sábado, 24 de março de 2012

SETE PARA VIVER (Conto)

1ª parte


         - Pega! Mata! Esfola!
         Multidão furiosa assim nunca se viu. Também pudera, aquele mágico trapaceiro levou os prêmios do bingo, boa soma em dinheiro e alguns vales-transporte. O Clube dos Pelutos estava profundamente chocado, mal acreditavam que havia alguém mais esperto do que eles. Então, pega, mata, esfola esse mágico safado!

 


         Mr. Beam entrou no primeiro beco que encontrou, à direita, e escondeu-se sob os degraus de uma escada. Conseguiu desaparecer, valendo-se de suas artes de magia, e a multidão passou sem o notar. Retirou da cartola, primeiro o coelho, depois o passarinho e, por último, a féria do dia: dava para viver por uma semana, levando uma vida frugal de mágico.
         Naquela noite, pediu risoto de lagosta com vinho rosê no Jarba’s. Convidou Milaine para jantar. Alugou um smoking e ainda a arrebatou retirando o coelhinho Tornado da cartola, o qual teve igualmente sua noite de gala, comendo frutas e parte da sobremesa.
         O resto da semana, seriam seis dias de uma vida frugal de mágico, apresentando-se furtivamente nas esquinas, praças e parques a troco de nada. Não era portanto natural que aproveitasse a chance do Clube dos Pelutos? 
         - Estás encantadora, Milaine.
         - Tu também, apesar de teu ar escorraçado.
         - Escorraçado? Quanta crueldade, Milaine.
         - Estou sendo generosa, pode crer.
         - Até quando hei de suportar tuas ofensas?
         - Até que possas custear casa e escola para dois filhos.
         - Não pode ser apenas um, Milaine?
         - Um, vá lá. Mas da casa, não abro mão. Não quero viver morando entre a pensão e a rua. Se tivesse curso superior, poderia tentar um concurso público. E esta farsa toda, o que é?




         Brigar com Milaine foi o último passo em sua decadência. Saiu do Jarba’s arrasado, tomou todas, acordou com a cara na sarjeta. E não se levantou mais.
         Dois: o coelhinho Tornado saltou para fora da cartola. 
        Foi o único sobrevivente da queda, uma vez que Piu-Piu, o passarinho, esmagou-se contra as pedras do calçamento. Ocultou-se detrás de uma árvore, depois fugiu para um terreno baldio ao ver cães se aproximarem. Os cães eram seus piores inimigos, se o encontrassem, estaria frito.
         Enquanto prevaleceu a luz do dia, permaneceu praticamente imóvel sob um monte de tábuas, perscrutando o ar com seu infalível olfato. Estava listo e sem carnes o pequenino - a vida com Mr. Beam não era fácil, nunca conhecera uma fêmea, passava a migalhas e couve murcha e guloseimas só mesmo quando o mágico se enfeitiçava por Milaine, a lúgubre.
           - Mamãe, um coelhinho!
          Não queria servir de isca para cachorros mal-educados e fedorentos. Avistou uma fresta, saltou para um quintal e pôs-se a cavar uma toca.  A relva estava úmida e ele aproveitou para restaurar-se com folhas e raízes sob o manto protetor da noite. Só espetou os olhos para fora quando ouviu uma menina gritar:
          - Mamãe, um coelhinho! Posso pegar ele?
          - Seu coelhinho Pom-Pom está na cama, respondeu a mãe.
         - Não é o Pom-Pom, é um coelhinho de verdade. Aqui no quintal!
          - Peça um coelhinho a seu pai, se quiser.
         Tornado pôs-se de pé sobre as patas traseiras e enfilou as orelhas. A menina correu em sua direção, ele fugiu em ziguezague; ela tentou agarrá-lo, ele deu uns pinotes.
         - Peguei! Vou chamar ele de Petrucco.
         - Ah! Valha-me Deus! Gritou a mãe.
        Dona Larice pediu os sais quando deu com o visitante confortavelmente instalado nos braços da filha.
         - É só um coelhinho, mamãe. O nome dele é Petrucco.
         Foi o auge de sua curta existência. Amanda, sua nova ama, deu-lhe cama forrada, milho verde e vegetais frescos. Em questão de dias, havia ganho um pêlo novo e reluzente, juntamente com uns quilinhos a mais. 



