sexta-feira, 16 de junho de 2017

MINHA MÃE COMO NUNCA A VI ANTES

         

            Inspirado em um artigo do New York Times (“Our mothers as we never saw them”, Edan Lepuckl*), resolvi fazer um retrato diferente da minha mãe, buscando recuperar um pouco do seu tempo de juventude, que já vai bem longe, perdeu-se na fumaça do início do século vinte, com suas inovações, revoluções e guerras.
            O texto de Edan Lepuckl é parte de um trabalho desenvolvido pela autora, no qual ela solicita a algumas mulheres que falem de suas mães antes de se tornarem mães, tendo como ponto de partida uma foto ilustrativa. O objetivo é oferecer uma mirada para além do mito da mãe, fazendo aparecer a pessoa em si, com sua personalidade sonhadora, alegre, tímida, ousada, atraente, sexy... Ao mesmo tempo em que se busca tecer interações com o espírito da época, sua história e sociedade.
            Ao ler, lembrei-me desta foto de minha mãe (mostrada acima), provavelmente o único registro que ficou de sua vida de solteira. É uma foto muito bonita, como podem ver, ainda que esmaecida pelo tempo. No verso, está cuidadosamente registrada, primeiramente a lápis e depois sobreposta a tinta, em letra caprichada, a data de “11 de Agosto de 1940 com 18 Annos de idade”.
            É a foto de um jovem tranquila, que nem sequer sonha com a longa existência que terá pela frente e a levará a atravessar o século XX até chegar a este início de século XXI, mais precisamente até maio de 2013, quando faleceu aos 92 anos de idade, deixando 11 filhos, 30 netos e vários bisnetos.
            Ao observá-la, podemos notar: a postura firme; o corpo pequeno, mas robusto e bem proporcionado; o equilíbrio perfeito sobre os sapatos de salto médio, típicos de então; os cabelos, não muito compridos, o que denota praticidade, atados atrás; o olhar tranquilo, confiante e ligeiramente melancólico; a comissura dos lábios que esboça um sorriso misterioso; o recato das mangas do vestido e do cumprimento do mesmo; um único toque de coquetterie no broche, o qual se destaca junto à trama do bordado da gola e constituía possivelmente o único item reluzente do seu look, uma vez que ela não usa brincos, colar ou anéis.
            Ela tinha acabado de completar 18 anos. Sua vida até então não tinha sido nada fácil e podia em muitos aspectos ser comparada à de uma gata borralheira. Ao nascer, em 6 de agosto de 1918, em um sítio de Córrego dos Trabalhos, distrito de Ribeirão do salto, município de Itarantim, Bahia, estava destinada à doçura de uma vida embalada pelas atenções de uma mãe carinhosa e uma pai bondoso.  No entanto, sete anos mais tarde, ficou órfã de mãe e o avô Elias se casou pela segunda vez, buscando sem dúvida uma companheira que o ajudasse a criar os filhos. Ledo engano, pois esta se revelou uma megera de espírito de porco, autoritária e ciumenta. Como no conto dos irmãos Grimm, a madrasta tinha duas filhas, feias e preguiçosas. Elas ficaram tomadas de ciúmes de “Nenen” (apelido de minha mãe) e passaram a tramar contra ela. Em consequência, a enteada foi tratada com desprezo e obrigada a assumir o serviço da casa.


            No sítio do vô Elias, produzia-se rapadura e açúcar mascavo, além de outros gêneros de primeira necessidade. Pelo que minha mãe nos contava, essas atividades faziam parte da tradição da família, o que é coerente com a história do Brasil, uma vez que muitos Brito se instalaram no Nordeste durante o Ciclo do Açúcar (século XVII) e depois se espalharam pelo resto do país. Consta dos registros que alguns Brito ascenderam socialmente em Portugal e passaram a ostentar títulos nobiliárquicos, mas não creio que tenha sido dessa linhagem que originou nossa família.
            De qualquer modo, o sobrenome é carregado de significado. Brito vem do latim “brittus”, que designa “pedra” ou “britta” e simboliza durabilidade, força e resistência. Tomando essas características de empréstimo, poderíamos dizer que a jovem da foto acima olha confiante para o futuro porque possui intrinsecamente tais atributos, os quais a permitirão enfrentar as provações de uma larga existência, e serão igualmente transmitidas a sua descendência.
            Em contraponto à árdua lida do campo, o dia a dia no Sítio dos Trabalhos era pontuado pelas festas do calendário católico, além dos bailes de sanfona típicos do interior do nordeste. Foi crescendo nesse ambiente que “Nenen” descobriu o seu maior prazer na vida: dançar. Não será esse o segredo oculto por trás do seu sorriso jovial e misterioso à la Mona Lisa? Com um pouco mais de imaginação, podemos também perceber um movimento que se inicia na perna esquerda e se estende pelo quadril até a cintura  - não seria ele um sutil convite à dança?
            Além dos bailes, tinha o rádio, o grande veículo de comunicação da época. Circunscrita a um mundo fechado em si mesmo, uma espécie de pequeno feudo, seus sonhos de menina-moça eram embalados pelas modinhas que chegavam através das ondas flutuantes do rádio. Muitas dessas marchinhas nunca saíram de sua memória, como: “Oh jardineira por que estás tão triste, / mas o que foi que lhe aconteceu? / Foi a camélia que caiu do galho, / deu dois suspiros, / e depois morreu.” Ela interpretava esta canção com um “r” vibrante (Oh, jaRRdineira...!) e uma voz suave de mezzosoprano. 
            Um ano depois de tirada esta foto, ela conheceu meu pai. Ele era filho de um fazendeiro do município vizinho de Maiquinique e pernoitou no sítio do vô Elias durante um transporte de gado. Mas esta é outra história, é a que dá início ao mito da mãe, e não pode ser contada aqui.
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            (*https://www.nytimes.com/2017/05/10/opinion/our-mothers-as-we-never-saw-them.html)
©
Abrão Brito Lacerda
15 06 17


