segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM OLHAR SOBRE A CIDADE

 
Pico da Ana Moura, Timóteo, MG
         A primavera aconteceu este ano, ao contrário dos dois anos anteriores, quando o inverno se transmudou rapidamente em verão. Temos chuvas desde o final de setembro e a natureza tropical está revigorada, exibindo seus melhores tons de verde e amarelo, matizados com florações brancas, roxas, laranjas e vermelhas. Há muita vegetação dentro da cidade, que tem a sorte de estar localizada entre vales, numa região onde a cobertura vegetal deve ser mantida para contrabalançar a poluição produzida pela indústria siderúrgica.
         Em Timóteo, há praças, corredores verdes, um lindo parque na montanha (Pico da Ana Moura) e uma mata urbana (o Oikós),  que garantem à cidade uma boa qualidade do ar e uma humidade atmosférica que nunca fica comprometida, mesmo durante os meses mais secos do inverno. A diferença é notória quando se compara a situação do município neste aspecto com, por exemplo, Belo Horizonte, localizada a apenas 200 quilômetros de distância, onde a humidade pode chegar a níveis prejudiciais em julho e agosto.
         As estações acontecem diferentemente a cada ano, embora exista um padrão climático regular, determinado pelo dueto sol e chuva. Em geral, quando chove a temperatura é amena e quando não faz muito calor. Quem sobrevive à canícula dos meses de janeiro, fevereiro e março vê as primeiras frentes frias chegarem em meados de abril na forma de ventos – que sopram sempre na direção leste-oeste, consoante a rotação do planeta – e pequenas precipitações. Às vezes algumas ventanias fazem redemoinhos nas ruas e derrubam algumas placas mal soldadas. Passamos então ao purgatório, com noites frescas e dias rachando de sol.

Reserva florestal do Oikós, Timóteo, MG

         Abril chama Maio e o tempo ameniza de vez, atingindo seu auge entre o fim do outono e o início do inverno. As chuvas cessam, as manhãs registram entre 14 e 16 graus e o céu é de uma limpidez cristalina. A partir de Julho a vegetação adquire um tom cinza-marrom e fica em compasso de espera durante os imprevisíveis Agosto e Setembro, dois meses temperamentais. Podem esquentar como fornalhas ou esfriar, se alguma frente fria conseguir fazer o percurso da Antártica até aqui. No final de setembro a natureza se põe em movimento mais uma vez, com as frentes frias trazendo ventos e as primeiras chuvas da temporada.
         A primavera acontece tímida e cinzenta se as chuvas adiam sua chegada para outubro ou até mesmo novembro ou exuberante e sedutora quando tudo obedece à perfeição do pêndulo e a estação muda conforme o calendário. As plantas se renovam, as flores brotam, insetos revoam e invadem a casa, pássaros ensaiam longos cantos de acasalamento e não será surpresa se uma mamãe ou um papai pardal ou bem-te-vi for espreitado na cozinha à cata de comida fácil para a prole. No final de novembro e início de dezembro a fauna penada já deve estar ensaiando os primeiros voos para fora do ninho para poder crescer na bonança dos meses de verão.

Praça do bairro Novo Horizonte

         Início de Dezembro é a melancolia de fim de ano, oculta sob o manto dos apelos comerciais em torno do natal e do réveillon e rapidamente esquecida pelas crianças, que só pensam na longa temporada de férias longe da escola. Nessa época o mood do verão já estará definido: será chuvoso e ameno ou seco e canicular. Entre os votos que se fazem nos balanços de fim de ano e nas confraternizações consta o desejo silencioso de sobreviver mais uma vez até o mês de abril, quando os primeiros refrescos chegarão da Antártica. 

A CIDADE VISTA DA CASA

Bairros Timirim e Funcionários

Bairros Funcionários e Bromélias


Encontre um burro na foto


Bairro Garapa e Centro de Acesita

A CASA VISTA DA CIDADE

Rua Miguel Maura, Bairro Garapa

Garapa e Centro de Acesita vistos do Alto Serenata

Garapa, Bromélias e Centro de Acesita vistos do Alto Serenata

©
Abrão Brito Lacerda
03 12 16


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

WALK IN, WALK OUT

The "jungle" I walk past in my daily commute.

