sábado, 28 de dezembro de 2013

Memórias de um Sargento da Banda Filarmônica



            Lorde Sakyamuni, que viveu no século VI antes de Cristo, dizia que, ainda que o sofrimento seja inerente à vida, todos possuimos o potencial não apenas de superá-lo, mas também de convertê-lo em motivo de uma existência feliz.  Esse potencial ilimitado do ser humano não cessa de se revelar ao longo da vida, mas torna-se especialmente evidente em momentos de grandes angústias e dificuldades e em situações em que o ser conta apenas consigo mesmo. Por outro lado, bastar-se a si mesmo é tudo a que uma pessoa aspira, pois ninguém quer ficar na dependência de outrem para a execução de suas necessidades diárias. É para serem independentes que são educados os filhos e é por autodeterminação que lutam os idosos quando suas faculdades físicas e mentais começam a declinar.
            Sentado em sua poltrona marrom ligeiramente encardida, seu Alfa assiste a seu programa favorito na TV. Não se trata do “show da tarde” nem do “jornal das quatro”, mas sim do “shoptime”, cheio de produtos úteis e interessantes, como o multiprocessador Vavita, uma revolução no mundo dos alimentos. O multiprocessador Vavita é prático, fácil de usar e pode ser comprado em trinta vezes no cartão. Seu Alfa ergue as sombrancelhas ao ouvir a oferta anunciada pela garota-propaganda, ou melhor, senhora-propaganda. Anúncios de produtos domésticos não são como publicidade de aparelhos de ginástica – não precisam de uma rapariga milimetricamente em forma, movendo os glúteos em movimentos suaves de sobe e desce em cima de uma esteira ergométrica.
            O quarto é cheio de fotos e lembranças penduradas nas paredes. Em uma das fotos seu Alfa posa com a equipe de futebol do exército. “Eu era lateral esquerdo”, afirma com uma ponta de orgulho. Na clássica formação de alguns de cócoras e outros de pé ele aparece confiante e aprumado, deve ter sido um bom lateral. Em outra foto ele perfila com farda e capacete debaixo do braço. “Sou o do meio, na primeira fila”, diz com um viés de nostalgia.
- Era muito difícil a vida no exército?
- Tinha que levantar muito cedo, ter disciplina, andar com a farda impecável e as botas sempre engraxadas. Mas a vida de músico era melhor do que a de soldado raso.
            Tocou primeiramente na Banda Sinfônica da Aeronáutica, com noventa integrantes. Depois foi para o exército, onde tudo era mais dificil. “Meu amigo João Brás não tinha jeito para a música. Como não gostava de dureza, foi ser cozinheiro. Todo mundo pensa que cozinheiro de caserna passa o dia inteiro descascando batatas. Mas é o melhor alimentado da tropa, o que come primeiro.”
            - Deve ser concorrida a vaga de cozinheiro do quartel.
            - O menu é muito simples, conta mais a quantidade do que o sabor dos pratos. Há muitos auxiliares de cozinha também.
            O clarinete está cuidadosamente alojado no fundo de uma gaveta, dentro de um estojo preto com interior aveludado. Seu Alfa toma-o com gesto carinhoso, afinal foi o seu ganha-pão durante os longos anos em que passou mudando de Caxambu para Duque de Caxias, de Pirassununga para Pindamonhagaba. Ensaia um dos números de sua predileção: “Tiro ao Álvaro” de Adoniran Barbosa.  O fôlego não é mais o mesmo, mas as notas ainda são justas e executados no tempo certo.
            “Vida boa, havia muita camaradagem e brincadeira.”
O posto de sargento devia conceder certos privilégios e a despensa do quartel ajudava a alimentar a família numerosa. Havia também o trabalho eventual de ambulante, que garantia uns trocados a mais.
Hoje, todos se preocupam com sua saúde. “Mas não estou tomando muitos remédios. Só esse aí (Sinvasmax, comprimidos revestidos para o controle do colesterol) e aquele ali (Bissulfato de Clopidogrel para a pressão, uma drágea depois do almoço).”