         - Vou levá-lo ao veterinário. Dr. Chan, como está o meu coelhinho?
          - Tem sujeira nas patas e bactérias nas orelhas.
         O Dr. Chan, que era ninguém mais do que o irmãozinho da Amanda, abriu a caixa de ferramentas e examinou o Tornado, isto é, o Petrucco de trás, de frente e ao avesso.
         - Vou dar uma injeção de “acalmante” para examiná-lo melhor.


          O coelhinho safou-se com um movimento rápido e buscou a proteção da toca. Se a ida ao veterinário se repetisse, temia ser esquartejado em nome da ciência.
Amanda o cobria de carícias e beijos desde que se levantava, dava-lhe banho com shampoo perfumado e só não o levava para a cama devido à estrita proibição de dona Larice.
          Até que um dia... Petrucco amanheceu nervoso e agitado, queria pular o muro como um canguru e esgueirar-se por baixo da cerca como uma lontra... Fugiu - ao encontro de uma coelhinha que seus instintos infalíveis haviam identificado na vizinhança.
           Ah, a dor indescritível da menina ao ver seu bibelô de pêlo branco como a neve estirado sobre um monte de areia, dilacerado por terríveis inimigos...
           Das lágrimas de Amanda nasceu um broto com uma pequena folha bivalve. Não era mais do que um tênue filamento verde esmaecido apontando para o céu. Amanda vinha regá-lo todos os dias com sua lembrança.
            Quando ganhou mais quatro folhas, foi transplantado para um vazo de barro. Cresceu, lançou galhos, foi plantado no jardim, entre rosas brancas e pés de hortelã e manjericão. - Ao chegar ao jardim, Amanda inicialmente tocava as rosas com gesto delicado, depois colhia uma folha de hortelã, outra de manjericão e inalava profundamente os odores picante e doce, cada um com uma narina, para não misturá-los. Finalmente, regava e revolvia a terra em redor daquela planta que ninguém sabia o que era – haviam até mesmo pesquisado -, mas que ela, uma menina de pele de pêssego e cabelos encaracolados, havia decidido cultivar.
          - Essa planta não dá flor e não vai dar fruto, dizia dona Larice.
          - Ela ainda está muito pequena, mamãe. Acho que vai ficar uma linda árvore.
           - Parece mais “baba-de-bode”.

Tom Browning


          A plantinha cresceu, Amanda cresceu. Ficou banguela, depois pernalonga, depois começou a se encher de curvas e gestos pausados. Ganhou tronco e hastes roliças. Lindas flores bivalves cobriram os galhos. Seu olhar passou de límpido e ingênuo a morno e melancólico, até ganhar a consistência definitiva de negro e penetrante.
           Um mágico, um coelho, uma flor, uma menina. Quatro. Mr. Beam, não deveria ter confiado em artes aprendidas na Internet. Com podia esquecer tudo pelo charme de Milaine? Tornado / Petrucco, viver de milho e couve pode ser melhor do que liberar os próprios instintos. Amanda, atenção à chuva, uma moça de sapato alto e cabelo alisado deve olhar onde pisa.
         Na terça, o parque, na quinta, o cinema, no domingo, o i-pad. O celular, o dia todo:
 

          - Alô! Karine? Recebeu as fotos?
          - Não fiz o download de todas. Já preparou a apresentação?
          - Procuro alguém que me ajude.
         - Não banque a esquecida agora. Clube dos Pelutos, não deixe de levar nossos “brinquedos”.
         - Que devo dizer a meus pais?
         - Invente uma das histórias que você conta tão bem. Diga que não é fácil relaxar para prova final e que, se ficar em casa, passará o dia inteiro pensando em meninos.
         - Tenho coisa melhor em que pensar...
         - Até!
        Quem era essa Karine que gostava de “brinquedos” e que cochichava segredos o dia inteiro nos ouvidos da Amanda, mesmo estando do outro lado da cidade?
         Pergunte ao Pablo. Seis. Foi ele quem enterrou o coelhinho para Amanda e lhe deu os primeiros toques de botânica. E era o feliz possuidor de um triciclo descalibrado, que carregava três, até mesmo cinco malucos por vez.
          Não pergunte ao mar. Sete.
         Às oito em ponto, como de costume, Pablo estacionou seu triciclo. Karine e Amanda saltaram em cima e eles tomaram a estrada do litoral.
          Karine era loira, com cabeleira crespa e volumosa. Capitã do time de handball. Cada músculo do seu corpo tinha design e impressão de fábrica.


