sábado, 25 de fevereiro de 2012

ZAPAVORA


                  Era uma casa localizada na Rio Grande do Norte com Contorno, perto da passagem subterrânea da Savassi, ali onde os carros mergulham para passar sob a avenida. O muro de concreto que separa a trincheira dos acessos laterais, as torres de TV do Morro da Redenção (não havia telefonia celular na época) e, à esquerda, os letreiros em neon sob fundo azul e vermelho cintilando na noite: “Zapavora”.

                  O nome veio dos versos da canção “Nosso amor assim nos apavora”, de... quem mesmo? Se me lembrar até o final desta história, prometo contar. Hippies, broncos, darks, mods, todos ali se encontravam, à exceção dos que dormiam cedo, dos que tinham medo do escuro ou detestavam gin e cuba libre. Não haviam proibido o cigarro em recintos fechados ainda e o que era proibido circulava com igual liberdade, por isso o ar era embaçado e quente, a se cortar com faca ou tomar como sopa de cogumelos.
         Subia-se a rua, virava-se na altura do muro de proteção e dava-se com a entrada em estilo belle époque de um dos últimos prédios antigos que sobreviviam em meio aos caixotes de concreto e vidro. À direita o balcão/recepção/toques; à esquerda, mesas e tamburetes altos de fórmica; ao fundo a escada de madeira que conduzia ao “porão”, onde estava o palco e o segundo acesso, pela Rua dos Finados (Nome engraçado, não? Na placa lia-se “Rua Aurora”, mas todos a ignoravam solenemente).
                  Girava a roda dos 80 (“Carroça que perdeu o condutor”, segundo nosso amigo Raul Seixas), éramos ingênuos como passarinhos e nem sequer sabíamos ser esnobes. Aquele cabelo desgrenhado, aquela barbicha de “guerrilero”, aquele jeans desbotado e o peito ainda “cheio de amores vãos”. Balcão, escada, assoalho, tudo de madeira. Que rangia suavemente ao peso das pisadas e trepidava ao som das bandas malucas que desfilavam por ali.
         Necrose, Metralhatcheca (vinda especialmente do Rio de Janeiro), Sexo & Espíritu (versão local dos Sex Pistols). Os rapazes dos Metralha eram bem amadores, faziam um punk cru e visceral. Mas cumpriam o papel de fazer o rock rolar e aprontar as cenas que se repetiam na platéia: gritar palavras de ordem, muitos palavrões e cair bêbados pelos cantos. Ou cair no colo da Martinha, agora eu conto:


        Éramos todos mais ou menos matutos, rapazes e moças. Do interior ou da periferia. Libertários e potencialmente sanguinários. Assim era Martinha. Fez um primeiro e segundo anos de História impecáveis. Estudava tudo, era a primeira a responder e escoltava a Érika (suspiros) para cima e para baixo, depois pirou.
         Mas não de repente. Teve a fase dark, esses parentes oitentanos dos mods. Cortou o cabelo à la garçonne, passou a usar jaquetinhas pretas com gola Mao, falar Godard e Nietsche, dançar ao som dos Strokes e Strawberries. Não saía da “trincheira” (este era o cognome do Zapavora), depois veio a fase punk.
         Martinha desencabelada, desajuizada e com muitos gins no coco no show dos Metralha Tcheca. Mas que “lio”! Como é que um lugar com mínima segurança (todos ali tinham ojeriza aos leões de chácara), comandado por gente que entendia mais de horticultura do que de negócios botava de pé aqueles shows precários? Nunca perguntei o cachê das bandas, mas acho que as de fora vinham pela passagem e algumas garrafas de vodca. As locais, provavelmente só pela vodca.
                 Era lá pelas tantas, o som falhava de vez em quando. O baixista, com complexo de Sid Vicious, tinha a língua nos joelhos e cuspia Smirnoff ou qualquer coisa pior sobre a platéia, que lhe cuspia de volta Drury’s ou Bacardi. E a Martinha, que não usava calcinha, desmaiou sobre o “palco”.

