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Mostrando postagens de Novembro, 2012

O DEUS DE PEDRA

Era um tipo mediano, de cabelos grisalhos, aparados à altura das orelhas, e densa barba descendo em “v” em direção ao peito. Mas sua constituição era robusta: músculos calejados, ombros fortes e pés firmes de andarilho. O nariz era grande, destes que sempre chegam antes do corpo; e a boca, velada, de cujo antro partiriam provérbios enigmáticos:
            - “Quem vive na serra, tem gosto de terra.”             - “Todo homem deve criar um deus à sua imagem e semelhança.”             Seus hábitos, embora simples como os de um monge, prestavam-se a toda sorte de especulações, pois é isto que a gente faz quando se encerra a novela ou o jornal da TV. TV que ele não via, embora já tivesse aparecido lá, em uma reportagem de estudantes de uma universidade próxima. Filmaram-no durante uma semana, de todos os ângulos possíveis, aplicando as melhores técnicas do jornalismo de imagens: takes panorâmicos fechando-se em zoom sobre o centro de interesse; closes demorados no rosto tentando ler as mensa…

A PAIXÃO POÉTICA DE FERREIRA GULLAR

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
         Meu primeiro contato com a poesia de Ferreira Gullar foi em 1981, ano em que foi publicada a coletânea Toda Poesia pela Civilização Brasileira, reunindo a produção do poeta de 1950 até aquela data.          Bons tempos: tudo tão ingênuo e utópico. Ingênuo porque ainda se acreditava em “revolução”, supondo com isso não apenas uma mudança no sistema econômico e social, mas também uma transformação das mentalidades e dos valores – em suma, acreditava-se que o homem ocidental poderia ser melhorado, pois ele seria “vítima” do sistema capitalista, que o condicionava e oprimia. Utópico porque os profetas do impossível abundavam, numa época em que os belos discursos valiam ouro e aqueles que tinham o dom da palavra eram admirados como verdadeiros ídolos. Alguns tinham o pé na era de paz e amor, cujos reflexos tardios entre nós ainda se faziam sentir, outros sonhavam com a esquerda marxista e estavam prontos a embarcar …