         E era justamente isto que encantava Pablo, que estava apaixonado por Amanda, que gostava de Karine, que não queria Pablo, que se consolava com infinitos sketches em lápis, cera e carvão.
         Karine e Amanda se beijavam e o paciente Pablo captava os traços, aperfeiçoando o que a natureza não fizera perfeito, como os pés grandes de Karine e os seios um tanto pequenos de Amanda.
         Oculto a parte dos “brinquedos”, pois não sou de revelar segredos, nem quero torturar o Pablo. Mas não posso deixar de contar o que veio a seguir: Karine e Amanda saltaram abraçadas do paredão, desaparecendo na maré alta.  



         Ao descer o caminho até a praia, Pablo não encontrou mais do que duas conchas bivalves, semi-enterradas na areia. O mar açoitava a areia com fúria, ele teve medo. Recolheu as conchas em moderato contabile, executou mentalmente um réquiem entre soluços de adeus.


(continua)

(Abrão Brito Lacerda)

sábado, 17 de março de 2012

STÉPHANE MALLARMÉ: SALUT

         Os versos que ilustraram certa vez o topo deste blog:

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

são do poeta francês Stéphane Mallarmé (1842 - 1898), nome fundamental na história do gênero e um  dos autores de minha predileção.

Em mais de uma de suas obras o poeta se fez representar por um fauno.


         Antes de maiores comentários, gostaria de apresentar o poema. Não exijo que o leitor saiba francês, pois vou tentar “explicá-lo”. Se souber, melhor:

SALUT

Rien, cette écume, vierge vers
À ne designer que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirenes mainte à l’envers.

Nous naviguons, ó mês divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous, l’avons fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d’hivers;

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
À n’importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile


         (Uma tradução livre pode ser encontrada no final desta postagem, assim como uma “transcrição fonética” do poema.)
         O poema é uma “saudação”, tradução exata de Salut. Mas pode ser também um “brinde”, que é o que o poeta faz a todos os seus convivas. E o poeta a inicia dizendo que não há “Nada, apenas a espuma e o verso virgem” (Rien, cette écume, vierge vers),  designando a taça, a coupe. O verso vai, portanto, nascer da espuma do copo (cerveja?) sobre a folha de papel. A espuma do copo se converte logo depois em espuma do mar, onde são avistadas “tropas de sereias”.


O poeta em sua sala de estar, onde costumava receber os amigos.
 
         A segunda estrofe é a descrição da viagem (Nous naviguons, ó mes divers amis), o bardo na popa e seus companheiros à frente, rompendo as ondas em meio a tempestades invernais. Então, ele é tomada de uma “bela embriaguez” e nem sequer se importa mais com o balanço do barco, quando se ergue e oferece sua saudação, seu brinde, que é o brinde que capturo em meu blog:

Une ivresse belle m’engage
Sans craindre même le tangage
De porter debout ce salut

         Ao mesmo tempo em que nos saúda em pleno mar e embriaguez, o poeta reflui para a solidão do recife, da estrela (Solitude, récif, étoile) e da branca folha de papel em que escreve (Le blanc souci de notre toile).
             Um movimento vertigionoso, onde não faltam as batidas das ondas (poupe, coupe), as tempestades e os relâmpagos (foudre), o naufrágio (solitude, récif, étoile), o poeta solitário num recife e o manifesto de frustração final, composto pelos dois últimos versos (À n’importe ce qui valut / Le blanc souci de notre toile). Frustração em relação a quê, em se tratando de uma obra tão bem acabada? - O poeta não pode finalmente apreender toda a poesia, apenas um fragmento, que se esvai assim que deita sobre o papel a última palavra.
      Trata-se de um poema de mil leituras, dissecado a torto e a direito ao longo de seu quase um século e meio de publicação. Se começarmos pelas interpretações, não conseguimos nem sequer lê-lo, pois nos perderemos nas metafísicas dos estudiosos. Quanto a mim, vejo Mallarmé despido de mistério: o essencial é usufruir de sua poesia, que é de fato uma meta-poesia, uma poesia sobre a escrita poética, e por isso mais livre de ser apreciada. É comer suas palavras como a uma torta de nozes.


