terça-feira, 13 de setembro de 2016

O ROTO, O ESFARRAPADO E O MALTRAPILHO

(Charge eleitoral da antiga revista O Malho)

            Com o início de mais uma campanha eleitoral, deu-se a habitual revoada de candidatos, abutres, andorinhas e pardais confundidos na mesma nuvem. Nos espaços públicos e privados, podem-se ouvir os pregões daqueles que se apresentam como a solução para os nossos problemas, os homens (e também uma minoria de mulheres) honestos (não há um único ladrão entre eles), competentes (todos venceram na vida com seus próprios esforços, sem apadrinhamentos ou falcatruas), trabalhadores (nenhum aproveitador que se esconde atrás de um mandato para legislar em interesse próprio), tementes a Deus (é possível ver mais de um deles ajoelhados em algum banco de igreja, mirando o cesto de coleta com o mais pio dos olhares), enfim, nenhum ricaço com sede de poder (todos têm ganhos modestos, conforme se comprova em suas limpas declarações de renda), nenhum mentiroso, contrabandista ou assassino.
             Mesmo os tipos mais medonhos são convertidos, graças às feitiçarias  dos marqueteiros (seriam os marqueteiros os verdadeiros psicólogos da era da informática?) em poços de bondade, gente em quem se pode depositar total confiança, tal qual um velho amigo da família. E, já que estamos no assunto e perguntar não ofende, não seria possível ver no perfil desses hipócritas e gananciosos características mais generalizadas, compartilhadas pelos próprios eleitores, que são, afinal, os que votam e lhes dão os cobiçados empregos?
            Como admitir que a gente se deixe levar por qualquer música e vá, a cada dois anos, apertar um botão-voto em nome de um tipo que vai depois desprezá-lo ou defender o contrário do que prometia, por simples influência da propaganda eleitoral? Trata-se de amnésia recorrente, incapacidade crônica ou conivência disfarçada?
            Com as honrosas exceções de sempre, os políticos de todas as matizes apostam na incapacidade do povo de conectar os fatos e entender claramente que a causa e a solução dos seus problemas – pelo menos dos que dependem diretamente da ação política - estão em suas mãos.
            Ninguém discute que o atual sistema é viciado e precisa ser  reformulado para atender à sociedade e não aos detentores do poder.  Que seus beneficiários, os do poder, não vão reformá-lo por iniciativa própria. Que a democratização do país gerou esse efeito colateral que é a necessidade de fazer funcionar uma máquina voraz, para cujo controle lutam hoje mais de trinta partidos, com programas retirados da Wikipédia. 
            O ponto fraco dessa máquina de malversação do dinheiro do contribuinte é que ela depende da chancela do cidadão-eleitor para continuar funcionando. Mas, quais são as razões que movem os eleitores? O que os fazem eleger sistematicamente candidatos de perfis duvidosos, quando não reconhecidamente desonestos? 
      O voto é o espelho de quem vota? Os representantes são o espelho dos representados? Como seria se os eleitores usassem esse poder de forma independente – à altura da indignação que escutamos em toda parte – e o resultado fosse este: “Ninguém foi eleito. Não temos representantes. O que vamos fazer agora?”
            Há males que só se podem cortar pela raiz.
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Abrão Brito Lacerda
13 09 16





domingo, 4 de setembro de 2016

O ALFARRÁBIO

(Imagem: macelginn.com.br)

