terça-feira, 28 de janeiro de 2014

BOLA DE PELO




O amiguinho de pelo não tem mais do que vinte centímetros de altura quando está em posição de descanso. No entanto, quando se move, com saltos graciosos e ágeis, é bem mais alto. É mais alto ainda quando fica de pé sobre as patas traseiras e fareja os arredores. Mas sua posição favorita é rente ao chão, estendido como uma diva sobre o divã, orelhas apenas de pé, pois coelho que tudo ouve não morre cedo.
É discreto, ardiloso e furtivo. E silencioso também. Seus únicos ruídos são o ronronar gutural intermitente característico do estado de excitação ou a batida das patas traseiras quando precisa defender seu território contra algum invasor.
Os gatos morrem de inveja de sua doce concentração. E de sua higiene também, pois ele não precisa de banho, xampu ou perfume. Basta-lhe um jornal para fazer as necessidades, dispensadas em pelotinhas inodoras, que mais parecem caroços de romã. Não solta pelos aleatoriamente, não ocupa espaço em camas e poltronas, não foge arredio pelas calhas. Seu reino é o chão, de cimento, mato ou areia.
Os cães são mal educados e fedorentos. Passam o tempo a ladrar e a perturbar a vizinhança. Precisam disso, pedem aquilo. Lições de civilidade para não atacar as visitas. Vermífugos para dizimar os parasitas de seus estômagos insaciáveis. Manicure, pedicure, pelicure. E algumas pedradas quando precisamos mandá-los para o inferno, lá onde, aliás, habita o cão. Os cães são inimigos de todos os animais que não sejam o próprio cão. Sua vontade é caçá-los e dilacerá-los. Tornado tem toda razão em desconfiar deles.
Quanto às mulheres, como invejam a maciez do seu casaco! Toque suave, sem estrias ou pelos encravados. Caprichosamente limpo com lambidas regulares. Giselle Bündchen, com seu andar retilíneo, sulcando a passarela com saltos que mais parecem ferraduras, morreria de inveja dos movimentos elegantes e perfeitamente sincronizados de Bola de Pelo.


Sabe aguardar a volta do seu amo – cuja chegada reconhece pelo barulho do portão –, confortavelmente instalado atrás da porta. Quando esta se abre, salta para o jardim, sem ser percebido. Busca seu lugar favorito, debaixo do pé de Iris, onde vem cavando uma toca há várias meses. Arranha freneticamente o chão com as patas dianteiras, como se pretendesse concluir o trabalho com urgência, mas para logo: está destreinado para lutar pela sobrevivência. Talvez os humanos cavem um buraco para ele.
Quando todos já estão se recolhendo, a pergunta:
- Onde está Tornado?
Procuram atrás dos guarda-roupas, nos corredores, na sala de TV e na biblioteca. Nada do peludo.
- Vai ver, está no jardim. Você trancou o portão?
- Acho que me esqueci.
- Então ele saiu para a rua! Foi atacado pelos cachorros!
Correm em socorro do possível coelho perseguido pelos piores amigos do homem.
O portão está aberto, mas ele não saiu. Volta os olhinhos cor de rosa para os bípedes, como quem diz:
“- Eh, por que tanta afobação?” 
- O que você está fazendo aí?
- “Curtindo o frescor da noite, o contato com a terra molhada, o odor do Iris.”
- Já pra dentro? Onde já se viu!
- “Olha que mijo em suas pernas!”
Tornado sente a presença dos cães inimigos e fica imóvel, esperando que eles não se atrevam a atravessar o portão daquela propriedade particular.



- Quanto tempo vivem os coelhos?
- Na natureza, dois anos no máximo, se algum predador não comê-lo antes. Mas o Tornado tem mais de três anos.
Dicionário do coelho:
- dar pulinhos: vamos apostar corrida?
- circular entre as pernas: preciso de atenção
- arranhar: é sério, você está se fazendo de surdo
- morder o pé: você me fez perder a paciência
- morder o calcanhar: não limpe meu cantinho
- mijar nas pernas: meu desprezo, bípede impertinente
- bater as patas traseiras no chão com força: vou partir pra briga
- orelhas em pé: tô ouvindo tudo
- orelhas deitadas: tô ouvindo nada
- uma orelha deitada: esqueci uma orelha
- coçando uma orelha: cuidado, sarna!
- bigode agitado: cheirando perigo
- focinho agitado: cheirando comida
- olhos fechados: don’t disturb.

