quarta-feira, 1 de março de 2017

EU TOMO ALEGRIA!


(Foto: Estado de Minas)
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
      (Manuel Bandeira, Não sei dançar)

            Há muito tempo BH não via uma festa assim, há uma geração pelo menos. Tomar as ruas, praças e avenidas, reconvertê-las em espaços de encontro e convivialidade representa uma verdadeira revolução em uma cidade que foi obrigada a conviver com os congestionamentos e a insegurança – e a reclamar deles, como se se tratasse de uma praga irreversível. E eis que, de repente, mas não por acaso, os bhzontinos se descobrem semelhantes e cooperativos ao invés de individualistas e competitivos, e descem às ruas para o carnaval, transformando a cidade em um grande salão de festa para todas as idades.
            A popularização do carnaval de rua de Belo Horizonte é uma realidade. Boa organização e infraestrutura, com presença ostensiva dos agentes de segurança nos locais de celebração, itinerários demarcados e isolados para concentrações e desfiles de blocos e, sobretudo, a dispersão da festa pelas diferentes regiões da cidade, criaram um ambiente favorável que tem atraído multidões aos desfiles de carnaval nos últimos anos, com destaque para este marcante ano de 2017, que tem tudo para ser um divisor de águas na história da cidade.
            Blocos recém-criados e sem grandes pretensões recebem de repente a adesão de toda uma vizinhança ávida por alegria e o cordão cresce sem parar, passando de dezenas à casa dos milhares. Ver-se na rua cercado de gente familiar tem gerado surpresa nos próprios belo horizontinos. Compartilhar alegria ao invés de medo, descobrir semelhanças ao invés de diferenças traz um inesperado ar de renovação da vida coletiva e tem contribuído para a melhoria da autoestima e do sentimento cívico na capital. A cidade se redescobre hospitaleira, superando a imagem austera de um imenso dormitório para quatro milhões de almas.

(Foto: Metrô jornal)

            Além das razões citadas acima, boa infraestrutura e organização, há outros motivos que estimularam tantos a saírem às ruas. Em primeiro lugar, a crise, que impossibilitou muita gente habituada a curtir o carnaval na Bahia, no Espírito Santo ou no Rio de Janeiro de viajar. Em segundo, podemos citar as manifestações políticas do ano de 2016, que levaram a classe média a sair de casa e a se reapropriar dos espaços públicos que ela antes tanto temia e abominava. Não cabe entrar no mérito dessas manifestações, mas é importante frisar que elas tiveram força quando lograram catalisar a energia espontânea dos cidadãos e se extinguiram quando se tornaram formais e formatizadas, ou seja, caretas e conservadoras.
            Fazer festa pode ser a solução quando não há nenhuma outra à vista, como parece ser o caso do Brasil no momento atual. Além disso, celebrar não exige motivos objetivos, o que conta mesmo é a disposição de romper a rotina e a mesmice. Os jovens não precisam de motivos para se encontrarem e comemorar, fazem isso porque é próprio do espírito da juventude. Desejo semelhante se encontrava reprimido pelos belo-horizontinos, tradicionalmente considerados tímidos e avessos a demonstrações coletivas que não sejam partidas de futebol. Mas anos de injeções de baianidade via axé music e trios elétricos ajudaram a quebrar o gelo.
            O melhor de tudo é que BH se viu no espelho e gostou da imagem: o jeito de ser, tolerante e cosmopolita, com centenas, milhares das mais bonitas mulheres do Brasil - união perfeita das quatro raças -, livres, leves, soltas...
©
Abrão Brito Lacerda

28 02 17

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MINHA CASA, MEU ENTULHO


            A sujeira está em toda parte. Em Brasília, onde a lama ultrapassou o nível das torres gêmeas do congresso, toma-se banho de fedência e dança-se ao ritmo da podridão. O gosto nacional pelo lixo é tamanho que, ao se construir um prédio, é criado simultaneamente o entulho que acolhe os restos da construção: concreto, papel, plástico, metal, além dos rejeitos líquidos e sólidos dos humanos.
            Somos um exemplo civilizatório a ser combatido de um povo que limpa a casa para sujar a rua - e não sente nenhum constrangimento por isso. E, longe de se tratar de um comportamento de determinada classe, é uma verdadeira epidemia, como a dengue, a febre amarela e o Big Brother.
            Com o objetivo de dar minha modesta contribuição às avessas a essa falta de vergonha geral, apresento a seguir o estado das coisas em minhas imediações. A Rua Miguel Maura onde moro é uma passagem importante entre vários bairros e o centro da cidade de Timóteo, portanto o lixo dessa rua pode ser tomado como axioma da decisão comunitária de não deixar arrefecer nossos centros criadores de ratos, baratas, mosquitos e catadores.


