quarta-feira, 23 de julho de 2014

UM RIO: ESTE

Banhando-me na foz do Rio Jequitinhonha, em Belmonte, Bahia.

             Tendo nascido no município de Itarantim, no Estado da Bahia, e de lá saído quando começava a andar, não guardo nenhuma lembrança da minha terra natal.  Apenas uma certa nostalgia, que jamais desmistificarei: melhor manter o sítio numa aura mágica, como uma espécie de origem perdida que me impulsiona a estar buscando sempre.
            Nasci em Córrego dos Trabalhos, mais precisamente, um lugar que não consta no mapa. Meu pai andou um dia inteiro a cavalo até chegar ao tabelião mais próximo, que ficava em Salto da Divisa, cidade situada no lado de Minas Gerais, nas margens do Rio Jequitinhonha, para me registrar. Deduzo que o dito córrego do meu local de nascimento desemboca em algum rio, que por sua vez deságua no Jequitinhonha como afluente, ligando minha vida de algum modo a esse mítico rio.
Nascente do Jequitinhonha, em Serro, Minas Gerais.

            Quando eu tinha um ano e meio, meus pais resolveram se mudar para outra localidade, um pouco mais ao sul do estado da Bahia. Sobre essa viagem, feita em um caminhão, carregando várias famílias, ouvi dos mais velhos histórias dignas de uma epopéia. Foi quase um mês para percorrer pouco mais de trezentos quilômetros! As estradas eram caminhos talhados no meio da mata atlântica, que então cobria todo o sul da Bahia. Pontes não havia, então foi preciso atravessar o temível Rio Jequitinhonha de balsa. Teve gente que se recusou a tamanha façanha e muita reza foi necessária para que todos chegassem sãos e salvos do outro lado e pudessem continuar viagem até o destino.
Uma linda cachoeira no Jequitinhonha, em Milho Verde, Serro, MG.

            Quando cresci e comecei a viajar, cruzei por várias vezes o Rio Jequitinhonha, a começar pela ponte da BR 101, no município de Itapebi, sul da Bahia, e sempre senti a mesma emoção ao encontrar esse ente natural, espécie de amigo que flui para o mar desde o remoto passado. Era como se eu precisasse conhecê-lo melhor para descobrir um pouco mais de mim mesmo.
            O mesmo aconteceu quanto estive em Milho Verde, região da Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, onde nasce o grande rio. Não poderia haver cenário mais bonito para um curso d’água iniciar sua aventura pela superfície do planeta em direção ao soberano mar! Em meio a uma topografia rochosa e uma vegetação de transição, com aspectos de serrado nos platôs e mata atlântica nos vales, belas cachoeiras se formam no leito de pedra, convidando a uma pausa, uma reflexão ou um refrigério nas águas transparentes. É lá que eu sempre vou para esquecer as agruras do nosso mundo de aparências.
Tropeiros atravessando uma ponte sobre o Jequitinhonha em Diamantina, MG.

            Paradoxalmente, quando o rio desce mais em seu curso e ganha volume com a contribuição de vários afluentes, tem que atravessar uma região semi-árida, caracterizada pela pobreza e o infortúnio da gente ribeirinha. O Vale do Jequitinhonha é uma das regiões mais pobres de Minas Gerais e do Brasil, e não o é certamente por uma birra da natureza, mas sim pelos erros dos homens, e por isso paga um alto preço, a começar pela peja que carrega. Outro paradoxo: ali se produzem algumas das manifestações culturais mais ricas do estado, como o artesanato e a música.
            Ao se espraiar em terra plana, logo depois de Salto da Divisa, o rio perde a sua mística e passa a gozar da quase indiferença que o caracteriza no estado da Bahia, onde só é notícia quando alguma enchente do seu regime ciclotímico abate os desafortunados de Itapebi e afins. A partir daí seu leito se afunila novamente, até virar o denso caudal barrento que ele despeja no Oceano Atlântico.
Ponte sobre o Jequitinhonha na BR 101, em Itapebi, BA.

            Conhecendo a nascente do rio, tendo curtido algumas das cachoeiras que adornam sua parte alta, não poderia deixar de visitar a sua foz. Para tal, fui até Belmonte e banhei-me no encontro de suas águas com as do mar. Vê-lo assim tão decidido e poderoso, empurrando o oceano com calma fúria, mostrou-me que a grandeza se faz com a soma de pequenos gestos e é construída ao longo de uma marcha sinuosa. Voltei a ser menino novamente, pés no chão e imaginação desgarrada. Se morro algum dia, o que duvido muito, pedirei para que lancem minhas cinzas em qualquer ponto do grande rio. É no seu leito que quero ser embalado para a eternidade.

O encontro do grande rio com o Oceano Atlântico, em Belmonte. BA.

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Abrão Brito Lacerda



            

sábado, 12 de julho de 2014

MILHO VERDE, MINAS GERAIS

A vida tranquila, o encontro com a natureza.

