quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

VENTO SUL - A Infância das Histórias





Capa de VENTO SUL, meu primeiro livro impresso
  
Muitas histórias nascem na infância ou nela se inspiram, pois nada se assemelha mais ao ato de contar histórias do que a imaginação infantil. Tornar possível o impossível, inventar, subverter, mesclar, e assim ocupar a mente e sua fábrica de ideias em algo útil, pois mente ociosa é oficina do diabo.
Escrevo para dar sentido às ideias que trocam cotoveladas em minha mente. Mas também pelo prazer que emana da combinação livre das palavras, da possibilidade de fixar uma imagem e assim poder reparti-la indefinidamente, num exercício de liberdade compartilhado com o leitor.
Um caprichado projeto editorial deu ao livro beleza e distinção

Vento Sul, meu livro de estreia na literatura impressa, é composto de dezessete histórias que refletem o universo de minha infância, um universo que não existe mais, um mundo simples e pequeno, entre vila e fazenda. Mundo de jogos e descobertas, de experiências diretas com o tato, o olfato e a visão, assim como de muitos animais. Onde o mais insignificante evento, como a passagem de um circo mambembe, produzia efeitos alucinantes. 
Diagramação cuidadosa, tipos agradáveis de ler: nada foi deixado ao acaso


Algumas histórias apresentam o ponto de vista do menino, com a emoção e o frescor das primeiras experiências, outras têm a marca do adulto irônico, que olha para o passado para parodiá-lo.
São contos, talvez crônicas, um pouco de fábulas. Tentativas de recriar um gênero, pois escrever é contar, recontar, recriar. Um trabalho que passará agora pelo crivo do leitor, que tem o dom da lembrança e do esquecimento.
As histórias são intencionalmente curtas, para serem lidas em dez, quinze ou vinte minutos, de uma só vez. Têm um ritmo particular, que identifico como traços do meu estilo, são fluidas e objetivas. Criadas pelo prazer da escrita para o prazer da leitura.
Publicado em edição do autor através da Editora Scortecci de São Paulo, Vento Sul conta com ilustrações do artista plástico Romeu Célio, de Timóteo, Minas Gerais. Romeu foi um importante parceiro neste projeto e contribuiu com suas estampas para o visual dinâmico e bonito do livro. Uma apresentação gráfica agradável ao olhar e ao manuseio foi uma das preocupações desta edição.





Obrigado a todos que me têm lido neste blog, de propósito ou incidentalmente. Desejo-lhes um ótimo natal e um próspero 2013.

©
Abrão Brito Lacerda

domingo, 18 de novembro de 2012

O DEUS DE PEDRA




       Era um tipo mediano, de cabelos grisalhos, aparados à altura das orelhas, e densa barba descendo em “v” em direção ao peito. Mas sua constituição era robusta: músculos calejados, ombros fortes e pés firmes de andarilho. O nariz era grande, destes que sempre chegam antes do corpo; e a boca, velada, de cujo antro partiriam provérbios enigmáticos:
            - “Quem vive na serra, tem gosto de terra.”
            - “Todo homem deve criar um deus à sua imagem e semelhança.”
            Seus hábitos, embora simples como os de um monge, prestavam-se a toda sorte de especulações, pois é isto que a gente faz quando se encerra a novela ou o jornal da TV.
TV que ele não via, embora já tivesse aparecido lá, em uma reportagem de estudantes de uma universidade próxima. Filmaram-no durante uma semana, de todos os ângulos possíveis, aplicando as melhores técnicas do jornalismo de imagens: takes panorâmicos fechando-se em zoom sobre o centro de interesse; closes demorados no rosto tentando ler as mensagens inscritas naquelas feições cerradas. Mas não arrancaram uma única palavra do homem.
Localmente era conhecido como Dedeperre, Depa ou simplesmente Perre. Parece que, desprovido de parentes e derentes, havia removido qualquer traço de história do próprio nome, resignando-se em ser o ser em si, o homem sem epíteto:
- “Não carrego sobrenome, como não carrego mochila.”
Morava aos pés da Serra do Trovão, com seu bico de granito enfeitando a Chapada de Santana, nas cercanias de Ouro Preto. Bastava-lhe a paisagem, onde consumia seus dias; raramente descia até o vilarejo, localizado 400 metros abaixo.
Em uma dessas ocasiões, cruzou com um grupo de estranhos que subia a serra em fila indiana. Eram tipos metidos em bermudões, botas de solado grosso e chapéus de abas largas. Dedeperre seguia em sentido contrário, com seu andar herético, apoiado em um bastão de madeira. Os estranhos saltaram para o lado do caminho e ele passou entre eles. Por um breve instante seus olhares se encontraram: Dedeperre indiferente a mais aquele grupo de estrangeiros e os turistas surpresos com sua figura inusitada:
- Quem é esse?
- É o Depa - respondeu o guia. - Ele mora no alto da serra.
- O que ele faz?
- Ah, isso ninguém sabe. Dizem que se alimenta de raízes, frutas e mel. Alguns contam que escondeu a herança em um pote de barro e enterrou em algum lugar da montanha. E agora fica lá, velando por ela.
- Por que ele não usa a herança para comprar uma casa e roupas, como todo mundo?
- Ah, isso ninguém sabe...