           






































               A prefeitura não recolhe o lixo, essa é a explicação de 100% dos abordados. É verdade. Embora a cidade esteja loteada pelos entulhos, há muitos anos ninguém se importa em recolhê-los. Mas quem espalha a sujeira são os próprios cidadãos, outra verdade.
            O guarda-chuva quebrou? Jogue ali mesmo. Móveis imprestáveis em casa? Despeje no passeio público. Um senhor de barbas brancas passa empurrando um carrinho com a tranquilidade de um monge. É triste para um velhinho, não é mesmo? Ele deveria pedir a um dos netinhos para fazer isso para ele, qual seja, depositar sujeira no espaço alheio.
            As oficinas mecânicas que existem ao redor têm nos terrenos baldios um bota-fora perfeito para restos de lataria e peças velhas. Existe até mesmo um desmanche no lugar, ilegalmente, pelo que suponho, embora de pleno conhecimento do “poder” público. Alguns sacos de lixo são amarrados a árvores e oferecem aos passantes o espetáculo do seu fedor em flor, até que os lixeiros (que só recolhem lixo devidamente ensacado) venham fazer seu porco trabalho. O operário que poda as árvores da casa vem ali depositar folhas e ramos – importante frisar que o dono fica vigiando por trás do muro, afinal ele pode pagar alguém para fazer o trabalho sujo para ele. Aproveitando que tá uma imundície mesmo, crianças espalham palitinhos de picolé e papéis de bala pelo chão...  


          










  



















        Todos estão imbuídos da convicção de que não foram os primeiros e que, portanto, não têm culpa nenhuma. Se investigarmos a fundo, chegaremos a Pedro Álvares Cabral e vamos concluir que a culpa foi dos portugueses.
            Lancei a ideia de uma campanha de limpeza junto aos vizinhos. Estão dispostos a colaborar, mas ninguém tem pressa para começar o trabalho. Acham que vão fazer o papel da prefeitura sem ganhar nada por isso. “E, a partir do dia seguinte, o lixo estará de volta”, dizem eles para justificar a inércia.  
            O único consolo é que em Brasília tá pior – tá muito pior!



©
Abrão Brito Lacerda

09 02 17

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

NA TERRA DA FANTASIA COM IARA ALVES




            Iara Cardoso Alves de Belo Horizonte é uma “veterana” no campo da literatura infantil com mais de uma dúzia de títulos publicados, cobrindo leitores da primeira infância até o infanto-juvenil.
            Imaginação abundante e “loufoque”, com coisas e situações fora do lugar, se organizando na forma de um bric-à-brac, constituem o fio narrativo. As histórias terminam mas deixam sempre a impressão de que poderiam continuar.
            O jeito loufoque permite a Iara se colocar facilmente na pele de uma criança ou de um animal e imaginar traquinagens à beça. A rainha Victória, do livro homônimo, adora aprontar a zorra em seu próprio castelo, onde todos, a começar pela própria rainha, além do príncipe Boulevard, do Conde Ferdinando e da princesinha Tainah são malucos a valer:

            “Diziam que ela tinha
            Poderes mágicos e até
            O dom de ver tudo de
            Cabeça para baixo.”

            Quando se junta às crianças do reino, então, o castelo é literalmente virado de cabeça para baixo. A farra começa com a turma dançando, rodando, cantando e escondendo-se “em armários, debaixo das mesas, atrás das portas e das cortinas.”
            A rainha aproveita pra aprontar das suas e:
            “de vez em quando,
            as latas de doce e
            os potes de balas
            saíam flutuando
            das despensas e
            viravam na cabeça
            dos meninos.”


            E não para por aí, pois a encapetada é tomada do prazer de tudo subverter e não poupa nem o próprio castelo:




            “- Sinsalamim! Asa de cobra!
            Perna de lagartixa! Olho de tacho!
            Faça o meu castelo ficar de cabeça para baixo!”

            E lá se vai o castelo da Victória pelos ares.

            Outro dos seus livros, Mamãe, amanhã é hoje?, se dirige à primeira infância, apesar da história relativamente encorpada e da narrativa no pretérito perfeito, que supõe que na maioria das vezes um adulto irá ler para a criança.
            Trata-se da história de um menino que ficou longe do pai e teve que construir com a mãe um mundo imaginário para preencher essa ausência. Às vezes ele “desenhava carrinhos, aviões, casas, cachorrinhos, bolas, corações”, e às vezes se punha a “vigiar o sol e a contar as luas”, tentando dar conta da passagem do tempo.  O pai finalmente chega e o menino se desmancha de felicidade.
            Histórias como essa última demonstram outro talento de Iara, imprescindível para se prosperar nesse gênero especial da literatura, que é a capacidade de observar o mundo da criança e extrair dele a essência para construir narrativas que façam sentido para ela.
©

Abrão Brito Lacerda

29 01 17