quarta-feira, 24 de agosto de 2016

LATE NIGHT CLUB


 
(Foto: 98bowery.com)
            Texto de Fausta para Alícia:
            “Late Night Club, ½ noite, checar ZIP, vxt lgda”.
            Reply de Alícia:
            “Ok. ZIP in, KK Pablo - lgda?”
            Pablo, o cientista, brincando de sapo em ninho de cobras.
            Fausta mexe no bolso da cazadora:
            “Lgda, vou v, + sem ZIP out – necas!”
            ZIP é zero impact poison, veneno letal, gíria.
            ZIPs em todos os campos magnéticos, resistem ao ataque das maquininhas autogeridas com gosto de anis, punk drones, prontas para serem comidas antes que explodam!
             Late Night Club, ½ noite, Fausta tira do bolso o Ca(CIO)2, hipoclorito de cálcio, que não se toma – não se toma, entende? –, a menos que se deseje uma morte lenta e horrível, como a do King Kong, mas esta foi proposital.
            Hot pants, meias 7/8, cazadora, vestida para matar, Fausta; na pista de dança, funk, rap e o King Kong!
            “Tutti-tutti-tutti!”, o Smart. Alícia de novo:
            “ZIP out, ok, vxt lgda. Chg já.”
            “ZIP in, ok tbm. Vxt lgda”
            “15W, King Kong!”
            “King o quê?”
Vestido com estampa batik, botas ametista, óculos idem, essência de CH2 – CH – CH2, eugenol, clou de girofle, trança anos 70, Alícia alicia.
            Mesas de fórmica(!) compradas na IKEA, tamboretes de plástico, quatro, cinco, seis em redor de cada mesa, todos ocupados, assim como o espaço entre as mesas, a jukebox, o balcão de vidro décor,  com drinks, smarts, bocadillos em cima, cinzeiros não, é proibido há séculos, aqui não se fuma – não se fuma, entende? -, vá procurar um Garrastazu longe dos olhares curiosos – “Aquela escadinha que dá para o sótão, está vendo?”, mas beber pode, por favor!
            - E o gorila, quem é?
            - Kkkkk! O macaco?
            Spots, neons neolíticos, filadesarmônica atrás do King Kong, texto:
            “Gorila = Pablo, fui!”
            “ZIP in no bolso, ok.”
            E essa banda cafona nas telas de led?

We do the King Kong song, gotta sing along
Can't you hear the beating of the monkey tom-tom!”

            No Garrastazu do sótão, fumaça de gelo picado, Fausta,  Pablo = 45E, Alícia, misto-quente, sanduíche de gente.
           
            “Listen to the rhythm of the King Kong song!”
             
            45E = 15W, usando, apenas, o centro do mundo, Pablo decifra o enigma:
            “½ noite = Fausta/Alícia, ZIP in = a fórmula Ca(CIO)2 do hipoclorito de cálcio para matar bactérias, fungos e afins que o macaco ingeriu; ZIP out = CH2 – CH – CH2 = eugenol, clou de girofle do perfume Le Nombre d’or – Vanille de Mona di Orio de Fausta e Alícia; 45E leste, 15W oeste, os opostos se encontram; King Kong song = ABBA.”
©
Abrão Brito Lacerda
19 08 16







            

domingo, 24 de julho de 2016

BUNDA DE ROCK



            Como os adolescentes andam muito ocupados com youtubers e selfies e os adultos com o big bang e a bolsa, os vovozinhos deveriam dar um passo à frente e proclamar: “um dia seremos todos titios chatos”. Ou, quem sabe, crianças começando a balbuciar as primeiras palavras, o Pedrinho, por exemplo, que ainda troca os erres e confunde as vogais:
            - Mamãe, “quelo” vê “bunda” de “lock”.
            - Não pode ser “Mozart for babies”? “Plim! Plim! Plim!” – a mãe tenta imitar a música.
            - Mamãe, “Pedlinho” gosta de “bunda” de “lock”.
            - Vou colocar, então.
            A mãe põe pra rodar um CD dos Beatles - Pedrinho protesta.
            - O que foi, Pedrinho? Você não queria ouvir banda de rock?
            - Isso não é “lock”, mamãe! Eu “quelo” “bunda” de “lock”!
            A mãe ficou nervosa, como as mães costumam ficar. Remexeu no rack em busca daquele CD do Dire Straits que ela ouvia quando tinha vinte anos.
            Pedrinho apontou pro smartphone, guardado em cima da estante (pra ele não pegar).
            - Cáá, mamãe!
            A ficha da mãe caiu: Pedrinho queria ouvir banda de rock no smartphone (aleluia!).
            - Cáá, mamãe! – o menino pôs o dedinho sobre o ícone do youtube.
            - Ah!... Você quer ver um vídeo, não é?
            - Dááá! “Bunda” de “lock”!
            A mãe tentou Guns 'n’ Roses – Nãããão!, Metallica – Pedrinho esperneou, Cramberries - Pedrinho chutou o smart pra longe. Só se acalmou quando apareceu Tsunami Bomb na telinha.
            - Dááá! “Bunda” de “lock”!
            Para Pedrinho, bunda de rock não pode ser qualquer uma, ele gosta de punk e rockabilly, não admite imitações à la carte.