segunda-feira, 29 de maio de 2017

PRÁTICA BUDISTA EM TIMÓTEO, MG


Fundação do Bloco Sol no Coração, em 03 11 13, em Timóteo, MG.

         Nos últimos anos, tem crescido de forma contínua o interesse pelo Budismo, seja de parte de pessoas que buscam obter mais informações sobre esta que é a quarta religião mais popular do mundo, seja de parte de quem já se identifica com sua filosofia humanista e deseja iniciar a prática. No segundo caso, o mais natural é procurar um centro ou comunidade próxima – e ter a boa sorte de encontrar uma.
         No Vale do Aço em Minas Gerais, podemos contar com a mais antiga comunidade de praticantes do estado, desenvolvida a partir de 1962, através de imigrantes japonesas que vieram trabalhar na Siderúrgica Usiminas. Em 1972 foi criada oficialmente a comunidade pioneira do Bom Retiro, na cidade de Ipatinga. O desenvolvimento desde então tem sido vigoroso, e o Budismo de Nichiren Daishonin, tal qual praticado pela Soka Gakkai, tem conquistado cada vez mais adeptos na região.
         Em Ipatinga está situado o Kaikan, centro regional, e dezenas de Blocos - grupos de praticantes que se reúnem regularmente em casa - encontram-se espalhados pelos municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo, Caratinga, Dionísio e Governador Valadares.
         Devido à proximidade geográfica e/ou afinidade, muitos membros de Timóteo frequentam blocos de Ipatinga; outros integram o Bloco Sol no Coração, criado no final de 2013 para aglutinar os praticantes locais.
         Graças a seu empenho pelo Kossen Rufu (promoção dos valores da paz, cultura e educação), os centros da BSGI (abreviatura para Brazil Soka Gakkai International), como o Bloco Sol no Coração, promovem uma grande abertura em relação à comunidade, tornando o Budismo acessível e sem mistérios.
         Ao promoverem esse diálogo, atendem ao desejo manifesto do Buda de que o seu ensinamento, uma vez compreendido e aceito, seja naturalmente transmitido a outros, sem distinção de qualquer natureza.

Reunião do Bloco Sol no Coração em Timóteo, MG.

         A iniciação à prática budista não exige pré-requisitos e deve ser vista, quando a oportunidade se apresenta, como um fator de imensa boa sorte, uma vez que ela abre as portas à mais profunda e perfeita ferramenta para penetrar os mistérios da mente e do espírito humanos e permite dissipar a escuridão da ignorância.
         Pratica-se o Budismo, antes de mais nada, para se ter energia para superar os desafios da vida e ser feliz. Isso é possível através da devoção à Lei Mística ou Myoho Renge Kyo (pronuncia-se “Miorro rengue kiô”), que é o verdadeiro fundamento de todos os fenômenos, a realidade imutável que permeia o mundo em constante transformação.
         Devoção aqui significa uma opção consciente em situar os ensinamentos do Buda como o eixo de sua vida e pautar sua conduta e sua ação por esses ensinamentos. É importante lembrar que a Lei Mística não é uma abstração teórica e nem supõe a existência de uma entidade sobrenatural que governa a vida dos seres de fora para dentro. Ela permeia todos os fenômenos e todas as formas de vida e se revela quando se desperta o Estado de Buda inerente – ou seja, ela é parte integrante de nossa natureza, basta ativá-la. Se vivermos alheios a ela, obteremos pouco benefício, mas se a tornarmos o centro de nossa existência, os benefícios serão ilimitados. Ela é a fonte da sabedoria e da energia vital que nos permite levar uma existência virtuosa, feliz e próspera, em nosso benefício e de todas as outras pessoas.
©
Abrão Brito Lacerda
28 05 17