        Quinta à noite era mais New Wave e os B-52’s rolavam como água. “Party out of bounds”, Bring me back my man” (“I give you fish!” – Por que uma moça te ofereceria “peixe”?), Mesopotamia. Muitos solados de sapatos se gastaram naquele tablado e agora vejam uma conversa típica com Deni, o “recepcionista”: - Salve! Tem chá?; - Tem que dar a volta no quarteirão pra ver se está limpeza. Alguém fingia dar a volta no quarteirão: - Mais seguro que prisão federal. – Vá manero, xará. Vejam o caso da Martinha.
         Os mods eram mais estilo cinema, achavam-se intelectuais – afinal tinham descolado a palavra no dicionário da swinging london do início dos 60 (Na verdade, não era ainda a swinging london, mas a expressão soa bonito.)
         Éramos um pedaço de cada coisa e energia não faltava para incorporar a cada dia uma nova cor ao vitral. Ronildo parecia ter se esquecido de juntá-los. Apareceu um dia no Zapavora vestido de Tarzan e com um fêmur de boi debaixo do braço. Primitivo e concreto. - Um brinde ao Ronildo e a todos os heróis que tombaram antes da hora! A poesia há de resgatá-los de algum modo do silêncio das pedras.


                  Nenhuma lua projetaria nossa sombra para sempre, subindo a Rio Grande do Norte, cruzando a trincheira. Punks atrapalhados, suburbanos copiando modos de citadinos, por sua vez copiados de outras metrópoles. Românticos libertários, sonhando com revolução e glória.
         Passei muitos anos depois pelo local. Outro caixote de concreto e vidro enquadrava a visão daquele ponto da cidade. Nada de pórtico de madeira, música áspera, cheiro de vodca, gosto acre de cogumelo. É tudo tão claro agora. Faça-se luz! Que tolice. O engenho da imaginação saberá sempre quando acender ou apagar o interruptor.
Ω
Copyright 
Abrão Brito Lacerda

 


        
          

sábado, 18 de fevereiro de 2012

1980: A POESIA HERÓICA DOS 20 ANOS



         Schiller dizia que o poeta é “o vingador da natureza”, no sentido de que resgata no homem sua natureza e unidade originais. Isto no final do século XVIII, quando a máquina a vapor era uma promessa tecnológica semelhante ao foguete espacial brasileiro.      
E o poema é o recriador desta unidade, perfeição ou ideal – o que é idéia minha e não de Schiller. Todo poema que se preze deve ser recriador e definitivo.
         O Bandeira, que, aliás, se considerava um “poeta menor”, escreveu que era muito mais um apreciador de poemas do que de poetas, porque “há poemas perfeitos, mas não há poetas perfeitos”.


 
Campus da Universidade Federal de Viçosa 


         Então, viva meus amigos desconhecidos! Gente que anda hoje de perfil baixo sob as nuvens da realidade, mas que deixaram em minhas mãos em algum momento amostras de sua inspiração, que me proponho a trazer à luz, como já fiz em outros posts deste blog.

         O ano é 1980, o lugar é Viçosa. Apresento-lhes o soneto de Margarida Maria Alcoque Amaral, então estudante de letras:

AO JARDINEIRO

Nascendo do meu pranto, o verso derradeiro,
Vem abraçar teu riso e agradecer-te as flores,
E devolver perfume ao doce jardineiro,
Que, um dia, em meu caminho, andou plantando amores.

Plantaste riso e canto e sonhos e ternura.
Tão doce, a tua mão, reconduziu-me à vida.
Depois, o teu silêncio e, nele, uma amargura:
Quiseste o “bugari”, mataste a “margarida”.

Mas, nunca, as tuas mãos, sementes de pecado
Jogaram neste chão, talvez que, de cansado,  
Deixou morrer o “lírio”, a felicidade.

Por isto, os versos meus entrego-te, contentes,
As flores que se abriram, hoje, de repente,
Sem que ninguém plantasse. Aceita. São “saudades”.