Paris na época de Mallarmé.
           O poema Salut foi escrito em 1893, por ocasião de um jantar em homenagem ao poeta. O estudioso David G. Torres (Barcelona, 94), observa que, no poema, o fundo (o tema) é a forma (palavras) e a forma é o fundo. O que faz tremer gregos e plebeus sem motivos, pois, se Mallarmé é hermético na interpretação, é totalmente acessível na fruição. O único  pecado que não se pode cometer é o de buscar sentido definido em sua poesia ou ignorar a própria natureza da poesia.
        Um comentário a mais sobre este poema emblemático.  Estamos diante de um espelho, no qual se mirou inicialmente o poeta para escrever - o vidro da taça, a água do mar, são superfícies espelhadas. Do mesmo modo, a disposição fundo/forma, a palavra que fala de si, é uma reflexão e, portanto, também um espelho.  E, enquanto leitores, devemos ter esta mesma posição reflexiva, repetindo na fruição o mesmo movimento de criação original. Como a reflexão pode se repetir indefinidamente, o poema é também eterno.
         Na década de 90, em Belo Horizonte, abri inúmeros saraus recitando este poema, juntamente com Bacanal! de Manuel Bandeira, com uma dicção mais ou menos clara, a depender da quantidade de vinho consumida.
Em ação, recitando Salut na abertura de algum sarau.
        Bem. Para os que me leram até aqui, uma tradução livre do poema:

SAUDAÇÃO

Nada, esta espuma, verso virgem
A designar apenas a taça;
Assim, ao longe, afoga-se um bando
De muitas sereias ao inverso.

Nós navegamos, oh meus muitos
Amigos, eu, já na popa
Vocês na frente fastuosa que rompe
O fluxo dos raios e dos invernos;

Uma bela embriaguez me toma
E não temo nem mesmo o balanço (do barco)
Ao levantar-me para este brinde

Solidão, recife, estrela
Qualquer coisa que tenha merecido
A inquietude de nossa folha branca.


         Reluto a oferecer uma “transcrição” fonética do poema, pois isto parece demasiadamente grosseiro, sobretudo porque não há como representar certos sons do francês. Perdoe-me o leitor pelo mau gosto, mas o faço com a intenção de ajudar a compreender a música do poema, seu elemento essencial:



SALI

RRIAN, CETEKIME, VIERGEVER
A NE DEZINHÊ QUE LA KUP
TEL LUAN SE NUÁ IN TRUP
DE SIRRÉN MANTALANVER

NU NAVIGON, Ô ME DIVER
ZAMI, MUÁ DÊJÁ SIR LA PUP
VU LAVAN FASTIÊ QUI KUP
LE FLÔ DE FUDRE Ê DIVER


INIVRESS BEL MANGAGE
SAN CRANDRE MÉM LE TANGAGE
DE PORTÊ DEBU CE SALI

SOLITID, RÊCIF, ÊTUAL
A NAMPORT CE QUI VALI
LE BLAN SUCI DE NOTRETUAL.


Um raro encontro de poetas, amantes e gaiatos.

        Meu salut ao eterno Stéphane, artesão solitário das palavras!



Ω
Copyright 

Abrão Brito Lacerda

CUMURUXATIBA, BAHIA

       Convido-os a viajar por Cumuruxatiba, um vilarejo localizado no município do Prado, no extremo-sul da Bahia. Ver ou rever praias lindas e lugares tranqüilos, relaxar. Percorrer quilômetros de litoral bem preservado e escolher onde se quer ficar.

Acima: vista da parte mais alta do vilarejo de Cumuruxatiba, partida para inúmeras aventuras à beira mar.

       
Na maré-baixa, a praia se estende por centenas de metros. Caminhar à beira-mar é um programa para toda a família.

