sábado, 17 de março de 2012

STÉPHANE MALLARMÉ: SALUT

         Os versos que ilustraram certa vez o topo deste blog:

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

são do poeta francês Stéphane Mallarmé (1842 - 1898), nome fundamental na história do gênero e um  dos autores de minha predileção.

Em mais de uma de suas obras o poeta se fez representar por um fauno.


         Antes de maiores comentários, gostaria de apresentar o poema. Não exijo que o leitor saiba francês, pois vou tentar “explicá-lo”. Se souber, melhor:

SALUT

Rien, cette écume, vierge vers
À ne designer que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirenes mainte à l’envers.

Nous naviguons, ó mês divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous, l’avons fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d’hivers;

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
À n’importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile


         (Uma tradução livre pode ser encontrada no final desta postagem, assim como uma “transcrição fonética” do poema.)
         O poema é uma “saudação”, tradução exata de Salut. Mas pode ser também um “brinde”, que é o que o poeta faz a todos os seus convivas. E o poeta a inicia dizendo que não há “Nada, apenas a espuma e o verso virgem” (Rien, cette écume, vierge vers),  designando a taça, a coupe. O verso vai, portanto, nascer da espuma do copo (cerveja?) sobre a folha de papel. A espuma do copo se converte logo depois em espuma do mar, onde são avistadas “tropas de sereias”.


O poeta em sua sala de estar, onde costumava receber os amigos.
 
         A segunda estrofe é a descrição da viagem (Nous naviguons, ó mes divers amis), o bardo na popa e seus companheiros à frente, rompendo as ondas em meio a tempestades invernais. Então, ele é tomada de uma “bela embriaguez” e nem sequer se importa mais com o balanço do barco, quando se ergue e oferece sua saudação, seu brinde, que é o brinde que capturo em meu blog:

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

         Ao mesmo tempo em que nos saúda em pleno mar e embriaguez, o poeta reflui para a solidão do recife, da estrela (Solitude, récif, étoile) e da branca folha de papel em que escreve (Le blanc souci de notre toile).
             Um movimento vertigionoso, onde não faltam as batidas das ondas (poupe, coupe), as tempestades e os relâmpagos (foudre), o naufrágio (solitude, récif, étoile), o poeta solitário num recife e o manifesto de frustração final, composto pelos dois últimos versos (À n’importe ce qui valut / Le blanc souci de notre toile). Frustração em relação a quê, em se tratando de uma obra tão bem acabada? - O poeta não pode finalmente apreender toda a poesia, apenas um fragmento, que se esvai assim que deita sobre o papel a última palavra.
      Trata-se de um poema de mil leituras, dissecado a torto e a direito ao longo de seu quase um século e meio de publicação. Se começarmos pelas interpretações, não conseguimos nem sequer lê-lo, pois nos perderemos nas metafísicas dos estudiosos. Quanto a mim, vejo Mallarmé despido de mistério: o essencial é usufruir de sua poesia, que é de fato uma meta-poesia, uma poesia sobre a escrita poética, e por isso mais livre de ser apreciada. É comer suas palavras como a uma torta de nozes.


Paris na época de Mallarmé.
           O poema Salut foi escrito em 1893, por ocasião de um jantar em homenagem ao poeta. O estudioso David G. Torres (Barcelona, 94), observa que, no poema, o fundo (o tema) é a forma (palavras) e a forma é o fundo. O que faz tremer gregos e plebeus sem motivos, pois, se Mallarmé é hermético na interpretação, é totalmente acessível na fruição. O único  pecado que não se pode cometer é o de buscar sentido definido em sua poesia ou ignorar a própria natureza da poesia.
        Um comentário a mais sobre este poema emblemático.  Estamos diante de um espelho, no qual se mirou inicialmente o poeta para escrever - o vidro da taça, a água do mar, são superfícies espelhadas. Do mesmo modo, a disposição fundo/forma, a palavra que fala de si, é uma reflexão e, portanto, também um espelho.  E, enquanto leitores, devemos ter esta mesma posição reflexiva, repetindo na fruição o mesmo movimento de criação original. Como a reflexão pode se repetir indefinidamente, o poema é também eterno.
         Na década de 90, em Belo Horizonte, abri inúmeros saraus recitando este poema, juntamente com Bacanal! de Manuel Bandeira, com uma dicção mais ou menos clara, a depender da quantidade de vinho consumida.
Em ação, recitando Salut na abertura de algum sarau.
        Bem. Para os que me leram até aqui, uma tradução livre do poema:

SAUDAÇÃO

Nada, esta espuma, verso virgem
A designar apenas a taça;
Assim, ao longe, afoga-se um bando
De muitas sereias ao inverso.

Nós navegamos, oh meus muitos
Amigos, eu, já na popa
Vocês na frente fastuosa que rompe
O fluxo dos raios e dos invernos;

Uma bela embriaguez me toma
E não temo nem mesmo o balanço (do barco)
Ao levantar-me para este brinde

Solidão, recife, estrela
Qualquer coisa que tenha merecido
A inquietude de nossa folha branca.


         Reluto a oferecer uma “transcrição” fonética do poema, pois isto parece demasiadamente grosseiro, sobretudo porque não há como representar certos sons do francês. Perdoe-me o leitor pelo mau gosto, mas o faço com a intenção de ajudar a compreender a música do poema, seu elemento essencial:



SALI

RRIAN, CETEKIME, VIERGEVER
A NE DEZINHÊ QUE LA KUP
TEL LUAN SE NUÁ IN TRUP
DE SIRRÉN MANTALANVER

NU NAVIGON, Ô ME DIVER
ZAMI, MUÁ DÊJÁ SIR LA PUP
VU LAVAN FASTIÊ QUI KUP
LE FLÔ DE FUDRE Ê DIVER


INIVRESS BEL MANGAGE
SAN CRANDRE MÉM LE TANGAGE
DE PORTÊ DEBU CE SALI

SOLITID, RÊCIF, ÊTUAL
A NAMPORT CE QUI VALI
LE BLAN SUCI DE NOTRETUAL.


Um raro encontro de poetas, amantes e gaiatos.

        Meu salut ao eterno Stéphane, artesão solitário das palavras!



Ω
Copyright 

Abrão Brito Lacerda

Um comentário:

  1. Nada como começar o dia com uma boa dose de ânimo.
    Salut, Abrão!

    ResponderExcluir

Gostaria de deixar um comentário?