O grupo subiu pela encosta da serra, atravessou a paisagem rochosa, entremeada de vegetação rala nos planos e densa nos vales. Ao chegar ao topo da serra, contemplou o horizonte, com uma primeira linha de montanhas cor de chumbo, depois sucessivas linhas de montanhas que se estendem a perder de vista. O horizonte de Minas, vários horizontes. A serra se alarga em um planalto irregular e em seguida se eleva em aclive escarpado, através do qual chega-se à vila próxima de Lavras Novas.
Duas horas de caminhada, um breve repouso, regado a cerveja e bife a palito, e hora de empreender a jornada de volta.
- Quanto vale um terreno aqui? – perguntou Sami, o sociólogo.
- Dizem que ninguém quer vender - respondeu o guia, após uma longa reflexão. - Mas podem perguntar no bar...
- Este lugar é perfeito para descansar.
- U-hum! – aquiesceram as moças.
- Cuidado com os as pedras do caminho!
Estavam na descida e avistavam a serra do lado do nascente: a abóbada celeste incrivelmente pura, os arbustos de caules retorcidos e enferrujados, as flores minúsculas de cor bonina, dourada e púrpura.
- Vejam! Uma escultura enterrada!
Parecia a perna de um deus grego, quem sabe Zeus ou Poseidon, enfiada em meio à vegetação.
- De onde veio?
Os cinco amigos arrancaram o membro da terra encascalhada e limparam-no: era, sem dúvida, parte de uma escultura de corpo inteiro, executada com grande maestria:
- Trata-se de um verdadeiro trabalho de arte - observou Judite, psicóloga e escultora nas horas vagas. - As proporções são perfeitas, até as veias estão delineadas.
- As outras partes devem estar por aqui mesmo. Que tal procurá-las? – propôs Manolo, professor de história.
Fizeram uma rápida busca ao redor, mas não encontraram mais nada.
- Acho bom voltarmos - sugeriu Pâmela, a mais mofina de todos.  - Está escurecendo e ainda temos que acabar de descer a serra.
Porque era domingo e no dia seguinte deveriam estar de volta ao trabalho.
- Vamos então colocar “isto” em local seguro - disse o sociólogo detetive.
- O local seguro é aqui mesmo - replicou Manolo - Não há nada que possamos fazer com isso. Voltamos no final de semana que vem e continuamos a busca. Que tal?
- Você está falando sério? - interferiu finalmente Daniel, o engenheiro. - Viemos aqui passear e não bancar os arqueólogos.
- Acho melhor deixar onde está - disse o guia, temeroso. Muitas coisas assombrosas acontecem por aqui.
- Assombrosas?!
Os cinco amigos caíram na gargalhada.

Arrastaram a pesada peça para um tufo de arbustos, onde a deixaram repousando na sombra.


As pretensões imobiliárias do grupo não foram adiante, mas as de arqueólogos, sim. Voltaram no sábado seguinte, dispostos a continuar a busca, ainda que Daniel tenha vindo apenas “para fazer companhia” e Pâmela começasse a ter sonhos estranhos com estátuas falantes.
Mas ao procurarem por Gentil, o guia, o homem se mostrou cheio de cismas:
- O Dedeperre não apareceu mais depois que vocês estiveram aqui. N- não quero subir a serra, estamos na lua nova...
 Foi Sami quem rompeu o impasse, propondo:
- Pagamos o dobro pra você ir com a gente. Você conhece cada palmo da região.
- Até as 3 da tarde?
- Até o final do dia.
- Até escurecer?
- Sim.
Gentil riu-se com o sucesso de sua artimanha. Ainda assim fez suspense:
- Só vou porque tinha prometido à dona Judite...
Judite fez charme – teria sido esta a razão?