Ao contrário dos humanos, que estão sempre envolvidos em alguma coisa, como trabalhar, assistir à TV ou conversar, Tornado descansa o dia todo, tirando o tempo de comer e fazer as necessidades.
No início, tentaram mantê-lo à base de ração, mas ele recusou. Não prestaria tão bons serviços de companhia comendo aquela gororoba seca, comprada em sacos pardos, com a imagem de um coelho bobo no rótulo. Pior: desprezou a cenoura. Andaram lendo muitas histórias de coelhos antes de comprá-lo e achavam que sabiam tudo sobre os leporídeos. Deram-lhe cenouras inteiras: preferia roer os pés dos armários. Começaram a ralar a cenoura: aceitou, mas no máximo uma vez por semana, caso não haja folhas frescas.
Enfim, entenderam sua dieta frugal, segredo de tão boa forma. Milho e couve como pratos de resistência, agrião, coentro e folhas secas em pequenas porções, mais pão como complemento. Com um único pecado: os biscoitinhos de chocolate, do qual o menino tanto gosto e que acabaram caindo em seu agrado. Um ou dois ao dia. Se não tiver, serve biscoito de maizena:
- Quer biscoito? Seu guloso!
Tornado apóia-se sobre as patas traseiras e estica o focinho para cima, até abocanhar o delicioso petisco. Depois, posta-se ao lado da soleira, entre a sala e a cozinha, de onde pode observar tudo o que fazem. Ali ficará em posição de descanso, patas dianteiras dobradas à frente e patas traseiras esticadas para trás.
O local é perfeitamente estratégico para ele. Da cozinha emanam os odores que mais lhe agradam, além de barulhos reveladores: crepitar de embalagens de biscoitos sendo abertas, ruído de televisão, que ele não entende, mas adora ver, conversas, música. Cochila em paz e harmonia embalado pelos papos de família ou música de violão.

Ele não sabe, mas estão de partida e vão deixá-lo por uns dias:
- Tchau, Tornado! Até a volta!
- Seja bonzinho, o Marcos vem cuidar de você.


Partem de férias e deixam Tornado aos cuidados de outra pessoa. Ele fica um palito. Mal toca nas folhas de couve, que lhe são servidas inteiras, ao invés de fatiadas, como se deve. O milho, trocado uma vez ao dia, seca sob o calor inclemente e ele tem que roer os grãos murchos. Até que voltam:
Tornado ouve o ranger do portão, o ruído do motor do carro, depois a porta, as vozes. Estão novamente em casa!
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 © Abrão Brito Lacerda




segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

SETE SURPRESAS

A bela igreja matriz de Sete Lagoas, da primeira metade do século XIX.

Embora tenha morado por dezoito anos em Belo Horizonte, nunca havia visitado Sete Lagoas. Fi-lo nestes dias de fim de ano e muitas reflexões resultaram do que era para ser uma simples viagem turística. Em primeiro lugar, porque hoje é praticamente impossível viajar pelo Brasil sem incidentes relevantes, com estradas cheias e centros urbanos frenéticos, numa inarredável marcha pelo progresso.
A pressa é tanta que não há tempo para planejar o que se quer fazer ou organizar o que já existe. Assim, as cidades vão crescendo aos trancos e barrancos, tornam-se lugares agressivos e pouco hospitaleiros. Esta é a primeira surpresa: Sete Lagoas, como tantas cidades pelo Brasil afora, cresce depressa e sem resposta equivalente em termos de infra-estrutura urbana. Pior: cresce destruindo a si mesma, derrubando o passado para em seu lugar erigir um presente provisório e sem personalidade. Um pequeno exemplo: um casarão central de valor histórico foi posto ao chão na calada da noite e posteriormente em seu lugar construiu-se (provavelmente em tempo recorde) uma loja de eletrodomésticos!
Agora já é fato consumado, trata-se de preservar a memória e o acervo remanescente, o que dá lugar à segunda surpresa: a cidade tem um passado glorioso que remonta à época das sesmarias; foi uma povoação importante nos tempos da mineração, tendo inclusive hospedado o alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, na condição de comandante do Registro criado pela coroa portuguesa em 1780; tornou-se entreposto regional da Estrada de Ferro Central do Brasil, estabelecida no município em 1896; foi sede de várias associações musicais; cultivou hábitos modernos e chiques como o piano em casa de famílias burguesas e o cinema mudo acompanhado de banda de música; enviou pracinhas à Segunda Guerra Mundial; e enriqueceu-se no século XX com a mineração e a industrialização.
A antiga estação Sete Lagoas, hoje Museu do Ferroviário, nos faz sonhar com o passado.

