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Mostrando postagens de 2014

A REVOLUÇÃO RELIGIOSA DE NITIREN DAISHONIN

Nitiren Daishonin, nascido Zennichimaro, foi um monge budista japonês que viveu no século XIII (1222-1282). Oriundo de uma família de pescadores, entrou para o templo localizado nas proximidades de sua vila natal aos doze anos de idade. Essa era a única possibilidade de acesso à educação para as crianças pobres da época, uma vez que não havia escolas regulares.  No templo Seityo-ji praticava-se o budista do Sutra de Lótus na linha do mestre Tiantai, sobre o qual leremos abaixo, além de outras escolas que não seguiam de forma rigorosa este sutra.             Quatro anos após ingressar no templo, onde estudava literatura budista, além de matérias seculares, Zennichimaro  tornou-se monge e mudou seu nome para Rencho, que significa Crescimento do Lótus. Visando aprofundar seus conhecimentos, estudou nos mais importantes centros budistas japoneses da época, nas cidades de Kamakura, Kioto e Nara, quando leu todos os sutras disponíveis e compreendeu as doutrinas das várias escola…

O DESEJO É UMA LEGGING PRETA

Foi-se o tempo em que o desejo desfilava por aí em jeans justíssimos! Ele agora bate pernas é de legging, uma peça simples, básica e disputada. Como pode ser?
            A roupa foi inventada para proteger, lá no tempo das cavernas, quando não passava de peles grosseiras e embiras para mantê-las no lugar. Mas a civilização foi inventada e a arte de ocultar e revelar em igual proporção não tardou a aparecer. Se, para o homem, o caráter prático predomina, para a mulher há muito mais coisa em jogo. A vestimenta tornou-se um meio de sujeitá-la, de impedir seus movimentos livres, de enquadrá-la de um modo ou de outro. Neste quesito, a parte de baixo tem uma história reveladora: a calça comprida para o homem existe desde a Idade Média, mas só no fim do século XIX ela foi admitida, de forma restrita, para as mulheres, com o nome de "culotte". E só se popularizou depois da Segunda Guerra Mundial, a partir dos anos 50, mais precisamente. A calça é, portanto, um símbolo de evolução e …

APERTEM OS PARAFUSOS, O “TEACHER” CHEGOU!

Soa como uma crítica a mim mesmo, das mais cruéis, talvez, mas é muito mais uma “joke”, uma “blague”, um “chiste”. Tem gente que levanta, escova os dentes e vai trabalhar. Eu aperto os parafusos. Foi a condição para passar dos trinta, essa idade mágica, fim dos sonhos para tantos, início da escravidão para outros, filme de terror para as mulheres. Continuar nessa marcha que não acaba nunca, vai uma vida, vem outra e o espírito não pode ficar zanzando pelo espaço etéreo sem uma carne humana a que se apegar. A existência terrena é uma simples passagem ou retorno, então, para que apressar a ida se logo estaremos de volta? Viajar a esmo pode cansar e a melhor forma de honrar a eternidade é morder a corda e não entregar os pontos antes que os órgãos vitais, coração, pulmão, tesão afrouxem de vez.
            Vamos devagar com o andor que o santo é de carne e osso. Como uma árvore cuja casca enruga-se, cria estrias fundas como voçoroca, a poeira do tempo vai depositando-se em nos…

WHAT TIME IS IT?

A arquitetura de Londres chama a atenção pela combinação dinâmica do tradicional e do moderno. O sítio da cidade ajuda, com um rio grandioso partindo-a ao meio e duas margens que rivalizam em landmarks e extravagâncias.  Na margem esquerda estão os principais monumentos e a maioria dos edifícios públicos, como o Parlamento, o Palácio de Buckingham, a Trafalguar Square e as vias comerciais mais movimentadas, como a Oxford Street e a Regent Street. 

