terça-feira, 2 de maio de 2017

CLUBE DOS AMIGOS DO JOHN


(Imagem da Web)

            O John é um cara popular. Pense em alguém com quatro mil, duzentos e trinta e um amigos no Facebook, que recebe visitas de segunda a domingo, topa farrinhas fora de hora, releva faltas e falsidades - esse é o John. Em contrapartida, os amigos se preocupam com sua vida sexual (ele está visitando a Catarina semanalmente?), com sua vida financeira (só não lhe emprestam dinheiro), com sua saúde (o John espirra e os amigos têm um resfriado).  Acontece que, ultimamente, tem pairado no ar a notícia de que o John pretende se mudar. De novo, mas desta vez para bem longe.
            Convocou-se uma festa para debater a grave situação e tomar as medidas cabíveis. Logo agora que ele pretendia fixar-se no interior, ganhar o pão honestamente e economizar para a idade...
            “O assunto também me diz respeito”, disse John, “apesar de vocês pensarem o contrário. Na verdade, tenho duas alternativas: a primeira é me mudar para o centro e abrir minha própria sala, a segunda é dar aulas em uma faculdade no interior de Goiás.”
            Os amigos propuseram:
            “Podemos procurar uma quitinete no edifício Maleta...  ou, quem sabe, em local mais nobre, como o bairro de Lourdes... um apezinho tipo single, com ônibus em frente?”
            “Ainda prefiro o interior de Goiás”, disse John com firmeza. “Posso assinar contrato na semana que vem.”

            Os amigos decidiram passar aquela história a limpo. Compreendiam a decisão, embora desconfiassem do motivo. Qual foi a surpresa quando descobriram que o álibi tinha nome, profissão e apelido: tratava-se de Louise, poetisa do interior de Goiás, também conhecida como Psycho Killer. O affaire entre os dois durava mais de ano, através de postagens tipo poèmes d’amour fou e contos eróticos em text.
            Marcaram mais uma festa para desmascarar o que lhes parecia falta de lealdade do amigo. Só que, dessa vez, o John tinha mudado de ideia, mais uma vez...
             “Um ap. no Maleta ou, quem sabe, no bairro de Lurdes, tem seu preço”, disse John. “E, sem a faculdade, não tenho como me bancar. Acho que seria justo ratear o valor do aluguel entre meus amigos queridos, em parcelas módicas, para não pesar no bolso de cada um. Prometo restituir com juros e correções assim que puder.”
            Diante da surpresa, acrescentou:
            “Do contrário, terei que me mudar para o interior de Goiás.”
            Os amigos continuaram em silêncio, se perguntando “aonde o John quer chegar?
            “Pensei em tudo”, prosseguiu John. “Vamos sortear por ordem alfabética a contribuição de cada um de vocês. Basta dar um passo à frente, pegar uma ficha nesta caixa” – John aponta para a caixa, estrategicamente colocada sobre uma mesa – e segurá-la para a foto...”
            Só uma mão se levantou. Foi o Vicente, que alegou não ter entendido bem.
            Será o fim do Clube dos Amigos do John?
©
Abrão Brito Lacerda
26/04/17
           


quinta-feira, 20 de abril de 2017

PEQUENO GLOSSÁRIO DE PALAVRAS DEFUNTAS OU ESQUECIDAS

 
(Imagem da Web)
                         
            As palavras têm cor, peso e sabor. Têm também suas histórias, mas em um universo de milhares de palavrinhas ou palavrões, das preposições aos substantivos, passando pelos advérbios e os verbos pretéritos, não nos damos conta da vida que pulsa por trás de cada uma. Elas surgem e desaparecem, alimentam os livros e as ilusões e dão estofo aos dicionários. Ainda que tivéssemos uma memória organizada como uma planilha excel, un hard disk ou um app, um glossário de impressões afetivas, não bastaria;  é preciso ainda inventar e reinventar, como o substantivo “idioteza” que invento agora para designar a mistura de idiotice com esperteza. 
            Que as palavras vivam como testemunhos de uma época, respirem o ar da atualidade e não se transformem em ruínas ou alimento para traças em alguma biblioteca. Assim, antes de lançar a última pá de cal e liberar espaço no driver, apresento este pequeno glossário de palavras ou acepções que antes se limitavam ao espaço da memória.  

GALINHOTA: ou carrinho de mão. Na fazenda onde me criei, tinha uma galinhota de metal com uma marca estampada na caçamba que muito intrigava a nós, meninos. Lia-se: “Formiga Minas”. Qual era a relação entre formiga e galinhota? Para nós, deveria ser galinha, o carrinho se parecia com uma, tinha dois pés e tinha o nome.  Só depois fomos entender que Formiga era uma cidade de Minas.

