domingo, 23 de junho de 2013

HISTÓRIA DOS BONS VELHOS TEMPOS





O ciúme lançou sua flecha preta
E se viu ferido justo na garganta.
(Caetano Veloso)


         Naqueles tempos antigos, as pessoas eram muito mais reservadas e formais. Bom dia, Seu Antônio, bom dia, dona Maria, cada um em seu canto, sem, geralmente, se meter na vida do outro. Não diretamente, é verdade, pois as comadres comentavam tudo e os compadres falavam de algo mais além de roças de café e arrobas de boi nas rodadas de cachaça, café forte e queijo curado. Mas eram tempos bons, daqueles que o povo costuma dizer: Ah, os bons velhos tempos!... Ainda havia ternos de linho e chapéus de feltro e sapatos oxford reluzentes sobre o calçamento de pedra são tomé. Quando não se aventuravam para os lados da capital as pessoas nasciam e morriam no lugar, ainda que houvesse estrada de ferro e outros caminhos levando aqui e ali. Havia passarinhos nos pomares e meninos se enchendo de frutas. Havia moças feias e outras bonitas, embora eu me recuse a afirmar que uma moça seja feia; toda moça é potencialmente bonita, pois traz em si o viço da vida, o segredo do amor. E outros segredos, como nos dirá Pedro Afonso Nunes de Andreotti:
         “A história da minha tia Mariana é muito triste. Parece que ela tinha a mesma sina da cidade: bonita e rica, depois abandonada, ou melhor, aprisionada.
         “Mariana de Aragão?”
         “Isto mesmo, com esse nome espanhol. Tia Mariana, a flor da família, nasceu nos arredores da cidade, em uma antiga fazenda, remanescente dos tempos dos bandeirantes. Não se sabe ao certo a data, mas acredita-se que foi por volta de 1902. Os nossos antepassados contavam histórias do Dia do Fico, quando a vila apoiou Pedro I e, inclusive, ofereceu-lhe abrigo contra as forças que se opunham à sua decisão de permanecer no Brasil.”
         “Se bem me recordo da história do Brasil, isto foi no mesmo ano da independência, não?”
         “Claro. 1822,  mais precisamente. Os tempos eram bons para a antiga vila, que era o ponto de confluência entre O Caminho Novo e o Caminho Velho, que levavam ao Rio de Janeiro e também ao interior de Goiás e Mato Grosso. Vinham imigrantes de vários países europeus, inclusive da Espanha, sobretudo da região de Aragão. Por isso ainda hoje se diz  em minha família: “decidido como um aragonês”. Essa gente, moldada mas terras rochosas do norte espanhol, trouxeram para as Gerais o mesmo espírito de luta e persistência. As mulheres, tanto quanto os homens, os homens tanto quanto os burros.”
         “Você quer dizer que seus antepassados eram duros, mas um tanto ignorantes?”
         “Muito pelo contrário. Estavam entre os mais letrados do lugar. Acontece que, naquela época, só os burros suportavam os caminhos íngremes que levavam às várias localidades do interior, em jornadas de dias e até semanas.
         Os Aragão instalaram-se como comerciantes de cereais, ramo difícil e incerto. Quando ganharam algum dinheiro, compraram fazendas. Alguns se tornaram também comerciantes de escravos, que era sabidamente o ramo mais lucrativo do Brasil colônia. Traziam negros do porto, em fila indiana, atados entre si por uma corrente passada em redor do pescoço.
“Traficar escravos é definitivamente um ramo indigno.”
“Naquela época isso era comum. Era como negociar com gado, embora os negros fossem muito bem tratados, pois eram mercadoria valiosa e deveriam chegar ao pé dos fregueses em perfeito estado, dos dentes aos calcanhares.
         No sobe e desce da escala social, meus antepassados acabaram por adquirir fazendas que tinham pertencido a antigos bandeirantes, e tornaram-se cultivadores de café. E foi assim que começou a história da tia Mariana, no início do século XX.”
         “Ah, sim. Voltemos a sua tia Mariana...”
         Tia Mariana tinha sido prometida em casamento, promessa de pai, que podia ser descumprida. Não porque ela fosse particularmente namoradeira, na verdade nunca tinha namorado ninguém. Mas fazia compras uma vez por mês na cidade e um dia foi conhecer a loja aberta por uns italianos de Chiere, dentre os quais seu futuro marido, meu tio Vicenzo Andreotti. 
