terça-feira, 26 de junho de 2012

HUMILDADE



Francisco era operário de uma fábrica de tubos para construção. “Operário qualificado”, como dizia orgulhosamente, pois já tinham se passado os tempos duros de servente, e ele agora desenvolvia sua jornada sob os mandos da direção. Sobe! Desce! Avisa! Busca!
            Em todos os seus projetos, aposentar-se naquele emprego era a prioridade. Contava os anos, somava as contribuições para a previdência, juntava as máquinas de sua futura oficina no quintal de casa, com a qual haveria de trabalhar até os dias finais da velhice.
            Suas atitudes variavam segundo o lugar em que estava. Em casa, submetia a paciente mulher a um regime espartano, vivia às turras com os filhos adolescentes. Dizia: “Se pisarem no meu calo, dou o troco!”; “É do aproveito que o pobre vive”; “Só fiz escola primária, mas quero ver minha filha professora”.
            Na fábrica era calado e obediente.
            Seu lazer resumia-se ao passeio dominical na feira livre, onde tomava cachaça com os amigos e comia com os olhos os queijos e frutas que não tinha coragem de comprar. Contava os três reais da cachaça e ainda voltava pra casa com 50 centavos no bolso:
            - A de sempre, Juvenal!

            Felizmente, tinha amigos mão-aberta que pediam a porção de paio e mandioca pra forrar o estômago. Nesses momentos, ficava tagarela:
            - Dentro de dois anos, me aposento. Já tô com as máquinas em casa pra começar a fazer dobradiças e rebites.
            - Seu filho vai trabalhar com você?
            - É um folgado, só dando uma lição naquele moleque. Qualquer dia chamo ele pra conversar de homem pra homem.
            A feira livre era uma profusão de cores e tipos humanos. A maioria quedava o tempo suficiente para escolher suas verduras e pescado fresco, alguns tardavam mais, justamente os frequentadores das barracas de bebida e tira-gosto.

            Um jovem de boa aparência suspendeu a lona alaranjada e entrou na barraca. Escolheu um dos tamboretes altos do balcão, pediu uma cachaça, pagou, tomou e depois se levantou para sair. Ao dar o primeiro passo, tropeçou nas amarras da barraca e buscou apoio para não cair. Ao virar-se, notou que havia esbarrado em alguém, um senhor de meia-idade, que limpava os óculos e a camisa molhada:
            - Desculpe senhor, tropecei-me ao me levantar.
            Francisco continuou a enxugar os óculos, sem olhar para o outro. Buscou uma frase que traduzisse sua indignação, mas só sabia meia dúzia de imprecações para casos como aquele. O esbarrão havia lhe jogado cachaça sobre o rosto, seria ridículo se não fizesse nada.
            - O senhor está bem? Quer que eu lhe pague outra dose? - ofereceu o estranho.
            O garçom também quis ajudar:
            - Posso lavar seus óculos?
            - Para isso não tem desculpas!  - desentalou finalmente Francisco, em um tom seco e gutural.

            Sua reação atraiu os olhares de fregueses e garçons. Levou a mão à cintura, como se buscasse alguma coisa.
            - Você deveria ser mais humilde... - continuou Francisco.
            O jovem respondeu:
            - Já pedi desculpas ao senhor. Agora, com licença.
            E tomou a direção da saída.
            Francisco não pôde notar o olhar que o estranho trocou com o garçom, que foi por sua vez cuidar de outros fregueses.
            Ficou plantado perto do balcão.
            Os amigos o chamaram de volta, pediram mais uma rodada:
            - Vocês viram que falta de humildade! Ele ainda me pediu desculpas! Que sujeito mais atrevido!
            - Foi só um esbarrão. Esquece.
            - É um maricas. Viram como ele estava vestido? Aqui na feira, nunca vi. Como aceitei ser desonrado assim?
            Bebeu a penúltima dose em silêncio, remoendo o que lhe parecia ser a mais terrível das humilhações. Sempre tivera ódio de pessoas importantes, como os diretores da fábrica, que o tratavam com indiferença. Dispensou a última dose e voltou mais cedo para casa.
            A mulher estranhou ao vê-lo antes do habitual:
            - A prosa não tava boa?
            - Boa até demais, retrucou Francisco – e foi sentar-se em um canto da cozinha.
            Meia hora depois, a mulher ainda o encontrou acabrunhado e perguntou o que era:
            - Levei uma desfeita – desengasgou Francisco -, deveria ter acabado com o sujeito, mas me afrouxei.
            - O que te fizeram, homem?