         Este saiu na coletânea “Por Trás de Cada Poema...”, edição da UFV, com o método sucessor do mimeógrafo. Lê-lo é um prazer súbito, sedutor, redobrado. Tem perfume, cor e música – é pura poesia.
         (Na citada coletânea, aliás, foram publicados também poemas do autor deste blog, mas a prudência me fez guardá-los de olhos curiosos, na esperança que durmam para sempre, aprisionados naquelas páginas.)
         Gritar “abaixo a ditadura!” fazia sentido naquela época. A mística da revolta e da luta pela liberdade, construída ao longo dos anos 60 e 70 ainda estava no ar. Vejam “O Último Poema” de Vicente Faria, estudante de Agronomia, em coletânea do autor:

Ei! Poeta pra que esses versos?
São tênue matéria
São restos de risos
São choro contido
São força vencida
São tempo passado

Não venda sonhos, poeta!
São supérfluos
São caros demais.

Vê o mundo! O tempo é outro
É tempo de luta
de querer com medida
de emoção contida.

Vê o mundo, poeta! É tempo de luta.
Vamos, rasgue a rima e solte o verso
Quebre a pena empunhe a arma.



Vai. Vicente, poeta armado.
Caminha pelo deserto da tua pregação
e na areia do tempo inconstante
                         escreve o teu último poema.

         Um tanto fora de tom para os dias de hoje, quando sonhos são comercial de margarina, o poema de Vicente repercute a influência de Ferreira Gullar (quem não leu o Poema Sujo, vá fazê-lo e volte para continuar este texto) e tem algo de “Pra não dizer que não falei das flores” de Vandré.

         Mas tem sobretudo sua essência de “antena da raça”, na expressão de Ezra Pound, pois traduz com perfeição aqueles tempos heróicos.
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           Obrigado a todos que me têm lido. Bom carnaval. 
Ω
Abrão Brito Lacerda

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O CENTAURO




      A furreca, com quatro alto-falantes abertos, anunciava imperiosamente a “chegada do Gran Circo de México nesta cidade – Feras, trapezistas, palhaços e mil, mil e uma atrações! O mágico Mefisto, os irmãos González, os maiores trapezistas do mundo! E a grande atração internacional: o Centauro!”
       O Centauro? O que raios isso queria dizer? Um desconhecido animal? Uma nova forma de ilusionismo? Um barco alado?
       “O centauro”, prosseguia o locutor, “a figura mais marcante, jamais vista nos picadeiros de todo o mundo. Ele transformará seus conceitos, elevará sua mente, despertará seu desejo.”
       Palavras portentosas demais para passarem despercebidas, sobretudo num lugar onde praticamente nada acontecia de novo desde a chegada do rádio de pilha, o qual havia despertado comentários assustados, tipo “mas quem é mesmo que está falando aí dentro?” ou desde o sobrevôo do primeiro avião nos céus da cidade, o que, dizem, levou gente a fugir para as montanhas ou até mesmo afogar-se nas águas do rio. E ainda mais prometendo “uma noite inesquecível aos senhores espectadores”.
       Devo admitir que lograram sucesso. O Gran Circo de México esteve cheio desde a estréia. 
  


