sábado, 16 de fevereiro de 2013

MULHER, DE QUEM É ESSE CORPO?


O corpo seccionado: cada parte tem o seu valor.
       
            “E até as mulheres ditas escravas, já não querem servir mais”, dizia Raulzito na canção Novo Aeon. Mas, o que ironiza Raul Seixas, afinal? O desejo masculino que se prontificaria a ter uma amante para servi-lo a todo instante? Ou será, ao contrário, a impotência masculina diante dos avanços da mulher?
Porque quando a mulher avança e conquista espaços, ela o faz movendo as instituições do mundo masculino, que sempre buscou, através da história, dominá-la e submetê-la. E dominar a mulher é sobretudo possuir seu corpo - corpo cuja beleza inspira o homem mais do que qualquer coisa e cuja feiúra desperta nele o mais rasgado desdém.
            Pastores, artistas, médicos, legisladores, todos querem apreender o corpo da mulher, aprisioná-lo, regulá-lo, enfim, possui-lo de algum modo. E a mulher vem cumprindo este papel ao longo da história, moldando-se, sacrificando-se pelo prazer estético ou ditatorial do homem.
            Podemos nos perguntar se neste início de século XXI as mulheres são realmente livres para usarem seus corpos como quiserem, simplesmente porque podem se vestir com liberdade na maioria dos países, mostrar-se ou ocultar-se, segundo a regra da moda ou a preferência pessoal. Mas, para quem ela se veste? Para quem ela se despe?
            O corpo da mulher continua em muitos aspectos a ser regido pelas convenções do mundo masculino, na moda, na ciência e na lei.
Na Antiguidade, as roupas masculinas e femininas
eram idênticas.

            Nem o espartilho nem o cinto de castidade foram inventados por mulheres. Tampouco o foi o salto alto (o rei Louis XIV foi o primeiro a lustrá-los, nos idos do século XVII). A  burka, muito menos. Terá sido uma invenção feminina o cinema pornô? O Implante de silicone? A lingerie?
 Para não soar quadrado, consulto as manchetes na internet - e o que encontro?
Em pleno siglo XXI uma mujer acusada de brujería es quemada viva”, está no site do Emol. Tendencias & Mujer de 8/2/13. A matéria narra mais um crime extremo contra a mulher, desta vez na Papua Nova Guiné, onde uma mulher, “acusada de bruxaria” foi torturada e imolada pelo fogo em via pública, sem qualquer reação adversa dos passantes.
Esta foi no país dos aborígenes, é certo, onde a evolução parece às vezes andar ao contrário.
            Mas está também no Le Monde, porta-voz da França civilizada: SANS-CULOTTES – Les Parisiennes peuvent porter le pantalon en toute légalité” (“Sem culottes – As parisienses podem usar calça comprida em total legalidade”), na edição online de 5/2/13. Então, a lei quer proibia às mulheres usarem calças compridas foi finalmente abolida. A lei não tinha mais efeito algum, é certo, já que a calça comprida é hoje peça básica do vestiário feminino, mas seu simbolismo e sobretudo sua história são interessantes. Alguns fatos:
A lei contra o porte de “culottes” por parte das mulheres foi instituída em novembro de 1800, ou seja, ainda no rastro da Revolução Francesa.  As culottes eram espécie de bermudas justas que iam até a altura dos joelhos, onde eram presas por meias (aparece nos retratos antigos do rei Luis XV e do presidente americano George Washington). Eram roupa de gente fina, os pobres não tinham meios de usar. Há inclusive o episódio revolucionário em que os pobres invadiram Paris. Eram os “sans culottes”, os descamisados de hoje. Gente que queria sua parte no banquete da liberdade, mesmo que nu com a mão no bolso.
No Renascimento, a saia armada e as camadas de tecido
aprisionavam totalmente o corpo da mulher.

Culotte era roupa masculina. Curiosamente, com a evolução, foi diminuindo de tamanho e mudou de sexo: hoje culotte é simplesmente “calcinha” em francês.
Enfim, já naquela época, e com o vale-tudo que virou a revolução, as mulheres que saíam às ruas para gritar slogans começaram a se apossar da peça da indumentária masculina, pois ela dava mais liberdade de movimentos e era mais confortável. As galhardas cantavam inclusive Nous portons la culotte (Nós usamos calças), desafiando a supremacia masculina:

"En garçons habillées marchons ;
Pour vaincre les despotes, 
Adieu nos chers parents 
C'est les femmes d'à présent."

“Vestidas de rapazes, marchemos;
Para vencer os déspotas,
Adeus queridos pais,
Somos as mulheres de hoje”.
 
