sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

MAGA PATALÓGIKA E O ORGASMO ATÔMICO


 
(Fonte da imagem: google)
            Até que enfim explicaram a explosão da bomba de Hiroshima, um dos segredos mais bem guardados da humanidade, mais inviolável do que, digamos,  o cinto de castidade. Foi um grande avanço para a ciência experimental, nos limites da science fiction, da animação cinematográfica e da física nuclear.
            A Maga em questão é mesmo a bruxa dos gibis de Walt Disney, obcecada pela moedinha número um do Tio Patinhas, mas que sempre leva chumbo do velho sovina. Só mesmo um gato agourento e dois corvos ligeiramente néscios, altamente malévolos, o Laércio e o Perácio, igualmente péssimos piadistas, para tolerar a megera. Ainda que a Maga não seja de todo má, é esbelta e ágil – sopa de morcego com pimenta malagueta? –, tem olhos verdes faiscantes e sabe cavalgar uma vassoura como ninguém. Agora descobriram o poder secreto daquele inebriante quaac! que ela solta toda vez que se dá mal.
            Convidaram os professores Pardal e Ludovico para chefiar uma série de experiências destinadas a virar a física de ponta cabeça. Depois de testar uma extraterrestre, minha vizinha e a Lady Gaga, acabaram por dispensar as três, uma vez que nenhuma teve um orgasmo suficientemente forte para provocar a explosão de uma bomba, ainda mais de uma bomba nuclear! Foram registrados tremores nas paredes quando a cantante famosa atingiu a hora H, mas a ciência não poderia se deter em ninharias, sobretudo quando o que se pretendia era sintetizar a combustão espontânea. A extraterrestre foi a que chegou mais perto, produzindo uma combustão induzida capaz de acender o alto-forno de uma siderúrgica. Quanto a minha vizinha, ela desmaiou no curso dos experimentos.
A fim de garantir o caráter científico e não sexista da pesquisa, foi providenciado um séquito de super-heróis masculinos, reconhecidos pela força e inteligência, como Super-homem, Batman, Homem-Aranha e Thor. Contudo, seus orgasmos somados não foram capazes de acender uma única lâmpada.  O jeito foi convocar a feiticeira das HQs.
E a Maga não decepcionou: em um quaac! sobrenatural, fez a Terra se deslocar para fora do eixo e alterou em 1.7 grau sua órbita em torno do sol. A mensagem foi imediatamente enviada ao Pentágono e ao Hexágono, ávidos pela mais poderosa das energias, capaz de permitir controlar o mundo! As curvas de custo-benefício explodiram nos telões gigantes de Wall Street, ondas eróticas invadiram as ruas, a Climaxtologia tornou-se uma nova disciplina.
Daí para a bomba atômica, foi um passo.
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Abrão Brito Lacerda
12 01 18


                        

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

CAI O QUEIXO

Bom dia , Matutina !



         Para começar, uma nobre verdade: não conheço a Neusa. Pelo menos, não pessoalmente. Não se trata de uma ex-colega de faculdade, de alguém que virou celebridade de um minuto através de milhões de likes, eu a encontrei no perfil de um amigo e ela acabou se tornando também minha “amiga”. Fora isso, nunca a vi mais magra, a não ser nas selfies do Facebook. Mas como final de ano é uma época para mensagens altruísticas e não coisas do tipo “vejam minha ceia de Natal, gente como estou magra! Este é o meu bebê”, escolhi a Neusa como leitmotiv desta crônica, pois ela fala com o coração repleto de sinceridade.
            A considerar por suas postagens, a rotina da Neusa começa bem cedo. Com os raios da manhã brilhando ao fundo da serra, eis sua selfie matinal: “Bom dia, Matutina!”. Sua cara de pera de vez e seus olhos vivos aparecem então na foto, muitas vezes com seus instrumentos de trabalho ao fundo, pois a Neusa é gari na cidadezinha de Matutina, a 500 km de Belo Horizonte.            De forma simples e direta, faz a crônica da cidade, que conhece como ninguém. O tumulto na câmara municipal, o escândalo dos vereadores que aumentaram o próprio salário, a falta d’água, a chuva de granizo, a previsão do tempo para o dia, tudo compacto, sem firulas, a Neusa é mais eficiente do que o instituto de meteorologia. Basta olhar sua foto para entender as tendências das nuvens e dos ventos e até mesmo da economia. Será que o google já sabe disso?
            É reconfortante vê-la reclamar um pouco mais de cuidado para com o espaço público de parte dos cidadãos, afetados pelo descaso que reina em toda parte. Eu os chamaria de porcalhões incorrigíveis, mas a Neusa lhes dá vênia, tem esperança que ainda se emendarão, recorre ao bom e velho exemplo, faz o que pode.
            Ela tem uma nobre percepção de que o bem-estar individual envolve toda a comunidade, assim como o respeito ao meio ambiente. E, sobretudo, sabe que agir é mais importante do que falar. Os cães abandonados, os gatos perdidos, as vacas desgarradas, coisas que não são da conta de ninguém, viram objetos de preocupação da Neusa. Se uma cadela dá cria na rodoviária, lá vai a Neusa cuidar da mamãe, garantir que esteja se alimentando bem e produzindo suficiente leite para a ninhada. E vai além: presta-se a educar os vigias e os passageiros no respeito para com nossos irmãos de quatro patas. Depois, procura famílias adotivas par os filhotes, através de fotos postadas em sua linha do tempo.  Só descansa quando o último barrigudinho tiver partido em direção a um lar feliz.  
            Tomara que a Neusa não fique popular demais e lhe venha à cabeça a ideia de se candidatar a um cargo político, vereadora, por exemplo. Ela poderia começar defendendo a causa dos bichos e terminar fazendo o jogo dos humanos. Não dê assunto a esses cachorros, Neusa, os animais têm muito a nos ensinar! E você também. 