            Francisco contou o incidente da feira, sublinhando o “desrespeito” do outro, que havia “jogado cachaça em sua cara” e depois “pedido desculpas”.
            - E você não reagiu? – teve a infelicidade de perguntar a mulher, normalmente pacata.
            - Não. Tava armado, mas fiquei com medo de puxar a arma.
            - Cabra frouxo – declarou a mulher.
            Francisco respondeu à insolência da mulher com um surdão no ouvido. Ela cambaleou, ele a atacou com socos e pontapés, até jogá-la ao chão. Tapou-lhe a boca com uma das mãos e desferiu-lhe mais agressões, até deixá-la prostrada sobre o piso da cozinha.
Pegou em seguida a arma sobre a mesa e saiu.
Perambulou até as duas horas da manhã, sem ter ao menos como tomar uma cachaça, dormiu em um beco, juntamente com alguns cães e bêbados. Acordou quando o caminhão de coleta passou para recolher o lixo.
Julgou que era direito seu voltar à própria casa.

            O incidente o obrigou a pedir desculpas de joelhos, o que fez mais para salvar a própria reputação do que a relação com a mulher. Teve ainda que entregar a arma aos cunhados  - que prometeram ficar de olho nele - para não ser linchado em público.
            O mais difícil foi encarar o filho, que se levantou como defensor da mãe. Este não era a antítese paterna, mas era seu opositor. Já estava no segundo grau e tinha muito mais conhecimento que o pai, que havia permanecido atrasado e preso a idéias dos tempos das cavernas, segundo ele.
            - Por que você bateu na mãe? – perguntou o filho, olhando Francisco nos olhos pela primeira vez.
            Francisco conteve a reação que lhe subia à cabeça como o vapor de uma panela de pressão. Bater em sua mulher era um direito seu, pensou. Ele era o chefe da família, nem seu pai, nem seu avô tinham afrouxado e ele não iria fazer isso:
            - Não venha você me aporrinhar, moleque preguiçoso! Sou seu pai, mereço respeito!

            Os dois se atracaram, ou melhor, Francisco atracou-se ao filho, desferindo-lhe violentos tabefes. Mas o rapazola era saudável e forte e esfregou a cara do pai no cimento áspero, após alguns segundos de intensa luta. Francisco praguejou, chegou a pedir que o filho o matasse  para não passar por tamanha vergonha. Prometeu vingar-se.

            Sua vida passou então a ser um roer-se de remorso e ódio, em proporções desiguais, oitenta por cento de ódio, vinte por cento de remorso. Tornou-se mais carrancudo do que nunca, passou a evitar a própria feira aos domingos de manhã. Mas continuou a cumprir religiosamente a rotina na fábrica, sua esperança definitiva. Teve que vender as máquinas, para apaziguar a surra dada na mulher com churrasco e festa de aniversário. Precisava aposentar-se para recomeçar tudo de novo.

             A fábrica de tubos Coralitti S. A. pertencia a uma família de descendentes de italianos. Pais e filhos tocavam o negócio, ocupando os postos de direção e viajando para promover as vendas. Quase não circulavam pela cidade, a não ser em alguns circuitos exclusivos, com exceção de Lanzini, o filho mais jovem. Fora o último a entrar nos negócios e discutia muito os critérios patriarcais de direção:
            - Nunca faça perguntas a um operário. Faça-o obedecer. Se achar que está certo, diga. Se achar que não, mande refazer - ensinava o pai.
            - Isso é incompatível com os princípios da gestão moderna. O tratamento dado a um operário deve ser o mesmo que damos a um diretor - argumentava Lanzini.
            - Um operário jamais entenderá o seu mundo. Para compreender você, ele teria que galgar posições dentro da empresa, o que não está ao alcance de todos.
           
Lanzini encostou-se pensativo ao corrimão do 3º andar, de onde se avistava toda a entrada principal da empresa.      Não tinha reais pretensões de mando, mas não podia negar que os ternos riscas de giz e as gravatas italianas agradavam em cheio às mulheres. No mais, era simples e despreocupado, gostava de passear por lugares populares, inclusive a feira livre, nos domingos de manhã.
            Hoje era seu primeiro dia na condição de Diretor Técnico, convinha começar a trabalhar. Ouviu a pauta do dia dos lábios da secretária, chamou o contínuo que transportava encomendas entre o 2º andar e os outros departamentos da administração. Um senhor moreno, de meia-idade, apareceu. Era Francisco.