            Infelizmente todos dão também palpites em sua vida. “Papai não pode dirigir mais, não tem mais reflexos, não sabe se defender”; “Vende o carro e põe o dinheiro na poupança”; “Tem de parar de ficar viajando como uma formiga, aquietar-se em casa”.
Tudo menos isso! Seu Alfa escapa para uma cachacinha na esquina. Ninguém é de ferro, muito menos as juntas enferrujadas de um aposentado.
Dizem que ele paquera as garçonetes, quando há alguma por perto. Mas isso é falso. O mais provável é que ele inspire respeito nas senhoras que atendem no bar da esquina. O Bar do Tião não é como os bares da zona chique da cidade, cujas atendentes desfilam entre as mesas. E há   outra diferença ainda maior, só notada no momento de pagar a conta.
            Há muitas pilhérias motivadas pela aparente ingenuidade do seu Alfa, a qual se acentuaria após a primeira dose e as subsequentes. Como esta: a família tinha alugado uma casa de montanha, nas cercanias de Ouro Preto, um paraíso de cachoeiras e belas paisagens. Nessa época já era grande a preocupação com o estado do seu Alfa, pois ele havia passado por uma cirurgia de ponte de safena e alternava os antibióticos com doses religiosas da branquinha. No entanto, ninguém conseguia fazer o vovô comer conforme a receita médica e até eu me envolvi na história. “Tem que comer, seu Alfa, o corpo precisa de proteína.” Quando se fez a chamada para o jantar, que constaria de piaba frita, arroz, salada e feijão tropeiro, encarregaram-me de ir buscar seu Alfa, porque ele precisava comer. Encontrei-o em um bar ao lado da igreja, curiosamente um barzinho com uma porta basculante, tipo saloon. Empurrei-a e lá estava ele, cotovelo esquerdo apoiado ao balcão e braço direito levantado, contemplando o copo recém-esvaziado como se fosse o cano fumegante de um colt. “Seu Alfa, vamos, o senhor precisa comer”, declarei em tom de porta-voz, quase uma ordem. Então ele enfiou os dedos polegar e indicador em um dos bolsos da jaqueta, retirou uma piabinha frita e levantou-a diante dos meus olhos: “Aqui está!”
            Fazem bem os filhos em proibi-lo de dirigir. Eles devem conhecer isso melhor do que o médico do Detran, que despacha um paciente a cada dois minutos e habilitaria até mesmo um elefante a guiar, caso elefantes precisassem de carteira de motorista. O maior perigo é que seu Alfa se esqueça que está dirigindo e entre na passarela de pedestres pensando que é viaduto. Não pense que isso está longe de acontecer, veja: Preparativos de natal, nozes, peru e os presentes do amigo oculto. Seu Alfa, que não tem pressa nenhuma, resolveu comprar o presente de última hora, então já sabe: “Quem vai levar o papai pra comprar o presente?”. Acabou sobrando para mim, o autor destas linhas; então, prestativo como sempre, chamei o elevador, abri a porta e aguardei  que seu Alfa entrasse. Apertei o botão do térreo e notei que ele estava me olhando de forma intrigante. “Você está indo aonde?” – perguntou-me com surpresa.
            Lorde Sakyamuni, de quem falei no início desta história, revelou que aquele que mantém uma conduta reta e justa aumenta a proteção das entidades celestiais, simbolizando as potencias criadoras e protetoras do universo. Há um deus celestial sentado em cada um dos nossos ombros, para nos proteger e livrar nos momentos mais críticos.
Como os deuses que adornam a postura do seu Alfa enquanto ele se assenta em sua poltrona marrom, ligeiramente poída no encosto e nos braços. Depois do almoço, sua única ocupação é aguardar o jantar, assistindo ao seu programa favorito. Hoje a senhora-propaganda promove a supergrelha Fast Steam: “Com Fast Steam, preparar um suculento bife ou aqueles legumes na manteiga virou brincadeira. Você não tem tempo para cozinhar? Acha que comer bem é um privilégio? Chegou Fast Steam. Disponível nas cores cobre, prata e ouro. 20 X no cartão...”
© Abrão Brito Lacerda


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O SOL NO CORAÇÃO

Símbolo da Soka Gakkai



“O coração ignorante pode ser comparado à escuridão total, e o Sutra de Lótus ao sol.”
(Nitiren Daishonin)

            O título desta crônica vem de um poema escrito pelo humanista japonês Daisaku Ikeda, que assim se encerra:
  “É jovem quem tem
  Agora e sempre
  O sol no coração.”
            Este apelo à juventude e à alegria de viver, à eternidade, ao calor humano e ao brilho pessoal pareceu-me uma imagem perfeita, ao mesmo tempo uma metáfora (o sol/o coração) e uma parábola (alguém que leva no peito o sol, que ilumina, e vive para sempre).
O autor é presidente da SGI (Soka Gakkai International), uma entidade laica japonesa que tem como marco de fundação o livro Soka Kyoiku Gaku Taikei (“Teoria da Pedagogia de Criação de Valores”, traduzido em português como “Educação para uma vida criativa”, Editora Record, 1989) de autoria do educador  Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944). Nesse livro, o professor Makiguti defende uma educação voltada para a promoção dos valores humanos, através de uma pedagogia centrada na liberdade e na felicidade.  Para tanto, ele preconiza o abandono dos antigos métodos e a adoção de uma nova forma de ensinar, centrada no aluno.  Na sociedade japonesa de então, dominada pelo xintoísmo oficial e posteriormente concentrada no esforço de guerra contra os aliados, a função da escola era preparar cidadãos disciplinados e obedientes, verdadeiras "abelhas operárias" prontas a se sacrificarem pelo bem da nação. Nesse contexto, as ideias do professor Makiguti eram por demais subversivas e ele não tardou a ser perseguido. Em um episódio chave, ele foi encarcerado juntamente com outros líderes que tinham se recusado a adotar o talismã xintoísta. Esse episódio redundou em sua morte na prisão, aos 73 anos de idade.
Tsunessaburo Makiguti
A prisão do professor Makiguti veio do fato de a Soka Gakkai, que surgiu com uma proposta de reforma dentro da educação, ter se ampliado para a reforma de toda a sociedade, com base no budismo de Nitiren Daishonin, que defende que todo indivíduo possui a natureza iluminada do Buda e deve levantar-se só e revolucionar a própria existência, independentemente das circunstâncias externas. 

