segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O BOTÃO


(Foto: carrodebolso.com.br)

            As estatísticas mostram que as mulheres dirigem melhor do que os homens. O problema é que, enquanto o homem considera o carro um membro da família, com suas peculiaridades (lonas de freio, óleo do cárter), a mulher só se importa em virar a chave e pegar a rua. Até que, um dia, alguma coisa acontece e então ela é obrigada a descobrir que a tal da rebimboca da parafuseta realmente existe.
            Assim como a junta homocinética, uma peça do carro que fica entre a roda e o eixo, transmitindo o giro do motor (cinética) para as rodas. Quando ela se desgasta, de duas uma: ou é por exaustão ou então é porque a suspensão está comprometida. O jeito é verificar tudo, o que é fácil: o mecânico suspende o carro com o uso do elevador e testa as buchas, pivôs, amortecedores e rolamentos. O que sacudir ou fizer barulho, fired!, está despedido. 
            Marília não sabia nada disso. Ficou surpresa quando o mecânico disse que era preciso revisar a suspensão - achou que ele estava se referindo ao macaco. Seus problemas aumentaram gradativamente, assim como a conta: duas buchas não custaram tanto, os rolamentos sairam pelo preço de dois meses de salão de beleza e os amortecedores tiveram que ser parcelados em cinco vezes no cartão. E ainda assim o carro treme nas subidas, como se estivesse acometido do mal de Parkinson. 
             Desesperada, ela me perguntou o que fazer: um mecânico de confiança é a única solução, respondi. 
            Infelizmente, há casos que precisam de algo mais do que um bom mecânico para serem resolvidos. Vejam o aconteceu com a Amina:
              Depois da ceia de Natal, chegou a hora de ir embora. Mas o carro da Amina não pegou, apesar de toda a insistência. A conclusão óbvia foi de que se  tratava da bateria e que seria preciso fazer pegar no tranco. O carro pegou realmente, mas não andou mais do que cinquenta metros e desmaiou novamente. “Acelera pra injetar gasolina”, gritaram os assistentes, um comitê (masculino) que se organizou prontamente para discutir o problema. Não teve jeito.
            - A bateria arriou de vez.
            - Mas, se o carro pegou, o problema deve ser o alternador.
            - Acho que tem a ver com combustível. Você pôs gasolina no tanque?
            Amina garantiu que sim, que não era pane seca.
            - Então, temos que usar uma “chupeta”, não dá para empurrar o carro ladeira acima, propôs o decano Daniel.
            “Chupeta” não é o que vocês estão pensando. Trata-se de uma conexão elétrica que permite ligar a bateria de dois carros: um que está funcionando perfeitamente e outro que está “arriado”. Depois de virado o motor, o carro socorrido deve continuar funcionando por conta própria, isto é, se a energia de sua bateria for renovada pelo alternador.
            - Alguém tem uma “chupeta”?
            Procurando, sempre se encontra alguém que, providencialmente, carrega um “cabo auxiliar de partida” - nome técnico da popular chupeta. No final das contas, é como ter um desfibrilador para salvar alguém que acaba de sofrer uma parada cardíaca.
            Um dos vizinhos tinha o cabo. Estacionou-se outro carro ao lado do de Amina, deu-se a partida, mas nada do carro de Amina pegar. Retiraram-se as velas, assopraram-nas, testaram as fagulhas – tudo certo. O caso era mesmo complicado
            - Não tá injetando gasolina, sentenciou a sabedoria masculina. Você tem certeza que pôs gasolina no tanque?
            Mas uma vez Amina garantiu que sim.
            - Nesse caso, só pode ser a bomba de combustível.
            - Então, vamos chamar um mecânico.