         “Seu tio era dono da loja?”
         “Era filho do dono, e desde que chegara às Gerais não tirava os olhos das três portas altas da loja, buscando uma anca graciosa balouçando ao o sol, um olhar transverso ou um sorriso. As moças eram recatadas e estavam sempre acompanhadas, mas a lei do amor dribla a vigilância e atravessa até o mais espesso tule. Tia Mariana entrou na loja e ele ficou mirando-a de longe, como quem não olha: altiva e orgulhosa, olhos de esmeralda, cabelos à altura dos seios, dentes de esmalte perfeito, que se revelavam quando ela sorria.
         Antes de chegar à cintura, o Vicenzo já estava apaixonado. Descobriu a fazenda onde ela morava, comprou cavalo, aprendeu a cavalgar e a pediu em casamento, com juras de amor eterno e promessas de fidelidade absoluta.”
         “Cumpriu a promessa?”
         “Ao pé da letra. Mas revelou-se um marido extremamente ciumento e possessivo. Com o tempo, aprisionou-a totalmente, como a Rapunzel em uma torre. “
         “A cidade era tão isolada assim?”


         “Havia dois trens por dia, um que descia da capital e outro que subia da metrópole do sul. Vivia-se ao ritmo do trem de ferro, pelo qual viajavam as mercadorias, as notícias e as pestes.  Viajavam também os eventos políticos, como as disputas das duas famílias de mandachuvas locais: Na segunda, um Pereira juiz mandava prender um Nogueira comerciante; na sexta, um Nogueira deputado embargava as verbas para o Pereira prefeito.
         No mais, a vida era tranquila, com quermesses algumas vezes ao ano, sinos de igrejas conclamando ao culto e à ladainha, meninos roubando frutas nos pomares adjacentes ao rio e estradinhas bucólicas levando aqui e acolá. Só a minha tia Mariana não podia mais circular livremente pelas ruas e nem sequer ir à fazenda sem ser escoltada.”
“Escoltada pelo marido?”
“Ou por alguém a mando seu.
O Vicenzo fê-la mudar-se para a cidade, o que ela aceitou um tanto a contragosto. Dizia que precisava dela perto dele, e isto era natural, pois dois corpos que se casam querem ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo sempre que ocupações mundanas não os distraem.
A fazenda distava apenas um quilômetro da cidade, e lá se foi a tia Mariana viver no segundo andar do sobrado onde funcionava  a “Casa Andreotti”. No início podia descer para loja e até mesmo atender a clientes. Nestes casos, o Vicenzo ficava ao redor e vigiava, tal qual um cão de guarda, se algum imprudo olhar masculino não estava pousando casualmente sobre os braços alvos ou os cabelos ondulados da mulher. Mas, com o tempo, o homem começou a ficar nervoso e a exibir uma preocupação crescente com os negócios.”
“As coisas começaram a ir mal?”
“Muito pelo contrário. A presença, ainda que inconstante, da tia Mariana ao balcão fez a clientela explodir. Vinham clientes das fazendas, vilas e até mesmo cidades vizinhas. Compravam cortes de cetim, meias de seda, enfeites de cabelos para suas “esposas” ou “namoradas”. Naturalmente, precisavam de uma opinião feminina para isso.”
“E como não haviam descoberto tamanha formosura antes?”
“Conforme eu disse, as moças eram discretas e estavam sempre acompanhadas. Além disso, tia Mariana morava na fazenda e ia pouco à cidade.”
“Os clientes choveram como mosca no mel!”
“Para desespero do Vicenzo, que era ambicioso, mas queria sobretudo a sua mulher. Começou por impedi-la de descer até a loja, mas ainda assim ela se fazia ver através da janela. Aí a encheu de filhos - uma escadinha, quase todo ano um: Giovanninho, Palominha, Gingleolinha, Elaninho... Sete filhos em pouco mais de dez anos. Crianças lindas, diga-se de passagem, legítimos herdeiros dos olhos turquesa e da tez perfeita da mãe.
Tia Mariana dedicou então a vida aos filhos, uma vez que o marido a impedia de ver até mesmo parentes do sexo masculino. O leite, o pão, a manteiga, tudo era buscado por um dos criados. Tia Mariana ficou impedida até mesmo de chegar à janela. Mas a ausência de sol tornou sua pele ainda mais alva e bonita e os poucos que a frequentavam dizia que parecia uma princesa de contos de fadas rodeada de seus sete anões.”
