quinta-feira, 25 de julho de 2013

CASTELO DA BEIRA




Dez horas da manhã, Rua Castelo da Beira 717, apartamento 404, como nos velhos tempos, uma trip incidental pela cidade. Não queremos rush, queremos curtir um dia de sol através da janela de um ônibus, então ficamos às dez horas. No coletivo, azul como o mar de mármara, há muitos lugares, nos pontos seguintes todos os assentos serão ocupados. Entramos em perfeita ordem, indistintos “commuters”, escolhemos nossos lugares e sentamo-nos. Nenhum passageiro parece ter pressa além da habitual; são todos traquejados no ritmo das ruas...  
Um chato começa a distribuir cartelinhas vermelhas envoltas em plástico ordinário – eu refuto quando ele me estende uma com mão grassa. Meu amigo toma a cartela com um gesto mecânico e coloca-a ao lado do assento, gesto que é repetido pelos demais passageiros. Aí o chato abre a matraca e desata a falar. Lá se vai a ordem e o respeito ao ouvido alheio. “Bom dia, meu nome é X, trabalho com recuperação de dependentes químicos, eu sou um ex-dependente químico da maconha, estou distribuindo minha mensagem... – assim fala o chato, bem alto e postado exatamente no meio do ônibus para que nenhum ouvido lhe escape.
- Dependente químico da maconha, este é o tipo mais perigoso de viciado – digo em voz baixa.
- Aposto que a droga que ele está vendendo é bem pior do que aquela que ele consumia – responde meu amigo.
Miro a “capa” do folhetinho ensebado, onde se pode ler em letras garrafais: “Mensagem de Fé e Salvação”.
- Isso é droga pesada! Vê-se que este pobre homem trocou uma droga pela outra. Repare nos olhos dele.
 São olhos vidrados e agitados. O homem parece ter ficado nervoso com a indiferença desta gente insensível. Assim, resolve ser mais veemente: “Mesmo se não há alcoólatra, viciado ou traficante em sua família, você não pode se sentir seguro. Em Tobias capítulo 17, versículo 118 a bíblia diz: ”Ai daquele que está de pé, porque poderá cair duro no momento seguinte!”
Ninguém pisca, é realmente de surpreender o espírito pétreo dos habitantes da cidade grande. O homem mostra então a que veio e o peso do rancor que carrega, cafajesticamente dissimulado de humildade, manifesta-se: “Desgraçado seja aquele que não socorre o sofredor! João avisa em Apocalipse, capítulo 9, versículo 22...” - e despeja maldições bíblicas  sobre a civilização capaz de gerar monstros frios como os passageiros deste ônibus urbano.
Conforma-se o mau samaritano em repassar de assento em assento e coletar suas cartelas, as quais são-lhe estendidas de volta com o mesmo gesto com que foram recolhidas.
- Será que mudei tanto assim em meus anos de interior? – pergunto ao meu amigo? – Cheguei a ficar comovido com o discurso desse pobre diabo.
- Deixar esse chato falar é um ato de caridade. Você o escuta e, em contrapartida, o ignora totalmente. Há um messias em cada esquina por aqui.
- Mas por que não o jogaram para fora do ônibus, como certamente desejariam?
- Ele deve ser sindicalizado. Não notou que ele tem um passe que lhe dá o direito de subir e descer quando e onde lhe apetece?
- Talvez ele seja amigo do motorista.
- Na verdade, o passe é fornecido pela prefeitura, o que quer dizer que “nós” pagamos por suas viagens.
- Não seria melhor pagá-lo para ficar em casa, como os aposentados, onde Deus pode ouvi-lo sem interferências?
- Há gente que cura um vício trocando-o por outro. Lembra-se da Janaína? Treze anos com a cocaína, doze com o Jorge e agora na Assembléia de Deus.
- Eu a preferia na época da cocaína, para ser sincero.
- Porque ela era jovem, eu sei.



 Estamos nestas profundas reflexões quando sobem duas gordas carregadas de sacolas. Tem gente que não se manca. Elas sobem de lado, pois de frente mal daria para passar seus quadris volumosos. Agarram-se à porta com as duas mãos e projetam seus pesados fardos para dentro do ônibus. É possível sentir a carroceria gemer e o ônibus balançar de um lado a outro. As duas vikings tentam em seguida passar pela roleta. É impossível, não estão vendo! Mas elas conseguem, por incrível que pareça, espremer-se entre as grades e vingam-se de nós distribuindo sacoladas a torto e a direito enquanto tentam se equilibrar segurando as barras do teto. Você está sentado confortavelmente e não ousa dar lugar a uma pessoa com bagagem? Tome sacolada na cabeça! Pensa que é higiênico e despreza os odores estranhos? Sinta o aroma desta axila!
         - É por isso que esses veículos são toscos assim, você não acha? – observo ao ouvido do John. - Qualquer um juraria que foram construídos para carregar gado.
- Que veículos?
- Os ônibus, como este onde estamos.
- Acho que você se deixou levar longe demais pela comodidade do automóvel. Não estamos em Nova Iorque ou mesmo em Barcelona.
- O que é o que é: um túnel de metal dividido por tubos igualmente de metal, equipado com dezenas de assentos de plástico e cujo conjunto recebe o nome de “transporte público”?
- É o conceito minimalista de transporte de massa, uma contribuição brasileira à modernidade.  