ALMOFARIZ: fiz questão de procurar no pai dos burros, ou seja, no Google.  “É um utensílio que serve para moer pequenas quantidades de produtos, por vezes misturando vários ingredientes, também chamado pilão ou modedor.” Ou seja, o nosso socador de alho. Miha mãe perguntava: onde está o almofariz? A palavra não teria sido guardada não fosse pelo som. E pensar que foi trocada por uma perífrase!

MÁQUINA DE ESCREVER: objeto pré-cambriano que permitia a seu usuário – um datilógrafo – produzir textos, tabelas, etc – através de um teclado. Deu origem ao verbo datilografar. Hoje pode ser encontrada em museus e em algum brechó do edifício maleta em Belo Horizonte.

DATILOGRAFAR: do grego "dáktylos", "dedo" + "graphein", "escrever", é o ato de escrever à máquina. Era, porque as maquinas foram substituídas pelos computadores e o verbo passou a ser “digitar”. Curiosamente, digitar vem de “digitus”, que é dedo em latim. Enquanto outras línguas, como o inglês (type), francês (frapper) e espanhol (teclear) mantiveram o mesmo verbo, nós nos “modernizamos. É o nosso desapego às tradições somado ao afã de transformar tudo em ruínas o mais rapidamente possível.

TEXTO: uma palavra rara desta seleção. Um texto era uma tampa de panela, geralmente fina, como as de alumínio ou esmalte, comuns antigamente. 

PIREX: um pires. O nome vem da marca de utensílios de vidro ultra-resistentes, que incluía pratos, xícaras, bandejas, formas e tigelas.   Pires tinha que ser pirex e pronto.

PUBA: é a massa da mandioca fermentada, utilizada na confecção de bolos, biscoitos e beijus. É feita com mandioca descascada e posta em um cocho de madeira com água para “pubar”. Enquanto a goma pode ser seca e guardada durante muito tempo, a puba deve ser usada ainda fresca, no que resultada o melhor bolo de “aipim” que existe.

TANGER: por para correr um animal, expulsá-lo. Tanger as galinhas quando estão dentro de casa, tanger os porcos do quintal. Significa também fustigar o animal ou golpeá-lo: tanger os jegues para que andem mais rápido.

RODA, RELHO, BOLINETE: três partes que compõem o conjunto da roda de ralar mandioca para fazer farinha. A roda possui uma ranhura por onde passa o relho, feito de couro, que transmite o movimento ao bolinete, uma casinha onde a mandioca é ralada. É operada por dois homens, cada um fazendo girar uma manivela.

PSÁ-PSÁ: um dia os meninos passam a se interessar por aquilo e começam a aprender um monte de nomes associados, verbos, adjetivos e interjeições. Psá-psá era uma forma codificada de falar de sexo sem se deixar notar. Geralmente, fazia-se acompanhar de um risinho irônico.

LANCE: “dar um lance” é uma expressão que nasceu com a minissaia. Quando a garota se inclinava um pouco demais, sentava-se sem a devida precaução, subia uma escada ou simplesmente levantava os braços, podia "dar um lance". Nessas ocasiões, a galera exclamava: "Brahma na jogada!"

BRAHMA NA JOGADA!: teve como origem um conhecido narrador de futebol dos anos 70. Para apresentar um convidado, comentar um lance ou anunciar os comerciais, ele repetia o bordão: “Brahma na jogada!”. Caída no gosto popular, a frase passou a designar qualquer coisa interessante que estivesse acontecendo, por exemplo, um "lance".

CAÇUÁ: esta existe nos dicionários. Trata-se de um cesto grande, comprido e com alças resistentes, geralmente feito de cipó, que é amarrado de cada lado de uma cangalha e serve para transportar gêneros. Com cara de caçuá é como você fica depois de dar uma grande mancada.

BUTE: a coisa mais amarga que existe, uma raiz que trata todos os males em uma só dose, pois quem experimenta não tem vontade de repetir.

AZEITE DOCE: o mesmo que azeite de oliva. Antigamente, era também usado como remédio caseiro, na composição de unguentos e garrafadas.

SEBO DE CARNEIRO: usado para untar os laços de couro e dar-lhes maior maciez e resistência. Os melhores paus de sebo também levavam sebo de carneiro. Ele é mais grudento que o Justin Bieber e não se solta nem com reza braba.

RURAL: Um carro utilitário antigo, fabricado pela Willys. Nas estradas de terra, com buracos e atoleiros à foison, só passavam mesmo jeep e rural. Ou carro de boi, que era o socorro da época. Quando a rural ou o jipe atolavam, chamavam o carro de boi para puxar.

JUMBAR: um verbo que nasceu de um insuspeito substantivo concreto e arquitetônico. Nos fundos da Moradia Borges da Costa em Belo Horizonte, havia o supermercado Jumbo, o maior da cidade, fonte dos desejos de todos os estudantes. Na falta de dinheiro, o jeito era "jumbar" alguns produtos, trocando as etiquetas. Alguns jumbavam até mesmo sem etiquetas. Acho que foi por isso que inventaram o código de barras.