“Nem os filhos serviram para acalmar os ciúmes do italiano?”
“Ao contrário, eles não fizeram senão aumentá-lo. Desconfiado que a cidade  tinha olhos demais,  Vicenzo retornou com a família para a fazenda, cuja casa sede fora transformada em uma verdadeira fortaleza, sem dúvida resultante das reminiscências de algum castelo medieval que habitava a memória do marido. Quando este saía para cuidar dos negócios, a tia era guardada por fiéis criadas e criados, que levavam e traziam numa labuta incessante entre a cidade e a roça e relatavam qualquer presença suspeita nos arredores.
Os meninos precisavam ir à escola, eram acompanhados por algum empregado. Tia Mariana adoeceu de cólicas terríveis, o marido fez vir um médico da capital, que a tratou no silêncio de quatro paredes pelo tempo necessário.”
“Mas o que foi feito de toda sua altivez e orgulho? A sua tia nunca reagiu a tamanha opressão?”
“Reagiu, sim, dentro do que era possível naquela época. Você sabe, uma mulher que abandonasse o marido não seria bem quista na comunidade. Além disso, meus tios-avós, os pais da Mariana, morreram pouco tempo depois e os herdeiros foram salvos da desolação pelo capital do Vicenzo, que foi quem adquiriu a fazenda depois das formalidades do inventário e socorreu os empobrecidos.”
“Ela poderia ter contado aos irmãos.”
“Ora, se o amor marcha sobre brasas, o ciúme põe cacos de vidro. Se o amor usa sapatilhas de veludo, o ciúme ergue muros de pedra.”
“E assim foi a vida da sua tia Mariana, Rapunzel aprisionada pelo príncipe que deveria libertá-la. Não me diga que ela secou, secou até morrer...”
“Não – no auge do delírio possessivo do marido, numa madrugada de raios e trovões, sem ninguém saber como, a tia Mariana desapareceu. Fugiu sem deixar rastros, abandonando casa, marido e filhos ...”
“Ela largou tudo?”
“Tudo e todos. Nem os irmãos conseguiram contatá-la mais. Disseram que ela fora para a capital ou para alguma outra cidade no interior do estado.
“E o que levou com ela?”
“Certamente a sensação de liberdade. Mais algum dinheiro, roupas e retratos dos filhos.”
“Ele não conseguiu reencontrá-la?”
“De modo algum. Fez buscas intermináveis em todos os lugares conhecidos e desconhecidos, revirou céus e terra, expediu mandados, ofereceu recompensas – nada.
Esperou-a sentado no alpendre, com os filhos chorando em redor; esperou-a olhando através das portas altas da loja, enquanto passavam carroças, gente e os primeiros automóveis; esperou-a nas jornadas sem fim em que passou cuidando dos filhos, agora convertidos em seu último refúgio.
“Ela não mandou notícias para os filhos?”
“Não mandou nem procurou. Especulava-se até que ela tinha morrido, por suicídio ou outra causa.
O Vicenzo converteu-se então em um devotado pai de família. Cuidou dos sete filhos como se fosse a mãe, talvez até mesmo a saudade atroz que sentia da mulher o fizera dedicar aos filhos a atenção que não havia dado a ela.”
“E ele não se casou de novo?”
“Casou-se, sim. Mas a segunda esposa, ainda que jovem, não quis ter filhos e contentou-se com o papel de madrasta, mais tarde convertido em direito maternal – com o tempo os meninos e meninas começaram a chamá-la de mãe. As pessoas na cidade, inclusive, foram se acostumando com essa troca de papéis e muitos a viam como algo natural. E a minha tia converteu-se em personagem de histórias, muitas das quais ainda há por contar.
Todos falavam de sua singular beleza, muito bem registrada neste quadro, veja.”
Pedro Andreotti conduz o amigo até a sala de visitas onde está estampada uma notável pintura a óleo, mostrando uma mulher de vinte e cinco anos: cerca de um metro e setenta de altura, talvez um pouco mais; tez perfeita, cabelos castanhos com tons de ruivo e olhos de um verde intenso e vivo. Após permitir que o amigo admire o quadro longamente, continua sua narrativa:
“Ela não ganhou o concurso de mais bela do lugar porque não havia tal concurso naquela época; mas seria sem dúvida digna desse título.”
“Era sem dúvida uma mulher deslumbrante. Seu tio não soube zelar pela sorte que teve.”
