sábado, 29 de março de 2014

TSUNESSABURO MAKIGUTI: A EDUCAÇÃO COMO CRIAÇÃO DE VALORES



             Mais conhecido como fundador da Soka Gakkai, sociedade laica japonesa que atua no mundo inteiro pela promoção da paz, cultura e educação, Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944) teve uma vida intensa, pontuada por momentos dramáticos. A começar por sua origem, no seio de uma família pobre do noroeste do Japão. Aos três anos de idade, foi abandonado pelos pais após sua mãe tentar suicídio, atirando-se com ele nos braços no mar do Japão. Foi adotado por um tio, com o qual viveu até os 14 anos e, posteriormente, foi morar com outro tio. Começou a trabalhar cedo e, com grande dedicação, concluiu o curso normal, tornando-se professor primário e também diretor de escola, função que ocupou por mais de vinte anos.
            Foi das anotações sobre suas experiências didático-pedagógicas que surgiu o seu segundo livro, Soka Kyoikugaku Taikei (Sistema Pedagógico de Criação de Valores), publicado em 1930, em parceria com seu amigo e colaborador Jossei Toda.
             Os dois primeiros capítulos dessa obra, respectivamente “Reflexões sobre o objetivo da educação” e “Os fundamentos do valor”, contêm o essencial das propostas do professor Makiguti. Com efeito, no início do primeiro capítulo, ele afirma:
  “O tema central deste livro é que o alcance da felicidade é o objetivo principal da educação.”
             Ao discutir o que constitui propriamente a base da felicidade, Makiguti conclui que se trata do valor. Para ele, embora o valor só possa ser pensado na interação do indivíduo com o meio em que vive, a transformação da sociedade com base em valores construtivos só é possível através do respeito ao indivíduo, pois a solução dos problemas sociais começa com a transformação do indivíduo e não o contrário. Edificar um sistema educacional – e por extensão uma sociedade – que não sufoque as manifestações criativas dos alunos/indivíduos é condição primordial, pois:
            “Quando o indivíduo é reprimido, a sociedade se enfraquece e se deteriora.”
            É preciso respeitar o ponto de vista dos educandos, enfatiza o professor Makiguti, libertando os currículos da tirania do academicismo e do utilitarismo (educar para a vida profissional adulta). Impingir conteúdos acadêmicos a uma criança pequena, afirma ele, produz efeitos negativos e a torna infeliz.
            É essencial para Makiguti estabelecer uma medida da interação entre o indivíduo e a sociedade tendo como pano de fundo seu conceito de felicidade:
  “A verdadeira felicidade só é alcançada compartilhando-se as tentativas e sucessos dos outros membros da comunidade. É fundamental, portanto, que qualquer conceito genuíno de felicidade contenha a promessa de comprometimento total com a vida da sociedade.”
Capa da Edição brasileira, com o título
pouco condizente de "Educação para
uma Vida Criativa".

            Ao desenvolver o que chama da necessidade de se ter uma “vida contributiva” através de uma “consciência social elevada”, Makiguti coteja suas ideias com as de alguns pensadores ocidentais que o precederam, como Augusto Comte e Émile Durkheim. Augusto Comte foi um pensador da primeira metade do século XIX e o precursor da Sociologia (por ele chamada de “Física Social”), além de idealizador do Positivismo, a “religião da razão”, baseado no princípio de que é possível racionalizar os fenômenos sociais e estabelecer as leis que os governam. Durkheim, que viveu entre fins do século XIX e inícios do século XX, foi responsável pela consolidação da Sociologia como ciência. Ele pregava a preponderância da sociedade sobre o indivíduo, o qual deveria integrar-se àquela para conseguir sua realização.
Como se vê, nenhum destes pontos de vista representa o pensamento de Makiguti, que deve ser classificado como humanista e possui, inclusive, um caráter transcendente inerente no que tange ao objetivo da existência humana.
Para ele, a necessidade de uma vida participativa e contributiva não significa submissão ou aceitação passiva dos erros da sociedade, significa ter um sentido claro na vida, realizar seu potencial e ser feliz, repartindo essa felicidade com seus semelhantes.
Neste particular, é importante lembrar a conversão do professor Makiguti ao Budismo de Nitiren Daishonin em 1928, juntamente com seu fiel discípulo e colaborador Jossei Toda, que viria a ser o segundo presidente da Soka Gakkai. Ao estabelecer como raiz para a transformação da sociedade o indivíduo, ele faz ecoar o princípio budista de que o ser não se separa do meio, um é inerente ao outro. Sua confiança inabalável no potencial do ser humano igualmente certamente adquiriu maior clareza em contato com os ensinamentos do Sutra de Lótus, que estabelece que todos os seres vivos possuem potencial para manifestar a iluminação, ou seja, o estado de Buda.
            Para Makiguti, a educação deve ser vista como um instrumento de avanço pessoal e social e não apenas de preparação para o “sucesso” profissional. Em suas palavras: A educação deve “orientar as pessoas para uma vida melhor, através da integração dos valores de benefício, bem e beleza.”

Para Makiguti, a felicidade da criança deve ser o objetivo da educação.

            Ao se preocupar com o valor e a ética enquanto base para uma existência edificante, Makiguti deu a sua obra um caráter atemporal. Como professor e diretor de escola, ele teve uma visão do processo didático-pedagógico em sua dinâmica quotidiana da sala de aula, na relação professor-aluno e defendeu que o professor deve colocar-se no lugar do aluno, rompendo desta forma com a visão hierárquico-disciplinar tradicional. Além disso, ele sublinha que a aprendizagem deve ser algo agradável e criativo e não impositivo. Para uma obra lançada ainda na primeira metade do século vinte, dominada pelo rígido patriarcalismo e a disciplina, trata-se de uma verdadeira revolução.
©
Abrão Brito Lacerda

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domingo, 9 de março de 2014

VIZINHOS S. A.