O idealismo de Makiguti teria desaparecido, não fosse a ação do seu discípulo e colaborador Jossei Toda, que também foi preso no episódio do talismã xintoísta, mas logrou sobreviver ao cárcere. Com sua libertação, no final da Segunda Guerra Mundial, Toda deu início à reconstrução da Soka Gakai, agora engajada em difundir a filosofia de superação e esperança de Nitiren Daishonin  em um país destroçado pela guerra e traumatizado com as explosões da bombas atômicas
Foi em uma de suas palestras que o jovem Daisaku Ikeda, então como de 19 anos, tomou conhecimento com uma filosofia que iria mudar definitivamente sua vida e ajudar a construir a história do século XX. O jovem Ikeda sentiu-se tão tocado pelas palavras de Toda que não apenas se converteu ao Budismo Nitiren dez dias depois, mas também se tornou seu discípulo mais próximo. Foi ele quem assumiu a presidência da Soka Gakkai após o  falecimento de Jossei Toda, em 1958.
Sob a liderança de Ikeda, a Soka Gakkai tem trabalhado incansavelmente em favor da paz, do diálogo entre os povos e da promoção da cultura e da educação. Atualmente, está presente em 192 países e atua através de mais 80 organizações, juntamente com outros organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas. 
Como líder, Ikeda é valente como um leão e decidido como um samurai. Contudo, suas únicas armas são as palavras, que ele brande com clareza e altivez. Não teme dificuldades de qualquer natureza, não se deixa perturbar pelos ataques que surgem sempre que um grande homem se levanta e convoca outros a seu redor a fazerem o mesmo. Um líder que não se furta a enfrentar os problemas práticos do dia a dia (que são os mesmos para todas as pessoas: trabalho, família, dinheiro, felicidade, o sentido da vida, doença, morte...), ensinando seus discípulos a inserir seus dramas pessoais na perspectiva grandiosa e atemporal da Lei Mística e a atuar como atores de suas próprias vidas.
Jossei Toda
            Por Lei Mística entende-se o princípio fundamental que permeia todo o universo, do micro ao macrocosmo, do mundo material ao espiritual, tal qual revelada pelo Buda Sakyamuni. Ela é também denominada de "a verdadeira natureza de todos os fenômenos" e, naturalmente, não constitui uma lei no sentido comum do termo. Por razões óbvias, nos abstemos aqui de entrar em detalhes a respeito,  vamos apenas mencionar um episódio da iluminação do Buda, quando este estava meditando sob a árvore Bodhi. Ao ser questionado pelos "demônios" (funções da mente ligadas aos desejos e aos impulsos) sobre a razão de sua recusa em ceder ao às tentações, o Buda teria simplesmente tocado o chão debaixo de si, assinalando este que é o principal fundamento do Budismo: o mundo transcendente não se separa do mundo material, um é inerente ao outro. É, portanto, enfrentando os problemas da vida prática e não se afastando deles que se atinge o conhecimento verdadeiro ou sabedoria.
               Sakyamuni percebeu que os sofrimentos provêm das ilusões e da natureza obscura dos homens que oculta o estado de Buda (iluminação) que todos possuem. O Buda compreendeu, todavia, que as pessoas jamais poderiam apreender a real profundidade dessa "lei" se esta lhes fosse diretamente apresentada. Decidiu então valer-se de expedientes ou práticas acessíveis para guiar as pessoas e salvá-las dessas ilusões. Tal qual um excelente médico, começou a explicar a seus pacientes a lei da vida, de acordo com a seriedade da moléstia e a capacidade de compreensão de cada um.
            O Buda foi um filósofo e um mestre de inigualável sabedoria e sua mensagem, endereçada aos corações e mentes de todos os povos do mundo, está contida nos sutras (ensinamentos), compilados por seus discípulos. Seus atributos são inúmeros, mas podemos destacar: coragem e firmeza na prática religiosa, paciência ilimitada e compaixão para com todos os seres.
            Os sutras, compilações de ensinos transmitidos inicialmente de forma oral, atravessaram posteriormente o Nepal e chegaram até a China, onde foram classificados e estudados. No século V da era cristão, começaram a ser introduzidos no Japão. Então, no século XIII, um monge que veio a se chamar Nitiren Daishonin (1222 – 1282), debruçou-se longamente sobre os textos dos sutras, assim como suas interpretações feitas na China, sobretudo as do mestre Tientai Zizhi. Após concluir que o verdadeiro ensinamento do Buda encontrava-se no Sutra de Lótus, aquele que iguala todos os seres sencientes ao buda ao revelar a natureza budística inerente a cada um, Daishonin decidiu devolver às pessoas comuns a essência da sabedoria do Buda, descartando as práticas formais e dogmáticas das escolas budistas predominantes em sua época. Surgiu uma nova prática budista, que atravessou séculos de existência morna até ganhar novo impulso com a criação da Soka Gakkai no início do século XX. 
Daisaku Ikeda
            Na época de Sakyamuni, a Índia passava por uma profunda crise de valores com a decadência do Bramanismo. A mensagem do Buda visava oferecer esperança às pessoas tomadas pelo pessimismo e a desilusão. O mesmo ocorria no tempo de Nitiren Daishonin, quando o Japão encontrava-se mergulhado em guerras que ameaçavam desintegrar o país. A criação da Soka Gakkai e sua trajetória até os dias atuais traduzem os impasses da época contemporânea, com os indivíduos buscando direcionar suas vidas em meio a confusões de valores, materialismo desenfreado e ausência de exemplos realmente confiáveis. Estamos ainda envoltos em crenças infundadas, temores infantis, dogmas e formalidades, à espera da iluminação.
Nas palavras de Daishonin:
“Ainda que permaneça obscura por milhares de anos, uma caverna se ilumina assim que penetra a luz”.
Essa é a luz que brilha no poema de Daisaku Ikeda. Límpida, jovial, eterna. A luz mística do Buda, que se encontra no coração de cada um. Por mais obscura que pareça a caverna, há sempre uma fresta por onde o sol possa penetrar.

