terça-feira, 22 de outubro de 2013

A LUZ E O ELEVADOR

(Foto: wordpress.com)


         Certos indivíduos são vítimas de perseguições infundadas, preconceitos, ilações maldosas. Algumas categorias também. Só porque você padeceu, sentado entre dois balofos, naquele voo para Nova Iorque não o autoriza a sair por aí dizendo que a obesidade deveria ser punida a mesmo título que os crimes de lesa-majestade ou propaganda enganosa. Como é sabido, as companhias aéreas mantêm aquele espaço de macróbios para a classe menos abastada por razões financeiras, mas também sociais. Julgam que comedores de hambúrgueres, membros da Vigilantes do Peso (aquele grupo que se reúne regularmente para conferir quanto cada um engordou no período) e tamanhos ultra large em geral devem sentir nos próprios estômagos a inconveniência de serem cidadãos fora das medidas.
         Só o cronista não repousa em seu labor denodado para levar ao leitor o registro fiel dos fatos, sem deixar que nada escape aos seus sentidos. Se vê uma cena digna de nota, despe-a de seu invólucro enganoso e mira-a dos mais variados ângulos: de ponta-cabeça, às avessas, assim assado. Por isso é tão instrutivo caminhar pelas ruas à-toa, dando-se ao luxo de rir e chorar com as agruras de seus semelhantes, quem sabe emprestando seu palpite à balbúrdia, para que nada se resolva - enfim, nascemos para explicar?
         Estando eu outro dia plantando bananeira em uma fila de ônibus, o que vejo? Muitos ônibus, é verdade, rosnando em minha direção como tigres motorizados. E dentre os ônibus, um que se encheu num passe de mágica, sugando a multidão que o aguardava. Nunca vi tanta gente indo para o mesmo lugar! Acho que alguns entraram porque estavam ali havia tanto tempo que já não importava mais o destino. O motorista deu sinal de partida, agarrando a alavanca de câmbio como se fora o rabo de um touro em uma vaquejada. Foi quando a trocadora gritou lá de trás: “O elevador emperrou!”.
 O elevador é utilizado na porta do meio, para permitir o acesso de cadeirantes ao ônibus. É lei municipal, artigo 1122, alínea ABC, parágrafo 230. Se ele não funciona, o veículo não pode circular. Ainda mais quando há alguém numa cadeira de rodas aguardando para descer.
Tentaram reanimar o elevador, com bons e maus modos, primeiramente testaram a parte elétrica e em seguida deram chutes em sua carcaça de aço. Nem UTI. Os passageiros entreolharam-se, quem iria ajudar o moço a descer? Uma fila de veículos começava a se formar atrás, ameaçando emperrar o trânsito.
A féria foi salva por um samaritano de ar prestativo e braços que tinham o diâmetro do meu abdômen - ele era, digamos, "forte". O bom homem deteve-se em sua jornada rua acima, agarrou a cadeira com duas firmes tenazes, levantou-a, juntamente com o cadeirante, e depositou-a sobre o passeio. “Muito obrigado!”, “De nada!”, ele recolheu sua sacola e continuou seu caminho.
No entanto, vejam que, estando eu em outra oportunidade tangendo borboletas em outro ponto de ônibus, aconteceu de o elevador também travar. Não há nada para dar “tilt” como elevadores de ônibus! De novo os procedimentos de primeiros socorros, sem resultados. O motorista, um frangote, pôs-se a procurar uma ajuda de peso para resgatar o cadeirante. Trouxe várias, mas nenhuma suficientemente avantajada para mover o passageiro, pois esse não pesava menos de 120 quilos, sem contar a cadeira, reforçada por barras laterais e com um jogo de rodinhas a mais - a primeira cadeira de rodas truque que já vi! No total, um fardo de uns 140 quilos. Foi preciso chamar o corpo de bombeiros, que içou o desafortunado rolha de poço por intermédio de um caminhão-guindaste.
Como exigir que o trânsito ande!
Na minha cidade, às vezes falta vergonha, às vezes falta luz. E, por incrível que pareça, as duas coisas estão interligadas. Por isso, quando há um blecaute, todos gritam: “Que falta de vergonha!”. Em Brasília, é a mesma coisa.  
Então a presidenta, reuniu a PF (Portos & Fronteiras), o IEF (Instituto de Estudos sobre Fraudes) e o CPF (Comitê de Política Financeira) - e no que deu? Descobriram que tudo não passa de sabotagem da indústria de velas, que já gozou de dias gloriosos e atualmente anda pela hora da morte. Nos áureos tempos, o setor veleiro empregava mais do que o Senado; hoje emprega menos do que o programa espacial brasileiro. Assim, ficam na dependência das obrigações cristãs do Dia de Finados, o que não é suficiente para desovar o estoque. Além disso, o aumento da expectativa de vida da população tornou irrisório o segmento de vendas para velórios e necrotérios. Resultado: vela aqui, vela ali e vão regulamentar os cortes de luz através de lei federal.

E, pior: ao subir para a sala de despachos do Planalto, para sancionar a nova lei, a presidenta ficou presa no elevador, devido a um pico de luz. Por isso, aquela aparência de holograma que ela transmite ao discursar não é marketing, é pura verdade. A coitadinha ainda está presa no elevador!

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 Abrão Brito Lacerda

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A SEREIA DO TÂMISA

Ela emprestava seu sorriso doce a cada foto, a cada moeda depositada no cofre-estojo.