Exploraram as adjacências de todos os caminhos da serra e voltaram a Chapada menos animados do que tinham partido. Não tinham um plano definido de busca e, além disso, a área era muito extensa.
- Acho que fomos otimistas demais - disse Manolo. - Cheguei a pensar que se tratava de alguma estátua inédita do Aleijadinho.
- A Estrada Real passava por aqui - observou Judite. – O Aleijadinho poderia perfeitamente...
- Já pensaram na possibilidade de uma descoberta dessa natureza?! – disse Sami, procurando levantar o astral de seus amigos.
- De qualquer modo, não estamos a fim de ficar mais um dia. Vamos retornar a Belo Horizonte – disse Daniel, com o consentimento de Pâmela.

Sami, Judite e Manolo armaram barraca no quintal de um morador, pois não havia acomodações disponíveis no lugar. Prepararam pacientemente um jantar à base de pão, atum e tomate e recuperaram uma garrafa de Jack Daniel's do bagageiro.
Caíram em pesado sono, mas foram surpreendidos, lá pelas tantas, por uma visita inesperada.  Era “Seu Jospa Rufino”, ex-funcionário dos correios, alferes e, ultimamente, bibliotecário. Tinha em sua casa um exemplar da primeira edição de Viagem Histórica e Pitoresca ao Brasil de Jean-Baptiste Debret, segundo contou. Parecia ansioso:
- Vocês tão procurando a estátua do Dedeperre?
- Por que “estátua do Dedeperre”?
- Porque o Dedeperre fala muito dessa estátua. Ele diz que é um deus.
- Então, onde estão as outras partes?
- Eu sei - afirmou Seu Jospa.

            Os três amigos estremeceram de emoção.  Quase beijaram as mãos do seu Jospa, que prometeu levá-los ao local na manhã seguinte. 


        E assim foi.
O dia clareou e eles subiram a serra pelo caminho localizado entre a pedra e o despenhadeiro.
            - Quanto capricho! – exclamou Judite. - Por que alguém levaria algo tão pesado para um lugar assim?
            Atravessaram uma greta na pedra e chegaram a um largo gramado, onde se viam, semi-enterradas, outras partes da estátua. Conseguiram reunir o corpo inteiro, salvo a cabeça e a perna esquerda, que fora a primeira parte a ser encontrada.
Fotografaram e tomaram medidas:
            - Estas peças sempre estiveram aqui? - perguntou Manolo a seu Jospa:
            - Muito antes do Dedeperre começar a falar delas. Mas ninguém nunca viu a cabeça, a não ser Dedeperre. Isto é, ele disse que já viu...
            - Alguém já esteve neste lugar além do senhor?
            - Só meu bisavô. Ele contou pra meu avô, que contou pra meu pai, que contou pra mim...
            A notícia reacendeu o entusiasmo de Manolo:
            - Interessante. Pode ser mesmo do tempo da colônia Tem muita semelhança com os profetas de Congonhas.
            - Mas, sem a cabeça, ficamos sem muitas respostas – observou Sami, menos animado. - Não temos como imaginar com que deus ele se parecia.
- Deveríamos procurar esse Dedeperre! – disse Judite
            - Ele não gosta de ser incomodado - advertiu seu Jospa Rufino.  - Ninguém sabe onde ele mora.
            - Pediremos ao Gentil para nos levar lá.
Ao ser procurado, o guia foi ainda mais arredio:
            - Vocês querem que eu os ajude a encontrar o Dedeperre?
            - Isso. Mostre-nos de que lado ele mora. Se ele não é louco, apenas excêntrico, não vai se recusar a falar conosco.
            O guia recuou:
            - Tenho medo de ir até lá.
            - Medo de quê? De fantasmas?
            - Acontecem coisas assombrosas nesta serra, seu Sami. E quem mora aqui não quer viver de assombração.
            - Assombração aparece para quem acredita. Iremos sozinhos. Se acharmos o pote de ouro, não teremos que dividir com você.
            Os olhos de Gentil brilharam. Ele deu um passo à frente:
            - Nesse caso, como prometi à dona Judite, vou com vocês. Mas não vou entrar na casa...
            E empreenderam mais uma jornada morro acima – a mais rápida que fizeram.  
            Encontraram a casa, mas não o homem. A tapera ficava no fundo de um vale, entre árvores frondosas. Tratava-se de uma gruta combinada com um pouco de alvenaria, de modo a ter três cômodos bem divididos, cozinha, banheiro e quarto. Uma organização demasiadamente cartesiana para quem vivia na idade da pedra. A entrada dava para o poente e era coberta de folhas de palmeira. Havia água corrente de uma fonte próxima e a morada era muito bem protegida contra as intempéries.
            O local, no entanto, parecia desocupado há um bom tempo: não havia sinal de fogo, nem restos de alimentos ou mesmo utensílios. No quarto, uma cama de ripas, com leito de folhas de palmeira, e uma pequena mesa. 