            Francisco mal acreditou nos próprios olhos quando pisou o tapete em frente à mesa do novo Diretor. Era o jovem da feira, o insolente que havia derramado cachaça em seu rosto! Era o filho do presidente, o homem que iria mandá-lo para o olho da rua, sem direito a queixa!
            - O senhor está bem? Parece pálido? - perguntou a secretária,  ao ver que Francisco não conseguia sair do lugar.
            Francisco não respondeu, baixou a cabeça e deixou-se cair sobre uma cadeira. Empalideceu.
            - Sente-se, vou chamar uma enfermeira – disse a secretária, apanhando o telefone.
Francisco sentiu o olhar do Diretor percorrendo seu uniforme azul-marinho,  reconhecendo seu rosto, seus gestos e sua voz. Foi com alívio humilhante que se deixou conduzir até a enfermaria.
            Deram-lhe licença saúde de dois dias.

            No caminho até o elevador, deteve-se em frente ao corrimão, de onde se avistava a entrada da fábrica. A fonte luminosa estava uns vinte metros abaixo. Pensou em se jogar e encerrar seu calvário de uma vez por todas. Retirou do bolso um pedaço de papel com uma escrita a lápis (resposta da filha, com quem tentava ainda se reconciliar) e leu para si mesmo:
            “Devemos ser humildes e aceitar nossos erros. O amor próprio e a prepotência levam à perdição.”

            Não entendeu o que aquilo queria dizer. Amassou o papel com gesto grosseiro, jogou-o dentro da fonte e desceu as escadas.


©
Abrão Brito Lacerda

terça-feira, 12 de junho de 2012

PAULO LEMINSKI: POESIA DO ACASO





Falarei do acaso para falar de Paulo Leminski (1944 – 1989), um dos poetas modernos que mais admiro e que leio com mais prazer. Pretendo transmitir um pouco da fruição que sinto ao ler seus poemas, como, por exemplo, o prazer do inesperado:

         eu ontem tive a impressão
que deus quis falar comigo
        não lhe dei ouvidos

quem sou eu para falar com deus?
ele que cuide de seus assuntos
eu cuido dos meus

Você achou o poeta petulante demais? Ora, ele está apenas fingindo uma humildade que não possui, pois, enquanto artista, deve buscar o absoluto, o não dito. Deve rivalizar-se com Deus (seus assuntos são tão importantes quanto os do Criador, ora bolas!).
         Acadêmicos e gente que adora esfolar o cérebro dirão que o acaso não existe, mesmo na arte, que tudo é obra de saber e técnica, etc., etc. Mas apreender o acaso é tudo que o artista busca. Mallarmé (vejam minha postagem de 17 de março de 2012 sobre o poema Salut), o mestre que faz os eruditos caírem de joelhos, já ensinou há um século e meio em um célebre poema que Un coup de dés n’abolira jamais le hasard (Um lance de dados jamais abolirá o acaso). Mas o poema de Mallarmé só é acessível a quem conhece bem o francês, voltemos ao Leminski:

parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus
eu sou o seu profeta

O acaso é o que não está no script, o que rompe a fórmula. É o produto de um átimo, que fica para sempre. Capaz das combinações mágicas que fazem a poesia habitar a palavra, mesmo nas coisas mais prosaicas:

minha mãe dizia

- ferve, água!
- frita, ovo!
- pinga, pia!

e tudo obedecia


         Enquanto poeta contemporâneo, pós modernismo, surrealismo e tantos outros ismos, Leminski tem uma natureza essencialmente irônica:

ameixas
ame-as
ou deixe-as

(Aos desavisados, se é que há algum por aí, advirto que este poema parodia o slogan dos militares, no período da ditadura e da repressão: “Brasil: ame-o ou deixe-o”). Eu prefiro as ameixas e, aos milicos: - mamonas!