            Uma onda de desânimo percorreu o comitê de socorro. Empurraram o carrinho para o meio fio, pois o socorro só viria no dia seguinte. Foi quando alguém teve a brilhante ideia de perguntar:
            - Amina, por acaso você tem algum sistema de segurança no carro?
            - Ah, o botão!, exclamou Amina, levando a mão à têmpora.
            - O BOTÃO???
            Amina correu até o carro, fechou a porta, passou a mão por baixo do painel, procurando um segredo que só ela conhecia, deu no arranque e – vrummm! - o carro pegou.
            Houve uma explosão de alegria. Os barbados comemoram feito meninos, soltaram gargalhadas presunçosas, se abraçaram, quase rolaram ao chão.
            O botão? Ah, o botão!...
©
Abrão Brito Lacerda
15 01 17




           

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ANA CAROLINA MACEDO BARBOSA



            Literatura infantil e infanto-juvenil entre nós costuma ser sinônimo de paródia ou remake de histórias clássicas europeias, estilo Grimm, Perrault e Andersen ou de contos folclóricos nativos, com personagens da selva, sacis e botos-cor-de-rosa. No campo da narrativa, a maioria dos textos é previsível e pouco concorre para criar o tão propalado gosto pela leitura.
            De tanto se falar e não fazer, a leitura, coisa tão elementar, que se desenvolve com hábito e acesso a livros de qualidade, se converteu em verdadeiro fosso cultural a nos separar de outros povos. No Brasil, obras literárias são divulgadas quase que como artigos de luxo e o ato de fazer literatura significa quase sempre tomar parte em um esquema comercial, ficando a arte para os autores independentes e alguns pequenos nichos do mercado. Ler nestas condições é quase uma pretensão, um passatempo burguês ao qual as massas trabalhadoras não têm acesso.
            Mas o impulso que o segmento infanto-juvenil sofreu nos últimos anos revelou alguns autores promissores, como Ana Carolina Macedo Barbosa, uma jovem escritora mineira, inventiva e com ótimo talento narrador. Sua aposta é no gosto aventureiro dos mais crescidos e sua narrativa é mais densa e detalhada que a maioria dos livros do gênero, conforme se pode constatar em suas obras As Escolhas de Alex e Um Minhocuçu em Apuros.
            A história do Alex começa assim:
         “Num lugar distante, no pico da mais alta montanha, acima das nuvens, bem lá no alto, num local chamado Montanha dos Reis, nasce uma pequena ave chamada Alexandre, seu apelido era Alex, uma águia, mas não qualquer águia, uma águia real. Suas penas ainda não nasceram apenas o bico naquele corpinho pelado. Com calma ele vai abrindo seus olhinhos e vê lá do alto uma paisagem maravilhosa, em meio a um céu azul bem claro não havia nuvens, pelo menos não enquanto olhava para cima, pois a montanha era tão alta, que as nuvens só eram vistas olhando para baixo. Quando Alex olhou para baixo viu-se rodeado de nuvens, as nuvens eram tão brancas, ele tentava soprá-las, mas de nada adiantava.”
            Frases como “suas penas não nasceram apenas o bico naquele corpinho pelado” soam quase infantis e contém uma boa dose de graça. Assim como os elementos de ampliação: bem, tão, tanto, muito comuns nos contos de fadas e nas narrativas orais.

            Na sequência da história, Alex cresce, sempre cercado dos cuidados dos pais, aprende a voar, o que é vital para uma águia, torna-se independente e sai pelo mundo  à cata de aventuras; encontra outros animais, cada um com sua característica, faz amigos, enfim, experimenta o mundo por conta própria.
            Com o desenrolar da história, Alex tem direito a finais dignos de um príncipe - com efeito, nenhuma princesa ou pai de princesa o deixa escapar do altar. Os quatro finais propostos são idênticos:
1)    “Alex se apaixona por uma linda águia, e com ela forma uma família e vivem felizes para sempre.”
2)    “A princesa emocionada casou-se com ele e governaram com justiça e sabedoria todo o reino.”
3)    “Eles se casaram e reinaram sabiamente por muitos e muitos anos.”
4)    “- [...] É com orgulho que eu dou a Alex a mão de minha filha Camila. E que juntos vocês governem a Montanha dos Reis com dignidade, honestidade, força e sabedoria.”
            Esses são, sem dúvida, lugares comuns em história do gênero, mas o miolo vale a aventura e revela as qualidades da narradora.
            É muito engenhosa a forma como a jovem águia nasce no alto, em um lugar inacessível aos demais seres, e depois vai até o baixo, ao encontro das criaturas rasteiras, como as minhocas, que ela acaba descobrindo serem seus semelhantes.
            Outra engenhosidade, possivelmente a maior do seu estilo, é a apresentação de variantes à história, a cada etapa da vida de Alex. Essas constituem propriamente as escolhas, agora de parte do leitor, que é consultado sobre a sequência que desejaria para a história. Por exemplo:
  O que Alex deve fazer?
  - Se você acha que ele deve ver o que há na caverna vá para a página 29
  - se você acha que ele deve voltar para sua montanha vá para a página 28.
            Aspectos como concordância verbal e pontuação deverão merecer mais atenção em uma revisão futura, ainda que a escrita seja bastante livre, o que é uma marca da atualidade. Mas o ótimo fluxo narrativo, que nasce da forma encadeada e cumulativa de enunciar e da habilidade para construir transições entre as diferentes partes da história, além da imaginação pra lá de exuberante, hão de garantir vida longa a Ana Carolina Barbosa no campo da escrita.