             Chegamos a Milho Verde em uma tarde de inverno, logo depois da Grande Fossa que adveio em conseqüência da derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo. Assistimos ao jogo, isto é, à hecatombe em uma pousada de Diamantina. São tempos de férias e de copa e há muitos estrangeiros viajando pelo país. Na pousada, os franceses, que assistiram ao jogo junto conosco, estavam torcendo pelo Brasil, foi o que disseram antes do jogo. Eles estavam mais confiantes do que nós, que já admitíamos de antemão a possibilidade de uma derrota do Brasil.
            Havia também alemães. Esses, por um explicável(?) pudor germânico, preferiram ficar em seus apartamentos. Não pareciam muito ligados no jogo, pelo menos antes desse começar. Depois do apito final, e com a cidade de Diamantina mergulhada no silêncio, vi-os no lounge trocando mensagens frenéticas com seus patrícios do outro lado da Internet. Não pude entender o que diziam, porque não sei alemão. Mas, pelo tom, pela atmosfera fúnebre estampada no rosto dos brazucas e por meus próprios sentimentos, adivinhei o conteúdo dos seus diálogos:
O paraíso fica na Serra do Espinhaço, região do Pico do Itambé, em Minas Gerais.

            - Você precisa ver! Os brasileiros estão boquiabertos! Parece que caíram de um avião!
            - Sete a um! Por aqui estão dizendo que eles ficaram amarelos de medo!   
            - Esta é a mais nova versão para a cor da camisa do Brasil. Dizem que vão trocá-la por uma camisa negra, de luto.
            - Tem uma piada circulando que diz que...
            Melhor parar de adivinhar o que diziam os organizados alemães, que deram uma bela lição de esporte e competitividade aos brasileiros, desorganizados e pretensiosos. O Brasil achava-se bom acima do que podia responder, construiu-se uma ilusão, impulsionado pelo mercantilismo e pela mídia, que nadaram em propagandas ufanistas e enganação. Caiu do cavalo, quebrou a perda, entrou na Grande Fossa.
Vista da região de São Gonçalo do Rio das Pedras.

            Portanto, nada melhor do que chegar a Milho Verde, com sua natureza exuberante e seu astral nas nuvens.
            Como tantos outros lugares paradisíacos, Milho Verde é um aglomerado semi-urbano que reúne moradores antigos e novos. Os antigos são aqueles que deram a identidade inicial ao lugar; os novos são citadinos refratários, provenientes de Belo Horizonte e de outras regiões e até mesmo do exterior. É gente que deu a volta ao mundo e escolheu finalmente fincar o pé na região do Pico do Itambé, divisor de águas das bacias dos rios Jequitinhonha, Doce e São Francisco, comumente conhecida como Alto Jequitinhonha.
            Você chega, conhece o lugarejo em meia-hora e seus moradores ao fio da estadia, pois a gente, de bem com a vida, faz de tudo o pretexto para um bom papo. Os arredores, com várias trilhas e cachoeiras, estão bem preservados e não sofrem com a ação predatória do turismo de massa, embora o número de visitantes seja elevado. Não há lixo, não há pichação, não há poluição sonora. A índole pacífica se estende aos animais, como os cachorros, que não latem e nem perseguem os estranhos. Alguns jumentos pastam em terrenos baldios, tão à vontade quanto os humanos.    
            À noite, uma movimentada vida cultural agita as ruas de terra, na “terrific” Milho Verde by Night, digna de BH.
Apresentação do grupo Maria Faceira durante o Encontro Cultural de Milho Verde.

MILHO VERDE BY NIGHT
            E by day também. Pudemos acompanhar o Encontro Cultural de Milho Verde, que acontece no mês de julho desde 2000, com apresentações de cinema, música e literatura, além de atividades para as crianças, das quais não participei. Milho Verde ganhou ares de festival de inverno, reunindo uma plateia dos vinte ao sessenta anos. Bravo ao grupo Maria Faceira que fez uma linda apresentação reunindo vozes, percussão, harpa, violão e coreografia. Bravo aos proprietários do Angu Duro, Café Devassa e Casa do Açaí, que acolheram belos eventos.  Na projeção dos curtas-metragens ficou patente que a “temática social” ainda atrai os alternativos urbanos, que formam o grosso da população do Milho Verde.            Entretanto, os filmes não interessavam muito, porque o mais importante é o filme real que está rolando atualmente no vilarejo, o eletrizante:
MILHO VERDE WESTERN
            Cobiçada por suas belezas naturais, a região dos vilarejos de Milho Verde e São Gonçalo do Rio das Pedras passa por um “boom” imobiliário, com os habituais improvisos e ações maquiavélicas e contravenções. Afinal, temos que voltar a falar do Brasil 7 a 1, que continua o mesmo: em meio a uma trama que envolve a urbanização da região e a pressão crescente dos agentes exógenos, já houve uma tentativa de homicídio, com dois tiros falhos, seguida de ataques com explosivos, mais intimidação com tiro de raspão. As autoridades estão investigando, promete ser uma série com vários capítulos.
Na noite parda, o sorriso maior é o do cronista.

            Qualquer que seja a decisão dos inquisidores, nada me fará desistir de voltar outras vezes a Milho Verde. Por sua localização perfeita, em meio à Serra do Espinhaço, com clima ameno e farta distribuição de nascentes. Pela atmosfera cordial e o alto astral de seus moradores, capazes de curar-nos da Grande Fossa, que agora se ampliou com mais uma derrota do Brasil nos gramados.

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Abrão Brito Lacerda