sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

A REVOLUÇÃO RELIGIOSA DE NITIREN DAISHONIN


            Nitiren Daishonin, nascido Zennichimaro, foi um monge budista japonês que viveu no século XIII (1222-1282). Oriundo de uma família de pescadores, entrou para o templo localizado nas proximidades de sua vila natal aos doze anos de idade. Essa era a única possibilidade de acesso à educação para as crianças pobres da época, uma vez que não havia escolas regulares.  No templo Seityo-ji praticava-se o budista do Sutra de Lótus na linha do mestre Tiantai, sobre o qual leremos abaixo, além de outras escolas que não seguiam de forma rigorosa este sutra.
            Quatro anos após ingressar no templo, onde estudava literatura budista, além de matérias seculares, Zennichimaro  tornou-se monge e mudou seu nome para Rencho, que significa Crescimento do Lótus.
Visando aprofundar seus conhecimentos, estudou nos mais importantes centros budistas japoneses da época, nas cidades de Kamakura, Kioto e Nara, quando leu todos os sutras disponíveis e compreendeu as doutrinas das várias escolas.
Nitiren teve, desde o início, grandes inquietações: se o Budismo existe para salvar as pessoas do sofrimento e trazer paz e estabilidade à sociedade, por que as escolas então existentes eram incapazes de realizar isto?; para qual verdade essencial havia despertado Sakyamuni, o primeiro Buda histórico?; como ele, Nitiren, poderia contribuir para libertar as pessoas do sofrimento?
 Ao retornar ao Templo Seityo-ji, em 1253, Nitiren havia despertado para algumas verdades essenciais, a saber que o Sutra de Lótus era o mais importante dentre os 80 mil ensinamentos que o Buda Sakyamuni havia exposto e que o título desse sutra, o Myoho Renge Kyo (Sutra da Lei Maravilhosa da Flor de Lótus), encerra seu coração ou essência, conforme havia sido amplamente explicado por Tientai em suas obras Palavras e Frases do Sutra de Lótus e O Profundo Significado do Sutra de Lótus.
 Em 28 de abril de 1253, após ter mudado seu nome para Nitiren, que significa lótus (ren) do sol (niti), expôs o Nam myoho renge kyo pela primeira vez, dando início a sua revolução religiosa.
Os anos que se seguiram foram de intensa atividade para Nitiren. Ele passou a divulgar o Nam myoho renge kyo através de viagens pelo Japão e a ensinar uma nova prática religiosa: simples e autêntica, ao alcance de qualquer pessoa. As perseguições não tardaram a aparecer: sacerdotes invejosos e governantes tirânicos conspiraram mais de uma vez contra sua vida e contra a vida de seus seguidores. Foi quando se revelou seu coração de leão, conforme deixou cunhado na frase lapidar: “A espada afiada da fé não deve ser manuseada por um covarde.” Nem os maiores infortúnios, como quando esteve na iminência de ser decapitado ou foi exilado em uma ilha inóspita, o fizeram perder a serenidade e a determinação. Datam dessa época alguns dos mais importantes tratados e cartas que compõem sua obra, que figura entre as mais eminentes já produzidas em qualquer tradição religiosa.
Ao expirar, em 13 de outubro de 1282, Nitiren tinha deixado uma obra destinada a revolucionar a prática religiosa nos tempos futuros, aliando de forma insuperável clareza, coerência, profundidade e abrangência.
Mas em que consiste de fato a mensagem de Nitiren?
Todas as escolas budistas originam-se dos ensinamentos do primeiro buda histórico, Sidarta Gautama ou Sakyamuni (563 – 483 a.C.).  Em cerca de 45 anos de pregação, o Buda proferiu milhares de ensinamentos que foram posteriormente compilados por seus discípulos na forma dos sutras. Contudo, há dois períodos distintos nessa trajetória de pregação: os trinta e cinco anos iniciais, quando o Buda ensinou de acordo com a capacidade das pessoas, visando elevar gradualmente as mentes para alcançarem estágios mais elevados,  e os últimos dez anos, em que o Buda transmitiu a Lei em sua integralidade, descartando os meios provisórios até então utilizados e preparando a permanência de sua obra no futuro.
Nitiren enfrentou a morte por diversas vezes.
Ao serem introduzidos na China, alguns séculos mais tarde, os sutras começaram a ser traduzidos e estudados. Destaca-se então a tradução de Kumarajiva (406 d. C.), que verteu o título original em sânscrito, Saddharma Pundarika Sutra, para Myoho Rengue Kyo, onde Myoho significa “Lei Mística”, Renge é “flor de lótus”, simbolizando a Lei fundamental de causa e efeito, e Kyo é “ensino”, além de designar transformação e continuidade da vida através do passado, presente e futuro. 
Pouco tempo depois, o Grande Mestre Tiantai (538 –597) elucidou vários pontos doutrinários da obra do Buda que tinham permanecido incompreendidos até então. Foi ele quem  abriu a compreensão para o verdadeiro alcance da Lei revelada no Myoho Renge Kyo e revelou o profundo significado do título deste sutra, estabelecendo a doutrina do Itinen Sanzen ou "três mil mundos em um único momento de vida", que me absterei de descrever em detalhes aqui. 
Resumidamente, o que esta doutrina indica é que cada instante de nossa vida manifesta o potencial inteiro da vida do universo e encerra a eternidade em seus três tempos, passado, presente e futuro. Isso implica que, ao manifestarmos o estado de Buda inerentes a nossas vidas, poderemos obter o benefício supremo da iluminação imediata, pois causa e efeito não são ações consecutivas mas sim simultâneas. 
Dois séculos mais tarde, o grande mestre Miao-lo (711-782), igualmente discípulo de Tiantai, deixou anotado em seus comentários sobre Anotações sobre o Profundo Significado do Sutra de Lótus de Tiantai que, na impossibilidade de se recitar todo o Sutra de Lótus, poder-se-ia repetir apenas uma parte deste; e, ainda que fosse impossível recitar uma parte, bastaria recitar o título, o Myoho Renge Kyo, para se obter igual efeito, conforme consta no próprio sutra:Se uma pessoa repetir ainda que uma única frase deste sutra, atingirá a iluminação” e “obterá benefícios incalculáveis”.
No entanto, assim como tinha acontecido com Tiantai, Miao-le não estabeleceu nenhuma prática nesse sentido, Esse mérito coube a Daishonin. Em suas palavras: Nanyue, Tiantai e Dengyo, apesar de compreenderem perfeitamente a verdade no coração, deixaram para o líder e mestre dos Últimos Dias a tarefa de propagar amplamente essa Lei [a lei do Myoho Renge Kyo].
 Ao ensinar este simples instrumento, ao alcance de qualquer pessoa, sem exigir formação prévia, aprendizagem especial, intermediação ou cerimonial, Daishonin propiciou o meio para a salvação de todas as pessoas dos Últimos Dias da Lei (a época atual). Foi uma profunda compaixão que o levou a empreender uma obra plena de sabedoria e poesia que resgata o princípio fundamental do budismo, que é uma filosofia de superação humana, de coragem e esperança para enfrentar qualquer tipo de dificuldade, sem perder o equilíbrio e a serenidade:

Ensinar as pessoas significa lubrificar as rodas para que as mesmas possam girar; ou fazer flutuar um navio para que o mesmo possa ser movimentado facilmente”.


O Myoho Renge Kyo é o ritmo do grandioso universo.


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Abrão Brito Lacerda
18 12 14


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

O DESEJO É UMA LEGGING PRETA


     
              Foi-se o tempo em que o desejo desfilava por aí em jeans justíssimos! Ele agora bate pernas é de legging, uma peça simples, básica e disputada. Como pode ser?
            A roupa foi inventada para proteger, lá no tempo das cavernas, quando não passava de peles grosseiras e embiras para mantê-las no lugar. Mas a civilização foi inventada e a arte de ocultar e revelar em igual proporção não tardou a aparecer. Se, para o homem, o caráter prático predomina, para a mulher há muito mais coisa em jogo. A vestimenta tornou-se um meio de sujeitá-la, de impedir seus movimentos livres, de enquadrá-la de um modo ou de outro. Neste quesito, a parte de baixo tem uma história reveladora: a calça comprida para o homem existe desde a Idade Média, mas só no fim do século XIX ela foi admitida, de forma restrita, para as mulheres, com o nome de "culotte". E só se popularizou depois da Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 50, mais precisamente. A calça é, portanto, um símbolo de evolução e de conquista social para as mulheres.
          A arqueologia demonstra que a legging começou com outro nome, fazendo parte do grupo dos collants ou “colantes”, que podia ser muita coisa: blusa, top, body ou calça. Depois, collant passou a designar apenas uma vestimenta feminina de cima, semelhante a um maiô de banho.
    Os defensores dos tecidos macios e inimigos da calça inventada por um cowboy americano aplaudiram com entusiasmo o desembarque do uniforme inoficial das mulheres (jovens e nem tanto) de hoje: a legging... preta. Enfim, o imperialismo de Levi Strauss encontrou um adversário à altura, e com múltiplas vantagens.
Um collant não é uma legging. Só um homem não entende isso.