A topografia de Belo horizonte tampouco ajuda. A cidade é amorrada e sinuosa e costuma haver buracos, quebra-molas, carrocinhas de catadores e outros obstáculos na pista. O motorista também não está entre os mais civilizados do trânsito e faz o veículo evoluir aos sopapos: um safanão para trás quando arranca e outro para frente quando freia. É nestas horas que um lugar sentado vale ouro.
         Precisamos tomar outro ônibus no centro, descemos na Avenida Amazonas e seguimos a pé até a Rua dos Guaranis. A Avenida Paraná está em ruínas devido às obras do futuro BRT (sistema de ônibus articulados).  As obras levam tantos anos e a qualidade do sistema atual é tão mesquinha que os usuários estão calejados e não mostram qualquer amor pela cidade onde pisam.
         Cruzado em todas as direções por multidões apressadas, o centro é uma espécie de deserto superpovoado. Mas, como estamos de férias, temos tempo de reparar aqui e acolá alguns símbolos perdidos entre as fachadas de gás carbônico: “Sindicato dos Chauffeurs de Belo Horizonte”, lê-se na plaquinha espremida entre dois viadutos; “Congregação Cristã Operária. Quadra de football”, diz outra com ar de anos 50.
- Ouvi dizer que o “Sindicato dos Chauffeurs” agora se chama “Sindicato dos Motoristas” e que a Congregação Cristã Operária não existe mais.
- Você acha que deveríamos erguer vivas a nosso projeto de civilização nunca completado? – pergunta-me o John, só para provocar.
- Acho que as ruínas representam o apogeu do poder criativo do homem. Como a fênix que renascia das cinzas...
- Você quer dizer que...
- Deveríamos proclamar com orgulho slogans como: “Brasil, um país em ruínas!”

O 3301B passa pontualmente atrasado. De dentro podemos ver a sombra das grades de ferro do edifício neoclássico projetada sobre o remanescente do calçamento antigo, como a dizer que esta cidade já foi mais bonita um dia.
Percebemos isto quando alguns velhinhos tentam subir na região da Praça Raul Soares. Você sabe, para dez velhinhos entrarem em um ônibus cujos degraus mais parecem obstáculos de uma prova de step, é preciso paciência de guerra: uma velhinha põe o pé no primeiro degrau; empurram-na para cima; seguram-na para que não volte em marcha a ré; os assentos preferenciais estão ocupados - não estão vendo? desocupem as poltronas, vão lá para trás!; outro velhinho põe o pé direito no degrau...
- Como é triste envelhecer em uma cidade grande... – suspira meu amigo.
- Agora mesmo você achava os edifícios antigos mais bonitos...
- Os edifícios, sim. Têm um tipo de beleza que não se deforma com a idade. Gente é outra coisa.
- Não sei se estou sempre de acordo – observo enquanto duas mulheres sobem no último ponto da Avenida Pedro II.
- Mãe e filha? – pergunta o John.
- Está na cara que sim – respondo.


         Mamãe tem pele alva, seus ombros e braços comprovam que ela é do tipo que se protege com cremes e massagens. Mas a filhinha é bronzeada, como se vê, e pode-se perfeitamente adivinhar suas pernas sob o jeans colado.
         - Nada como uma mulher macia e experiente – arrisco um comentário.
         - Prefiro a apertadinha mesmo – responde o John, sem qualquer cerimônia.   
- Você acha que vou escrever isso?
         - Pois deveria. Como escritor, você não deve omitir a verdade ao leitor.
         - E desde quando escrever é dizer a verdade?

Nosso destino é o Castelo, bairro localizado numa parte da cidade que cresce sem parar e oferece um exemplo curioso de nossa evolução urbana. Há prédios grandes, médios e pequenos e casas idem, lojas, postos de gasolina, supermercados, mas parece que praças, centros esportivos, parques e áreas comunitárias estão definitivamente fora de moda. Não há nada que lembre lazer, não há nenhum menino correndo atrás de uma bola, nenhuma menina pedalando sua bicicleta nestes tempos de férias, apenas carros, carros, ônibus...
         - Em um país com tanto espaço, como podem ter transformado as cidades nessas teias de concreto? 
         - Acho que a culpa é da Caixa Econômica Federal – responde o John. Tudo financiado em dezenas de prestações, vamos construir, plantar prédios sobre a paisagem como cogumelos.
         - É a civilização, então. Quando éramos jovens e ripongas, podíamos sonhar em viver no campo e criar galinhas.
         - Não diga isso, brou. Faz-me lembrar que foi há muito tempo...
         - Castelo da Beira!
         - A civilização...
         - Chegamos!

Β
© Abrão Brito Lacerda