Sami, Judite e Manolo retornaram à capital com mais perguntas do que respostas. Em várias visitas posteriores a Chapada, ouviram muitas histórias sobre Dedepierre, incluindo a do seu recente desaparecimento. Nada comentaram e também nada ouviram com respeito à descoberta que tinham feito. Seu Jospa Rufino era homem de segredos.
            Seria mais uma história sem fim, caso Sami não tivesse se deparado, muito tempo depois, com uma foto em uma rede social: uma cabeça de granito, fotografada entre as pedras do leito de um córrego. Ele encaminhou o clichê imediatamente a Judite e Manolo:
- Vejam! Parece ser a cabeça da estátua que encontramos em Chapada!
            Judite não tardou a responder:
- Realmente! Onde você a encontrou?
-- No Facebook.
Manolo endossou a opinião de seus dois companheiros: era realmente a cabeça que procuravam.
Não precisaram mais dos préstimos de Gentil, o guia ardiloso, nem de Seu Jospa Rufino, o carteiro-bibliotecário. O autor da foto indicou o local exato em que ela fora tirada.

Sami, Judite e Manolo retiraram o pedaço de estátua do leito do córrego. Após revolver o limo e lavá-lo em água corrente, examinaram-no: 
- Não há dúvida, esta é a parte que estava faltando Mas, quem é?
- Dedeperre, é claro! Vejam a expressão vaga no olhar, as feições beatas, a barba...
- É muito pouco barroco em todo caso – observou Manolo. - Não é um profeta do Aleijadinho, mas também não é um deus grego.
Foi a psicóloga quem matou a charada:
Esse tal de Dedeperre tem ascendência francesa, não é mesmo? Nesse caso, seu codinome não é nada mais do que uma corruptela de “dieu de pierre”, ou seja, “deus de pedra”.
- Grande, senhora Sherlock Holmes! – brincou Sami. - Mas a estátua é antiga, talvez da época do ciclo do ouro.
- Somente estudos técnicos poderão confirmar isso. A história do Seu Jospa Rufino pode muito bem ter sido inventada, assim como o falso livro raro que ele tinha em sua biblioteca.
- Vamos então desvendar o mistério – sugeriu Manolo. - Fotografamos e medimos a cabeça, como fizemos com as outras partes, e procuramos os especialistas.

No sábado seguinte, especialistas de Ouro Preto e Belo Horizonte chegaram a Chapada de Santana, guiados pelos três orgulhosos exploradores. Não sabiam da surpresa que os aguardava. Se tivessem olhado para o alto da Serra do Trovão, teriam visto uma vaga silhueta que os observava e um arrepio teria corrido por suas espinhas.
Não encontraram nada: perna, tronco, cabeça - nada. Nem mesmo sinais de escavações havia, apenas campo virgem.
Voltaram perplexos para o vilarejo e ouviram dos lábios do guia Gentil:
- Dedeperre voltou!
E acrescentou, com ar de vitória:
- Acontecem coisas assombrosas por aqui!

©
Abrão Brito Lacerda
16 01 15





quarta-feira, 7 de novembro de 2012

A PAIXÃO POÉTICA DE FERREIRA GULLAR




Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

         Meu primeiro contato com a poesia de Ferreira Gullar foi em 1981, ano em que foi publicada a coletânea Toda Poesia pela Civilização Brasileira, reunindo a produção do poeta de 1950 até aquela data.
         Bons tempos: tudo tão ingênuo e utópico. Ingênuo porque ainda se acreditava em “revolução”, supondo com isso não apenas uma mudança no sistema econômico e social, mas também uma transformação das mentalidades e dos valores – em suma, acreditava-se que o homem ocidental poderia ser melhorado, pois ele seria “vítima” do sistema capitalista, que o condicionava e oprimia. Utópico porque os profetas do impossível abundavam, numa época em que os belos discursos valiam ouro e aqueles que tinham o dom da palavra eram admirados como verdadeiros ídolos. Alguns tinham o pé na era de paz e amor, cujos reflexos tardios entre nós ainda se faziam sentir, outros sonhavam com a esquerda marxista e estavam prontos a embarcar no primeiro torpedo suicida que aparecesse. Felizmente, não apareceu nenhum.
         Havia muitas fórmulas para operar tal milagre de transformação e era preciso sonhar, assim como viver. Tempos muito propícios à poesia. Último suspiro dos idealismos que sacudiram o mundo a partir dos anos 60 e que depois, já no final dos anos 80, desapareciam para dar lugar à figura onipotente do “mercado”, aplastando tudo como um rolo compressor e tornando a paisagem (interna e externa) uniforme e previsível.
         Ferreira Gullar teve o privilégio de produzir o essencial de sua possível neste período pós-guerra, pré-conformismo. E falava o que todos queríamos ouvir.