            As leggings parecem ser o máximo em conforto e podem ser vestidas em alguns segundos, ao contrário dos jeans hiper-justos. Menos um motivo para se atrasar na hora de sair. São práticas e muy sexys: protegem, realçam e valorizam as curvas. São ainda muito igualitárias e democráticas: nenhuma mulher trocaria sua pretinha básica por uma branca qualquer. Não distinguem classes sociais: podem ser compradas chez le camelot ou chez Dior. Enfim, tornaram o conceito de moda obsoleto: aquelas modelos de ar cansado desfilando sobre a passarela, vai e vem sem parar, poses, flashes e calos, e, na cabeça, um só desejo: libertar as pernas da tirania do andar de gato, através do toque elástico e suave de uma ... legging preta!
©
Abrão Brito Lacerda
03 11 14
revisado em 16 06 16
           
           


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

APERTEM OS PARAFUSOS, O “TEACHER” CHEGOU!






            Soa como uma crítica a mim mesmo, das mais cruéis, talvez, mas é muito mais uma “joke”, uma “blague”, um “chiste”. Tem gente que levanta, escova os dentes e vai trabalhar. Eu aperto os parafusos. Foi a condição para passar dos trinta, essa idade mágica, fim dos sonhos para tantos, início da escravidão para outros, filme de terror para as mulheres. Continuar nessa marcha que não acaba nunca, vai uma vida, vem outra e o espírito não pode ficar zanzando pelo espaço etéreo sem uma carne humana a que se apegar. A existência terrena é uma simples passagem ou retorno, então, para que apressar a ida se logo estaremos de volta? Viajar a esmo pode cansar e a melhor forma de honrar a eternidade é morder a corda e não entregar os pontos antes que os órgãos vitais, coração, pulmão, tesão afrouxem de vez.
            Vamos devagar com o andor que o santo é de carne e osso. Como uma árvore cuja casca enruga-se, cria estrias fundas como voçoroca, a poeira do tempo vai depositando-se em nossa alma até ganhar uma consistência escura de breu. A pele contudo deve continuar lustrosa e elástica, por isso deve-se fazer ginástica todos os dias, encontrar alguém para amar, assistir aos filmes de Charles Chaplin com os filhos e ir passear de bicicleta no parque, ainda que seja só para ralar os joelhos. Ah!, deve-se cultivar também, além de cravos ou tomates de jardim, bons livros, boa música, boas companhias. Ouvir os pássaros e o trem se for de Minas. O sussurro do mar e as sílabas em “inho” se for da Bahia. Fugir para outro estado se for de Goiás, lá até rouxinóis cantam em dueto imitando as duplas sertanejas.

            Não sei se é adolescência tardia, convalescença vadia ou loucura minha, mas carrego também a lembrança de muitos amigos que partiram antes da hora. São os tais que não passaram dos trinta, “faute” de não terem apertado os parafusos. Naquela época nossos heróis eram Jimi Hendrix, Janis Joplin (em que pese cantar como uma galinha) e Jim Morrison. Tinha também (Grouxo) Marx e Bakunin, anarquista aloprado que bagunçou o coreto da Primeira Internacional Socialista (gente isso é coisa do século XIX!) e foi expulso pelo inventor do capitalismo (Karl Marx, pois sim) e seus comparsas operários. O resto foi história e morte a esgotar os compêndios de museus. Estes últimos passaram dos trinta – a meu ver, viveram até mais do que deveriam – mas não os primeiros, como os meus amigos que ignoraram a regra da chave de fenda (a de apertar parafusos). Estarão sempre vivos em milha alma de casca de árvore, viva os românticos anônimos!
            Como admiro essas gerações bem-pensantes, bem-estudantes e bem-trabalhantes. Parecem ter nascido de uma forma, terminam o doutorado aos 28 anos, são presidentes de empresas aos 40, gordos aos 50 e mortos de enfarto aos 60.