         A noite caía promissora sobre o South Bank, com ventos ligeiros soprando no sentido leste-oeste e algumas nuvens carregadas no céu, coisa habitual para a capital inglesa. Sob os últimos raios de um sol incerto de verão, muitos turistas caminhavam descontraidamente ao longo do rio, provenientes do London Eye, um dos últimos ícones arquitetônicos implantados na paisagem dessa cidade tão moderna quanto antiga, tão calma quanto agitada, tão melancólica quanto irônica; tinham caras satisfeitas de quem pôde desfrutar de uma vista de 360 graus dos tetos da metrópole.
A roda gigante, com suas cápsulas de vidro e seu ritmo de caramujo, fazia o último giro da jornada, pois quando o sol se põe e as luzes se acendem, é tempo de buscar outras aventuras.

O London Eye no South Bank.
Eu acabara de fazer uma ótima refeição no Azzuro, um charmoso restaurante localizado sob as arcos de uma antiga estrada de ferro e o vinho rosê copiosamente sorvido fazia-me flanar do lado oposto ao Big Ben, com a cabeça cheia de imagens e vazia de preocupações. Em três dias de Londres eu já sabia que se deve evitar a comida inglesa a qualquer custo, a menos que se suporte o abominável fish & chips (peixe frito com batata idem) ou tenha uma carteira recheada de libras para pagar por um English beef, o que não era o meu caso. Tudo em Londres é muito inglês, menos a comida, que pode ser italiana, indiana, paquistanesa, japonesa ou até mesmo brasileira para quem tempo de ir até a Oxford Street. Mas o tempo é uma abstração quando a emoção nos faz viver um século em um minuto e a vida se recicla, reunindo os três tempos da existência.
Debrucei-me sobre a balaustrada e contemplei o rio: alguns barcos deslizavam através das águas calmas, produzindo pequenas ondas, que cintilavam como feixes multicoloridos pelo efeito das luzes refletidas pelas fachadas. Eu não tinha um destino certo, poderia encontrar uma musa por ali, entrar em um pub e experimentar um pouco da cerveja local ou simplesmente quedar-me como tantos outros em um banco e ouvir a música de alguém, vindo de algum canto, tango, violino ou rock and roll. Uma musa, pensei, será difícil entre essas moças muito brancas, de pernas longas e charme operário, pisoteando seus sapatos altos com pouca intimidade.  Foi então que ouvi um solo de cordas – de onde vinha? – cujos acordes soavam-me familiar.
Calibrei os ouvidos como quem confere as instruções de um GPS e fui na direção identificada. Um bar recém-aberto servia coquetéis verde-escuros enfeitados por uma cereja espetada na ponta de um palito. “How much?”; “Seven pounds.” Preço razoável para Londres. “One, please.” Era um barzinho “takeaway”, você compra o drink em um copo descartável e sai bebericando como quiser, desde que não tropece e caia dentro do rio.
Ao cair da noite, um blues bem inglês.
Fui atraído como as crianças da história do flautista de Hamelin. Havia um clima de descontração e fantasia, um blues bem inglês, ao mesmo tempo decadente e digno. Vários artistas se apresentavam, às vezes tão próximos que podia-se ouvir mais de uma música ao mesmo tempo. A alguns passos do London Eye, lá estava ela, sentada sobre um banquinho dobrável, tocando bandolim - e a música...
Meu Bach, era Deus!... Desculpe: Meu Deus, era Bach! O sublime Johann Sebastian, cujas melodias deveríamos ouvir de joelhos em sinal de gratidão. Algo assim:
Tan
Tan ran ran ran ran...   ran ran ran ran...
Ran ran ran...
Ran ran ran!
Tão conhecido que soa banal em casamentos e concertos de câmera.  (Ok, leitor, chega de mistério, estou falando do “Airoso” da Cantata 156).
Com as pernas cruzadas, de costas para o rio e de frente para o Jubilee Gardens, ela emprestava seu sorriso doce e ao mesmo tempo triste aos flashes dos turistas, enquanto era vista com relativa indiferença pelos londrinos. Com o Tâmisa, o Parlamento e o London Eye como moldura, inclinava-se para cada moeda depositada no estojo do seu instrumento, estrategicamente colocado à sua frente. E o turista feliz levava sua imagem para o outro lado do mundo.
O Parlamento e o London Eye sobre o Tâmisa.
Após ouvi-la por alguns minutos, decidi que era chegada a hora de pagar pelo show e dirigi-me ao caixa-estojo. Segurei uma moeda hexagonal entre os dedos, mas, antes de depositá-la sobre o fundo negro aveludado, conferi o conteúdo do mesmo (eu receava ter que relatar isso na posteridade): muitas moedas brancas de 50p (penny, o centavo inglês), várias libras amareladas, alguns euros intrusos, até mesmo notas, e outros difíceis de identificar, talvez yenes japoneses ou rublos russos. A mais perfeita democracia monetária, uma lição para as nações em guerra. Ela abriu um sorriso que lhe iluminou o rosto e me comunicou muitas coisas no olhar: era de Watford ou Northwood, na parte norte da cidade, estudante de música ou desempregada, solteira ou sonhadora, mas não estava ali por acaso.

Ela me comunicou muitas coisas no olhar.

       Não sei se foi Deus, desculpe, Bach, a tarde ou o drink, mas eu faria tudo outra vez, juro que o faria: as balaustradas pintadas de verde-inglês, acinzentado e tirado para o azul, os reflexos que dançavam na superfície da água, a sereia que tocava... e da qual eu me distanciava na medida em que seguia em direção a Waterloo Bridge, para o metrô ou talvez o próximo drink.
A cidade ainda tinha muito a oferecer.

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Abrão Brito Lacerda