A partir do DNA conhece-se o organismo, a partir de vestígios pode-se reconstituir uma civilização.  A terceira e a quarta surpresas são o Museu do Ferroviário e o Museu Histórico Municipal. Ambos contam com acervos representativos que justificam a visita.
O primeiro, localizado no lindo prédio da antiga estação Sete Lagoas, preserva instrumentos e utensílios relacionados à ferrovia. A antiga bilheteria, assim como vários objetos de escritório, está bem preservada. Há várias coisas curiosas que remontam a épocas românticas do passado, como a “Bicicleta de Recado”. Você vê a plaquinha e inevitavelmente pergunta à guia: “- O que é?”; “- Antigamente não havia automóvel, assim as mensagens eram transmitidas via bicicleta.”
Banda de música que se apresentava durante
as sessões, na época do cinema mudo.
O Museu Histórico Municipal situa-se na sede da pioneira fazenda Sete Lagoas. Seu acervo variado inclui peças da antiga fazenda, grilhões, tenazes e ferros, usados respectivamente para aprisionar, punir e marcar os escravos negros. Há objetos que pertenceram a algumas famílias locais, muitas fotografias, um pequeno memorial dos setelagoanos que combateram na Segunda Guerra Mundial, alguns equipamentos industriais e muito mais. Infelizmente, muitas peças encontram-se em estado precário e todo o conjunto de prédios que constitui a área do museu requer uma restauração urgente.
Falar da quinta surpresa é contar um pouco da era Cenozóica, aquela que aprendemos nos livros de Geografia do primário. Foi nessa época que se formaram as grutas da região central de Minas Gerais, como a Rei do Mato, que visitamos em Sete Lagoas. O conjunto turístico da gruta conta com infraestrutura adequada e guias bem preparados. A parte aberta à visitação é composta de quatro salões, dentre os quais se destaca o último, que lembra o altar de São Pedro e o baldaquim de Michelângelo, no Vaticano, com colunas de estalagmites de 12 metros de altura. Há também pinturas rupestres interessantes e vestígios de ocupação pré-histórica em uma grupa anexa.
As colunas de estalagmite do quarto salão da gruta Rei do Mato lembram o baldaquim do Vaticano, concebido por Michelângelo.

Igrejinha, no alto da Serra de Santa Helena.
A sexta surpresa é o Parque da Cascata, no alto da Serra de Santa Helena. Com uma vasta área de preservação e várias opções de lazer, o parque só não é recomendado para quem tem alergia à natureza. Oferece belos exemplos de intervenção em áreas naturais com o objetivo de melhorá-las para o visitante. O mesmo critério preservacionista que poderia ter sido aplicado ao centro da cidade, pois a memória construída pelo homem deve ter sempre um lugar no seu futuro. A propósito, quando se está no alto da serra goza-se de uma tranquilidade e de um clima (bem mais fresco e úmido) que já não existe lá embaixo.
Uma notícia de jornal da época da Segunda Guerra Mundial.
 Ainda que pressionado pelas condições adversas do progresso, que violenta e desfigura nossos centros urbanos, o espírito das pessoas resiste, e esta é a sétima grande surpresa. O que há de mais valioso em Sete Lagoas é a gentileza no trato e a hospitalidade de seus habitantes, o que a torna uma cidade tipicamente mineira. Desde o primeiro contato, sentimos vontade de ficar. Igualmente notável é o orgulho com que os mais velhos falam de suas raízes, ainda que isso encontre pouco eco nas gerações mais novas.
Neste embate, o cronista põe-se ao lado da senhora Marisa da Conceição Pereira, diretora do Museu Histórico Municipal e defensora apaixonada da história local; pois de nada servirá trocar valores permanente por um lustre embaçado e fugaz, que se revelará um espelho trincado, depois de removida a poeira. A arquitetura colonial que emoldurava nossas cidades no passado foi a mais bonita e original já produzida no Brasil. Depois dela, com pequenas concessões ao neoclássico, ao art nouveau e o Niemeyer, tudo virou caixote de concreto, que se erige em um dia para se demolir no outro.

Um dos raros prédios históricos que escaparam de dar lugar a uma loja de eletrodomésticos ou a um estacionamento.

© Abrão Brito Lacerda