         

quinta-feira, 25 de maio de 2017

RUÍNAS



         Na canção “Fora de Ordem”, Caetano Veloso diz que, no Brasil, "tudo parece que era ainda construção e já é ruína". Considero esta definição perfeita e a incorporei a minha própria visão de nosso país. Agora, vejo que outros compartilham a mesma ideia, que o Brasil é uma máquina trituradora de coisas e conceitos, que parece estar em constante movimento, embora não saia do lugar. 
            Há um afã em recuperar o atraso, então faz-se tábua rasa de tudo, a natureza (exuberante só em alguns lugares), os monumentos, os costumes, a culinária, a língua, tudo sofre uma crescente invasão alienígena e se desfaz. Uma palavra do inglês deve ter mais valor do que seu equivalente em português, pois já não nos damos mais ao trabalho de traduzir. Adoramos colocar nossa identidade em cheque, é um debate nacional sem fim, imitamos descaradamente o que outros criam, somos os reis da gentileza e da paródia. Temos complexos aos montes, somos macunaimas, antropófagos e capitalista selvagens, tudo ao mesmo tempo. Até a escala malévola do cada vez pior ganhou foros permanentes por aqui e a expressão “fundo do poço’ virou uma ruína semântica.
            O lixo, assim como o luxo, nos pertence; o luxo que é lixo só,  a luxúria do lixo e o lixo futuro andando de mão em mão, no aguardo do gesto viciado: o presente cuidadosamente embrulhado é o papelão que alimentará o monturo. Como se não bastasse, queimamos etapas, por exemplo, o canteiro de obras que constrói o prédio ultramoderno lança seus rejeitos no terreno baldio ao lado, unindo destarte, sem nenhum lapso temporal, o futuro e o passado.  
            Essas observações encontram ressonância no livro Dictionnaire Amoureux du Brésil (“Dicionário Amoroso do Brasil”), do jornalista francês Gilles Lapouge*. Trata-se de uma obra  que aborda a sociedade e a história brasileiras sob a forma de verbetes, como um verdadeiro dicionário, e nos oferece uma análise interessante, honesta e com perfeito conhecimento de causa. Gilles Lapouge demonstra amar de verdade o Brasil, país que conhece muito melhor do que qualquer um de nós, pois já esteve de norte a sul, leste a oeste, viajando a trabalho ou lazer. 
          O que não o impede, antes o autoriza, a lançar em filigrana sua ironia de observador externo sobre nossas mazelas e nossos absurdos. Através de seu texto eloquente e poético, fica ainda mais evidente o contraste que cultivamos em relação ao mundo “civilizado”. Se o Brasil é bonito enquanto exótico (ou uma gigantesca ruína, como ele diz), nossa bagunça e nosso improviso são demais para o seu pensamento cartesiano. E aqui cabe um “mas”: décadas de convívio com a gente tupiniquim, mais anos de pesquisa para a confecção do livro, não o ajudaram muito a compreender nossa malícia perversa.
            O “dictionnaire” tem vários verbetes excelentes; para o momento, atenho-me àquele denominado “Ruínes”, no qual ele declara: “O Brasil é uma vasta ruína. Esta é a razão de ele ser tão bonito, tão emocionante. Ele tem em seus estoques as ruínas mais variadas, e pode te oferecer várias outras amostras, conforme seu gosto, como se você estivesse escolhendo um produto no catálogo de uma loja: ruína nobre ou trivial, terrível ou comovente, antiga ou fresca, ruínas magníficas e suntuosas.” (p. 573)
           O autor leva tão a sério nosso gosto pela decadência que chega a afirmar que existe um propósito invisível nessa mania nacional, sobretudo naquilo em que nós nos esmeramos, a saber, o que ele denomina de “fabricação de ruínas ordinárias”: a utilização de materiais de baixa qualidade e rapidamente degradáveis que provoca a deterioração precoce de nossas torres de vidro, concreto e aço. Enquanto em Lascaux ou mesmo em Atenas, observa, foram necessários milhares de anos para transformar em ruínas construções feitas com materiais muito mais frágeis, por aqui a decadência se faz sentir numa questão de décadas.
            Ele se abisma com o fato de que alguns bairros centrais da cidade de São Paulo, onde foi morar em 1957, tenham passado da condição de prestigiosos a abandonados no curto período de 50 anos. Com humor negro, constata que os imóveis envelheceram na mesma escala que ele, e se alegra em perceber que sobreviveu a muitas outras coisas por aqui!
            Em contrapartida, faz questão de frisar e refrisar, no Velho Continente, não apenas monumentos isolados, mas cidades inteiras são renovadas de modo a perdurarem através dos séculos como símbolos da história, identidade e cultura de seus povos, razão pela qual apresentam hoje um aspecto mais novo do que quando foram construídas! Lá o antigo é novo, aqui o novo já é ruína.
            E logo chegamos á conclusão que tudo não passou de somenos e voltaremos ao costumeiro barulho das máquinas – de construção e demolição.

             (* Gilles Lapouge, Dictionnarie Amoureux du Brésil, Plon, 2011)
©
Abrão Brito Lacerda

24 05 17