segunda-feira, 14 de abril de 2014

CHEZ LOUISETTE


           
O mercado das pulgas nos ensina a ver o mundo de outro modo.

             Uma cidade se conhece por suas ruas e sua gente, pelo que se ouve e se vê e também pelo que se cheira e se come. Por isso, quando viajo, gosto de ir além das fotos e dos monumentos, gosto de encontrar as pessoas, conversar com elas, entender o difícil, experimentar os pequenos prazeres e arriscar o imprevisto. Nada melhor do que ser um transeunte, talvez um intruso, um estranho.
 Em Paris, há uma série de programas que nos permitem participar da vida local, fazendo o que os parisienses fazem, mas atenção: a altura do nariz é proporcional ao status do lugar. No centro histórico, onde há mais turistas do que nativos, pouco se nota, afinal, é simplesmente uma questão de comércio, comprar, pagar, receber, ir-se para talvez nunca mais, não importa se o atendente foi gentil ou grosseiro. Mas onde a multidão raleia e as trocas interpessoais tornam-se mais evidentes isso se nota claramente.
O metrô funciona bem até as 23:30, quando passa o terminus, o último trem. Depois, salve-se quem puder e conseguir parar um dos concorridos táxis da cidade. Se não falar francês e gaguejar para explicar o destino, levará uma patada; se falar, levará também, mas poderá devolver na mesma moeda. E se estiver indo para uma ruazinha estreita, o motorista vai querer deixá-lo na avenida mais próxima, para não sair do trajeto.
Naquele dia, decidi ir à Porte de Clignancourt, nos limites da cidade com sua periferia ou banlieue. Tudo muito simples e prático, basta pegar o metrô (na direção certa). A única coisa que por lá existe de conhecido é o mercado das pulgas, um entre vários dos quais a cidade dispõe. Não é um lugar para senhoras, acho mesmo que é mal visto por lá.
            Pega-se o metrô no centro e vinte minutos depois chega-se próximo ao Boulevard Périphéric, a grande via expressa que circunda Paris, na parte norte da cidade. Há uma grande praça e um viaduto por sobre a mesma, você se aproxima e logo um frio sobe-lhe à espinha: há uns tipos esquisitos oferecendo todo tipo de muamba em volta do grande largo, em tabuleiros improvisados, no chão, alguns abrem o casaco e mostram a mercadoria malocada. As senhoras fugiriam de medo, e eu confesso que pensei o mesmo. Só não o fiz porque apareceu um bando de agents de police, os policiais, devidamente grandes e com ar de poucos amigos, e os sans papiers, imigrantes ilegais, desapareceram num piscar de olhos. Foram se refugiar no metrô, vazaram para as ruas laterais ou se misturaram à população. O lugar clareou como se tivesse sido varrido por uma tempestade. Logo adiante, o marché aux puces, o mercado das pulgas.


Os produtos em exposição são reunidos ao lado das portas, nos corredores, em prateleiras, no teto, em mesas, no melhor estilo bric-à-brac, típico dos mercados populares. No entanto, não há impressão de desordem, ao contrário, alguns arranjos são harmoniosos e agradáveis ao olhar, com o característico bom-gosto europeu.
“No photos”, diz um cartaz. Como não obedeci ao aviso, fui interpelado por um vendedor. “Desculpe, não sei inglês”, foi minha resposta. Ele fingiu acreditar. É difícil entender o que há de errado em fotografar bichos de pelúcia, móveis, roupas, objetos de decoração, gravuras e sabe-se lá mais o quê.
Do teto de outra loja pende uma placa de madeira: “Bonneterie”. Nome bem-humorado e difícil de traduzir. Bonneterie é a arte medieval de fabricar vestimentas de tricô: meias, boinas, luvas, camisolas. No entanto, não há nenhum destes produtos na loja. Sugeri à gerente que mudasse a placa para “Bonnerie”, algo como “Empório da Bondade” ou “Lugar de coisas boas”.  Ela sorriu, ganhei a foto.
            Você passa e olha e ainda assim se reeduca. O mercado das pulgas nos ensina a ver o mundo de outra forma, a descobrir novas funções para objetos corriqueiros, assim como funções corriqueiras para objetos inusitados. Desconfio de uma sabedoria oculta por trás desse modo aparentemente casual de expor as mercadorias – é a política de “troubler le regard”, de confundir o olhar do passante. Ao produzir uma desorganização momentânea em nossos códigos internos, sentimos prazer, como em um jogo de improviso.
            Andando pelos becos estreitos, com muita atenção para não pisar em algo que poderia me custar uma fortuna, dei com uma fachada envidraçada, coberta de cartazes e encimada por uma placa de estanho um tanto gasta pelas intempéries: “Chez Louisette – Bar – Restaurant”. A porta estava aberta, eu entrei.


            Ao enfiar a cabeça para dentro, a primeira impressão que tive foi: “O que vim fazer aqui sem beber?”, e não por acaso. O teto é forrado com papel dourado e vermelho, tão baixo que quase se pode tocar, e a banda, formada por acordeon, metais e percussão, mais o crooner, nos dá vertigem com suas canções em estilo cabaré.
            “J’y suis, j’y reste”, disse para meu umbigo. “Daqui não arredo pé”. Consultei o menu, pedi o bom e honesto foie gras (Vive la France!), acompanhado de vinho tinto e me senti como um rei. No Café Marly, um barzinho branché, moderninho, situado no segundo andar do Museu do Louvre, teria me custado 70 euros. No Chez Louisette saiu por 25.
            “En liquide”, disse-me a garçonete. A dinheiro. Perfeitamente, madame, “le voilà”, aqui está. É preciso adaptar-se aos costumes do lugar. Uma garrafa de água mineral também, por favor, a banda atacou de “wave” de Tom Jobim, na versão de Sacha Distel. Após os aplausos, foi isso que disse o cantor: “Bela canção de Sacha Distel”. “Não, é de Tom Jobim”, observei. Não demorou e já sabiam que eu era brasileiro, que gostava de bossa-nova e tinha um calo no dedão de tanto andar. Algumas damas passadas me olharam, fingi não ver. Depois tocaram salsa, uma moça subiu na mesa e começou a dançar.
Não é proibido subir na mesa para dançar.

            O sol caía e todos de pé. Precisei ir ao banheiro e me dirigi ao fundo do bar, após ter pegado a chave no balcão. Enquanto me aliviava sem pressa, bateram freneticamente à porta. “Mais um querendo fazer pipi”, foi minha conclusão. Mas não era.
            Ao abrir, dei de cara com o gerente, reclamando que “estava na hora de fechar”. Olhei para dentro do bar (o banheiro ficava em um cômodo à parte), os músicos já tinham se mandado, assim como todos os clientes, as garçonetes preparavam-se para partir com emergência de guerra. “J’ai ma bouteille”, disse-lhe eu. E minha garrafa? Ganhei o direito de engolir o resto do vinho, sob a assistência nervosa do gerente. Ainda deu tempo de ouvi-lo dizer que gostava muito do Brasil, de Chico Buarque e de Vinícius de Moraes, que eu voltasse outro dia, que teria muito prazer em me atender.
            Fiquei comovido, talvez por causa do vinho. Jamais tinha merecido tamanha consideração de parte de um dono de bar. Despedi-me pisando em nuvens e nem sequer os muambeiros que haviam retornado à praça com seus relógios falsos e seus olhares de aves de rapina me assustaram mais. Eu estava no clima.


©
Abrão Brito Lacerda