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Mostrando postagens de 2012

VENTO SUL - A Infância das Histórias

Muitas histórias nascem na infância ou nela se inspiram, pois nada se assemelha mais ao ato de contar histórias do que a imaginação infantil. Tornar possível o impossível, inventar, subverter, mesclar, e assim ocupar a mente e sua fábrica de ideias em algo útil, pois mente ociosa é oficina do diabo. Escrevo para dar sentido às ideias que trocam cotoveladas em minha mente. Mas também pelo prazer que emana da combinação livre das palavras, da possibilidade de fixar uma imagem e assim poder reparti-la indefinidamente, num exercício de liberdade compartilhado com o leitor.
Vento Sul, meu livro de estreia na literatura impressa, é composto de dezessete histórias que refletem o universo de minha infância, um universo que não existe mais, um mundo simples e pequeno, entre vila e fazenda. Mundo de jogos e descobertas, de experiências diretas com o tato, o olfato e a visão, assim como de muitos animais. Onde o mais insignificante evento, como a passagem de um circo mambembe, produzia efeitos a…

O DEUS DE PEDRA

Era um tipo mediano, de cabelos grisalhos, aparados à altura das orelhas, e densa barba descendo em “v” em direção ao peito. Mas sua constituição era robusta: músculos calejados, ombros fortes e pés firmes de andarilho. O nariz era grande, destes que sempre chegam antes do corpo; e a boca, velada, de cujo antro partiriam provérbios enigmáticos:
            - “Quem vive na serra, tem gosto de terra.”             - “Todo homem deve criar um deus à sua imagem e semelhança.”             Seus hábitos, embora simples como os de um monge, prestavam-se a toda sorte de especulações, pois é isto que a gente faz quando se encerra a novela ou o jornal da TV. TV que ele não via, embora já tivesse aparecido lá, em uma reportagem de estudantes de uma universidade próxima. Filmaram-no durante uma semana, de todos os ângulos possíveis, aplicando as melhores técnicas do jornalismo de imagens: takes panorâmicos fechando-se em zoom sobre o centro de interesse; closes demorados no rosto tentando ler as mensa…

A PAIXÃO POÉTICA DE FERREIRA GULLAR

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
         Meu primeiro contato com a poesia de Ferreira Gullar foi em 1981, ano em que foi publicada a coletânea Toda Poesia pela Civilização Brasileira, reunindo a produção do poeta de 1950 até aquela data.          Bons tempos: tudo tão ingênuo e utópico. Ingênuo porque ainda se acreditava em “revolução”, supondo com isso não apenas uma mudança no sistema econômico e social, mas também uma transformação das mentalidades e dos valores – em suma, acreditava-se que o homem ocidental poderia ser melhorado, pois ele seria “vítima” do sistema capitalista, que o condicionava e oprimia. Utópico porque os profetas do impossível abundavam, numa época em que os belos discursos valiam ouro e aqueles que tinham o dom da palavra eram admirados como verdadeiros ídolos. Alguns tinham o pé na era de paz e amor, cujos reflexos tardios entre nós ainda se faziam sentir, outros sonhavam com a esquerda marxista e estavam prontos a embarcar …