            As I engage in my 5-minute walk back home, countless thoughts flourish amid fears of a shrinking end-of-month budget.  The light rain that falls this evening brings the gentle music one needs to feel happy or sorrow. Umbrella up, leaps down the watered street, my body reflects on the asphalt mirror like a character from a noir movie: Humphrey Bogart  or so, it only lacks the red-lip lady looking sneakily from a side porch.  Life’s a movie then, you play your part, sad or thrilling, giving up on a happy ending.
            Hiking’s cheap, flying’s much better. So many places to see, you can’t help remembering that song, “So far away from me”. The year was 1979, maybe a little earlier, people rallied on the streets for democracy, there were still militaries everywhere, overseeing us, lecturing us on whatever they wished or thought they should. We strolled pass them and glanced at the armored cars, because thoughts are free as far as they don’t get out of the enclosure of your mind; they can turn into anything from nonsense to glory. She wore bleached jeans, a white t-shirt with a light-hearted line written on it (“You’d better not follow me”), her breath could be felt in a distance – I mean, some meters behind.
-         You should go faster or we won’t make it to the bus station on time.
-         It’s your fault if we didn’t get a taxi.
-         Ok. Let’s call one.
-         Too late, look at that car pulling over.
-         You think that…
-         He will accept to take us up.
-         What do you mean, “he”? Hey, wait!
A lift isn’t something to turn down when you have a suitcase to carry and is trying to get to the city airport by 7 P.M, last call. How could I catch the guy stopped on purpose?
-         Where going?
She pretended not to know him.
-         To the bus station and then to the airport.
-         Coincidence! I’m going to Montalbino.
-         That’s…
-         Next to the airport, right?
-         Right across. Get in…

Funcionários neighborhood and downtown Acesita - Timóteo, MG, Brazil.
         
             Fifty meters up, I’m strolling along the wood that grows thick on both banks of the stream that flows at the bottom of the valley. It’s springtime, the first rains dropped three weeks ago, reviving the thirsty land and nature is now so lush. Drivers speed up, they don’t even notice this small piece of forest thriving in the heart of town. I hear buzzes, shees and light hammering crickets, sounds like the night party has just started and there is no time to lose. Abundance of insects and a favorite nestling time for birds, too. I wake up every morning and look out, mesmerized by the green blanket below, cause I live just three hundred meters ahead. The boy has already spotted the multitude of birds that take shelter in the trees with his hammer-and sickle-embellished binoculars:
-         We should watch and classify them by species, he says.
-         It’s easy now with the internet.
-         But we need a “real” camera with 20X zoom and Carl Zeiss lens.
-         Carl Zeiss? What’s that?
-                     They make the best lens, dad. We’ve got to buy a range-finding focus apparatus, as birds won’t come to our window to pose from up-close.
-         Must be right, but who will pay for that?
The boy’s right, we can’t hold back our dreams just by saying “it’s impossible”. Suppose someone has gotten fed up with his old Canon and would simply give it up to a curious eleven-year-old still in bud. Why not?
            We could put a notice somewhere stating that “a passionate bird watching infant seeks desperately the means to fulfill his dreams: a pro-rangerfinding camera with 20X zoom and Carls Zeiss lens”.
For now, we’ve got to close the glazed windows, as my wife complains that “the apartment has been filled with bugs, moths, walkingsticks and even ugly spiders, due to this sick jungle we live close to”.
The boy can wait. It’s never too late.

Night silence with city lights.

