domingo, 19 de agosto de 2012

ODÔNIO E OZORINO (Conto)




         - Ê cristão, dá uma ajudinha pro cego?
         - Que ajudinha, que nada, velho. Você quer dinheiro pra beber cachaça!
         - Pois não é? Com essa chuva e o ceguinho de pé no chão, tem mesmo que esquentar o bucho.
         De fato, chovia muito na cidade. Pra falar a verdade, chovia demais. Chovia tanto que as ruas viraram lagoas e intrépidos minadouros borbulhavam no barrado das casas. Improvisou-se até mesmo um transporte de canoas entre os dois lados do comércio, onde antes havia uma ponte, levada pela chuva.
         - Chuva assim, só em cinqüenta e nove, ano em que se perdeu toda a safra de feijão.
         - É, me lembro. Cheguei a pescar cromatás à mão, no quintal de casa.
         - E eu pesquei na panela. Minha casa pegou um metro de água e os peixes saltavam diretamente dentro do caldeirão!
         - Que Deus abençoe os pobres sem casa...


         Mas a chuva não atrapalhava Odônio e Ozorino. Os dois bravos argonautas singravam as ruas inundadas, detendo-se diante de um armazém, uma farmácia, um bar ou sapataria, enfim, onde houvesse um aglomerado de gente capaz de engordar-lhes a féria do dia.
         Odônio era o cego, Ozorino, o guia.
         O primeiro trajava calça de brim e camisa estampada desabotoada. O segundo, calça de brim e camisa de malha, onde se lia: “100% safe. Be one of ours.” As roupas molhadas e as gotas de chuva que lhes ornavam os cabelos davam-lhes um ar esmaecido, como personagens saídos de um quadro de Bruegel.
         Iam sorridentes, de grupo em grupo. Odônio com um cajado rústico de madeira à mão direita e a mão esquerda sobre o ombro de Ozorino. Levavam bornais cruzados sobre os ombros, onde carregavam os mantimentos.


         - Vocês não têm medo de morrer de resfriado, não, velhos?
         - Que nada, para nós não tem tempo ruim.
         - Dê uma esmola pro cego!
         O outro percorria os bolsos, à cata da moeda de menor valor. Odônio a recolhia com mão úmida.


         Depois do périplo, era possível encontrá-los bem instalados em algum balcão de boteco, onde eram objeto de piadas sobre guias e cegos. Parece até que eles mesmos as estimulavam, pediam duas pingas e uma porção de torresmo. No final, ganhavam a conta.
         Quando chegavam em casa, no outro lado da cidade, tentavam contar a  féria do dia. Odônio sabia adivinhar o valor das notas pelo tato, nisso ele era melhor do que Ozorino. As notas de um cruzeiro eram de um verde frio, as de cinco, um laranja quente, e eram maiores. As moedas eram facilmente reconhecíveis e ele podia contá-las com maior rapidez que um vidente.
         - Sete cruzeiros e oitenta, dizia Ozorino, que sempre se atrapalhava quanto a conta passava de cinco. Mas com essa chuva – prosseguia -, até o dinheiro desaparece. Ouvi na televisão que um caminhão com dinheiro foi levado pela enxurrada.         
         - Não, doze cruzeiros, respondia Odônio, mostrando a seu companheiro a diferença entre as cédulas. Não vou mais voltar à praça.
         - Também não vou, completava Ozorino.
         Depois, explodiam em grossas gargalhadas. Ligavam a televisão preto e branco metida no fundo do quarto-cozinha e seus olhos brilhavam na escuridão.


Ω

(Abrão Brito Lacerda)

domingo, 5 de agosto de 2012

PETRA



(Foto da Web)

         Por muito tempo, eu havia sonhado com Petra.
Desde a reportagem fotográfica da antiga revista O Cruzeiro sobre a “cidade de pedra” que eu vi na época do meu curso de admissão. Eu tinha recortado as imagens coloridas e colocado dentro  do meu caderno de português, entre anotações de aulas e poemas de amor a minha colega Loren, tão inacessível para mim à época quanto a própria Petra.  
Por isso, aquele dia no aeroporto de Amã era muito especial. Eu ouvia as últimas instruções da guia de olhos negros:
- Ônibus da Royal Tours! Aguardem o momento de embarcar. 
Nosso destino final era Wadi Musa, aos pés de Petra.
         - Royal Tours? – surpreendeu-se um casal de ingleses.
- A Jordânia também é uma monarquia!
No vídeo do ônibus, nosso primeiro contato com Petra:
- A região do Wadi Rum foi ocupada pela tribo dos Amomitas no século XII antes de Cristo. A palavra “Amom” significa vermelho, em referência à cor predominante das rochas da região.  No século seis, os Amomitas foram expulsos pelos Nabateus, que deram início à construção da cidade, na confluência das antigas rotas de especiarias...
Alguns cochilaram até o hotel, e fizeram muito bem, porque dali pra frente as coisas seriam bem diferentes. A guia de olhos negros deu lugar a um beduíno de pele dura, que fazia o chão estremecer quando batia com o cajado. Suas ordens eram filtradas pelo intérprete: “Chapéu! Protetor solar! Sapatos de caminhada! Não saiam da fila!”
(Foto da Web)

Pegamos um jeep até a entrada do parque. Depois, seguimos a pé por um desfiladeiro, “aberto por um abalo sísmico no ano de 515”, conforme se lia no guia de viagem. Por alguns minutos, apenas nossos passos se ouviam no silêncio do deserto. Enfim, avistamos a luz no fim do túnel.
Chegamos a um largo onde havia um edifício talhado na rocha púrpura, com uma fachada imponente e misteriosa.
- El Khazneh! – declarou o guia, batendo com o cajado.