            Um dos grandes trunfos de lembrar o passado ao invés de conformar-se com o presente são aquelas gatas que atrapalhavam nosso sono nos tempos pré-pro-pós-universidade. Esta não vale para os que terminaram o doutorado aos 28 anos. Sou de uma geração pré-aids, pós-hippie. Para quem nunca assistiu aos filmes sobre Woodstock, saiba que isto significa uma diferença enorme, tão grande quanto o humor de Jacques Tati e a stand up comedy. Um dos grandes furos de viver o presente é visitar, hoje, as amigas daquela época.
            Abaixo o machismo e abaixo o feminismo! Tinha então aquela coisa pós-hippie, pré-aids, você dava mais de quatro sem sair de cima, como uma bomba de extrair petróleo, subindo e descendo incansavelmente, dia e noite. Depois inventaram o Viagra e nada fez mais sentido, o cara tá com o pé no túmulo e troca a “vovozinha” pela “netinha” de vinte anos. Que escândalo! Quem achar que estou mentido, que vá à farmácia mais próxima.
            Recomeçar a cada manhã é viver ao ritmo do universo. Como o sol que parece levantar-se todo dia e, no entanto, não pára de girar.
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Abrão Brito Lacerda 
13 11 14

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

WHAT TIME IS IT?




            
       A arquitetura de Londres chama a atenção pela combinação dinâmica do tradicional e do moderno. O sítio da cidade ajuda, com um rio grandioso partindo-a ao meio e duas margens que rivalizam em landmarks e extravagâncias. 
Na margem esquerda estão os principais monumentos e a maioria dos edifícios públicos, como o Parlamento, o Palácio de Buckingham, a Trafalguar Square e as vias comerciais mais movimentadas, como a Oxford Street e a Regent Street. 

O Big Ben visto do South Bank, margem direita do Tâmisa, na região central da cidade.

A margem direita,  tradicionalmente devotada à arte e à vida noturna, deu o troco nas últimas décadas e lá se instalaram o City Hall, a prefeitura, um edifício de vidro de forma oval, devidamente batido de The Egg, o London Eye, o “olho de Londres”, 
nome através do qual se popularizou a roda gigante chamada inicialmente de The Millenium Wheel e, last but not least, o The Shards, o edifício mais alto da Europa, com 87 andares e 300  metros de altura, agora visível de toda parte como uma espécie de torre de vigia.
The Egg, O Ovo, é a nova sede da prefeitura municipal.

 Há uma tendência ao superdimensionamento, ao hiperbólico, muitas vezes ao excêntrico. Que a cidade seja grandiosa explica-se, afinal foi o centro de um império planetário durante séculos. Quanto ao bom gosto, pode-se discutir, sobretudo quando a comparamos a sua arquirival do outro lado da Mancha, 
A Cidade Luz, de arquitetura baseada em linhas puras e dimensões harmoniosas, clássica como uma imagem de museu. Londres é mais subversiva e imprevisível, por isso mais excitante. Mais dinâmica também, com sangue urbano fervilhando nas veias.

A Catedral de São Paulo e seu relógio - viva o grandioso, mas o bom gosto é algo que se pode discutir.

Entre as excentricidades, destaca-se a obsessão por relógios. Desde o emblemático Big Ben, realmente muito bonito, sobretudo quando observado enquanto se caminha do South Bank até o prédio do Parlamento através da ponte de Westminster, passando pelo relógio de quatro mostradores da estação Waterloo,
 lugar tradicional de rendez-vous (“Vamos nos encontrar debaixo do relógio da Estação Waterloo”), até o magnífico mostrador em ferro trabalhado do relógio central da estação King’s Cross.
O centro comercial Canary Wharf, visto a partir do relógio do Observatório Greenwich.

Estações e locais públicos importantes devem realmente ter relógios. Mas, admitamos, os ingleses adoram esses símbolos de pontualidade e respeito aos compromissos mais do qualquer outro povo. 
Chama a atenção a mania de pendurá-los na fachada de prédios ou espetá-los no alto de colunas e postes, sem outro propósito explícito além da decoração.  

"Vamos nos encontrar debaixo do relógio da Estação Waterloo". Não tem erro.

Em Londres, você pode até perder a direção, mas jamais perderá a hora. Nem sequer se faz necessário perguntar “What time is it?” – basta observar em redor para ter a resposta. 
Os relógios da cidade são como olhos que velam sobre os que compartilham as ruas congestionadas. Indiferentes? Talvez.

Coluna de Nelson na Praça Trafalgar. Está faltando o relógio.