         A cultura anda às traças em nosso país. Meu amigo Jack me contou a história de um amigo dele, professor de faculdade, que se viu desempregado e precisou sacrificar a preciosa biblioteca reunida ao longo de trinta anos. Tirando Bakunin, Paulo Leminski e clássicos da língua portuguesa, contou Jack, todos foram pra fila do bric-à-brac.
         “Eu disse a ele que livros usados não têm valor. Ele me levou até a biblioteca e me mostrou uma seleção de obras diversas, ensaios, coletâneas completas, belos livros da José Olympio ilustrados por Poty, livros raros como os de Mendes Fradique e versões originais de Pau Brasil de Oswald de Andrade e Feuilles de Route de Blaise Cendras, lançadas em Paris em 1928. - Vou fazer uma boa grana junto às livrarias da Savassi, afirmou, batendo em meu ombro”.
         “Na semana seguinte, quando o reencontrei, ele não estava tão confiante. Não havia livrarias na Savassi dispostas a comprar seus livros, apenas alguns sebos do Edifício Maleta, no centro da cidade - mesmo assim, ninguém tinha ligado pra dar uma olhada na mercadoria”.
         “De tanto insistir, acabou encontrando o Washington livreiro – lembra-se dele? -, que topou ver os livros, mas não pagou o que ele esperava. E ainda fez onda com alguns títulos, como O Capital e Interpretação dos Sonhos, alegando que ninguém mais lê, nem mesmo os militantes do Partido Comunista. Teve também a audácia de afirmar que os originais de Oswald de Andrade e Blaise Cendras ficariam muito bem em um museu, mas que não tinha nenhum museu na cidade interessado neles”.
         “O Washington prometeu começar a pagar em quinze dias, que acabaram virando um mês. Mercado de livros não é como supermercado, disse ele a meu amigo, não tem gente entrando e saindo a toda hora”.
         “Ontem, meu amigo voltou ao Maleta pra fazer a cobrança. Seus ex-livros estavam expostos, juntamente com  long plays, mapas e gravuras antigas, em estantes, mesas e até cadeiras que vinham até o corredor”.
         “Aquilo é um parque de diversão para traças! - exclamou meu amigo, decepcionado. - Se soubesse, tinha colecionado selos.”
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Abrão Brito Lacerda
04 09 16


quinta-feira, 1 de setembro de 2016

ORIGEM


 
(Imagem: itarantimagora.blogspot.com)
            Todo mundo nasceu em algum lugar. Eu, por exemplo, nasci em Itarantim, um município do baixo Jequitinhonha, na divisa da Bahia com Minas Gerais. Depois, fui registrado em Salto da Divisa, juntamente com outros dois irmãos, pois meu pai registrava os filhos de três em três. Meus irmãos mais velhos guardam boas lembranças da Fazenda Gameleira, mas eu não tenho qualquer reminiscência de lá. 
            Não fosse pela certidão de nascimento, eu nem saberia de onde vim. Assim como o povo do Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do Salto, município de Itarantim, estado da Bahia não se dá conta que eu existo.
            À cata de minhas origens, fiz uma busca na web: aparece uma cidadezinha ao pé de uma serra de granito, um lugar bucólico, perfeito para uma viagem imaginária.
            Como tantos outros lugares do Brasil, o nome Itarantim vem do tupi-guarani, pois “ita” significa pedra. Atualmente a serra que emoldura a cidade é chamada de Serra de Três Pontas e oferece uma magnífica vista do topo. Num trajeto imaginário, passamos por mata-burros e fazendas de gado, atravessamos um córrego de águas escuras, depois caminhamos através das pedras. A vegetação é formada por capim, bromélias e capoeiras.
            A parte final da escalada é bastante íngreme e acidentada, mas vale o esforço!
            Daqui de cima tenho uma vista magnífica da região. O rio Jequitinhonha está ao sul, depois de muitas colinas. É para lá que corre o Ribeirão do Salto, do qual é afluente o pequeno Córrego dos Trabalhos, que não está no mapa. O Ribeirão do Salto serve de fronteira entre os estados de Bahia e Minas, captando afluentes de ambos os lados, até depositar suas águas no leito do Rio Jequitinhonha, que se encarrega de levá-las até o Oceano Atlântico, onde córrego, ribeirão e rio viram mar.
            Assim é a vida.
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27 08 16
Abrão Brito Lacerda