DUNGAR, DUNGUISMO: Depois das decepções de 1982 e 1986, o futebol brasileiro retrocedeu para o estágio das retrancas tipo europeias e um jogador se tornou símbolo daquela estratégia pobre e de resultados medíocres. O dunguismo caracterizou o Brasil da transição para o governo civil, com seus correlatos, o peleguismo e a caretice.

FOCAR: declaro desde já a defuntez do verbo focar, que copiamos descaradamente do inglês e que hoje serve para designar quase tudo em português. Focar o texto, focar a atenção, focar no foco, ser focado e fazer coisas focadas, como esmagar sorvete na testa. Não demora a sair de foco, ser trocado por outro neologismo.
©
Abrão Brito Lacerda
19 04 17







sábado, 1 de abril de 2017

CRETINOS!


            There’s no stopping the cretins from hopping, não há mesmo, nem que o vinil fure de tanto tocar aquele rock dos Ramones. Esses debilóides vão pular a noite inteira, a OPEP e o petróleo, a guerra do Vietnam e a ditadura, a caça às bruxas, os proletários e os intelectuais se radicalizando, os jornais falando de pós Napalm e AI-5, explosões e fugas - e você só ficará sabendo dias ou semanas depois. Então, fais gaffe, os cretinos estão espreitando por toda parte pra te dedurar!
            O que pode um pobre rapaz fazer? Aprender a viver com pouquíssimo, um par de jeans, t-shirt, tênis, mais uma jaqueta de couro pra quem mora no frio de Nova Iorque. O mundo é gris e melancólico, meio hippie, meio anti qualquer coisa, buzu, metrô e longas, longuíssimas jornadas a pé, se cruzar com milicos no caminho, não os encare pra não levar cana. Take a walk in the wild side. Se em Nova Iorque, vá ao Country, Bluegrass and Blues club, lá as coisas estão rolando, sementes de punk e new wave, dois rótulos que renderão fortunas e mortes trágicas nos anos seguintes.
            E foi assim que uma geração inteira atingiu o ponto “G” entre os anos 70 e 80, a década mágica(?), mistura de 7 e 8, noves fora nada, com um pé nos 50 e outro nos 60.
            Os punks eram os novos mods, mas não eram engomadinhos como seus primos dândis, eram dirty boys & girls. Eram “duros” também e viviam de boca livre, aquela rebeldia não passava de faire semblant, faz de contas. O deboche trash nasceu com um anti-desfile de moda e os rejeitados outisiders não passavam de manequins mal pagos. Mas as garotas de botas de caserna, meias quadriculadas e hot pants cravejadas de metais + piercings & tatuagens pareciam saídas de um  sonho erótico. E a música insinuante e rapidíssima fornecia a trilha sonora perfeita para os cretinos sem causa. Não dava mesmo pra parar de pular...
             Se você é um dinossauro e sente falta daqueles tempos, saiba que estão mortos e enterrados.Hoje em dia só há lugar para os cretinos cretinos, os que dão com os burros n’água por atavismo ou entropia cultural:  propensão ao erro e à corrupção, manifestação de algum gen recessivo que se despertou, cresceu e se multiplicou, jogando todos na vala comum da estupidez. Seja cara ou caricatura, burrice ou contra-burrice, fala ou desmentido, a pós-verdade inaugurou a era do populismo cretino, que não conhece direita ou esquerda e promove falsas revoluções por minuto.
            Agora o petróleo é nosso, a Amazônia também, assim como o Pantanal, os mangues, os lixões, as favelas, os mortos por bala perdida, os não-obstante vivos, os vivaldinos e os rios contaminados por minério. Hoje à noite, como todas as noites, vai passar ao vivo na tv a vergonha nacional, corra antes que o renhido embate entre a direita e a esquerda te lance algumas tortas de idiotice na cara. Em outros lugares, Beirute e Mossul, passam-se coisas bem piores, basta abrir caminho em meio à multidão de cretinos com sua armadura de aço, plástico e silício.
            Nada mais se perde, tudo se transforma. Rufam os tambores,  farfalham as trombetas, movem-se os dedos: do nada surgem profetas da alma alheia, livro à mão (para disfarçar uma possível estupidez), lábios debochados de cuja comissura escapam os dez pecados capitais de nossa época: não furtarás à vista do dono, não fornicarás com nenhuma mulher contra a vontade dela, não abandonarás pai e mãe sem antes avisar o SUS, não levantarás de mal humor na segunda-feira, não te dobrarás diante do delegado ou juiz, guardarás jejum de ácido e anfetaminas, não comerás carne, presunto ou salsicha da Sadia, Perdigão e Seara, respeitarás a pausa etílica ou equivalente cinco vezes por semana, darás ao pobre em dólar e euro, não confiarás em nenhuma história sem antes ler os “fatos alternativos”.
            Definitivamente, ser cretino não tem mais graça nenhuma.
©
Abrão Brito Lacerda

25 03 17