            

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

PAISAGEM DA JANELA


(Imagem: www.lucianogallagher.blogspot.com)

             É uma janela de correr, em esquadria de ferro, com caixilho enferrujado e basculante torpe. Sem enfeites, apenas uma cortina de tule; a luz e a sombra que se projetam sobre o vidro transmitem a atmosfera exterior para o quarto – quente, claro, frio, escuro. Dá de frente para um robusto pé de acerola que lança galhos e frutos a esmo quando a estação é propícia.  É porto de passagem para muitos passarinhos, dentre os quais os indefectíveis pardais, as elegantes rolinhas, os frágeis colibris e algumas intrépidas cambacitas. Ao fundo, o muro descascado sobre o qual apóia-se a aceroleira, uma árvore de tronco enrugado, altiva e orgulhosa, que sustenta-se solitária em meio ao cimento áspero do quintal.
            Quando a Sra. Mieko chegou, os passarinhos já tinham se recolhido em meio à densa folhagem de uma árvore mais alta. Ainda restavam migalhas sob o pé de acerola, nacos de pão e grãos de milho que costumo lançar para saciá-los no repasto da tarde.
            - Olá, sou Mieko.
            - Sente-se, por favor. Minha filha já vai chegar.
            - Quantos anos ela tem?
            - Doze, eu acho.
            - O Senhor não sabe a idade da própria filha?
            - Às vezes, esqueço, parece que já tem quatorze anos. Tem ares de moça...
            - Meu cartão.
            - Obrigado. “Senhora Mieko, musicista”.
            Durante a de canto, recolhe-me como os passarinhos. Através da janela aberta descortinam-se as luzes noturnas que, pouco a pouco, vão se misturando ao silêncio. A música lírica virá espantar os últimos visitantes indesejados.

            De manhã, é a brisa fresca que passa pelo vão central e vem esfregar-me o rosto. Ouço a algazarra dos passarinhos – mais pontuais do que o meu despertador. Os penosos espalham-se pelo chão e refestelam-se com ticos de nada, crosta dura de pão, banana passada e restos de milho que não foram devorados pelo coelho. Tudo convertido no mais nobre banquete que se pode comer neste mundo, com os mais bisonhos dos modos, bicadas aleatórias, ciscadas de patas espalmadas, chacoalhar de penas e agitar de caudas.  De repente, um clamor coletivo: os vigias que estão sobre o muro dão o sinal e eles partem em busca de outra paragem.
Eu também devo partir na direção do dia.



            Quando a lua é cheia, minguante ou meia, corta rente ao telhado do vizinho e lança raios fugidios sobre a vidraça. Devo afastar o tule, deixar-me seduzir. Leitoso e cálido, lá está o pedaço de queijo pendurado no céu. Miro, admiro feito um lunático... Vou à cozinha buscar uma taça de vinho que cai tão bem com essa imagem de filme noir. Tomo de uma cadeira e assento-me. As pegadas do dia, fortemente impregnadas na memória remanescente do trabalho, vão ficando para trás. Caminho por uma trilha de estrelas, visito astros nunca dantes explorados. Não seriam aquelas as Três Marias? Ah, sim, por certo. Piscando como isqueirinhos bics no meio da imensidão. O gosto ligeiramente acre do vinho e seu buquê tânico transportam-me tanto quanto a dolência que vem chegando de leve... de leve... 
            - Pai!
            - O quê?
            - A professora de canto não pode mais vir. Está partindo de volta ao Japão.
            - Há de haver outra, não? A senhora Mieko tem de fato um sotaque...
            - Não faz nenhuma diferença. Técnica vocal não tem nada a ver com o idioma!
            - Por que você não experimenta cantar em tupi-guarani?
            As manhãs estão quentes, as tardes idem, as noites um torpor. Parece que outubro se esqueceu que é o mês das chuvas que matam a sede do campo e fazem florir a primavera. Quanta falta sinto da sinfonia da natureza, das rajadas de vento sacudindo a janela e assoviando no corredor! São os dias mais felizes do ano, exatamente quando no céu as trovoadas anunciam as tempestades e os passarinhos fogem para a copa da árvore alta em busca de proteção. Densos pingos, tão grossos quanto cordas, atingem as paredes, o piso encimentado, as telhas e o vidro por trás do tule. O spray de água açoita a gentil morada, a enxurrada corre até o ralo, raios descem tortuosos e precipitam-se entre os picos das montanhas em frente.



No entanto, o ar está seco como um deserto.
          Devo recitar Nam myoho renge kyo. Todos devemos recitar mantras, ave-marias, bater tambores, dançar a dança da chuva. Esquecer nossa vã civilidade. Até que as nuvens se convertam ao habitual negro carregado, até que a água jorre com intensidade, banhe a casa, a cidade, o país, até que a janela de esquadria de ferro, caixilho enferrujado e basculante torpe veja-se fechada para que o quarto não se molhe.
 Esperando a chuva, não arredarei pé daqui.