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Abrão Brito Lacerda

30 12 17

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017


Na foto de família, Lê é o de óculos, à direita.

            Era como minha mãe o chamava, além do tio Rosentino, como um apelido de família, conhecido de poucos, desses que tendem a desaparecer com a geração. Depois de desaparecidos pais, tios e primos, vai-se a memória de todo um grupo, com suas histórias e seu vocabulário. Foi o que aconteceu com o codinome Lê, um acrônimo para Lacerda, aqui nestas linhas resgatado pelo bem de uma dúzia de herdeiros e igual número de leitores.
            Sendo um nome pronunciado por apenas duas pessoas, poderia ter um número limitado de nuances e conotações. Mas esta pode ser igualmente a fonte de um mistério ainda maior, digamos um segredo muito bem guardado ainda por vir à tona.
            Lê acordava muito cedo, antes das galinhas, porcos e vacas que estavam no centro de suas preocupações, assim como os preguiçosos (segundo ele) que só queriam saber de comer e dormir além do necessário. Lê estava errado, naquela casa todos trabalhavam, do menorzinho até o mais graúdo, consoante o velho ditado “esta é a casa do bom homem, quem não trabalha, não come.”
            Depois do banho e da janta, charla obrigatória com os empregados, ordens para o cumprimento das tarefas do dia de amanhã, algum acerto (pagamento), anotações cuidadosas em uma cadernetinha azul (com os óculos postos na ponta do nariz) e cama! Se era fim de semana, tardava até as 10 e não mais, isso pelo prazer de ouvir as piadas do dia e também contar alguma. Se alguém lia um romance de cordel, cochilava antes de Lampião botar fogo no inferno ou do Pedro Malazartes aprontar mais uma.
            Acho que engoliu um megafone quando era mais jovem porque dar ordens era o seu forte. Não admitia ser contrariado, nem que o erro fosse cometido três vezes seguidas (por ter feito exatamente o que ele pedia). Mas tinha outras funções insubstituíveis como: técnico de radinho de pilha, enfermeiro e máquina de calcular.
            É fácil falar hoje, com a Internet ao alcance de um clic, mas antigamente os radios de pilha requeriam sintonias bem precisas para pegar a emissora desejada. Era preciso não só saber a frequência, tinha que conhecer o lugar da emissora no dial e ainda ter feeling para separar ruídos, chiados e crepitagens da transmissão. O resultado era um pouco melhor do que o de um enxame de abelhas, mas, na fazenda, fazia toda a diferença. Rádio 9 de Julho (desaparecida nos anos 70) Rádio Inconfidência AM, OC e frequência modulada; se tocassem Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco, Cascatinha & Inhana, tanto melhor.  
            O enfermeiro entrava em cena em caso de febre, ferimento ou ameaça de tétano. Injeções de benzotacil e outras ainda mais doloridas eram aplicadas nas impotentes vítimas/pacientes, com resultados que podemos considerar excepcionais: ninguém morreu sob seus cuidados, no máximo um braço emperrado por alguns dias.
            Quanto à calculadora, era algo natural, pois na época fazer contas era mais importante do que saber ler e escrever. Contagem de gado na porteira, separando as novilhas, os bezerros e os touros; um alqueire de terra valendo 30 mil cruzeiros a serem pagos com sacas de milho e capados gordos, o preço dos utensílios comprados para a fazenda de Maiquinique quinze anos antes.
             Não fosse pelo Natal, Dia de Reis, os leilões do padroeiro no Ibirajá, a festa de São João e o Forró da Dona Belarmina, passaria os 365 dias do ano trabalhando.  Inclusive aos domingos, quando se dedicava aos reparos dos apetrechos de couro, selas, laços, cangalhas e afins.  Sem esquecer a saída a cavalo no final da tarde, chapéu de sol (guarda-chuva) em punho, para visitar uma lavoura ou inspecionar uma cerca.
            Sabia fazer barrigueiras, loros, cias, e cordas trançadas; consertava cabrestos, rabichos e mais qualquer tralha que desse defeito. Queria tudo organizado e limpo e para isso exigia: selas penduradas nos ganchos pendendo do teto da casinha, coxos vazios virados para baixo, lixo varrido para fora do quintal, vasilhas do leite areadas.  
            Sentado sobre a capa de sola, parecia um beduíno. Media, cortava, furava, cozia, prendendo a ponta do objeto com o calcanhar. Usava uma faca amoladíssima com a ponta talhada em bisel para fazer cortes precisos e acabamentos impecáveis. Para fazer os furos por onde passaria a linha ursa ou categute, usava uma sovela, para fixar as fivelas, furador, martelo e rebites. As extremidades eram aparadas para afinar o acabamento e as aparas enrolavam-se na forma de espirais que acabavam pelo chão, caídas casualmente.
            Os domingos rescendiam à essência de tanino, os dias de semana eram regidos pelo despertar temprano da rádio caipira. No São João, Lê era mestre fogueteiro e comia batata doce assada nas brasa com manteiga.  Era a austeridade em pessoa, mas tinha seus pontos fracos; não bebia nem fumava, só gostava de viola dedilhada à luz do luar.

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Abrão Brito Lacerda
26 11 17