quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

ZAPAVORA




         Era uma casa localizada na Rio Grande do Norte com Contorno, perto da trincheira, ali onde os carros mergulham para passar sob a avenida: um dos últimos prédios belle époque remanescentes na cidade, uma incongruência quando comparado ao muro de concreto que abre a rua em “u” e marca o predomínio da máquina sobre a poesia. Subia-se pelo lado esquerdo até avistar os letreiros em neon sob fundo vermelho cintilante: “Zapavora”.
         O nome veio dos versos da canção “Nosso amor assim nos apavora”, de... quem mesmo? Se me lembrar, prometo contar antes do final.  Hippies, broncos, darks, mods, punks e distraídos em geral, todos se encontravam por ali. O cigarro ainda não era proibido em recintos fechados e o que era proibido circulava com igual liberdade, por isso o ar era embaçado e quente, dava para contar com faca ou tomar como sopa de cogumelos.
         À direita, balcão-recepção-toques; à esquerda, mesas e tamboretes altos de fórmica; ao fundo, a escada de madeira que conduzia ao “porão”, onde ficava o palco e o segundo acesso, pela Rua dos... Finados (- Nome engraçado para uma rua, não? Na placa lia-se “Rua Aurora”, mas todos ignoravam solenemente).

Girava a roda dos 80, essa “carroça que perdeu o condutor”, nos versos do profeta Raul Seixas. Éramos ingênuos como passarinhos e nem sequer sabíamos ser esnobes. Cabelos desgrenhados, barbicha de guerrillero, jeans desbotado, botas de couro - e o peito? – Ainda cheio de amores vãos.  A verdade é que éramos todos mais ou menos matutos, rapazes e moças, do interior e da periferia, ainda que libertários: podia-se perfeitamente deitar com Glória e acordar com Alice e vice-versa.
O balcão tremia e a escada rangia ao som das bandas malucas que se apresentavam por ali: Necrose, Metralhatcheca, Sexo & Espíritu (versão local dos Sex Pistols). Grupos um tanto amadores, alguns inclusive precisando de aulas de violão. Não importa. Sabiam gritar palavras de ordem – Viva a Maria e abaixo o Sarney! - e aprontar as cenas que se repetiam na platéia, como no dia em que a Martilla pirou - agora eu conto:       
Martilla fez o primeiro e segundo anos de História de forma impecável. Estudava dia e noite, era a primeira a responder em sala e escoltava a Eloá (suspiros) para cima e para baixo. Depois, desandou.
         Mas não de repente. Teve a fase dark, esses parentes oitentanos dos mods, os moderninhos da Swinging London. Cortou o cabelo à la garçonne, passou a usar jaquetinhas pretas com gola Mao, falar Goddard e Nietsche, dançar ao som de Strokes e Strawberries. Depois, veio a fase punk:

         Martilla desencabelada, desajuizada e com muito gin-tônica no coco, dançando ao som dos Metralhatcheca. Mas que lio! A segurança era mínima, os shows eram precários. No auge da balbúrdia, enquanto o baixista cuspia Smirnoff sobre a platéia, a Martilla, que não levava calcinha, desmaiou sobre o palco.  
         Quinta à noite era New Wave, então, já sabe, B-52’s rolavam como água: Party out of bounds, Bring me back my man! Nem todos gostavam, é verdade; os guerrilleros melancólicos que curtiam Joan Baez, os metaleiros convictos detestavam. Mas punks de butique, anarquistas e mulheres enchiam a pista de dança all night longMuitos solados de sapatos se gastaram naquela festa que parecia não ter fim.  
Conversa típica com o recepcionista:
- Salve! Tem chá?
- Dê a volta no quarteirão pra ver se tá limpeza.
Você fingia dar a volta no quarteirão:
- Mais seguro que prisão federal.
– Pega leve, xará. Veja o caso da Martilla...

         Éramos um pedaço de cada coisa e energia não faltava para incorporar a cada dia um novo caco ao vitral. Ronildo parece ter se esquecido de juntá-los. Apareceu um dia no Zapavora vestido de Tarzan, com um fêmur de boi ensanguentado debaixo do braço, brandindo o livro Sol e Aço de Yukio Mishima. Primitivo e concreto. - Um brinde ao Ronildo e a todos os heróis que tombaram antes da hora! A poesia há de resgatá-los de algum modo do silêncio das pedras.

         Nenhuma lua projetaria nossa sombra para sempre, subindo a Rio Grande do Norte, cruzando a trincheira. Punks atrapalhados, suburbanos copiando modos de citadinos, por sua vez copiados de outras metrópoles. Românticos libertários, sonhando com revolução e glória.

         Passei muitos anos depois pelo local. Outro caixote de concreto e vidro enquadrava a visão daquele ponto da cidade. Nada de pórtico de madeira, música áspera, cheiro de vodca, gosto acre de cogumelo. É tudo tão claro agora. - Faça-se luz! - Que tolice... O engenho da imaginação saberá sempre quando acender ou apagar o interruptor.

©
Abrão Brito Lacerda