©
Abrão Brito Lacerda

15 10 14

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

QUATRO CENAS TIMOTENSES


NO PONTO DE TÁXI

            Oito e trinta da noite, esperando no ponto de táxi. Sentado em um cepo à guisa de tamborete, não sou o único a gozar da mansidão da noite do interior, onde os gatos são pardos e a gente distraída. Há dois carros no ponto, mas onde estão os choferes?
            - Você sabe onde estão os choferes?
            - Os “chof...”?!
            - Os taxistas, quero dizer.
            - Devem estar fazendo compras no supermercado.
            A moça parece nervosa. Por que será que passageiros de táxi estão sempre apressados?
            - Estou aqui há um tempão. Meu celular tá sem bateria, não posso chamar os táxis da rodoviária.
            - Boa ideia. A rodoviária não é longe daqui. Vou ligar.
            Ligo pra rodoviária.
            - Alô. Estamos no ponto do Bretas, precisamos de táxi. Somos dois passageiros.
            - Neste momento, o José Paulo e o Monteiro estão na praça – responde a voz preguiçosa do outro lado da linha.
            - E onde estão eles?
            - Estão no supermercado, aguardem alguns minutos.
            Enfim, chegam os dois fujões, empurrando um carrinho de compras. São cinco minutos para colocarem tudo no bagageiro e postarem-se ao volante, aptos à corrida. Pressa para quê? Todos os motoristas de táxi da cidade são aposentados e já perderam a ansiedade há muito tempo. Depois, tomarão o caminho mais lento até sua casa e aproveitarão para trocar uns dedinhos de prosa com você.



RESSACA ELEITORAL

            Não entendo a lei da ficha limpa. Vai-se a votação e as ruas da cidade ficam cobertas de santinhos, desses que já não salvam mais. Como se sabe, antes da eleição, todos os milagres são possíveis. Depois, salve-se quem puder. Vão precisar de um exército de garis para pôr tudo em ordem novamente. Por que pessoas são pagas para distribuir essa porcaria toda e não para recolhê-la?
            Um silêncio de dúvida paira sobre o centro da cidade, normalmente agitado, com buzinas, caminhões com descargas descalibradas e motos voando como mariposas. Ultimamente tinha também alto-falantes da propaganda eleitoral, a única coisa alta nesta campanha. A julgar pela melancolia desta segunda-feira, ninguém foi eleito.        



ABAIXO AS BOTAS, ACIMA AS SAIAS

             O inverno se despediu, quase sem cumprimentar-nos. Dizem que é o aquecimento global, cada ano mais quente que o anterior, até as calotas polares começam a derreter para o planeta refrescar-se. Quando forem-se as calotas, fugiremos para Vênus, lá é gelado o ano todo. Trabalharemos menos (o ano venusiano tem apenas 244 dias) e, com sorte, seremos resgatados por alguma nave errática em direção à galáxia de Andrômeda.
            Por enquanto, aqui está bom, graças às mulheres. Por mais que o inverno seja ameno, não deixam de aparecer botas de todos os canos pelas ruas: longas, de salto e bico afilados, baixinhas com bordas dobradas, tipo caminhada, botas cowboy com falsa-esporinha, de lacinhos, de cadarços, com velcro, de plataforma. Agora que a temperatura já não é mais compatível com esta extravagância, saem as botas e entram as saias. Mas as pernas permanecem, e merecem um parágrafo à parte.
            Esqueçam os tempos em que as pernas das mulheres mostravam pontinhos pretos de raízes de pêlos. Depilação agora é ultramoderna. A frio, a quente, e também com muita academia, as pernas ficam da forma que as conhecemos. Um pouco de sol, ou a falta dele, dá a cada uma sua textura particular. Um vestido ou saia completa o conjunto. A primavera mal começando e ainda teremos um verão inteiro pela frente.



UM BURACO SEM SAÍDA

            - Alô! É da Copasa*?
            - É sim, senhor. Um momento, por favor...
            - ...
            - Alô, Copasa. Um momento, por favor...
            - ???
            - Alô, Copasa. Em que posso ajudar?
            - Aqui é da Rua Noventa e Um no Novo Horizonte. O buraco que vocês abriram há dois meses ainda não foi tapado.
            - Onde fica o buraco?
            - Na frente da minha garagem, número 72.
            - Teve a eleição, o senhor sabe como é... Muitos buracos para serem tapados.
            - Quando é que vocês vão fechar o buraco?
            - Um momento, por favor...
            - ...
            - Alô! Aqui consta que já executaram o serviço.
            - Como, se o buraco continua aberto?
            - Um momento, por favor...
            - ...
            - Uma equipe irá amanhã executar o serviço.
            - O senhor já me disse isso sete vezes! Que falta de respeito! Se fosse no centro da cidade, já teriam consertado!
            - Bip! Bip! Bip! A Copasa agradece sua ligação.