            Last but not least, há que mencionar outra qualidade dessa jovem escritora, que é a de ilustrar os próprios livros com desenhos a lápis. Dessa mesma habilidade ela se vale para conferir autógrafos elaborados e simpaticíssimos - parte do engenho de sedução de alguém que acredita na conquista pela arte.



©
Abrão Brito Lacerda

08 01 17

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

UM POEMA DE FRANCE GRIPP



            France Gripp é uma professora e poeta natural de Governador Valadares, no leste de Minas Gerais. Seu primeiro livro foi a coletânea Eu Que me Destilo, lançada em 1994, na qual o gosto da autora pelo verso apaixonado e “côncavo”, quase barroco não fosse pós-moderno, se evidencia.  Depois de uma incursão pela literatura infanto-juvenil que lhe rendeu dois livros, eis que Francirene (seu nome de batismo) retorna à sua praia natural, a poesia, com outra coletânea, Coração Incendiário, edição de 2014.
            Fazer o strip-tease da alma, arriscando-se nos meandros mais obscuros da linguagem para afirmar sua individualidade em um mundo polivalente e triturador de ilusões, é a tônica das gerações que sucederam a Ferreira Gullar e a poesia marginal. As palavras são muitas vezes condutoras de alta voltagem, não raro o sujeito é vítima de choques, baques, cortes que ele mesmo se inflige. É assim fazer poesia nesses tempos implacáveis: em cada palavra, um golpe. Em sua versão feminina, essa corrente revela um erotismo apenas contido, uma paixão que se detém nos limites da linguagem aceitável, balões de desejo prontos para explodirem no ar da imaginação – tal qual neste poema de France Gripp:

A FOGO

Posso menos

por isso vou e venho
e peço e busco

e mansa e brusca
vou e venho

eu procuro
o fôlego miúdo

e derreada e turva
as ancas fora do lugar

tal poder menos
reconheço

garimpando
obscuro

as ranhaduras crédulas
minúsculas

o corpo
a fogo livre e rouco

a saia ao derredor da blusa
a fogo

até os intestinos se alastrando
onde poder
menos ainda

o poço
um giro na nascente
e esse afago em ondas curtas

poder menos, poder tudo
os peitos pulam

matar a fome
para que me engula.


            O poema nasce da impressão do sujeito de “poder menos” diante da dimensão da procura que o consome, sem contudo chegar às raias da frustração. Ao contrário, ele sabe que é essa procura que lhe dá sentido. E o que busca o poeta? A poesia, naturalmente, a chama que salta por indução quando determinados vocábulos se encontram. Ressalte-se a busca de equilíbrio entre a paixão poética e as limitações do campo verbal no qual esta se materializa. As fronteiras das palavras são sondadas através de aliterações (“os peitos pulam”), neologismos (“a saia ao derredor da blusa”, “as ranhaduras / crédulas”) e ambiguidade do campo semântico (“as ancas fora do lugar”, “matar a fome / para que me engula”).
            Trata-se de uma autora que veio para atear fogo ao circo,  liberar seus fantasmas ao mesmo tempo em que realiza o exercício de construção de impressões ou imagens através de palavras. Essas imagens levam não a um sentido, mas a tantos sentidos quantos lhes queiram dar os leitores. A emoção do poeta é apenas o ponto de partida, a cada leitura é a emoção do leitor que conta.
            Assim como quem brinca com o poema pode se queimar, quem deseja sondar o indizível não pode hesitar; em caso de abismo, salte!

©
Abrão Brito Lacerda
30 12 16