         Denunciava as mazelas sociais do Brasil, país que na época alistava-se sob a alcunha de “terceiro mundo”:

Introduzo na poesia
a palavra diarréia.
Não pela palavra fria
mas pelo que ela semeia.

Quem fala em flor não dia tudo,
quem me fala em dor diz demais.
O poeta se torna mudo
sem as palavras reais.

No dicionário a palavra
é mera idéia abstrata.
Mais que palavra, diarréia
é arma que fere e mata.

Que mata mais do que faca,
mais que bala e fuzil,
homem, mulher e criança
no interior do Brasil.

(“A bomba suja”, transcrito aqui apenas em parte)

          Falava de coisas que fazíamos (fazemos) questão de desconhecer, como se não nos dissesse respeito:



No Piauí de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade.

No Piauí
de cada 100 crianças que nascem
78 morrem antes de completar 8 anos de idade.

No Piauí
de cada 100 crianças
que nascem
78 morrem
antes
de completar
8 anos de idade

antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade
antes de completar 8 anos de idade.

("Poema brasileiro")

         Denunciava a opressão do “imperialismo” e levantava o bastião da luta de resistência:

                    Homem comum, igual
                    a você,
cruzo a avenida sob a pressão do imperialismo.
A sombra do latifúndio
mancha a paisagem,
turva as águas do mar
e a infância nos volta
à boca, amarga
suja de lama e de fome.

 (“Homem comum”)

         “Imperialismo” e “latifúndio” são palavras hoje relegadas ao dicionário. Ninguém as citaria neste início de século XXI com a conotação que tinham então. Mas, naquela época, com ditadura militar e guerra do Vietnã, calar-se era para os frouxos. A poesia deveria ter uma função social, deveria ser “engajada”:

Espalharam por aí que o poema
é uma máquina
               Ou um diadema
que o poema
repele tudo que nos fale à pela
e mesmo a pele
de Hiroxima
que o poema só aceita
a palavra perfeita
ou rarefeita
ou quando muito a palavra neutra
pois quem faz o poema é um poeta
e quem lê o poema, um hermeneuta.

(“Boato”)



         Não há dúvida que na poesia de Ferreira Gullar a palavra se liberta totalmente das hierarquias e as fronteiras entre bom e mau gosto são rompidas, muitas vezes de forma brutal. É o que acontece no célebre “Poema sujo” – que deveria ser lido por todos os aprendizes de poeta destes tempos confortáveis. O poema é muito longo – na verdade, um livro inteiro. Cito apenas um pequeno trecho inicial:

azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu

tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras)

como uma entrada para

(“Poema sujo”)

         O “Poema sujo” mudou os meus conceitos estéticos para sempre, desde o primeiro momento que o li. Expressava um monte de coisas que eu mesmo sentia e possuía um ritmo e uma sonoridade alucinantes. Depois dele, o dilúvio.

         Bem, cabe-me agora colocar de pé minhas impressões sobre a poesia de Gullar. O lado engajado e até mesmo grotesco de sua poesia é sobretudo reflexo dos tempos bicudos em que viveu,  embora obviamente revele muito do seu próprio temperamento.
         Gullar produziu lirismo do mais elevado quilate, poemas que aderem a nossa memória e aos nossos sentidos para sempre. Como “Cantiga para não morrer”:

Quando você for se embora
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

(“Cantiga para não morrer”)


E o meu favorito, esta jóia que por si só incluiria o poeta nos compêndios de clássicos de nossa literatura:

Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

(“Traduzir-se”)

         Ficam aqui registradas estas breves notas sobre este grande nome de nossa literatura, esperando que o estimado leitor sinta-se compelido a conhecer mais e busque os livros do poeta.

(© Abrão Brito Lacerda)

_______________
_______
__