© Abrão Brito Lacerda

                                                                                                 


sábado, 23 de novembro de 2013

A MORTE DO VENDEDOR DE PICOLÉ

(imagem: www.humortalouco.com.br)

                   Esta cidade tem tanta coisa interessante! Um ar que se deposita como pó cinza escuro sobre os móveis, uma obra em cada esquina, muitas mulheres bonitas, vendedores e compradores de todos os tipos, até policiais. Todos trazem sua contribuição ao bem comum e dele se beneficiam, mas alguns se beneficiam mais do que trazem, como os larápios e os políticos. No caleidoscópio da malha social, vários tipos se cruzam e interagem, cada um buscando o seu próprio caminho. A cidade não é mãe, apenas madrasta: pode recompensar ou punir, mas jamais terá sentimentos. O chão onde se pisa é responsabilidade de cada um.
            O chão em questão é o mesmo para muitos, alguns mais fortes, outros mais fracos. Automóveis, bicicletas, caçambas, pedestres. E vendedores ambulantes, entre os quais viceja a dura luta que as classes populares têm que encarar no dia a dia:
Um verdureiro fabricou sua banca segundo o modelo de um carro de bois, com rodas enormes e uma haste por onde a mesma é puxada através das ruas. Ele mesmo é o boi. Outro transformou uma velha bicicleta em uma eficiente pick-up: consegue transportar na garupa, ampliada através de tubos soldados, as mercadorias de uma loja completa, que ele dispõe onde quer que haja potenciais clientes. O menino engraxate produziu uma caixa para seus instrumentos e um apoio para os pés dos fregueses a partir de restos de madeira coletados em uma marcenaria.
            “Estou trabalhando, não estou roubando ou usando drogas”, respondeu-me ele, com orgulho, quando interpelado sobre a natureza do seu ganha-pão. Outro me disse que “a justiça é feita para todos, mas a prisão é só para os pobres”, querendo com isto significar que, enquanto pobre, deve reger sua vida pela mais estrita honestidade.
Não bastassem as dificuldades habituais, os ambulantes agora poderão ser taxados pelo erário público, como qualquer outro negócio. A publicação da decisão de parte da prefeitura gerou um motim que perturbou todo o centro da cidade, na primeira operação linguição patrocinada por carrinhos de ambulantes da história!
Entre os ambulantes, a classe mais democrática é a dos vendedores de picolé. Tem vendedor de picolé velho, menino e mulher, mas todos com algo em comum: cruzam a cidade de norte a sul, lesta a oeste, empurrando seus carrinhos.
 Cada um tem sua forma de atrair a freguesia:
- “Ó o picolé! (Fom! Fom!). Ó o picolé! (Fom! Fom!)
- “Picolé Marão, o melhor da região!”
- “É o picolé!!! ...Picolé da Sônia!!!
Repare esse senhor que não possui o braço direito e empurra o carrinho com uma mão apenas. Meu sexto sentido diz que ele perdeu o braço em um acidente, possui uma aposentadoria por invalidez, mas está longe de se sentir inválido.
Repare o rapaz com elevado grau de deficiência visual, que sai às vezes só, às vezes acompanhado. Para escolher o sabor solicitado pelo cliente, ele aproxima o rótulo do rosto, como se fosse lambê-lo. Faz o mesmo para conferir o dinheiro recebido e fazer o troco.
Repare a senhora de ar alegre e bonachão, que para na esquina para contar piada e trocar prosa com os policiais. Ouça o seu pregão: “- Picolé Boaxá! É o picolé Boaxá! Melhor não há!”
(imagem: www.alagoastempo.com.br)