(*Copasa: Companhia de Águas e Saneamento de Minas Gerais)

©
Abrão Brito Lacerda
07 10 14
           













sexta-feira, 3 de outubro de 2014

ESTAMOS NO SAL


 
(Imagem: www.flormel.com.br)


            “Como dizia minha avó...”. Quem não conhece um complemento para esta frase? O universo das expressões figuradas é o jardim da língua, tradicional e ao mesmo tempo vicejante, de onde extraem poetas, cronistas, músicos matéria farta e altamente expressiva. É, sobretudo, peculiar à linguagem, costumes, história de cada povo, embora o  sentido seja universal e tenha equivalente em outras línguas.
            Dizer “A vaca foi pro brejo” é muito mais significativo do que explicar que deu tudo errado e a situação está difícil – tão difícil quanto retirar uma vaca louca de um pântano.  “Macaco velho não põe a mão em cumbuca” é um chamado à experiência. Vem da armadilha besta para pegar macacos: uma banana colocada dentro de uma botija ou cabaça; o primata enfiava a mão, agarrava a fruta e não conseguia mais retirá-la, pois faltava-lhe a compreensão de que só a mão aberta consegue passar pelo gargalo.
Em sã consciência, ninguém quer “bater” ou “juntar as botas”, não é mesmo? Em contrapartida, todos querem “acertar na mosca” e “enfiar o pé na jaca”. Alguns “matam o tempo” enquanto o jogo não começa, mas os brasileiros “entraram numa fria” na última copa do mundo. O time “pisou na bola” e a torcida ficou “com o coração na mão”. Depois do jogo, todos foram “tirar o cavalinho da chuva” e agora estão “verdes de fome”, pois com esse time “quebra-galho” é mais fácil “dar murro em ponta de faca” do que “tirar a barriga da miséria”.

(Imagem: www.pe.uai.com.br)

Difícil é verter toda essa riqueza expressiva para outra língua.
No caso das expressões clássicas, de origem muito antiga, todas as línguas têm um equivalente. O contador de histórias grego, Esopo, autor das mais célebres fábulas conhecidas, deixou várias expressões figuradas que podem ser encontradas em vários idiomas. Por exemplo, “O hábito não faz o monge”, que soa medieval, mas é na verdade mais antiga. Vem da fábula O Asno em Pele de Leão: um asno, tendo encontrado uma pele de leão, cobriu-se com a mesma e saiu pelo campo fingindo ser o rei dos animais. Uma raposa, sempre muito esperta, desmascarou-o, dizendo “Quando ouço um leão rugir, fico com medo. Mas quando ele zurra, sei que se trata de um jumento.” A moral da história então é: a pele não faz o animal. Adotada na Idade Média, a frase saiu do latim e entrou para o francês, “L’habit ne fait pas le moine” e para o português. No inglês, manteve-se mais próxima ao original: “Clothes do not make the man” (as roupas não fazem o homem). E, no espanhol, ficou pomposa: “El uniforme no hace al héroe”, “A farda não faz o herói.”
Se alguma coisa é nova, dizemos que está “novinha em folha”, expressão que vem dos livros recém impressos, com todas as folhas branquinhas, limpinhas e sem amassados. Em inglês fica “brand new” (novo com a marca de fábrica), em francês, “neuf en boÎte (novo na caixa) e em espanhol perde a graça: é “totalmente nuevo”.
No universo rural de Minas Gerais, há uma profusão de dizeres interessantes, alguns locais e pouco conhecidos, outros já incorporados à língua brasileira. Há sobretudo um humor admirável, típico do falar “comendo as sílabas” do interior do estado. Se alguém disser que alguma coisa “tácustanuzóidacara”, não pense que o capiau está falando sânscrito; ele simplesmente quer dizer que “está custando os olhos da cara”. Se ele disser “tire o pé da minha janta!”, entenda que você está sobrando na conversa. E se ouvir que “minha irmã acabou no caritó”, não pense mal da moça, ainda que caritó seja um lugar fechado, pequeno e escuro. “Acabar no caritó” é ficar pra titia. E, que tal: “Os dois emendaram o bigode e acabaram dando cabo a machado”? Traduzindo: conversaram demais e acabaram criando problemas sem necessidade.