       O céu emoldura a paisagem de azul cobalto claro.

       Pique-nique estival na praia do Calambrião.
A paisagem nunca é a mesma, a cada visita há um  novo ângulo a explorar.
       
        A tarde é longa, o pique-nique prossegue.


Ao fundo, Barra do Cahy

       Cair da tarde, uma cerveja.

É caminhando que melhor se curte a paisagem.

       A lua por testemunha.

              Barra do Cahy na maré alta de julho.


       E na maré baixa de janeiro.

      
       À Ponta de Corumbau chega-se de barco ou de carro.




       Banho na foz do Rio Corumbau, ponta sul do Parque Nacional de Monte Pascoal.


O encontro do Rio Corumbau com o mar propicia ao mesmo tempo praias de água doce e salgada.
      
        Uma viagem de barco, para fazer enjoar grandes e pequenos.


Prepare-se para enjoar na viagem de barco! Caso contrário, faça as fotos.

       Belas formas no encontro do rio com o mar.






       A paisagem muda a cada subida e descida da maré.



       Antes de partir, não deixe de experimentar pitaia e cajá-manga.



       A seguir, a Praia do Moreira, quando era aberta ao público.



       E um adeus, de cima de uma falésia:



Ω
Copyright 
Abrão Brito Lacerda

sábado, 10 de março de 2012

CONTRA A BUNDIZAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA

       Algumas vozes isoladas têm se manifestado ultimamente com relação à mediocrização do universo cultural do país, reflexo direto de um empobrecimento de toda a vida coletiva, na qual se sobressai o desaparecimento da ética, o materialismo crasso, a busca do “sucesso” rápido, medido unicamente por um critério mediático e uma decepção crescente de todas as cabeças pensantes com relação à qualidade de vida da geração presente e das futuras.


A bunda passa e a multidão sedenta pede mais



         Alguns se escandalizam com a baixaria do Big Brother, empurrado goela abaixo por uma poderosa emissora de TV e consumido, aparentemente com avidez, por uma multidão sem qualquer critério (recebi hoje a seguinte mensagem no meu celular: “Atenção: o BBB está pegando fogo. Você não pode perder toda essa pegação!”). Outros lembram tempos em que a produção musical – expressão maior da “cultura brasileira” – era rica e criativa e lamentam a estreiteza, o efeito apelativo e a repetitividade do axé e do sertanejo, para citar os dois maiores “fenômenos” do consumo musical recente.
         Ninguém, no entanto, dedicou um par de linhas a avaliar a verdadeira extensão do fenômeno. Os ícones musicais estabelecidos, todos saídos dos heróicos anos 60 e 70, estão velhos e conformados e comportam-se diante da mídia com o mesmo senso de oportunismo dos debutantes.
         Aliás, este é um comportamento tipicamente brasileiro, país da paródia e da imitação, que não propõe nada de inovador e enaltecedor das capacidades humanas e se limita a importar o que se faz e se diz lá fora, consumido rapidamente e trocado na primeira oportunidade por qualquer outro modismo. Acontece que o país está crescendo economicamente, ganhando relevância internacional e incorporando ao universo moderno milhões de cidadãos que antes viviam na penumbra. E estes ganhos materiais só tornam mais chocante o contraste com a desvalorização das produções artísticas.


O "crescimento econômico" esconde a mediocrização da vida brasileira em todos os sentidos.



         Vamos ao fato: por trás da máscara do avanço econômico, o que se esconde é uma perda de qualidade de vida em todos os sentidos e uma pressão cada vez maior sobre os cidadãos. Nossas cidades, grandes, médias e até pequenas têm se tornado confusos amontoados de prédios e carros, dominados por incorporadores sem escrúpulo, que por sua vez controlam máquinas administrativas corruptas e incompetentes. São projetos urbanos fracassados, que refletem – e este é um ponto no qual ninguém ainda tocou – o fracasso do “projeto” brasileiro de nação. Projeto entre aspas porque nunca tivemos nenhum, temos vivido na base do improviso e do “empurrar com a barriga” deste que Cabral por aqui aportou.
         O universo mental é totalmente dominado pela mídia televisiva, sobretudo a emissora mais poderosa, a Rede Globo, que parece ditar o que se deve pensar e comentar (digo deve porque não a assisto há anos) e tem provocado há décadas danos imensuráveis sobre o comportamento dos brasileiros, sem que ninguém ouse sequer levantar a voz.


