sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

MINHA CASA, MEU ENTULHO


            A sujeira está em toda parte. Em Brasília, onde a lama ultrapassou o nível das torres gêmeas do congresso, toma-se banho de fedência e dança-se ao ritmo da podridão. O gosto nacional pelo lixo é tamanho que, ao se construir um prédio, é criado simultaneamente o entulho que acolhe os restos da construção: concreto, papel, plástico, metal, além dos rejeitos líquidos e sólidos dos humanos.
            Somos um exemplo civilizatório a ser combatido de um povo que limpa a casa para sujar a rua - e não sente nenhum constrangimento por isso. E, longe de se tratar de um comportamento de determinada classe, é uma verdadeira epidemia, como a dengue, a febre amarela e o Big Brother.
            Com o objetivo de dar minha modesta contribuição às avessas a essa falta de vergonha geral, apresento a seguir o estado das coisas em minhas imediações. A Rua Miguel Maura onde moro é uma passagem importante entre vários bairros e o centro da cidade de Timóteo, portanto o lixo dessa rua pode ser tomado como axioma da decisão comunitária de não deixar arrefecer nossos centros criadores de ratos, baratas, mosquitos e catadores.


           






































               A prefeitura não recolhe o lixo, essa é a explicação de 100% dos abordados. É verdade. Embora a cidade esteja loteada pelos entulhos, há muitos anos ninguém se importa em recolhê-los. Mas quem espalha a sujeira são os próprios cidadãos, outra verdade.
            O guarda-chuva quebrou? Jogue ali mesmo. Móveis imprestáveis em casa? Despeje no passeio público. Um senhor de barbas brancas passa empurrando um carrinho com a tranquilidade de um monge. É triste para um velhinho, não é mesmo? Ele deveria pedir a um dos netinhos para fazer isso para ele, qual seja, depositar sujeira no espaço alheio.
            As oficinas mecânicas que existem ao redor têm nos terrenos baldios um bota-fora perfeito para restos de lataria e peças velhas. Existe até mesmo um desmanche no lugar, ilegalmente, pelo que suponho, embora de pleno conhecimento do “poder” público. Alguns sacos de lixo são amarrados a árvores e oferecem aos passantes o espetáculo do seu fedor em flor, até que os lixeiros (que só recolhem lixo devidamente ensacado) venham fazer seu porco trabalho. O operário que poda as árvores da casa vem ali depositar folhas e ramos – importante frisar que o dono fica vigiando por trás do muro, afinal ele pode pagar alguém para fazer o trabalho sujo para ele. Aproveitando que tá uma imundície mesmo, crianças espalham palitinhos de picolé e papéis de bala pelo chão...  


          










  



















        Todos estão imbuídos da convicção de que não foram os primeiros e que, portanto, não têm culpa nenhuma. Se investigarmos a fundo, chegaremos a Pedro Álvares Cabral e vamos concluir que a culpa foi dos portugueses.
            Lancei a ideia de uma campanha de limpeza junto aos vizinhos. Estão dispostos a colaborar, mas ninguém tem pressa para começar o trabalho. Acham que vão fazer o papel da prefeitura sem ganhar nada por isso. “E, a partir do dia seguinte, o lixo estará de volta”, dizem eles para justificar a inércia.  
            O único consolo é que em Brasília tá pior – tá muito pior!



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Abrão Brito Lacerda

09 02 17

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

NA TERRA DA FANTASIA COM IARA ALVES




            Iara Cardoso Alves de Belo Horizonte é uma “veterana” no campo da literatura infantil com mais de uma dúzia de títulos publicados, cobrindo leitores da primeira infância até o infanto-juvenil.
            Imaginação abundante e “loufoque”, com coisas e situações fora do lugar, se organizando na forma de um bric-à-brac, constituem o fio narrativo. As histórias terminam mas deixam sempre a impressão de que poderiam continuar.
            O jeito loufoque permite a Iara se colocar facilmente na pele de uma criança ou de um animal e imaginar traquinagens à beça. A rainha Victória, do livro homônimo, adora aprontar a zorra em seu próprio castelo, onde todos, a começar pela própria rainha, além do príncipe Boulevard, do Conde Ferdinando e da princesinha Tainah são malucos a valer:

            “Diziam que ela tinha
            Poderes mágicos e até
            O dom de ver tudo de
            Cabeça para baixo.”

            Quando se junta às crianças do reino, então, o castelo é literalmente virado de cabeça para baixo. A farra começa com a turma dançando, rodando, cantando e escondendo-se “em armários, debaixo das mesas, atrás das portas e das cortinas.”
            A rainha aproveita pra aprontar das suas e:
            “de vez em quando,
            as latas de doce e
            os potes de balas
            saíam flutuando
            das despensas e
            viravam na cabeça
            dos meninos.”


            E não para por aí, pois a encapetada é tomada do prazer de tudo subverter e não poupa nem o próprio castelo:




            “- Sinsalamim! Asa de cobra!
            Perna de lagartixa! Olho de tacho!
            Faça o meu castelo ficar de cabeça para baixo!”

            E lá se vai o castelo da Victória pelos ares.

            Outro dos seus livros, Mamãe, amanhã é hoje?, se dirige à primeira infância, apesar da história relativamente encorpada e da narrativa no pretérito perfeito, que supõe que na maioria das vezes um adulto irá ler para a criança.
            Trata-se da história de um menino que ficou longe do pai e teve que construir com a mãe um mundo imaginário para preencher essa ausência. Às vezes ele “desenhava carrinhos, aviões, casas, cachorrinhos, bolas, corações”, e às vezes se punha a “vigiar o sol e a contar as luas”, tentando dar conta da passagem do tempo.  O pai finalmente chega e o menino se desmancha de felicidade.
            Histórias como essa última demonstram outro talento de Iara, imprescindível para se prosperar nesse gênero especial da literatura, que é a capacidade de observar o mundo da criança e extrair dele a essência para construir narrativas que façam sentido para ela.
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Abrão Brito Lacerda

29 01 17

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

HOME IS A QUIET PLACE

                
         
Além dos acidentes naturais, como oceanos, selvas e geleiras, o mundo está cheio de barreiras humanas que nos impedem de ir aonde nos der na telha. 





























O homo sapiens, assim como seu primo pobre, o homem de neadertal, não teria ido tão longe hoje quanto no longínquo passado.

No entanto, mudar, experimentar um pouco da liberdade que indígenas, beduínos e ciganos transformaram em um estilo de vida constitui uma das melhores coisas da vida. 















         
 Mesmo em um quarto de hotel buscamos reconstituir um ambiente, uma atmosfera, um lar - a quiet place. 





























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Abrão Brito Lacerda
22 01 17