     Entre a trupe, uma figura esquisitóide, camuflada numa espécie de macacão vermelho brilhante, cabeça espetada num capacete igualmente vermelho, ornado de uma estrela na frente, exibia-se todas as noites no ar e na terra. Levava ainda luvas e galochas de borracha bem justas, talvez herdadas dos astronautas da Apolo 9, aquela que levou o homem à lua. Locomovia-se, no entanto, com enorme habilidade pelo picadeiro, no trapézio, na arena das feras, no globo da morte, de onde saía com um salto mortal espetacular.
       Falava pouco, e, quando o fazia, contracenava com um inusitado parceiro, o palhaço Pipoca. Este último atrevia-se nas mesmas proezas do Centauro, mas dava-se irremediavelmente mal. Despencava do trapézio como um cacho de bananas, deslizava trôpego com a moto às costas no globo da morte e as feras não o deixavam sequer dar um passo adiante.
       O diálogo entre os dois era mais ou menos assim, aqui reportado com a ajuda de um anão que segurava a corda do trapézio por detrás dos tapumes:
       - Sabem por que o Centauro é todo vermelho? - Porque se borra de medo ao entrar na arena!
       - Ora, Pipoca, já fiz isso milhares de vezes, os bichos tremem ao ouvir o estalido do meu chicote.
       - Mas todo mundo sabe que você está com medo. Deixa-me ver?
       E apalpava o traseiro do impassível Centauro, para em seguida torcer o nariz numa expressão de nojo.
      O público se divertia e lá ia o Centauro jaula adentro. Saltava ao lado do domador, tomava-lhe o chicote e encarava as feras. Saía da arena escalando as grades, subia por detrás da cena e logo reaparecia dentro do baú do mágico. Em breve estava voando de trapézio em trapézio como um ultraleve vermelho. Aterrissava intrépido para delírio de grandes e pequenos.
       Em tudo Pipoca o arremedava desastradamente. E, entre o grandioso e o grotesco, faziam a alegria do circo.
       Foi fogo na imaginação da cidade. Todos se puseram a especular sobre a identidade do herói, mantida em segredo. A trupe do Gran Circo era considerável, e, fora das luzes e maquiagens, podia-se facilmente tomar um anão por um mágico ou um tratador de elefantes por um faquir. Além disso, o público queria mesmo preencher a camuflagem do Centauro com o personagem de sua predileção. E havia para todos os gostos: para as mocinhas, ele era um conhecido ator da TV, que se revelaria no último espetáculo; para a maioria dos homens era um lutador de vale-tudo adestrado nas artes do circo; para alguns era um louco, para outros, um primata muito evoluído. 


     E a furreca a girar pela cidade anunciado “mais uma noite de furor” e o espetáculo continuando – feras, palhaços, trapezistas e... o Centauro.
       Quando o circo já se preparava para deixar a localidade, sob alegação de que “não se deve esgotar o interesse do público”, houve surpreende reação popular. Todos reclamavam que a identidade do Centauro fosse revelada em cena, para poderem, finalmente, sentir o lado humano do herói.
       No dia do espetáculo final, o povo parecia a ponto de se romper de curiosidade. O Gran Circo estava inchado de gente - nas arquibancadas, nas cadeiras, em pé na entrada, sentados em torno do picadeiro. Houve o show de trapézio dos irmãos González, aos quais se misturaram, como de costume, Pipoca e o Centauro. O herói do macacão vermelho esmerava-se em suas proezas, mas não conseguia esconder certo nervosismo. De tudo se aproveitava Pipoca, disposto a ir à forra contra seu bem-aventurado companheiro.
       Pela primeira vez o Centauro se desequilibrou no trapézio.


       Os tambores rufaram, era hora do homem-bala. Pólvora, chumaço aceso, estampido – a platéia soltou um ah! de admiração – e o Centauro voou sobre o picadeiro como uma imensa tocha vermelha. Trinta segundos depois, já reaparecia ao lado do mágico Mefisto. Fez-se serrar ao meio, dançou desengonçado com as bailarinas da dança do ventre, atacou com renovado vigor leões e panteras, com chicote e tudo. Se suava, não se via, mas estava mais intrépido do que nunca.
       Ora, se um dia é do domador, o outro é da fera. Ao estalar da primeira chibatada, a correia prendeu-se à escadinha da leoa. Os bichos então avançaram sobre ele. Desprovido de melhor recurso, o Centauro deu meia-volta e escalou os degraus até o topo, pairando ali onde algum felino deveria estar. Foi seguido pelo leão. Teve então que saltar através do arco de fogo. Uma tocha acendeu-se em seu traseiro e o pobre disparou em ziguezague pela arena, seguido pelo leão, a leoa e a onça pintada. O público, atônito, aguardava o que parecia ser a apoteose final. O Centauro tentou safar-se escalando as grades, mas a onça abocanhou a perna de seu macacão, arrancando-o até os joelhos. Ouviam-se risos, princípio de pânico, silenciaram-se os tambores.
       O Centauro desfez-se do macacão como pôde e atirou o capacete em uma direção qualquer, soltando um uivo que fez estremecer o circo.
       Foi neste momento que uma figura resoluta saltou para dentro da arena. Vendo padecer seu companheiro, Pipoca não teve dúvida: Recolheu o chicote à frente das feras, fê-lo estalar com bravura e, para surpresa geral, obrigou os bichos a recuarem para dentro das jaulas. Explodiram aplausos e assobios, podiam-se ouvir soluços comoventes, orações em voz alta.