Pra que publicar livros num país de analfabetos funcionais?



         Parece exagero? Até os anos sessenta e até início dos setenta a sociedade brasileira era regida por princípios patriarcais, com autoritarismo, rigidez moral e hipocrisia (fiel escudeira de todos os regimes que querem controlar a vida das pessoas).  As mudanças que ocorreram desde então, embaladas por todas os movimentos sociais e tecnologias que conhecemos, significaram ao mesmo tempo a dissolução dos velhos preceitos, mas sem colocar nada no lugar. Foi neste contexto que cresceu e se enraizou a Rede Globo, por exemplo. Começaram, só para citar um exemplo, com novelas simples, imitando as mexicanas (ingênuas e “boazinhas”), depois passaram para “temas sociais” e hoje são nada mais do que um desfile de taras e defeitos, pois não há capítulo em que alguém não mande matar ou mate alguém, coma a mulher do amigo ou roube o namorado da filha e pratique escroquerias e contrafações. Tudo isso estrelado por musculosos gajos, com QI suficiente para memorizar um texto e raparigas sexys e provocantes.
         Vamos dar um salto, porque o tema é amplo: o governo Lula acelerou a incorporação de milhões à escola, à TV e ao automóvel. Louvável sem dúvida, pois a desigualdade é a pior herança que nos deixaram nossos antepassados. Mas acelerou igualmente a ascensão de classes sociais sem pedigree e sem referências, que se somaram às hordas das classes médias ávidas por melhorar seu lustre numa sociedade que só vê o externo. Tudo que essa gente quer é ir pra Orlando, falar português (a freqüência por lá é de 80% de brasileiros) e dar aos filhos um banho de primeiro mundo nos “parques da Disney”. Nisto se resume todo o alcance mental da maioria das famílias de classe média brasileiras. – E vem este modesto blogueiro falar de cultura? – Não tenho dúvida que estou ofendendo muita gente.


É um ótimo músico, mas não tem padrinho. Vá tocar em barzinho pra ganhar gorjeta!



         Se o valor é apenas material, pode-se consumir qualquer produto de outra natureza, não faz diferença, ninguém tá nem aí. E aqui chegamos ao ponto:
         Desprovido de senso moral (a moral do respeito à dignidade humana, veja bem), de ética (pode-se marcar e descumprir, dever e não pagar, sujar a porta do vizinho com o lixo da própria casa, estacionar no cruzamento, avançar sobre o pedestre que atravessa na faixa), de exemplos edificantes (a justiça é uma farsa, os governantes são corruptos, as elites são aproveitadoras e execráveis), o Brasil deriva sem rumo e não há razão para crer que as gerações futuras terão um futuro melhor neste sentido.
         Exagero novamente? Olho em meu redor e vejo amigos com uma vida inteira dedicada aos estudos, com títulos de doutorado e tal, desempregados ou ganhando ninharias para lecionar em faculdades privadas, onde o cliente, o “aluno”, é senhor e pode chutar o traseiro do professor que terá a cobertura da diretoria. Artistas de reconhecido talento, gente que faria o orgulho de qualquer comunidade, penando para viver, pois não têm palcos dignos para se apresentarem ou como comercializarem suas obras. Escritores de valor que não conseguem publicar seus livros e, quando conseguem, não têm leitores para apreciá-los.
         E tenho que suportar o barulho que vem da rua, música ruim, degradante e alta. E tenho que ver na TV entrevistas, debates e reportagens com figuras que tangenciam os verdadeiros temas e ainda se arvoram em conselheiros e formadores de opinião. E tenho que ler nos jornais sobre a violência quotidiana de uma sociedade onde tudo vale e nada é punido. E tenho que lidar com gente imbuída da idéia de que “é preciso levar vantagem em tudo”, pois não há mais senso de respeito ao outro.


Vamos pra Disney tomar um banho de primeiro mundo!