El Khazneh ou “Câmara do Tesouro”, edifício mais famoso de Petra, dispunha de interior decorado em estilo romano, ainda preservado.
 Visitamos os vestígios do antigo sistema hidráulico, formado por túneis e câmeras de água, e, ao cair da tarde, chegamos ao teatro romano, onde Ésquilo e Sófocles teriam sido representados.

Tudo isso era, entretanto, um tanto maçante, assim como a rudeza do guia e a forma estereotipada como tínhamos que agir. Decidi que, no dia seguinte, me desvencilharia do grupo e deixar-me-ia perder nos labirintos de Petra, como em um sonho infantil.

E foi o que fiz.
Em uma das extremidades do parque, havia escavações. Os tapumes indicavam que era uma área protegida, mas não havia nenhum cartaz de “strangers out”, então atravessei a cerca e cheguei a um sítio arqueológico onde trabalhavam quatro arqueólogos, dentre os quais uma jovem de cabelos castanhos e rosto oculto sob um enorme chapéu.  
(Foto da Web)

A jovem estava mais concentrada no trabalho do que os outros - “Uma pequena sábia”, pensei. “Deve ser aluna do professor tal, provavelmente aquele de óculos ali.”

- Professor Pasquiat - apresentou-se o de óculos, demonstrando grande  simpatia.
Penguntei:
- Há quanto tempo estão trabalhando neste sítio?
         - Iniciamos o projeto há três anos e deve durar mais três.
- Encontraram coisas importantes?
- Encontramos muitas moedas e outros artefatos. Este local era uma espécie de banco ou casa de câmbio.
         - Regarde...
A “pequena sábia” levantou os olhos e estendeu-me alguns objetos com a ponta dos dedos. Eram moedas, quase tão valiosas quanto o sorriso que se insinuava nas comissuras dos seus lábios.  
- Moi, c’est Annie.
- Annie Pasquiat?
- Non, Annie Rouvert.
Ela não era filha do professor Pasquiat como eu tinha chegado a pensar.
Senti-me encorajado:
- Por que veio trabalhar em um lugar tão inóspito?
- Desde os tempos de colégio, tenho paixão por Petra. Quando surgiu a vaga na equipe do professor Pasquiat, não pensei duas vezes.
E me devolveu a pergunta:
- E você? O que faz aqui? Não parece ser arqueólogo.
- Não... sou turista. Estou visitando Petra para realizar um sonho infantil.
Apontei para a moeda na palma de sua mão, que parecia um mapa do tesouro, com um “X” marcando o local do cofre enterrado e perguntei:
- Vocês consultam algum “mapa do tesouro” para escavar?
Ela riu:
- Temos um planejamento rigoroso de trabalho. Removemos a terra lentamente, catalogamos e fotografamos a cada passo.
Por ouvir atentamente suas explicações, recebi a recompensa:
- Já fez o passeio noturno?
- Passeio noturno?
- Sim, a visita das ruinas iluminadas por archotes.
- Não. Você gostaria?
- Tenho que retornar ao trabalho agora, mas pode me procurar no Peninsula Hotel.
- À ce soir...
 
(Foto da Web)
Pude aproveitar o resto do dia para uma excursão ao Mar Morto, a menos de uma hora de viagem. Ao contemplar o azul ciano do céu do deserto de Wadi Rum e os bancos de sal do Mar Morto, via neles refletida a paleta cor-de-rosa, carmesim e púrpura das rochas de Petra, como se olhasse nos olhos de Annie.  

O Península não era apenas mais um hotel em Wadi Musa, era uma espécie de república de estrangeiros em território jordaniano. Encontrei Annie no hall, com pontualidade suíça. Ela usava slacks acetinados e blusa de mangas, em observância ao recato local. Trazia ainda um hijab que lhe cobria cabeça e ombros e lhe dava um ar exótico.
- On y va?
- Depois de admirá-la...
Entramos em uma fila, juntamente com dezenas de outras pessoas e ouvimos as severas instruções para o passeio noturno:
- Manter silêncio! Não sair de ordem! – segundo a versão pouco gentil do intérprete.
O caminho estava demarcado por velas e archotes que bruxuleavam ao vento suave da noite e davam ao cenário um caráter solene. Percorremos o caminho do desfiladeiro até El Khazneb e assentamo-nos sobre tapetes para assistir a um espetáculo sobre a vida na cidade no tempo dos Nabateus.
(Foto da Web)

Era proibido conversar, então cochichamos:
- Quando você retorna à Suíça?
- Dentro de dois meses. E você?
- Depois de amanhã.
- C’est bien.
Eu não sabia o que dizer, então brinquei:
- Por baixo do seu turbante, vejo uma beduína.
Ela levantou o véu para ocultar nossos risos.
O espetáculo ia começar, fiz minha última pergunta:
- Posso visitá-la no hotel?
- Não!
 Meu rosto se queimou feito a fachada iluminada do El Khazneb. Ela recolheu o hijab e não nos olhamos mais até o fim da encenação.
Após a salva de fogos de artifício que saudou o fim da representação, ela estendeu novamente o véu e disse:
- Olha, sobre aquela sua pergunta, posso abrir uma exceção...

©
Abrão Brito Lacerda
03 04 16