Repare ainda... bem, este não pode mais ser reparado porque é passado. Era aquele que, nas tardes de sol, marcava passagem com uma cantilena intermitente:
- Ó o picolé, picolé, picolé!...
 Avançando do fundo da cidade, meramente audível entre o latido dos cães e a musica do vizinho; ampliando-se na medida em que se aproximava da casa; e distanciando-se novamente até dispersar-se no final da rua.
Era pequeno, usava sempre chinelos de dedo, bem gastos nos calcanhares, e protegia a cabeça com um chapelão de palha que parecia proveniente da Ilha de Marajó. Estava presente no bairro de quarta a domingo, assim como em outras partes da cidade. Dezenas de quilômetros percorridos a pé, idas e vindas – e paradas quando alguém gritava: “Ê picolé!?”.
Chamava-se Nivaldo, seu Nivaldo, vim a saber depois. Tinha sido trabalhador rural, vigia e agora complementava a renda familiar vendendo picolé.
Seria um fato banal demais para se tornar digno de nota, caso aquele pregão não estivesse tenazmente incrustado em minha memória. Como o primeiro choro do filho, as flores da primavera (que nesta cidade chegam no final do inverno) e as tempestades de verão.
Após algum tempo sem ouvir o apelo chamativo e lépido: “Ó o picolé, picolé, picolé!...”, decidi indagar ao meu redor. A resposta veio de uma moradora da parte alta da cidade: Ao voltar de mais uma jornada de trabalho, seu Nivaldo não resistiu ao esforço de uma subida, justamente a última, e tombou sobre o asfalto quente, a trinta metros de casa. Quando foram socorrê-lo, estava morto.

 © Abrão Brito Lacerda





quarta-feira, 6 de novembro de 2013

ZAÍRA E OS POETAS



            Não é todo dia que se é convidado para uma reunião de poetas. Especialmente quando não se é um, como é o meu caso. Mas escrevo também sobre poetas, e tomara que isso acabe me impregnando de algum modo, já que a poesia é um mistério que me assusta e fascina.
            Fascina-me pela natureza de sua revelação: nem todos conseguem combinar as palavras de modo a obter o efeito poético. Alguns dirão, talvez a maioria, que tudo é uma questão de técnica e que poesia se aprende fazendo, que é um oficio de palavras, etc. Mas não é. Poesia supõe uma afinação entre emoção e palavra - qualquer que seja a emoção, sublime ou decadente – que não se obtém por simples querer. Ela não exige sequer um determinado nível de instrução ou cultura (como bem mostra Patativa do Assaré, “poeta da roça”, como ele mesmo se definia), pode surgir no ser e depois desaparecer (vejam o caso do Rimbaud, que abandonou a poesia para ser um reles comerciante nômade) ou manifestar-se na idade tardia (exemplo da Cora Coralina, doceira a vida inteira que se descobriu poeta na terceira idade).
            Assusta-me por certa fatalidade ligada à condição poética, exemplificado em tantas figuras trágicas e dramas pessoais. Devido à natureza do seu tempo (geralmente muito lento, o tempo da divagação, mas às vezes incrivelmente rápido, como um meteoro), a poesia é sempre um transporte para fora do mundo, um alumbramento, como diria Manuel Bandeira.  No entanto, somos confrontados diariamente com a necessidade de sermos regulares, de obedecermos a horários e compromissos.         
            No mais, uma reunião de poetas não difere muito da reunião de uma empresa, com discussão da pauta, assinaturas, ata e pausa para o lanche. Sem falar do fluxo de caixa e dos informes da secretaria.
            A sede da APEMT (Associação dos Poetas e Escritores do Município de Timóteo) é a casa da Zaíra, que é também o Lar das Meninas de Ângeles, onde ela acolhe garotas carentes, criadas como se fossem suas filhas. Além de dedicar-se à literatura, com doze livros publicados, entre poesia, contos, crônicas e literatura infantil, a Zaíra de Carvalho nutre-se de compaixão pelos desafortunados, fonte de sua grande sabedoria.
            Fico sabendo através da biografia publicada em seu segundo livro, “O Choro da Criança na Missa do Prefeito” (1983), que essa decisão tem a ver com seu passado no seio de uma família numerosa, cuja mãe e filhos passaram por grandes dificuldades após a morte do pai. A própria Zaíra quase morreu... de fome! Mas reergueu-se, sólida como um carvalho. Através de muita luta e superação, cursou faculdade, tornou-se professora, depois escritora, passando a fazer, a partir da sala de aula, a crônica de Timóteo, antiga Acesita, cidade que faz parte da região das indústrias do aço, em Minas Gerais.
            Muitas de suas histórias são fábulas e têm o fito de educar e instruir. Alguns trechos são de uma bela prosa poética:

            “A tarde estava linda. Uma onda de otimismo pairava no ar e convidava-nos para um passeio. Saí sem destino, curtindo as carícias do vento roçando-me o rosto. O sol se recolhia deixando para trás um manto doirado enquanto outro manto de alegria agasalhava meus passos.”
            Há belas metáforas:
            “Às tardes, o portão espia sua chegada com um sorriso aberto.”
            Correlação de movimentos internos e externos, em ótimas frases:
            “O carro corria pelas estradas e a emoção dentro delas.”
            E um humor que lembra muito os arranjos verbais deste cronista que escreve:
            “Nestas alturas as galinhas fogem apavoradas. Sabem que se o camarada entrar, uma delas será condenada à morte. Como não tem Sindicato e nem “Centro de Defesa dos Direitos Galináceos”, o recurso é correr o mais que puderem.”
            Enfim, a sabedoria, essa virtude que só é acessível a quem incorpora o outro em sua própria existência:
            “A felicidade está dentro do sujeito como o combustível do carro. Só aparece quando está em movimento. A saída é para fora e nunca para dentro de si mesmo.”
            Além do livrinho da Zaíra, voltei para casa como feliz proprietário de duas coletâneas dos Poetas do Vale do Aço, das quais selecionei a edição de 2013, intitulada “O Vale em Poesia” para compartilhar com os leitores. São 18 poetas, de idades e estilos variados, expressando-se em geral através de versos simples e sentimentais, frequentemente com apelo religioso e em torno de temas do dia-a-dia. Citar apenas alguns dentre eles significa incorrer em possível injustiça, mas esta é uma crônica breve, que, tomara, desperte em quem leia o desejo de buscar os livros comentados.
Há belas gemas incrustadas no livro, algumas lapidadas, outras em estado bruto, como este poema da Aila Araújo Costa:

DOBRADURA


Na beira de um rio
Um velho e um menino
Estavam a brincar
Na areia e no rio
Vários barquinhos
Que estavam a navegar
Ao lado do velhinho
Vários aviõezinhos
Preparados para voar
Uma pilha de papel
Com aquela cor de mel
Que serão belas molduras
Pra enfeitar suas aventuras
E é essa história
Que eu te contei bem agora
Da dobradura de papel
Papel cor de mel.

A Aila tem apenas 14 aninhos, mas já sabe da poesia. E como sabe? Em primeiro lugar, é preciso dizer que a poesia é como o amor, algo simples e universal, fácil de sentir, mas difícil, talvez impossível, de explicar. Ela não está no arranjo das palavras em forma de versos, nas rimas ou mesmo no sentimento. Ela é a fagulha que parte quando o verbo e a emoção se encontram e comunicam sua mensagem, mensagem de recriação do mundo, do mistério insondável da existência. É preciso ter uma anteninha capaz de extrair a eternidade do circunstancial, coisa que a Aila possui.
No seu poeminha, ela retrata uma cena singela, brincadeira de infância, afeto, comunhão entre o velho e o menino, reunindo assim os tempos da existência - e, portanto, a eternidade - e encerra tudo na hábil dobradura do papel - a dobradura do barquinho que vira a dobradura da página em que ela escreve. Escrito e dobrado, o material (barquinho, papel, rio, areia, tinta) encerra um mistério: a poesia. Ponha no bolso e leve, leitor.
Para realizarmos um salto nas idades, transcrevo abaixo parte do poema “Maluco Beleza” da Maria de Lourdes Toledo, poetisa de 76 anos, que celebra igualmente a vida no que ela tem de essencial:

MALUCO BELEZA


Sou maluca
Lelé da cuca
Não jogo sinuca
Não danço mazurca
Sou fã do Sivuca.
Sou contente
Mesmo doente
Com falta de dente
Lucidez ausente
Ainda sou gente.

Uma gargalhada de prazer pelos versos da dona Maria Maluca de Lourdes!
Enfim, um poema de Stelio Nobre Maia, que possui nobreza no nome e nos versos. Trata-se de um poeta feito, na idade e no trato da língua: preciso, delicado, generoso:

O CATADOR DE CARANGUEJOS


Todos juntos, amarrados...
E pendurados em tiras
De vegetal, bem ligados,
Ou, até mesmo, de embiras,
Formam “corda” os caranguejos
Para o pobre vendedor
Conduzi-los aos festejos
À mesa do comprador.
O leigo não imagina
A saga tão aviltante,
A cruel e dura sina
Do catador tão distante:
Mergulhado em densa lama,
Ao pé do mangue agachado,
A esgueirar-se da trama
Leva, assim, o seu achado.
Coitado daquele homem
A rastejar em chão de lama
Naquele mangue além,
Sem atentar que o drama,
Na visão dos que bem comem,
Considera o pobre homem
Um caranguejo também.

Alagoana de nascença, seu Stelio tira rima e métrica de ouvido, coisa de quem traz na memória o repetente e o cordel. O fecho é igualmente típico da poesia nordestina, o que não tira em nada seu mérito. Este poema poderia ser assinado Ferreira Gullar ou João Cabral de Melo Neto.
Seu Stelio, caso venha a ler estas linhas, saiba que o senhor merece publicar muito mais. E, na eventualidade de fazê-lo, não se esqueça do autor desta crônica.

Escrever, contar e recontar. Reinventar a vida através da escrita. Extrair da matéria bruta a emoção suave. Sempre agora, nunca tarde, como se lê nos versos da Zaíra: “Velhice é a aurora / De outro amanhecer.” Não importa a idade, cada dia é um recomeço.

©
Abrão Brito Lacerda



            

terça-feira, 22 de outubro de 2013

A LUZ E O ELEVADOR

(Foto: wordpress.com)