A escritora Georges Sand, travestida de homem.
Resultado: a criação da tal lei, para por um freio à pretensão feminina.  Posteriormente, durante a Belle Époque (final do século XIX até a 1ª Guerra Mundial) algumas exceções foram admitidas na lei, como o fato de ser jornalista. Mas as mulheres já usavam pantalons – aliás, graciosos – em alguns ambientes, como se pode ver nas imagens abaixo e, sobretudo, para andar a cavalo ou de bicicleta.
Mas foi com as duas grandes guerras do século XX e a necessidade das mulheres ocuparem os lugares dos homens na retaguarda, como operárias, motoristas ou bombeiras, que a moda pegou. Nos anos 50 entrou definitivamente no cotidiano, com aqueles modelitos stretch colados ao corpo que tiravam o sono de nossos avôs.
Bem, antes de recuar um pouco mais no tempo, para ver como começou esta história de “com calça - sem calça”, mais uma manchete online, desta vez da CNN, em 5/2/13: “55th Grammys: standard and practice wardrobe advisory” – Regras de vestimenta dirigidas às mulheres para a festa de entrega do 55º prêmio Grammy, o Oscar da música americana. Diz uma das regras: “Traseiros e peitos femininos devem estar adequadamente cobertos. Roupas tipo fio-dental são problemáticas. Evite mostrar carne nua sob as curvas do traseiro”.
As regras parecem descabidas, mas foram instituídas após algumas “divas” como Beyoncé e Lady Gaga aparecerem com coisa demais à mostra para receberem seus prêmios.
            Que absurdo proibir a mulher de se vestir com liberdade! Ora – pensando bem – por que elas precisam ir a um evento público com o zoológico à mostra? Será que é realmente confortável? Ou trata-se apenas de marketing, onde o corpo, extensivamente explorado como peça de publicidade, acaba por se tornar de domínio público?
Culottes do final do século XIX.

E se o corpo individual se torna público ele não pertence mais a quem ele é de direito. Torna-se objeto de alienação. No final das contas, trabalho para os seguidores de Freud.
No entanto, na Antiguidade, não havia diferença entre vestimentas masculinas e femininas, a não ser para detalhes ou cores. Roupa era roupa, não tinha sexo. Aí veio o Cristianismo - com os doze apóstolos homens de Jesus Cristo - que se expandiu e dominou o Ocidente, ocupando a função reguladora do antigo Império Romano, de quem aliás herdou a estrutura administrativa.  Surgiu o pecado, o tabu, a vergonha. Os espaços públicos da igreja tornaram-se lugares de homens, as mulheres que optavam pela religião eram enclausuradas em conventos (como podem ver, que evolução comparado aos dias de hoje!). Alguns séculos depois, estavam queimando bruxas em fogueiras.
Foi neste contexto que surgiram os precursores da calça comprida, que davam maior liberdade de movimentos e eram mais práticos. Mas, por mais de mil anos, até o advento da Revolução Francesa, esta liberdade era exclusiva dos homens. As mulheres permaneceram enclausuradas em vestimentas pesadas até que as citadas galhardas que cantavam “Nous portons la culotte” resolveram sacudir o pedaço. Entrementes, inventaram o cinto de castidade, o espartilho e outras formas de torturar legalmente as mulheres (Pensando bem, já era melhor do que ser queimada em fogueira).
O corpo feminino é regulado até mesmo pela Constituição brasileira (1988), que, ao estender os direitos de cidadania a partir da fecundação, apossa-se do ventre da mulher sob um argumento político. O quadro legislador se completa com o Código Civil e o Código Penal Brasileiro (1984), que utilizam o mesmo argumento biológico para instituir a interrupção da gravidez como crime, a não ser em alguns casos, prevendo penas de prisão para a mulher que cometer tal delito.
Os homens foram à guerra e as mulheres vestiram macacões.

É o cúmulo da hipocrisia, uma vez que aqueles que tão ferozmente querem se apossar do corpo da mulher, sob escusas morais, filosóficas, políticas ou religiosas, não demonstram qualquer sensibilidade para com a vida dos que vivem e morrem de fome, violência ou negligência, coisa rotineira em nosso país.
            Oculto ou revelado, o corpo feminino reflete uma verdade expressa na canção de John Lennon: “Woman is the nigger of the world” (“A mulher é o negro do mundo”, a vítima de todos os preconceitos).  Em um dos trechos da música ele diz:
           
If she won't be a slave, we say that she don't love us
If she's real, we say she's trying to be a man

(Se ela não quer ser uma escrava, dizemos que ela não nos ama
Se ela é autêntica, dizemos que está tentando ser um homem).
            Se a política, o direito, a medicina, a religião e outras formas de controle social continuam a regular o corpo da mulher, cabe a pergunta: MULHER, DE QUEM É ESSE CORPO?


© 
Abrão Brito Lacerda
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