         Que produção cultural de valor poderia se sobressair numa paisagem como esta? Tudo agora virou bunda e, neste sentido o Big Brother é a expressão da “cutura” brasileira. O Brasil tem CU-TURA! Acossados pela mediocridade reinante, cabe àqueles que pensam e sentem diferente dessa massa criar elos de solidariedade.
 Este meu post é um sopro contra o furacão. Não hesitem a se manifestar pró ou contra. Não precisamos de “celebridades” para dar palpites, pois eles são um produto e estão inteiramente sujeitos à mídia, responsável em grande parte por nossos males. Let’s speak up! Vamos nos erguer com nossas palavras e gestos. Acham que uma andorinha só não faz? – Verão.

sábado, 3 de março de 2012

BUENOS AIRES: MELANCHOLY BLUES

       Não deve ser comum valer-se do blues para representar Buenos Aires. O tango, é óbvio, seria a tradução da verdadeira alma portenha. Mas o tango me é externo, admiro sua estética e teatralidade sem compartilhar seu sentimento. Enquanto que o blues é negro e está mais próximo de mim, que, como brasileiro, me vejo em parte negro.

         A melancolia das ruas retas e largas, um tanto desérticas à noite no mês de janeiro. Da cidade dos pedestres, plana e agradável ao olhar de quem caminha.


       Pouco a pouco, nos habituamos ao ritmo ágil e constante da marcha portenha, à qual se acrescentam como agradável surpresa muitas bicicletas e até patins e skates.


             Percorrer a Calle Florida à noite, da Plaza de Mayo à Plaza San Martin, cruzando com gatos e outros seres noturnos. Ou fazer o mesmo trajeto de dia,  quando está apinhada de turistas, mais para ouvir e ver sua música de variados ritmos e formatos.



        
       Puerto Madero respira solidão com sua arquitetura grandiosa e distante. Trata-se de um cartão postão, no qual entramos apenas para a foto.


       Nas tardes da Plaza Dorrego em Santelmo, o tango é uma experiência rica e direta.


              Ao contrário dos espetáculos noturnos, formais e estereotipados, em Santelmo ele acontece abertamente em plena praça, em meio a pombos, crianças e vendedores ambulantes.


       Jamais esquecerei o ar cansado do bailarino destas fotos. Ele conduzia com grande maestria uma bailarina muitos anos mais jovem, de grande vigor físico e beleza. Ela ficava com os flashs e cumprimentos, ele cuidava do som e das crianças.


              Que contraste incrível a cidade oferece entre o moderno e elegante e o velho e decadente. Os automóveis merecem um capítulo à parte, pois podemos encontrar todos os tipos e modelos, com predominância dos mais simples e em todos os estados de conservação.


       Ao chegar a Santelmo e contemplar a Calle Defensa, deu-me vontade de seguir a pé até a Casa Rosada, a cerca de um quilômetro em linha reta.


              Os animais comungam o ar seguro e tranqüilo da cidade.


              Em praças e parques, há sempre animais por perto, como gatos, patos e até cervos e pavões.


              O Parque 3 de Febrero no bairro de Palermo faria ruborizar o Jardin du Luxembourg de Paris: é amplo, limpo e bonito.

              Acima da copa das árvores da Plaza San Martin, surgindo por detrás do imenso Edifício Cavenah,

      
um avião que decola do aeroporto abaixo compõe uma miragem em um final de tarde.


               Um convite para seguir até a parte mais alta da praça e tomar um vino con chorizos no bar e bistrô Torcuato & Regina


e passar o resto da tarde ouvindo música ao vivo e contemplando os transeuntes que cruzam ou se divertem na praça.



              Assistir a uma ópera imaginária no Teatro Colón.




        Percorrer El Caminito em La Boca e se sentir um hippie cosmopolita.




              Almoçar no Café Tortoni, com o serviço mais simpático que já se viu. 




              
       Posar ao lado de Gardel e outras grandes cabeças.




             Inventar uma milonga só para subir neste palco exclusivo.





              E contemplar as muitas imagens fixadas de um tempo de glória, que o espírito local não cansa de reanimar, pois neste passado próximo-distante está a própria identidade de um povo.






Ω
Copyright 

Abrão Brito Lacerda