      Seminu e com o traseiro chamuscado, o Centauro inclinou-se ao lado de Pipoca, numa longa reverência.

Ω
Copyright 
Abrão Brito Lacerda

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A POESIA DE RAIMUNDO NONATO E JOVINO MACHADO



        
           Mais dois volumes de poesia de minha biblioteca de poesia, dois poetas de estilos completamente distintos, mas igualmente reveladores da poesia que nasce das ruas das grandes cidades.
         O primeiro é Raimundo Nonato e seu livro Sabor Plástico, pequena brochura de 10,5 X 16 cm, publicada em Belo Horizonte em 1983.


         
         Livrinho que é a própria imagem da simplicidade, esse volume prova que tamanho não é documento. A qualidade intrínseca da poesia que ele encerra é enorme. 
         O poema de abertura, no qual o poeta faz sua profissão de fé, traz lampejos de Oswald de Andrade e seu Pau Brasil, além de flertar confessadamente com outras tendências:



sou um poeta beat (close)
made in brazil (pose)
província de minas
vitaminas proteínas e sais minerais

pela cor do tênis
vê que ainda estou caçando a esmeralda

no fundo no fundo
sou um brazilianist deslumbrado
com a alquimia dos sanduíches
rajneesh
e sonrisal


         Ao declarar-se beat, o poeta coloca-se do lado do desbunde que ainda florescia naqueles idos pós-ditadura, tempos libertários na política, no comportamento e na linguagem. Na verdade, o Rai estava mais para matuto caçador de esmeraldas do que para beat porra louca, mas não importa, o que de fato conta é sua persona poética, perfeitamente condizente com a época. 
         Uma das jóias escondidas em seu livrinho é este poema, pleno de irreverência e vigor juvenil:

para que servem os heróis
senão para o povo carregá-los
em varas e lençóis?

para que servem os girassóis
senão para brotarem
nas covas rasas dos heróis?

         Seus versos limpos e precisos estão registrados em minha memória como um emblema desde a primeira vez que os li e despertam o mesmo prazer inicial sempre que são lembrados. E este é o mistério poético, capaz de recriar-se sem cessar.    
  

         Dando agora um salto no tempo, chegamos a 2005, através do livro Fratura Exposta de Jovino Machado. Jovino é partidário de uma poesia-choque, sem frescuras, em tom elevado, nada intimista.


o poeta late mais que morde
arde faz alarde fere maltrata
o tiro nunca sai pela culatra
o veneno dribla o único acorde

         É preciso tomar chá de Baudelaire e Augusto dos Anjos todo dia para escrever assim – no limite, entre o salto no abismo e a chatice em que a grande cidade se transformou. Mais uma dose:

a poeta é o eco rachado de uma antiga verdade
uma relíquia que me inspira sensações penosas
uma pedra que rola precedendo o desmoronamento
uma nuvem de besouros enfurecidos por girassóis

         Vocábulos amontoados como pedras – para lançar em quem? A escola dos dois poetas supra-citados ensina que o artista da palavra é ao mesmo tempo vítima e verdugo. Ah, isto faz lembrar aquele que “finge tão completamente que chega fingir que é dor a dor que deveras sente”, do célebre poema de Fernando Pessoa. Então, não peças os sais, ainda há muita poesia:

a poeta falsificou a verdadeira assinatura falsa
desenhando manchas de ódio na toalha axadrezada
seu corpo são mesas crus de cézannes e picassos
são facas enferrujadas, partituras ensanguentadas


         ©
Abrão Brito Lacerda