 “Era também uma mulher distinta e educada, em que pese a pouca educação formal recebida. Gostava de sair e conversar, quando solteira, era muito extrovertida. Só mesmo o casamento mudou radicalmente sua vida.”
“E a segunda esposa, o que aconteceu com ela? Foi também submetida à servidão?”
“Não. O tio Vicenzo deu-se conta que seu zelo excessivo havia precipitado a tia Mariana a uma atitude drástica. Assim, a segunda esposa pôde gozar de toda a liberdade que uma mulher podia ter naquele tempo: não havia ninguém para controlá-la, ela podia ir, vir e conversar quando e com quem bem entendesse. Foi por sua sugestão, inclusive, que eles voltaram a morar na cidade; desta vez não mais para o andar acima da loja, mas para uma ampla casa, onde ela recebia as amigas todos os domingos para o chá.
“De lobo o Vicenzo passou a cordeiro?”
“E até mais do que isto, pois, enquanto a esposa se mostrava, ele se ocultava, consumido pelo remorso de haver sido tirânico e ingrato para com a tia Mariana.”
“Ele amava de verdade a segunda mulher ou casou-se com ela apenas por conveniência?”
“Em todo casamento há uma parte de conveniência. O certo é que, secretamente, ele desejava a volta da tia Mariana, por um instante que fosse, como uma breve luz que se acendesse e se apagasse. Muitas vezes, observando o zelo da segunda mulher na condução do lar, via nela a tia Mariana e até a chamava por este nome. A moça virava-se, surpresa - ele sentia um rubor queimar-lhe as faces. Ela aquiescia, condescendente, como quem entende os delírios de um excêntrico.”
“Que história incrível! Parece mesmo coisa de antigamente.”


“O trem subiu e desceu as montanhas centenas de vezes; levou boas e más notícias; levou mais gente do que trouxe, com muitos jovens indo estudar na capital e por lá ficando. Durante quatro anos, o prefeito era um Nogueira; nos quatros anos seguintes, era um Pereira;  na segunda-feira um Nogueira desembargador anulava uma petição favorável aos adversários; na sexta-feira um Pereira cirurgião recusava socorro a um Nogueira ferido; no mais, eram conversas na calçada, café forte com queijo curado, compotas de goiaba e sossegos estivais.
Em dez anos o tio Vicenzo envelheceu trinta e não tardou a adoecer. Os filhos mais velhos casaram-se e os mais jovens foram estudar fora. Apenas a esposa não se arredava de suas obrigações e dele cuidava com desvelo e atenção.”
“Que boa samaritana, esta segunda mulher! Substituiu a primeira sem fazer exigências...”
“Tio Vicenzo fechou-se em melancolia: não saía, não fazia caso de visitas – nem parecia o ambicioso “chierino” que havia aportado naquelas terras como estrangeiro, amealhado uma pequena fortuna no comércio, depois conquistado a mais bela moça das redondezas e ainda arrematado os bens da família dela, para a qual serviu de arrimo e salvador. Nem sequer o bem de dedicar-se  aos filhos servia-lhe de consolo.
Quando a doença recrudesceu e seus dias pareciam contados, o Vicenzo pediu que o deixassem na loja, pois queria ver o movimento. Esposa e amigos afirmaram que era loucura, que ele deveria guardar repouso, sob risco de um ataque súbito. Mas ele foi tão obstinado que acabaram por colocá-lo em uma cadeira alta detrás do balcão, de onde ele passava as tardes a escrutar a rua através das portas altas da loja, como quem persegue uma miragem.”
“Os clientes não achavam aquilo estranho?”
“Os clientes eram conhecidos e, a pretexto de comprar, iam na verdade visitá-lo. Chegavam e o cumprimentavam : “Boa tarde, seu Vicenzo, como vai?”Ele grunhia uma resposta, sem desviar os olhos da rua.
E um dia aconteceu: sob o sol declinante da tarde, uma distinta senhora entrou na loja, acompanhada de uma criada. Os cabelos grisalhos e as marcas do tempo não haviam apagado sua incomparável beleza e dignidade. Ela pôs a mala no chão e se dirigiu àquele que a esperava desde sempre. Os dois se entreolharam e pôde-se ver uma lágrima rolar sobre as faces e esmagar-se no chão...
Tia Mariana cuidou do tio Vicenzo em seus últimos dias, com a ajuda da segunda esposa, sem queixas ou contendas. Ele expirou amparado nos braços das duas mulheres.”

Ω
© Abrão Brito Lacerda