            Da escolinha veio o bilhete anotado na agenda: 
          “Querida mamãe: Pedrinho pediu uma “bunda de lock” pra sala de aula. O que vem a ser isso?”
            Risos da mãe ao ler o bilhete:
            - Pedrinho, você só pode ver banda de rock em casa!


            Ver, ouvir e dançar. Ele sabe imitar o guitarrista de forma quase perfeita. Se mantiver a prática, estará pronto para entrar para uma banda de rock aos quinze anos, mesmo sem nunca ter aprendido a tocar – o que acontece com a maioria das bandas.
            A mãe respondeu à professora com tato:
            “Tia Alice, o Pedrinho gosta de banda de rock. Mas não liga não, ele também gosta de toddy e pokémon.”
            - “Escleveu” aí “bunda de lock”, mamãe?
            - Como você sabia que tinha recado pra mim em sua agenda? -Pedrinho está ficando esperto demais.
            - “Teleza” e “Lobson” também “gosta”...
            - Gostam de quê, menino?
            - “Bunda de lock”!
            - Meu Deus! Tá virando epidemia!
            A mãe achou por bem acrescentar em sua resposta ao bilhete da professora:
            “Tia Alice, toda vez que o Pedrinho falar nisso, a senhora muda de assunto. Obrigada.”
©
Abrão Brito Lacerda
23 07 16
           
           
           
           

           
           

           
           

            

segunda-feira, 27 de junho de 2016

OUVI NA RUA



            Tá difícil ler os jornais. É tanta notícia cabeluda que dá vontade de gritar como na música de Sérgio Britto: “Pare o mundo que eu quero descer!” Nem o Facebook escapa ileso, agora até o Mark Zuckerberg, seu criador, passou a acessar a rede com a câmera tapada com fita crepe - para não ser vigiado!
             Tem hora que é preciso fugir das mídias que tentam nos governar e ir ver a gente em redor, gente comum – oh yeah! Como diria um amigo – como os que cruzam comigo quando atravesso a faixa de pedestres em direção à padaria.
            Passo pelo ponto de táxi. Alguém grita para o taxista, escorado no carro:
            - Sebastião, não fica olhando para cima, vai cair “reboque” no seu olho!
            Sebastião, o taxista, é um grande barbeiro. Peguei seu táxi algumas vezes, mas tive que parar quando ele faltou entrar debaixo de um ônibus em uma esquina! E não é diferente dos outros taxistas da cidade, todos aposentados e alguns já sem bons reflexos para a direção.
            Na falta de passageiros, Sebastião fica olhando os operários em cima do andaime. E não é que caiu reboco de verdade? Alguns pedestres que estavam passando e imitaram o gesto de Sebastião saíram esfregando os olhos. Ele só teve o trabalho de limpar as lentes dos óculos.
            Na frente da Drogaria Pacheco, um senhor de chapéu me para para pedir informação:
            - É aqui o Pacheco?
            - A Drogaria Pacheco? – É sim, senhor.
            Ele me estende um papel, parecido com uma receita, mas que é, na verdade, um recado: “Dr. Pacheco, galeria Art Center.”
             Tenho que lhe explicar:
            - O senhor está procurando o Dr. Pacheco, dentista. Siga em frente, depois vire à direita, prédio da esquina.
            Oh yeah! No interior tem dessas coisas.
(Imagem: ouvinasruas.tumblr.com)

            Na frente da casa lotérica tem um caminhão da “Transeguro” fazendo coleta de valores. Dois agentes estão postados, fuzil na mão e olhar de 007, um na frente e o outro atrás do carro forte. De repente, o motorista dá marcha a ré e um deles é atingido na bunda! Eu achava que essa era uma profissão arriscada apenas nos filmes de Hollywood e nas crônicas do caderno B.
            Quando estou de volta, quem encontro na faixa de pedestres? Dra. Narita, a aluna que cancelou a aula e me permitiu a escapada para o lanche:
            - “Bofessor”, “Dô” com uma rinite daquelas. Não consigo nem “balar” direito.
            - É verdade, você tá com a cara constipada.
            - “Tibe” que cancelar meu “blandão” no hospital.
            - Tem que se cuidar, os pacientes precisam de você.
            - A gente “gansa” de “domar” antialérgico.
            - Já foi ao médico, doutora? – digo, só pra descontrair.
            - Que isso! “Dô” fugindo de médico!
            Tem explicação?
©
Abrão Brito Lacerda
26 06 16