         Certos indivíduos são vítimas de perseguições infundadas, preconceitos, ilações maldosas. Algumas categorias também. Só porque você padeceu, sentado entre dois balofos, naquele voo para Nova Iorque não o autoriza a sair por aí dizendo que a obesidade deveria ser punida a mesmo título que os crimes de lesa-majestade ou propaganda enganosa. Como é sabido, as companhias aéreas mantêm aquele espaço de macróbios para a classe menos abastada por razões financeiras, mas também sociais. Julgam que comedores de hambúrgueres, membros da Vigilantes do Peso (aquele grupo que se reúne regularmente para conferir quanto cada um engordou no período) e tamanhos ultra large em geral devem sentir nos próprios estômagos a inconveniência de serem cidadãos fora das medidas.
         Só o cronista não repousa em seu labor denodado para levar ao leitor o registro fiel dos fatos, sem deixar que nada escape aos seus sentidos. Se vê uma cena digna de nota, despe-a de seu invólucro enganoso e mira-a dos mais variados ângulos: de ponta-cabeça, às avessas, assim assado. Por isso é tão instrutivo caminhar pelas ruas à-toa, dando-se ao luxo de rir e chorar com as agruras de seus semelhantes, quem sabe emprestando seu palpite à balbúrdia, para que nada se resolva - enfim, nascemos para explicar?
         Estando eu outro dia plantando bananeira em uma fila de ônibus, o que vejo? Muitos ônibus, é verdade, rosnando em minha direção como tigres motorizados. E dentre os ônibus, um que se encheu num passe de mágica, sugando a multidão que o aguardava. Nunca vi tanta gente indo para o mesmo lugar! Acho que alguns entraram porque estavam ali havia tanto tempo que já não importava mais o destino. O motorista deu sinal de partida, agarrando a alavanca de câmbio como se fora o rabo de um touro em uma vaquejada. Foi quando a trocadora gritou lá de trás: “O elevador emperrou!”.
 O elevador é utilizado na porta do meio, para permitir o acesso de cadeirantes ao ônibus. É lei municipal, artigo 1122, alínea ABC, parágrafo 230. Se ele não funciona, o veículo não pode circular. Ainda mais quando há alguém numa cadeira de rodas aguardando para descer.
Tentaram reanimar o elevador, com bons e maus modos, primeiramente testaram a parte elétrica e em seguida deram chutes em sua carcaça de aço. Nem UTI. Os passageiros entreolharam-se, quem iria ajudar o moço a descer? Uma fila de veículos começava a se formar atrás, ameaçando emperrar o trânsito.
A féria foi salva por um samaritano de ar prestativo e braços que tinham o diâmetro do meu abdômen - ele era, digamos, "forte". O bom homem deteve-se em sua jornada rua acima, agarrou a cadeira com duas firmes tenazes, levantou-a, juntamente com o cadeirante, e depositou-a sobre o passeio. “Muito obrigado!”, “De nada!”, ele recolheu sua sacola e continuou seu caminho.
No entanto, vejam que, estando eu em outra oportunidade tangendo borboletas em outro ponto de ônibus, aconteceu de o elevador também travar. Não há nada para dar “tilt” como elevadores de ônibus! De novo os procedimentos de primeiros socorros, sem resultados. O motorista, um frangote, pôs-se a procurar uma ajuda de peso para resgatar o cadeirante. Trouxe várias, mas nenhuma suficientemente avantajada para mover o passageiro, pois esse não pesava menos de 120 quilos, sem contar a cadeira, reforçada por barras laterais e com um jogo de rodinhas a mais - a primeira cadeira de rodas truque que já vi! No total, um fardo de uns 140 quilos. Foi preciso chamar o corpo de bombeiros, que içou o desafortunado rolha de poço por intermédio de um caminhão-guindaste.
Como exigir que o trânsito ande!
Na minha cidade, às vezes falta vergonha, às vezes falta luz. E, por incrível que pareça, as duas coisas estão interligadas. Por isso, quando há um blecaute, todos gritam: “Que falta de vergonha!”. Em Brasília, é a mesma coisa.  
Então a presidenta, reuniu a PF (Portos & Fronteiras), o IEF (Instituto de Estudos sobre Fraudes) e o CPF (Comitê de Política Financeira) - e no que deu? Descobriram que tudo não passa de sabotagem da indústria de velas, que já gozou de dias gloriosos e atualmente anda pela hora da morte. Nos áureos tempos, o setor veleiro empregava mais do que o Senado; hoje emprega menos do que o programa espacial brasileiro. Assim, ficam na dependência das obrigações cristãs do Dia de Finados, o que não é suficiente para desovar o estoque. Além disso, o aumento da expectativa de vida da população tornou irrisório o segmento de vendas para velórios e necrotérios. Resultado: vela aqui, vela ali e vão regulamentar os cortes de luz através de lei federal.

E, pior: ao subir para a sala de despachos do Planalto, para sancionar a nova lei, a presidenta ficou presa no elevador, devido a um pico de luz. Por isso, aquela aparência de holograma que ela transmite ao discursar não é marketing, é pura verdade. A coitadinha ainda está presa no elevador!

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 Abrão Brito Lacerda

terça-feira, 8 de outubro de 2013

A SEREIA DO TÂMISA

Ela emprestava seu sorriso doce a cada foto, a cada moeda depositada no cofre-estojo.

         A noite caía promissora sobre o South Bank, com ventos ligeiros soprando no sentido leste-oeste e algumas nuvens carregadas no céu, coisa habitual para a capital inglesa. Sob os últimos raios de um sol incerto de verão, muitos turistas caminhavam descontraidamente ao longo do rio, provenientes do London Eye, um dos últimos ícones arquitetônicos implantados na paisagem dessa cidade tão moderna quanto antiga, tão calma quanto agitada, tão melancólica quanto irônica; tinham caras satisfeitas de quem pôde desfrutar de uma vista de 360 graus dos tetos da metrópole.
A roda gigante, com suas cápsulas de vidro e seu ritmo de caramujo, fazia o último giro da jornada, pois quando o sol se põe e as luzes se acendem, é tempo de buscar outras aventuras.