©
Abrão Brito Lacerda
30 11 16


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BACK TO BORGES DA COSTA




         Oh! que saudades que tenho da aurora da minha vida, tss... tss... - quem não conhece o poema de Casimiro de Abreu de algum livro de escola? Escuso os que desejam voltar aos verdes anos e sentir de novo o perfume de um mundo há muito tempo perdido; eu me contento em voltar à juventude, mais especificamente à época em que residi na Moradia Estudantil Borges da Costa em Belo Horizonte. Isso porque a Produtora Almôndega, através de projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, acaba de lançar uma campanha de financiamento visando a produzir um filme recuperando a memória do Borges, como era popularmente conhecido, e suas imbricações com a cultura da cidade e as transformações históricas do país no período 1980-1998.
            O Borges, ao qual viria se juntar em 1985 o MOFUCE, foi um espaço franco, construído e reconstruído pelas gerações sucessivas de estudantes e parasitas que por ali passaram e pode perfeitamente ser tomado como um espelho da época. Cada geração tem sua narrativa, a minha é a da segunda leva, a que sucedeu aos heróis da resistência, responsáveis pela ocupação do antigo hospital em outubro de 1980 e sua manutenção em mãos autônomas diante das sucessivas investidas da universidade no sentido de retomar o prédio e reintegrá-lo ao conjunto do Campus da Saúde.
            Um dos requisitos para se tornar borgeano era comprometer-se em defender a casa, o que existia mais na teoria, uma vez que o que de fato pesava na hora de ser aceito pela Assembléia Geral, órgão máximo de deliberação, ao qual os nomes dos novos candidatos eram subjetivos, discutidos e depois votados, era o apoio de uma determinada "ala". Com o tempo e a ocupação de novos setores abandonados do antigo Hospital do Câncer (o Hospital Borges da Costa), a população cresceu e se diversificou e resultou em algumas dezenas de rapazes e moças convivendo num melting pot tanto mais explosivo quanto facilmente cooptável pela libertinagem que grassava naqueles “loucos anos 80”. 
          Com efeito, no fim dos anos setenta e início dos anos oitenta  explodiu no Brasil uma bomba de efeito retardado, desencadeando a catarse que caracterizou nossa saída das sombras da ditadura, uma fúria pela vida aqui e agora, precariamente equilibrada entre a luta engajada e  o apelo hedonista. Enfim, os ventos que haviam movido a história em países democráticos sopravam nos tristes trópicos. 
            O Borges retrata um Brasil que, já urbanizado, se tornava metropolitano, com grandes fluxos de jovens pobres ou remediados do interior ou das regiões suburbanas migrando para o centro das grandes cidades, ou seja, para o centro da ação. Esses jovens embarcaram nas promessas da rave-revolução que tomou conta do país com o processo de redemocratização e a nova e abundante oferta de prazeres. Eram herdeiros em primeira ordem dos movimentos sociais armados de matiz estudantil-operário-marxista e dos hippies pacifistas e desbundados. O campo de experimentação era, no seu núcleo mais básico, seus próprios corpos e mentes. Ser careta significava buscar refugio nos fragmentos da velha ordem, não ser implicava em embarcar na trip e ter coragem de romper os próprios limites. 
            Foi uma época de efervescência criativa, sobretudo na música, com o surgimento do novo rock brasileiro, misturando punk e new wave, pau e pândega. Escolhida a trilha sonora, a festa não tinha hora para acabar, quando à rebeldia do ROCK AND ROLL se juntava a inflamável:

TCHAN! TCHAN! TCHAN!... COCAINE...

            As DROGAS merecem um capítulo à parte, a ser narrado com evasivas. Havia abundância delas e a baixo custo, quando não a custo nenhum: maconha, haxixe, cocaína, LSD, temperadas com fartas doses etílicas de tudo que servisse para tontear: vodca, cachaça, uísque, conhaque, cerveja. De preferência adquiridos modestamente através de uma hábil troca de etiqueta de preço no conhecido supermercado Jumbo (atual Extra) localizado ao fundo da moradia – de onde originou esse verbo exclusivamente(?) borgeano: “jumbar”.

SACANALIA JUVENILIA

       Ah, o SEXO! O oloroso, escorregadio e suntuoso tesão do pós-Women’s Liberation Front e pré-aids. Pode parecer sacanalia à primeira vista, mas era apenas juvenilia descoberta, brincadeira, inocente, de crianças crescidas.
         Às trincheiras do amor todos sobreviveram, mas não ao efeito orloff, pois, assim como depois da tempestade vem a enchente, a trip borgeana teve o seu:

DARK SIDE

         Que merece o lugar de epílogo.
         Na viagem para dentro de si mesmo, alguns esqueceram a passagem de retorno, propositadamente ou não, outros chegaram até mesmo a se lançarem debaixo do trem, pondo fins trágicos a existências por vezes carregadas de solidão e angústia. São para eles as últimas palavras: a queda, a corda, o ônibus...
         Lençóis brancos cobrem os corpos dos que ficaram no caminho. E os versos do poeta borgeano Raimundo Nonato como lápide:

            “Para que servem os HERÓIS
            Senão pra o povo carregá-los
            Em cordas e lençóis?
            
            “Para que servem os GIRASSÓIS
            Senão para brotarem
            Na cova funda dos heróis?”

©
Abrão Brito Lacerda
12 11 16