            Tinha prometido não escrever mais sobre as mazelas brasileiras em menos de 50 anos, mas não pude me conter. Vocês hão de me dar razão – vejam o que me aconteceu:
            Vou tirar o carro da garagem e diviso um monte de entulho pelo retrovisor. Em frente ao terreno baldio, segundo lote à direita, pedaços de tijolos e cerâmica, restos de areia, cimento e brita. No dia seguinte, fiz a mesma manobra e o montinho tinha crescido com o acréscimo de alguns pedaços de madeira de demolição; no terceiro dia, apareceram troncos e galhos de plantas retirados do quintal de alguém e ali providencialmente despejado. O monte transbordou e se espalhou pela rua quando apareceram móveis velhos e portas comidas por cupins. Alguém (o vizinho de frente?) aproveitou a chance e completou a pilha com papelão, sacolas plásticas e madeira de construção.
            Aliás, o (vizinho?) de frente merece um parágrafo: desde que me mudei para a casa nova, ele está construindo um predinho, para “alugar e pagar a faculdade da filha”. Ele é motorista de caminhão e construir casas não é seu ramo, mas ele insiste. Dizem que os alicerces foram erguidos sem fundação adequada e que o pé direito está torto. Nem é preciso ser agrimensor para saber, basta olhar. Pelo ritmo atual, vai terminar a obra em 2050, quando, felizmente, já estarei rico com minhas crônicas e poderei viver bem longe dele. O pior é que ele chega, emporcalha a rua e vai embora – provavelmente para uma ruazinha tranquila, sem nenhum chato porcalhão por perto.
            Fui investigar o caso e todos puseram a culpa na prefeitura, a começar por meu vizinho do lado:
            - A caçamba da limpeza não passa há dois meses. A rua virou depósito de lixo. Que vergonha!
            - É verdade, senhor vizinho, é uma vergonha. Onde vamos parar?
            - A culpa é da prefeitura e da presidente – disse-me outro vizinho -, pois o país inteiro está assim.

            A voz do povo é a voz de Deus. Eles têm mesmo razão, a presidente tem culpa no cartório. Mas o verdadeiro culpado é o Fernando Henrique:
            Se seu governo não tivesse sido tão ruim, não teriam elegido a lula e esta não teria dado filhotes, dos quais todos estão presos, com exceção da atual presidente. Lula só é boa no “Spaghetti mar i monte”, receita secreta do restaurante italiano do meu bairro. Leva cação em cubinhos, mexilhões, camarões crocantes, anéis de lula e o legítimo spaghetti al dente. Faz-se acompanhar de vinho tinto seco Rocca Rubia, embora alguns prefiram branco frisante. Fora isso, lula é uma cachaça.
O jeito foi chamar o Scooby-doo e a turma da Mistério S. A., pois essa história de monte de lixo que cresce sem parar era coisa de outro mundo:
- Desmascarem os culpados por essa sujeira toda!
- O Brasil não pode ser rebaixado ao quarto mundo, estamos muito bem no terceiro!
            Eu disse com meus botões: agora vai. Vamos dar o exemplo a todo este país.


            Mas nem a Velma xereta conseguiu penetrar a razão última daquele ato civilizatório, a saber: por que um povo suja as próprias ruas e se justifica acusando-se uns aos outros, embora os culpados tenham aparecido um a um?
            Ao puxarem a primeira máscara, apareceu o vizinho do lado, o do papo furado da caçamba. Ele se explicou:
            - Queria economizar no carreto e minha obra era urgente – disse olhando para o monte de detritos em frente a sua casa como se fosse uma obra do acaso.
            - A madeira tava dando cupim, ia comer meus móveis - explicou-se um vizinho do final da rua.
            - Os móveis tinham sido comidos por cupins – explicou-se outra vizinha, boa mulher, prestativa como tantos brasileiros gentis.
            O (vizinho?) de frente, o construtor profissional, declarou após ser desmascarado pela Daphne com a mão na massa, desovando os dejetos imprestáveis de sua obra interminável:
            - Só joguei umas “coisinhas” porque já tinha entulho.
            O (vizinho?) dono de outra casa em construção, localizada na curva da rua, viu na sujeira uma ótima oportunidade de contribuir para a falta de educação coletiva. Por isso foi desmascarado pela Velma:
            - Precisava limpar minha casa para me mudar, mas mandei jogar o entulho em cima do passeio.
            - O passeio já estava entupido.
            - Então, não foi culpa minha.
            Teve gente que deu-se ao trabalho de trazer sujeira de longe, mostrando que esse comportamento é realmente epidêmico, mais difícil de combater do que o mosquito da dengue.


            
             Enfileirados sob o sol implacável de Timóteo, os acusados ouviram a sentença dos lábios do chefe do departamento de entulho, subordinado à superintendência da coleta de lixo, órgão executivo da secretaria de limpeza pública:
            - O município não tem mais como fazer a coleta de entulho particular. Cada cidadão deve arcar com o ônus de sua remoção, contratando um profissional para esse fim.
            - Mas, e os impostos que pagamos?
            - Trinta por cento dos cidadãos não pagam IPTU e outros trinta por cento estão em dívida ativa.

            Os infratores conseguiram habeas corpus e vão cumprir a pena em liberdade. Enquanto isso, o monte de entulho que vejo pelo retrovisor não para de aumentar. Não será surpresa se qualquer dia desses um alpinista ou adepto de esportes radicais subir pelo meu retrovisor – ou mesmo o homem-aranha.        

 ©
Abrão Brito Lacerda