(Imagem: www.blog.maisestudo.com.br)
É como dizia a mãe de um amigo... Esta é do Alto Paranaíba, no oeste do estado de Minas. Ficará como registro da sabedoria das mães, tão necessária nesses dias de intensa dúvida. Ao assistir na TV às turbulências pré-eleitorais, crimes, corrupção a quatro, proclama a sábia senhora, extraindo do fundo da memória as palavras precisas que o cronista não deixará desaparecer: “Estamos no sal!”
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Abrão Brito Lacerda

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

NO PAÍS DAS MARIONETES


Que falta de respeito, que afronta com a razão
Qualquer um é senhor, qualquer um é ladrão

(Tango de Enrique Santos Discepolo (1934))

            Como todo brasileiro, sou obrigado a compartilhar o momento presente com uma deprimente campanha eleitoral, onde reina o cinismo, o sofisma e a falta de pudor. Antes tínhamos complexos de vira-latas, na famosa frase de Nelson Rodrigues. Depois, viramos um Cambalacho, na versão de Raul Seixas para o tango de Enrique Discepolo. Hoje, somos o antro da hipocrisia, uma terra onde roubar, mentir, matar, corromper, ser corrompido, ou seja lá que delito for não constitui uma falta passível de ser sancionada pela lei. Pela lei, que lei? Desculpe, foi um ato falho.

Palhaços, fantasiados de brasileiros, fazem uma Palhaceata no Rio de Janeiro.
 (Foto: revista Anjos do Picadeiro, Julho 2014).
            Quando uma autoridade se manifesta, lá vem mentira. Quando a justiça toma a palavra, uma piada. Quando os jornais escrevem, vaselina. Quando a televisão anuncia, sensacionalismo. Quando o cidadão fala, ponha-lhe um nariz de palhaço, porque este é o disfarce favorito do brasileiro.
            Há dois meses um diplomata israelense chamou o Brasil de anão diplomático. Não houve reação à altura dos chanceleres brasileiros – teriam vestido a carapuça?  Na copa do mundo, uma derrota vexatória expôs a incapacidade dos atletas de enfrentarem dignamente uma situação difícil - foram orientados por gente ultrapassada, sem dignidade.
            Breviário de nossas relações sociais: se for convidado, não responda; se confirmar, não vá; se for, chegue na hora que quiser. Assuma tudo com a maior cara de pau, faça descaso do resto. Assim agindo, estará preparado para viver no Brasil.

Os músicos Domingos Tibúrcio e Marcos Vaz apresentam-se no Bar Beirute em Timóteo, MG.
 Há boa música para se ouvir, ainda.
            E pra te arrasar, a ascensão das novas classes invadiu os espaços públicos e privados. A música popular, antiga prima-dona da cultura brasileira, está hoje relegada a um papel de coadjuvante. Você entra numa padaria e tá tocando aquela música que rima abraço com amasso, e a balconista fica cantarolando no seu ouvido. Não precisamos de terroristas da Al-Qaeda!
A república (que é federativa do Brasil) foi assalta por gente proveniente do operariado e das classes emergentes, que se misturou com as tradicionais elites e “quadrilhizaram” o estado. É troca, troca, toma lá, dá cá, uma indecência com dinheiro público. Parece a Roma de Nero, guardadas as indevidas proporções.
            Não acuso quem busque outros destinos, mas, fiquem sabendo, a coisa tá feia. O visto americano é difícil de obter, no Uruguai não há o que fazer, o Japão fica muito longe e a lua é por enquanto inabitável.
José Rosário Castro, artista plástico e poeta de Dionísio, MG.
Estilo de vida discreto e autêntico.
            No país das marionetes, como o sol que se levanta a cada dia, fazer a arte pela arte é a única filosofia possível.  
Vá ao teatro: há ótimos comediantes representando com garra. Viaje pelo interior: artesãos tecem, moldam, cozem o barro. Prestigie as exposições: artistas de mão cheia materializam os sentimentos positivos que fazem a vida valer a pena. Ouça os bons músicos que vivem do próprio trabalho e sacrificam-se pelo amor ao que fazem.           
Leia os poetas e os cronistas anônimos, visite seus blogs, deixe comentários, recomende-os a um editor!
            Na arca de Noé nos salvaremos todos ao final.
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Abrão Brito Lacerda

26 09 14