O London Eye no South Bank.
Eu acabara de fazer uma ótima refeição no Azzuro, um charmoso restaurante localizado sob as arcos de uma antiga estrada de ferro e o vinho rosê copiosamente sorvido fazia-me flanar do lado oposto ao Big Ben, com a cabeça cheia de imagens e vazia de preocupações. Em três dias de Londres eu já sabia que se deve evitar a comida inglesa a qualquer custo, a menos que se suporte o abominável fish & chips (peixe frito com batata idem) ou tenha uma carteira recheada de libras para pagar por um English beef, o que não era o meu caso. Tudo em Londres é muito inglês, menos a comida, que pode ser italiana, indiana, paquistanesa, japonesa ou até mesmo brasileira para quem tempo de ir até a Oxford Street. Mas o tempo é uma abstração quando a emoção nos faz viver um século em um minuto e a vida se recicla, reunindo os três tempos da existência.
Debrucei-me sobre a balaustrada e contemplei o rio: alguns barcos deslizavam através das águas calmas, produzindo pequenas ondas, que cintilavam como feixes multicoloridos pelo efeito das luzes refletidas pelas fachadas. Eu não tinha um destino certo, poderia encontrar uma musa por ali, entrar em um pub e experimentar um pouco da cerveja local ou simplesmente quedar-me como tantos outros em um banco e ouvir a música de alguém, vindo de algum canto, tango, violino ou rock and roll. Uma musa, pensei, será difícil entre essas moças muito brancas, de pernas longas e charme operário, pisoteando seus sapatos altos com pouca intimidade.  Foi então que ouvi um solo de cordas – de onde vinha? – cujos acordes soavam-me familiar.
Calibrei os ouvidos como quem confere as instruções de um GPS e fui na direção identificada. Um bar recém-aberto servia coquetéis verde-escuros enfeitados por uma cereja espetada na ponta de um palito. “How much?”; “Seven pounds.” Preço razoável para Londres. “One, please.” Era um barzinho “takeaway”, você compra o drink em um copo descartável e sai bebericando como quiser, desde que não tropece e caia dentro do rio.
Ao cair da noite, um blues bem inglês.
Fui atraído como as crianças da história do flautista de Hamelin. Havia um clima de descontração e fantasia, um blues bem inglês, ao mesmo tempo decadente e digno. Vários artistas se apresentavam, às vezes tão próximos que podia-se ouvir mais de uma música ao mesmo tempo. A alguns passos do London Eye, lá estava ela, sentada sobre um banquinho dobrável, tocando bandolim - e a música...
Meu Bach, era Deus!... Desculpe: Meu Deus, era Bach! O sublime Johann Sebastian, cujas melodias deveríamos ouvir de joelhos em sinal de gratidão. Algo assim:
Tan
Tan ran ran ran ran...   ran ran ran ran...
Ran ran ran...
Ran ran ran!
Tão conhecido que soa banal em casamentos e concertos de câmera.  (Ok, leitor, chega de mistério, estou falando do “Airoso” da Cantata 156).
Com as pernas cruzadas, de costas para o rio e de frente para o Jubilee Gardens, ela emprestava seu sorriso doce e ao mesmo tempo triste aos flashes dos turistas, enquanto era vista com relativa indiferença pelos londrinos. Com o Tâmisa, o Parlamento e o London Eye como moldura, inclinava-se para cada moeda depositada no estojo do seu instrumento, estrategicamente colocado à sua frente. E o turista feliz levava sua imagem para o outro lado do mundo.
O Parlamento e o London Eye sobre o Tâmisa.
Após ouvi-la por alguns minutos, decidi que era chegada a hora de pagar pelo show e dirigi-me ao caixa-estojo. Segurei uma moeda hexagonal entre os dedos, mas, antes de depositá-la sobre o fundo negro aveludado, conferi o conteúdo do mesmo (eu receava ter que relatar isso na posteridade): muitas moedas brancas de 50p (penny, o centavo inglês), várias libras amareladas, alguns euros intrusos, até mesmo notas, e outros difíceis de identificar, talvez yenes japoneses ou rublos russos. A mais perfeita democracia monetária, uma lição para as nações em guerra. Ela abriu um sorriso que lhe iluminou o rosto e me comunicou muitas coisas no olhar: era de Watford ou Northwood, na parte norte da cidade, estudante de música ou desempregada, solteira ou sonhadora, mas não estava ali por acaso.

Ela me comunicou muitas coisas no olhar.

       Não sei se foi Deus, desculpe, Bach, a tarde ou o drink, mas eu faria tudo outra vez, juro que o faria: as balaustradas pintadas de verde-inglês, acinzentado e tirado para o azul, os reflexos que dançavam na superfície da água, a sereia que tocava... e da qual eu me distanciava na medida em que seguia em direção a Waterloo Bridge, para o metrô ou talvez o próximo drink.
A cidade ainda tinha muito a oferecer.

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Abrão Brito Lacerda