A margem direita,  tradicionalmente devotada à arte e à vida noturna, deu o troco nas últimas décadas e lá se instalaram o City Hall, a prefeitura, um edifício de vidro de forma oval, devidamente batido de The Egg, o London Eye, o “olho de Londres”,  nome através do qual se popularizou a roda gigante chamada inicialmente de The Millenium Wheel e, last but not least, o The Shards, o edifício mais alto da Europa, com 87 andares e 300  metros de altura, agora visível de toda parte como uma espécie de torre de vigia.
 Há uma tendência ao supe…

PAISAGEM DA JANELA

É uma janela de correr, em esquadria de ferro, com caixilho enferrujado e basculante torpe. Sem enfeites, apenas uma cortina de tule; a luz e a sombra que se projetam sobre o vidro transmitem a atmosfera exterior para o quarto – quente, claro, frio, escuro. Dá de frente para um robusto pé de acerola que lança galhos e frutos a esmo quando a estação é propícia.  É porto de passagem para muitos passarinhos, dentre os quais os indefectíveis pardais, as elegantes rolinhas, os frágeis colibris e algumas intrépidas cambacitas. Ao fundo, o muro descascado sobre o qual apóia-se a aceroleira, uma árvore de tronco enrugado, altiva e orgulhosa, que sustenta-se solitária em meio ao cimento áspero do quintal.             Quando a Sra. Mieko chegou, os passarinhos já tinham se recolhido em meio à densa folhagem de uma árvore mais alta. Ainda restavam migalhas sob o pé de acerola, nacos de pão e grãos de milho que costumo lançar para saciá-los no repasto da tarde.             - Olá, sou Mi…

QUATRO CENAS TIMOTENSES

NO PONTO DE TÁXI
            Oito e trinta da noite, esperando no ponto de táxi. Sentado em um cepo à guisa de tamborete, não sou o único a gozar da mansidão da noite do interior, onde os gatos são pardos e a gente distraída. Há dois carros no ponto, mas onde estão os choferes?             - Você sabe onde estão os choferes?             - Os “chof...”?!             - Os taxistas, quero dizer.             - Devem estar fazendo compras no supermercado.             A moça parece nervosa. Por que será que passageiros de táxi estão sempre apressados?             - Estou aqui há um tempão. Meu celular tá sem bateria, não posso chamar os táxis da rodoviária.             - Boa ideia. A rodoviária não é longe daqui. Vou ligar.             Ligo pra rodoviária.             - Alô. Estamos no ponto do Bretas, precisamos de táxi. Somos dois passageiros.             - Neste momento, o José Paulo e o Monteiro estão na praça – responde a voz preguiçosa do outro lado da linha.             - E onde estão eles?     …

ESTAMOS NO SAL

“Como dizia minha avó...”. Quem não conhece um complemento para esta frase? O universo das expressões figuradas é o jardim da língua, tradicional e ao mesmo tempo vicejante, de onde extraem poetas, cronistas, músicos matéria farta e altamente expressiva. É, sobretudo, peculiar à linguagem, costumes, história de cada povo, embora o  sentido seja universal e tenha equivalente em outras línguas.             Dizer “A vaca foi pro brejo” é muito mais significativo do que explicar que deu tudo errado e a situação está difícil – tão difícil quanto retirar uma vaca louca de um pântano.  “Macaco velho não põe a mão em cumbuca” é um chamado à experiência. Vem da armadilha besta para pegar macacos: uma banana colocada dentro de uma botija ou cabaça; o primata enfiava a mão, agarrava a fruta e não conseguia mais retirá-la, pois faltava-lhe a compreensão de que só a mão aberta consegue passar pelo gargalo. Em sã consciência, ninguém quer “bater” ou “juntar as botas”, não é mesmo? Em co…

NO PAÍS DAS MARIONETES

Que falta de respeito, que afronta com a razão Qualquer um é senhor, qualquer um é ladrão
(Tango de Enrique Santos Discepolo (1934))
            Como todo brasileiro, sou obrigado a compartilhar o momento presente com uma deprimente campanha eleitoral, onde reina o cinismo, o sofisma e a falta de pudor. Antes tínhamos complexos de vira-latas, na famosa frase de Nelson Rodrigues. Depois, viramos um Cambalacho, na versão de Raul Seixas para o tango de Enrique Discepolo. Hoje, somos o antro da hipocrisia, uma terra onde roubar, mentir, matar, corromper, ser corrompido, ou seja lá que delito for não constitui uma falta passível de ser sancionada pela lei. Pela lei, que lei? Desculpe, foi um ato falho.
Quando uma autoridade se manifesta, lá vem mentira. Quando a justiça toma a palavra, uma piada. Quando os jornais escrevem, vaselina. Quando a televisão anuncia, sensacionalismo. Quando o cidadão fala, ponha-lhe um nariz de palhaço, porque este é o disfarce favorito do brasileiro.             Há…