

  
        “Remember” foi publicado pela autora em 1862 em seu segundo livro, “Goblin Market” and Other Poems. Trata-se de um soneto petrarquiano, com um esquema de rimas ABBA ABBA CDE CDE.
            O tema do amor e da morte estão aí intimamente entrelaçados, enquanto componentes inseparáveis da vida. Como lembram alguns críticos, a autora estava profundamente deprimida quando escreveu Remember e grande parte dessa depressão vinha possivelmente de seus desencontros amorosos: embora tenha tido mais de um pretendente e, inclusive, ficado noiva por três vezes, nunca veio a se casar.  
Quem a “aconselhava”, “orava” por ela e “planejava” seu futuro?  Possivelmente seus pais, mas também algum pretendente já que o poema diz “nosso futuro que você planejava”. Em qualquer um dos casos, ela ficava sempre “querendo ir e ficar”, relutante entre sua independência e entregar-se a uma relação que, naquela época, era uma verdadeira prisão para a mulher.
Seria um poema de amor não consumado, não fosse a poesia essencialmente um ato criador/recriador e, capaz de reunir os tempos do passado, presente e futuro.  Todo poema retorna ao ponto inicial, recria, lança-se para o futuro, sem deixar de ser presente.   

No poema de Christina Rossetti, o eu lírico vislumbra a morte (passado), pois sua relação com o presente – amor, vida – é ambígua demais para durar, ainda que planos sejam elaborados para o futuro: “when I am gone away” e “our future that you planned” giram incessantemente em torno do eixo do “remember”, o presente indelével, pois, obviamente, só quem está vivo pode se lembrar. 
E agora, para sua fruição, a versão do mesmo poema pelo mestre Manuel Bandeira:


REMEMBER

Recorda-te de mim quando eu embora
For para o chão silente e desolado;
Quando não te tiver mais ao meu lado
E sombra vã chorar por quem me chora.

Quando não mais puderes, hora a hora,
Falar-me do futuro que hás sonhado,
Ah de mim te recorda e do passado,
Delícia do presente por agora.

No entanto, se algum dia me olvidares
E depois te lembrares novamente,
Não chores: que se em meio aos meus pesares

Um resto houver do afeto que em mim viste,
- melhor é me esqueceres, mas contente,
Que me lembrares e ficares triste.

©
Abrão Brito Lacerda


sexta-feira, 1 de agosto de 2014

DEUS E EU

(imagem christianspot.com)
Tenho um amigo que anda às turras com Deus. “Não acredito mais”, disse-me ele, “Faz anos que rezo e não saí da crise. Vejo gente sem fé se dando muito bem na vida.” “Por que você não consulta um economista, um psicólogo ou uma cartomante?”, eu lhe sugeri. “Economistas falam economês, psicólogas são boas na hora de arranjar emprego e cartomantes estão fora de moda”.
Que cara inconformado! Sugeri que ele ouvisse Bach, o gênio que criou Deus à imagem e semelhança de sua música. “Não tenho paciência para música clássica”, me disse. “Mas Bach não é clássico, é barroco". “Dá no mesmo.”
Ora, se o cristão não ouve Bach, como pode sair por aí falando em nome de Deus? “Prefiro ouvir o pastorda minha igreja”, rebateu de imediato uma amiga minha, santa mulher, que só usa saias abaixo dos joelhos e não depila as axilas.  E eu que não sabia que os pelos do corpo tinham a ver com Deus! “O pastor é músico também?” , perguntei na minha inocência. Minha amiga se irritou francamente: “Você é um ateu!”
Ateu, eu? No, non, nichts, ni un poquito. Tenho ótimas relações com Deus, com o Espírito Santo, com Jesus Cristo, com toda a família. 
Por exemplo: nunca proclamo seu santo nome em vão. Agora essa conversa de sair por aí dizendo que Deus manda e desmanda, que assevera e pune, que sabe o que está em seus pensamentos tanto quanto em sua conta bancária é conversa para assustar criancinhas. E tem mais: ele não se importa de sair do paraíso e aterrissar (isso é modo de dizer) nas páginas de minhas histórias. Afinal, Deus passa o tempo aconselhando os anjos, a quem delegou a lida diária com os problemas humanos.
Por exemplo, o sujeito vai a mil pela estrada, erra a curva e acaba debaixo de um caminhão. O anjo Gabriel se prepara para descer em socorro. “Mas se o cabeça dura tiver um longo histórico de imprudências – adverte o Senhor –, deixe-o morrer!”. 
E tem outra amiga que mandou estampar no vidro traseiro do carro: “Propriedade de Deus”. Esta semana, ela chegou para mim, indignada: “Alguém arranhou me carro! Sem o que fazer!” “O carro é de Deus, mulher – tive a infelicidade de lembrar -, ele não dá importância a essas coisas.” Perdi a amiga.
Fui me consolar no Facebook e lá encontrei esta pérola: “Deus só escolhe os fortes.” Que fraqueza levou alguém a erigir tal monumento à arrogância? Decidi passar a história a limpo com Deus.  “Um pastor pode devorar as próprias ovelhas ou deve  deixá-las aos lobos?”, tomei a liberdade de Lhe perguntar, afinal, somos amigos. “Por que você não procura o Afrânio”, foi a resposta de Deus.



Corri para encontrar o Afrânio, afinal faltavam poucas linhas para terminar a crônica. Ele me mandou além, na "Igreja do Evangelho Bipolar, onde o pastor de dia é Deus e de noite é o Diabo". Para o Afrânio, “Esse pastor conhece o caminho das pedras, começou com menos de dez, hoje tem quase quinhentos fiéis. Se todos vierem comprar em minha loja, saio da crise". “Vou dispensar, mas que Deus o abençoe”.
Que Deus abençoe a todos, aos crentes e aos descrentes, aos fortes e aos fracos, aos amigos e inimigos, aos ricos e aos pobres, aos que traem e aos que são traídos. Dê-lhes saúde, pague suas contas, eduque seus filhos e livre-os do mal, amém.
Agora, com licença, tenho que atender à porta. Deus se cansou mais uma vez das arengas dos anjos e veio falar comigo. Algum pedido?
© 
Abrão Brito Lacerda