         Mas Leminski sabe bem depurar sua ironia através do humor, forma mais avançada do movimento do espírito, que permite alcançar um estágio de equilíbrio, próximo à superfície, enquanto a ironia tende ao extremo externo em sua agressividade, que pode levar à indiferença e à destruição.
         É o humor que permite atenuar a sátira:

quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta adolescência

vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência

vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito

vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito

então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

Desejo tudo ao bom Leminski, menos que ele veja “tudo em sã consciência”, pois isto significaria perder suas combinações esdrúxulas, inesperadas e subversivas e voltar à chatice que é o dia a dia e o mundo do trabalho.

         A brevidade é um dos aspectos que mais aprecio na poesia de Leminski, coisa que ele buscou no concretismo e no haicai como demonstra a história das ameixas acima e esta pequena jóia, da qual é sujeito a rainha do rock brasileiro, Rita Lee:

        
A síntese é para mim fundamental na arte da palavra, daí porque escrevo sobre poesia, embora pessoalmente pratique a prosa, publicada através de contos, crônicas e artigos presentes neste blog.
O acaso é um “affaire” de loucos ou desajustados. Tal qual o humor. Em que grupo está o poeta? – Vamos ouvi-lo:

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também

O poeta é a principal vítima de seu humor, como tem que ser, pois no humor as piadas que fazemos acabam sendo sobre nós mesmos. Vejamos abaixo:


          O pomposo filósofo, que se sentou contemplativamente sobre uma pedra à beira mar, foi varrido pela onda – “mar pra tudo quanto é lado” – e provavelmente acabou com a cara na areia. O natural sobrepõe-se ao humano, perfazendo o movimento duplo: de cima para baixo – o humano por terra, convertido em objeto da circunstância e de baixo para cima - a onda sobe, varre a pedra e o mar se converte em sujeito da circunstância.

 O pretensioso varrido pela pedra, poderia muito bem ser o próprio poeta.
Poeta de verdade tem que ser um sem teto da palavra, aceitar sua condição marginal (claro, enquanto todos estão cuidando do trabalho que faz girar a roda do mundo, ele se ocupa de fantasias), talvez uma classe abaixo ainda da do louco da rua.
Após todo este blá-blá-blá, momento de comentar um dos poemas leminskianos de minha predileção:

    a história faz sentido
isto li num livro antigo
    que de tão ambíguo
faz tempo se foi na mão dalgum amigo

    logo chegaremos à conclusão
tudo não passou de somenos
    e voltaremos
à costumeira confusão

Que “marravilha”! Há uma bela ressonância do “Samba do crioulo doido” neste poema, mas é mais filosófico, contemplando nossa incapacidade de explicar em contrapartida ao absolutismo do poema, que demonstra (com palavras, ritmo e som) ao invés de explicar.
Admiro este poema desde os tempos em que esquentava o assento das aulas de história na Universidade Federal de Minas Gerais, embora não o comentasse em voz alta, já que, naquela época (e creio que em certa medida até hoje) defendia-se o caráter “científico” das ciências sociais, inclusive a História.
O livro de história do qual fala o poema perdeu-se casualmente na mão de algum amigo. O poema (realizado com o artifício do arranjo bem humorado dos vocábulos) triunfa sobre a História, ciência que pretende explicar. Alguém duvida? Admito opiniões divergentes, mas sempre estive do lado do poema, do acaso.

E não é que, outro dia, conversando com um professor de história de cursinho, ele me disse que “a História explica, permite ter uma visão avançada sobre o mundo”? Quando recitei o poema acima, o homem ficou indignado, quis sacar a espada e desafiar-me em duelo! (Nem disse a ele que sou também professor de história de formação. Tampouco disse que o Leminski foi também professor de história em cursinho. Preferi deixá-lo em seu pequeno pedestal).
Ah, o humor. Por trás do riso, estimado leitor, esconde a lágrima. O notável poeta Patativa do Assaré (corra para pesquisar algo a respeito dele, antes que o céu caia sobre sua cabeça!) dizia em sua linguagem simples que “pra sê poeta devera, precisa tê sofrimento”. Leminski (que sofreu barbaramente com uma cirrose hepática que o levou à morte) não é exceção:

o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique

O sofrimento nos ensina sobre as coisas mais profundas, caso contrário, seríamos mera superfície, sorriso de publicidade e cultura de novela. Jamais atingiríamos o estágio do poema, ao qual cedemos a última palavra:

Eu
quando olhos nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha